DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO

DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO


I - INTRODUÇÃO

        O Sistema Colonial, tanto para o Brasil, como para a América espanhola foi o início de um domínio que se estende até os nossos dias. Os massacres iniciais, a posse, a usurpação gananciosa foram golpes desferidos por um adversário muito melhor preparado, que ao longo dos séculos da colonização, dominou, subjugou e arruinou impiedosamente, nossa gente, nossa terra, o produto dela e nossas culturas.
       Neste trabalho, procuraremos, numa breve abordagem, analisar ao longo dos cinco séculos, os caminhos percorridos para o atual estágio de subdesenvolvimento, bem como da Divisão Internacional do Trabalho.
       Espanha, Portugal, Inglaterra, aristocracia local, Estados Unidos, FMI, Banco Mundial, Grupo dos Sete, dentre outros, são os nomes daqueles que se revezaram no domínio; guerreando, trocando ou fazendo escusos acordos. Enfim, como diz Eduardo Galeano: "Uns se especializaram em ganhar e outros em perder".

II - O SISTEMA COLONIAL: AS BASES DO ATUAL ESTADO

        Todo esse grande esquema, essa aliança de interesses e troca de favores entre o Estado Absolutista Lusitano e a Burguesia Mercantil do Reino que determinava as relações de dominação política e, principalmente, exploração econômica que a Metrópole exercia sobre sua Colônia era o que chamamos de "Sistema Colonial" que, por sua vez, fazia parte de algo maior: o Mercantilismo.
        O mercantilismo, procurando sintetizar o estudo de Leo Huberman, foi um conjunto de idéias e ações que tinha por objetivo enriquecer um país. Essas teorias e práticas eram criadas e executadas pelos governos desses países que desejavam que a economia prosperasse, se fortalecesse. A "política" mercantilista está inserida num processo histórico conhecido como a formação das monarquias absolutistas. O Absolutismo foi a centralização do poder na figura do monarca, pode-se dizer que foi o fortalecimento da monarquia em certo país antes fragmentado em feudos e onde o domínio era exercido por nobres que usavam e abusavam de sua condição de suserano sobre a massa camponesa. Tal descentralização e desorganização política era prejudicial às transações comerciais da burguesia ascendente, por tal motivo, grupos de comerciantes e banqueiros de muitos países prestaram ajuda financeira a seus reis para que estes pudessem formar seus exércitos profissionais e subjugar a nobreza feudal, assim a b urguesia teria a devida proteção política para seus negócios naquele território. Com a consolidação da autoridade monárquica, como disse o próprio Leo Hurbeman: "Tendo organizado o Estado político, voltaram (os monarcas) suas atenções para o Estado econômico."
        Essas práticas mercantilistas foram fundamentais para a famosa e polêmica passagem do Feudalismo para o Capitalismo que marcou a Idade Moderna, a era da transição. Conforme a obra de Eduardo Galeano, o saque das riquezas promovido pelas metrópoles européias às suas colônias na América, Ásia e África possibilitou a acumulação de capital necessário para que a burguesia investisse na produção manufatureira, impulsionando a Revolução Industrial (na Inglaterra, é bom lembrar). As Metrópoles Ibéricas não souberam administrar os metais preciosos da América; a Espanha no século XVI não considerou outras importantes normas mercantilistas: a Balança Comercial Favorável e o incentivo à industria todas as necessidades de consumo eram importadas e pagas com ouro e prata, as atividades produtivas se estagnaram. Portugal no século XVIII abrira seus mercados para os produtos ingleses em desastrosos tratados comerciais, comprometera seu desenvolvimento industrial e o de sua colônia: tudo era pago com o ouro do Brasil. Não é mera coincidência que os países subdesenvolvidos de hoje tenham sido colônias de exploração no passado, toda a estrutura econômica era voltada para atividades agroexportadoras ou de extrativismo mineral. Para os grandes proprietários de terras e de minas, pouco importava o desenvolvimento social e econômico daquelas sociedades que emergiam nos Trópicos, para as elites locais que, além da propriedade dos meios de produção, detinham a autoridade política somente interessava os lucros provenientes da exploração das massas servis ou escravas, nativas ou africanas. Por isso muitas das antigas colônias, atualmente países "independentes" politicamente, têm uma estrutura industrial atrasada e incompleta e uma economia basicamente agrícola e dependente do mercado externo.

       Formação da Sociedade Colonial Brasileira: Desigualdades Sociais e Dependência Externa

        Para atender aos objetivos mercantilistas, a colonização deveria ser conduzida de forma a gerar um fluxo de riqueza para a Metrópole, para tal, aproveitando-se das vastas extensões de terra, foi implantada a grande propriedade pois esta era necessária para se produzir em larga escala para o mercado externo. A produção deveria ser monocultura, todos os investimentos e esforços seriam voltados para a comercialização de um único produto de grande aceitação e alto valor no mercado europeu e, detalhe, deveria se adequar às condições ecológicas do Brasil e fazer parte da experiência comercial da Burguesia Mercantil portuguesa, não havia outra escolha: o açúcar era a solução! Quanto à questão da mão-de-obra, vários autores costumam atribuir a preferência pelo trabalho do escravo africano ao fato de que Portugal já possuía desde o século XV, com as expedições de expansão e conquista na costa africana, uma empresa organizada que acumulava grandes lucros com o tráfico negreiro. Ciro Flamarion Cardoso prefere valorizar outros fatores para o predomínio da mão-de-obra negra como o fato do trabalho agrícola intensivo e sedentário com finalidades mercantis não fazer parte da cultura nativa e a fuga de tribos inteiras para o interior ainda desconhecido. De qualquer forma, para uma empresa já tão onerosa, o trabalho livre era inviável, seja nativo ou africano. Resumindo, somente com a grande propriedade monocultora com produção em larga escala voltada para o mercado externo e uso da mão-de-obra escrava era justificável a colonização do Brasil para os interesses mercantilistas. Contudo, é incorreto afirmar a inexistência de trabalhadores livres e pequenas e médias propriedades no período colonial, aqui nos referimos à questão do predomínio, não de totalidade.
        Das diretrizes estabelecidas pela Coroa Portuquesa e pela Burguesia mercantil, forma-se uma sociedade totalmente original nos Trópicos, com vestígios feudais na propriedade da terra, escravista nas formas de trabalho e mercantilista na finalidade econômica. Nas suas origens, a sociedade brasileira já era marcada pelas desigualdades sociais, pela dominação política e exploração econômica das massas por uma elite. A propriedade dos meios de produção, terras e escravos, confere a autoridade política representada nas Câmaras Municipais; Caio Prado Jr. Afirma que algumas eram tão influentes que possuíam representantes junto às autoridades metropolitanas. Nem mesmo a instalação do Governo Geral em 1548-49 diminuiu o poder desses senhores de engenho. Ao lado de índios e negros escravos, pequenos proprietários e outros trabalhadores livres podem ser equiparados aos camponeses na Europa Medieval, servos à mercê da coerção de seu senhor feudal.

        A Colonização Espanhola: As Origens das Desigualdades Sociais e da Dependência Externa na América Latina
       Apesar de financiar a expedição que proporcionou sua descoberta, a Coroa Espanhola teve reduzida participação na conquista e colonização do "seu" novo mundo, entregando esse oneroso empreendimento à iniciativa privada, composta essencialmente pela pequena nobreza e pelas camadas populares; Francisco Pizarro, o "Conquistador do Império Inca", era um criador de porcos e analfabeto. É interessante saber que esses fidalgos se arriscavam em tal empresa exatamente por estarem em situação econômica precária, muitos pediram empréstimos a banqueiros e membros da alta nobreza; o próprio Fernão Cortez havia hipotecado todos os seus bens pessoais para equipar a expedição ao México. Todos estavam em busca da oportunidade de enriquecer com a exploração de metais preciosos no novo território. Essa concessão era feita através das "capitulações" que eram contratos entre a Coroa e os particulares e que regulamentavam a permissão para conquistar os novos territórios, além de colonizar e explorar.
       Basicamente, os direitos e deveres das capitulações estabeleciam que todas as despesas ficavam por conta do particular que tinha o direito de governar as terras e índios que conquistasse. Para a Coroa espanhola ficava o "Quinto", sua parte das riquezas pilhadas aos nativos, além da propriedade do subsolo, o que garantia monopólio dos recursos minerais.
       A conquista e colonização da América foi resultado da associação entre interesses particulares de grupos diversos; a burguesia mercantil, nobres falidos, aventureiros em busca de fortuna e posição, e interesses públicos, a monarquia intimamente vinculada à Igreja Católica que contribuía com a justificativa ideológica perfeita para a época: a expansão da fé cristã.
       No caso espanhol, paralelamente ao saque das riquezas das civilizações pré-colombianas, a mineração tornou-se a atividade econômica básica, sem a qual a colonização não se tornaria viável naquele momento. Obviamente a mineração na sociedade colonial espanhola exigiu o surgimento de outras atividades, acessórias, para produzir bens necessários ao sustento dessa nova sociedade. Desenvolveu-se a agricultura, a pecuária, o comércio interno e, até contrariando certas "normas" mercantilistas, o artesanato nativo foi mantido.
       Ao longo do século XVI, incalculáveis quantidades de ouro e, principalmente, prata, eram extraídas das minas americanas, como as de Potosi, às custas do trabalho compulsório imposto pelo conquistador aos povos nativos e transportadas pelo Atlântico em direção à Casa de Contratação na Metrópole espanhola. As formas de trabalho compulsório usadas eram a Encomienda e a Mita. Através da Encomienda, toda uma comunidade nativa ficava a mercê de um particular a quem devia pagar tributos em forma de prestação de serviços. O particular por sua vez pagava tributos à Coroa Espanhola. A Mita de origem inca (semelhante ao Cuatequil dos Astecas) serviu aos propósitos do europeu, consistia em impor o trabalho forçado a indígenas escolhidos por sorteio em suas comunidades. A Mita contribuiu para desestruturação das comunidades nativas com o despovoamento causado por fugas e revoltas e pela grande mortandade ocasionada pelo trabalho nas minas, além disso, o espanhol viciou o índio em álcool e cocaína para deixá-lo mais dependente de seus pagamentos insignificantes. A Mita e a Encomienda, apesar de serem formas de trabalho compulsório não eram encaradas como escravidão pela Coroa. Segundo Tzvetan Todorov, apesar da sugestão de Colombo, os reis católicos preferiam "vassalos em vez de escravos, súditos que pudessem pagar impostos em vez de seres que pertencessem a alguém", seus sucessores agiram da mesma forma. Mas na prática as condições de trabalho a que eram submetidos tornava difícil distinguir entre a escravidão de fato e de direito. Os direitos dos índios eram constantemente violados pelos particulares com cumplicidade das autoridades locais. Nas palavras de Eduardo Galeano: "A ficção da legalidade amparava o índio, a exploração da realidade sangrava-o", mesmo com o declínio da mineração na segunda metade do século XVII, o drama das massas nativas continuaria nas grandes propriedades monocultoras com produção voltadas para o mercado europeu. Mesmo atualmente populações indígenas ainda são exploradas como mão-de-obra barata em latifúndios de diversos países subdesenvolvidos da América Latina.
       Da mesma forma que o caso brasileiro, surgiram elites às custas do suor e sangue de trabalhadores oprimidos, uma aristocracia por proprietários de terras e de minas. Eram os "criollos", brancos nascidos na América, descendentes dos espanhóis. Embora fossem os donos dos meios de produção, os criollos eram excluídos do comércio exterior e das funções dirigentes do poder público, os altos cargos da Administração, Justiça, Igreja e Exército eram reservados par os "chapetones", espanhóis vindos diretamente do Reino. Além de Ter suas atividades econômicas entravadas pelo Sistema Colonial, obrigando as colônias a comercializar diretamente com a Metrópole, a aristocracia criolla via seu domínio político limitado pelos representantes metropolitanos, num território que consideravam seu por direito.
       Incentivados pelas idéias liberais que agitavam a Europa no século XVIII e pelo exemplo das ex-colônias inglesas e da Revolução Francesa, a elite colonial ansiava por se libertar do julgo da Espanha, mas a verdadeira oportunidade somente veio, quem diria, com as tropas de Napoleão Bonaparte invadindo o Reino em 1807.1808. Tão logo José Bonaparte, irmão de Napoleão, assume o trono no lugar de Fernando VII, há a eclosão de uma revolta popular e, com ela, a reação do exército francês. Enquanto isso, nas colônias, começa a organização de "juntas insurrecionais" pelos cabildos, câmaras municipais onde os criollos exerciam suas atribuições administrativas, legislativas e judiciais locais. Usando o mesmo artifício da burguesia francesa, as lideranças criollas mobilizam as camadas populares, índios e mestiços, para lutarem por um ideal comum. Enquanto a Espanha estava demasiadamente ocupada na guerra contra Napoleão, seus representantes nas colônias era depostos pelo movimento separatista. Mas justiça seja feita, se não fosse pelo auxílio da Inglaterra em tropas, armas e capitais a "História" seria bem outra. Há um bom tempo a Inglaterra estava cobiçando as colônias espanholas como mercados consumidores de seus produtos industrializados e fornecedores de matérias-primas. O usual contrabando não seria mais necessário como fim do Sistema Colonial, a emancipação política significaria para a Inglaterra um comércio "comércio livre com países livres".
       Para dizer a verdade, pouco mudou com a independência política. A dependência econômica por exemplo continuou, somente mudou a "Metrópole". Internamente, a estrutura social e econômica era a mesma: uma aristocracia rural explorando uma massa de trabalhadores oprimidos em grandes propriedades monocultoras e nas minas. Realmente o ideal liberal da Revolução Francesa se alastrou pela América: igualdade, liberdade e fraternidade... mas somente para uma elite.

Reflexões sobre a Colonização no Brasil        De acordo com Celso Furtado, a colonização do Brasil somente tornou-se possível e economicamente viável devido ao êxito da agroindústria açucareira, esta, por sua vez, foi possível ser promovida graças ao investimento do capital holandês. Seguindo esse raciocínio chegamos a irônica conclusão de que, apesar da "descoberta" oficial ser atribuída ao Reino de Portugal, se não fosse pela ambição dos comerciantes holandeses hoje o Brasil não existiria, pelo menos não como o conhecemos. Celso Furtado, Caio Prado Jr. E outros costumam atribuir a iniciativa da Coroa portuguesa de colonizar suas terras no "novo" mundo à constante presença francesa no litoral brasileiro que além de violar seu monopólio do pau-brasil ameaçava seu direito de posse naquelas terras da América, parece que se não fosse pela intromissão e audácia dos franceses, Portugal permaneceria mais algumas décadas desinteressada pelo Brasil, pelo menos enquanto o comércio com o Oriente rendesse os lucros almejados pela Coroa e pela burguesia mercantil. Essa conclusão nos leva à crer que a formação da sociedade brasileira foi conduzida de acordo com os interesses do capital mercantil europeu.
       A fundação de uma colônia portuguesa no Brasil não foi a toa, tinha propostas de organizar uma atividade econômica que gerasse riqueza para o reino de Portugal (para a Coroa e a burguesia mercantil na realidade), afim de geral riqueza para o Reino, a colônia somente produziria mercadorias que complementassem a economia de Portugal e nunca concorrer com esta; para tal, foi estabelecido que a colônia somente venderia seus produtos tropicais para a Metrópole portuguesa e somente desta compraria produtos manufaturados, além disso, a colônia não teria o direito de produzir tais manufaturas e nem comercializar com outras nações que não fosse Portugal. Concluindo, a colônia, foi estruturada para gerar fortunas para a metrópole, este era o verdadeiro objetivo da colonização.
       Segundo Nelson Werneck Sodré, apesar da experiência dos portugueses nas ilhas do Atlântico, o ideal de exploração econômica das terras do Brasil não era uma atividade produtora como a agricultura da cana-de-açucar, pois a Burguesia Mercantil estava tradicionalmente mais inclinada a realizar as vantajosas transações comerciais com as sociedades orientais. Essa conclusão também é defendida por Gilberto Freyre analisando o contraste entre o nível cultural da civilização indiana, onde já existia uma infra-estrutura voltada para o fornecimento de especiarias e produtos manufaturados para o mercado consumidor europeu, e o das comunidades primitivas do continente americano que, em geral, praticavam uma economia coletora e de subsistência. Resumindo, a cultura do nativo do Brasil não permitia ao colonizador português estabelecer uma atividade comercial proveitosa equivalente a que realizava no Oriente. Além disso, os portugueses não tiveram a sorte dos espanhóis, enquanto a empresa mineradora espanhola se encontrava no auge em pleno século XVI, reservas abundantes do ouro no Brasil somente seriam encontradas no século XVIII.
       Estabelecido o Sistema de Capitanias Hereditárias e distribuídos os lotes entre os respectivos Donatários, o negócio era doar Sesmarias para quem tivesse capital e disposição para cultivá-las; o capital, a maioria dos fidalgos, que foram se aventurar no Brasil exatamente por não possuírem situação econômica favorável no Reino, pediram emprestado a comerciantes holandeses e banqueiros judeus, a disposição para o trabalho também pegaram emprestado, no começo com os nativos e depois com os negros da África, via tráfico negreiro.

III - AS INDEPENDÊNCIAS


América Espanhola

Visão interna:        "Os índios nada ganharam com o amor e a providência de sua majestade, nem com o amor dos ministros do Senhor (...) A razão é que depois de haver (...) mitas e sofrido nos abrajes, arrendados como escravos, ou que por ficar sumamente desamparados dos corregedores ou porque seus pais são pobres pelas obrigações dos "pueblos ou outros motivos, os curas (...) os deixam viver a sua vontade; e quando eles menos esperam lhes colhe a morte em mau estado (...)" Tupac Amaru
       Tupac Amaru, descendente de antigos Chefes Incas, executado em 1781, mostra-nos neste trecho de sua defesa o sentimento de seu povo. O movimento liderado por Amaru é considerado o primeiro de uma série de movimentos de libertação colonial, onde se destacam as figuras de Simon Bolívar, José de San Martin, Padre Miguel Hidalgo e José Maria Morellos (os dois últimos do México), dentre outros.
       Apesar dos anseios dos nativos e até mesmo dos criollos, na América Espanhola a independência não foi um movimento uniforme ou com as mesmas motivações, dentro das próprias colônias existiam grandes diferenças. Foi criada uma aristocracia dominante em algumas áreas. Uma parte mercantil (Havana, Lima e Buenos Aires) e a outra rural, os mercantilistas ligados ao comércio externo foram conquistando liberdade para comercializar de forma gradativa; enquanto, os ruralistas tinham interesses diferentes. Do ponto-de-vista ideológico não era diferente: republicanos radicais, monarquistas liberais, dentre outros. Este emaranhado de diferenças fez com que a independência surgisse em torno de alguns líderes, os caudilhos, com caráter local e sem ideologia definida.
       A independência, liderada e organizada pela aristocracia mercantil ou rural, não representou um movimento popular, ao contrário (com exceção do México, no início). Apesar do caráter anti-metropolitano da revoluções, as oligarquias que se organizaram para as independências continuaram a explorar os enormes contigentes de nativos e mestiços. Nesse sentido, a independência não ofereceu mudanças, o que saía antes das independências, continuava a sair a exploração talvez tenham somente mudado de mãos.


Papel da Inglaterra e o enfraquecimento da Espanha.

· Visão Externa: O papel de Napoleão Bonaparte na Europa, também foi de fundamental importância para os movimentos de libertação em toda a América Hispânica. O bloqueio continental imposto por Napoleão, na tentativa de arruinar com a Inglaterra fez com que esta viesse buscar penetração no já amplo mercado americano à procura de matéria-prima e de compradores para seus produtos industrializados. Na América já se comercializava com relativa liberdade, principalmente nas áreas mercantis. Em 1810, as administrações regionais nas colônias já não eram metropolitanas (os cabildos), enquanto a coroa era usurpada por Napoleão Bonaparte perdendo gradativamente seu absoluto poder de domínio do início da colonização.
       Outro fator considerável nesta observação, são as influências nas elites letradas daqui, idealizadoras das independências por conta dos ideais iluministas da própria França de Napoleão, bem como da independência das colônias Inglesas. Caracas, Buenos Aires e México concentravam os movimentos de independência e Lima a reação espanhola. Dentro das próprias colônias também se observava alguns defensores do colonialismo, os realistas do Chile e do Peru, alguns participantes do alto clero e criadores da Venezuela; divergiam da ideologia dos defensores das independências.
       A independência da América Hispânica pode ser entendida em duas leituras: um conjunto de movimentos e influências dentro das próprias colônias conduzindo as regiões na direção do desligamento da Metrópole; e, o próprio papel da Metrópole, enfraquecida e usurpada (o próprio Napoleão buscou apoio aqui, nas colônias).
       A Inglaterra desde 1806 comercializava com os americanos-hispânicos, em 1810 com a abertura do porto de Buenos Aires ao comércio internacional, teve a porta aberta para sua entrada, podendo tratar direto com os americanos. Interessada na derrota de Napoleão e ao mesmo tempo nos altos lucros do novo mercado, atuou nas duas frentes: derrota ao opressor Europeu e apoio aos movimentos revolucionários americanos.
       Em nenhum sentido pode se entender as independências como movimentos populares em si mesmos. Foi uma disputa entre interessados buscando possuir o que aqui existia de melhor: terras, os produtos dela e sua gente. Os métodos variam, mas a história da nossa América pode perfeitamente ser resumida em "a história do domínio" como diz Eduardo Galeano.

Brasil        Segundo Caio Prado Jr., a emancipação política do Brasil é um caso singular no processo de independência das colônias americanas: na América Espanhola, a separação se fez de forma violenta, através da guerra. No caso brasileiro, é o Governo Metropolitano que vai lançar as bases desta autonomia. Para Caio Prado Jr., a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808 significava a origem da emancipação política: como sede da monarquia portuguesa, a colônia do Brasil teve seus órgãos político-administrativos reestruturados e foram abolidas as restrições econômicas do Sistema Colonial. É preciso entender o contexto da época: as rivalidades entre a Inglaterra e a França de Napolão Bonaparte, o bloqueio Continental, a invasão de Portugal pelas tropas Napoleônicas e, principalmente, o interesse da Inglaterra pelo comércio com o Brasil, da mesma forma que na América Espanhola. Com o seu Reino ocupado pelos franceses, D. João VI decreta a "Abertura dos Portos brasileiros às nações amigas", ou seja, a Inglaterra que teve seus interesses amplamente satisfeitos. Por outro lado, o desenvolvimento econômico do Brasil estava tornando-se imcompatível com o regime de colônia, acirrava-se as contradições entre interesses da aristocracia rural e da burguesia portuguesa. Para Nelson Werneck Sodré, o enfraquecimento da associação desses interesses seria fundamental para o processo separatista: os grandes proprietários rurais anseiavam pela emancipação política do Brasil, com a derrubada de um poder público indiferente às suas necessidades, e a liberdade econômica dela resultante, ou seja, o fim das restrições econômicas do Sistema Colonial. Essa classe dominante encontraria um forte aliado (pelo menos naquele período de 1821-22) na figura de D. Pedro, o Príncipe Regente, cuja posição de autonomia em relação às Cortes portuguesas era favorável aos interesses da elite brasileira em repudiar quaisquer projetos de recolonização do Brasil.
       Como no caso das ex-colônias espanholas, não existiram mudanças significativas na formação econômica e social do Brasil: permaneceriam as grandes disigualdades sociais e a dependência externa, esta pode ser muito bem expressa numa frase de Eduardo Galeano: "Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especiazaram em perder."


IV - OS CAMINHOS DA DEPENDÊNCIA

       No início do século XIX, havia uma disputa entre países capitalistas industrializados e nações recém-independêntes da estrutura colonial. Saiu vitorioso o sistema para a manutenção dos padrões coloniais de produção, distribuição e consumo, o que representa o fenômeno do imperialismo.
       Apesar da independência política, nada mudou na América. Dominada pelo latifúndio e pelas formas de semi-servidão herdadas do período colonial, as alterações foram muito poucas: a classe dominante colonial tornou-se classe dirigente, ficando com todos os postos na alta administração dos governos e dos exércitos, enquanto os índios e os mestiços continuaram presos à terra de seus avós, sobrevivendo a tradição latifundiária com uma pobre agricultura de sobrevivência e a produção de gêneros de exportação.
       O mais dramático é que a cultura do dominador foi absorvida (língua, religião, etc...) em detrimento da cultura indígena; a fragmentação econômica e a instabilidade política geravam o fenômeno do caudilismo.
       Sendo a América Latina como um todo uma área periférica da economia mundial, suas atividades agrícolas serviam apenas para subsistência e as grandes plantações destinadas a produzir para o mercado externo. "Fazia parte do pensamento mercantilista a crença de que as colônias eram outra fonte de renda para às metrópoles".
       Quando na Segunda metade do século XIX, o capitalismo internacional estreitou ligações com a América Latina, afluindo com isso uma grande quantidade de empréstimos e investimentos na produção agrícola, mineradora, serviços públicos e nos transportes, este procedimento acirrou ainda mais as diferenças entre o rural e o urbano. Outras diferenças também aumentaram: nas cidades, o desenvolvimento; no campo, o latifúndio; diferenças regionais e de rendas, todas ditadas pelos banqueiros, latifunciários e grandes comerciantes, influenciados todos pelo poder do capitalismo internacional.
       O desequilíbrio apareceu também em grande escala nos diversos Estados Nacionais. O México, Argentina e Brasil cresceram para fora, o que proporcionou o surgimento de um dinâmico setor capitalista no litoral (serviços públicos, indústrias têxteis, calçados e alimentos), enquanto, os países andinos, centro-americanos e antilhanos pernaneceram realizando uma fraca economia de mercado.
       No decorrer do século XIX, o monopólio da economia industrial mudou de mãos; a Inglaterra teve que recuar frente à rápida industrialização dos Estados Unidos e da política da Doutrina Monroe, em que este país se sentiu no direito de se tornar o "protetor" da Américas. Com esse protecionismo os Estados Unidos rapidamente lançaram as ramificações de seu imperialismo por todo o setor econômico das Américas. Não houve solidariedade e nem respeito a soberania dos Estados Latinos Americanos nos mais diversos campos.
       No século XX, em especial o pós-guerra os Estados Unidos se solidificaram como a grande potência, aperfeiçoando a cada dia o seu papel. O ponto alto pode ser observado durante a guerra fria, no pós-segunda-guerra. Este aspécto de nossa abordagem pode ser entendido se observarmos a relação dos Estados Unidos com Cuba, que desde sua discutida independência da Espanha foi invadida pelos americanos, que administraram, se intrometeram, (emenda Platt) e, quando da revolução em 1959, após não serem bem sucedidos na tentativa de invadirem e retomarem a ilha, que considerava seu quintal, aplicaram para toda a América Latina uma política anti-revolucionária, com ações via militarismo, intromissão nas culturas locais e demais massacres.
       Hoje, a América Latina como um todo, ainda se encontra devendo obediência a uma modalidade nova de Metrópole. Ontem, foram: Espanha, Portugal, Inglaterra, etc.; hoje, o FMI, grupo dos sete, dentre outros, com suas refinadas estratégias de domínio, são os nossos senhores.


V - SUBDESENVOLVIMENTO

Origem e Atualidade

       Ao falarmos sobre o subdesenvolvimento na América Latina, precisamos enfrentar e vencer alguns conceitos impostos, que até os dias de hoje são aceitos pelos povos latinos, por exemplo: a nossa pobreza é conseqüência de opções religiosas, do clima e da preguiça dos nossas ancestrais.
       O subdesenvolvimento em nossa região, tem origem ideológica intencional. Começa quando o europeu, em primeiro espanhóis, resolvem fazer deste continente uma presa fácil, sustentáculo e mantenedor da rentável balança econômica espanhola.
       Dois povos europeus são os definidores do subdesenvolvimento na América Latina, os espanhóis e os ingleses, os espanhóis depois de exterminarem com a cultura e levarem todo o ouro dos Astecas, Maias e Incas, instalam sua administração na América trazendo o modelo administrativo da corte espanhola.
       Decretos e opções como o conselho de Castela, a sala das Indias, o conselho das Indias, a secretaria de despacho universal das Indias, foram decretos que a Espanha por muito tempo mandou para regular suas Colônias; física, cultural e legisticamente. Por diversas vezes estas leis eram recompiladas, porém sem perder o caráter espanhol e romano.
       O domínio e o preparo para o subdesenvolvimento era tão grande que a recompilacionante de 1680, no livro VI, autorizava o casamento de espanhóis com indígenas sob o regime do pátria poder, a lei das índias foram dando formas as futuras estruturas políticas e sociais, que viam na monarquia um modelo a ser mantido e preservado. Isso contribuiu para o elemento conservador e mantenedor de uma prática submissa e patética, que seria usufruída pelos "caudílhos liberais" e também pelos "conservadores", para em nome da "boa ordem" e do progresso venderem os países latinos ao capital inglês.
       As primeiras expedições inglesas para a América foram destinadas a exercer a pirataria contra navegações, não foram poucos os aventureiros ingleses que na América tentaram fixar-se, mas o clima, a hostilidade gentílica e a distância da Metrópole, não ajudaram muito.
       No entanto foi a revolução industrial do século XVIII, que nos dá uma melhor explicação da questão do subdesenvolvimento, os diversos tipos de produtos, a velocidade das máquinas com a necessidade de matéria-prima, fez da América Latina, não só consumidor mas uma grande peça na engrenagem industrial inglesa, quando seleciona trabalhadores latinos a produzirem por baixos salários, precárias condições e se endividarem nos grandes armazéns ingleses, sob forma de transacionais que encontra no Estado Keynesiano, um grande amigo que pretende beneficiar os povos "sofridos da América Latina", agora não sob o signo determinista Ratzeliano, mas sob o tema geopolítico de "ordem e progresso" de uma América para os americanos, como mandava a cartilha da Newdeal; o plano Marshal ou a doutrina Monroe, que como diz o nome, doutrina o Exército, a pedagogia, a economia, a arte e em muitos casos põe uma guarda nacional em nosso solo sob a falsa idéia de manter a ordem nos habitantes do novo mundo.
       A Divisão Internacional do Trabalho, é a bandeira que estampa o que somos e o que temos para melhor ser explorados pelo grande capital, que só mudou de herdeiro. Antes os ingleses; hoje, seu filho: os Estados Unidos. O minério de prata, as verduras, o petróleo, a lã, o algodão em geral todas as riquezas humanas e naturais da América Latina, está clinicamente demarcada e selecionada, vindo a originar uma industrialização conservadora que moderniza e beneficia apenas as partes geofísicas e geo-humanas, que melhor lhes sirvam. As intervenções militares, os sucessivos golpes internos que os países latinos sofreram na década de sessenta, foi um grande sinal de que nossos irmãos norte-americanos já tornaram-se nossos algozes.
       Até o processo de guerra fria que iniciou-se em 1947 e terminaram em 1989, com a queda do muro de Berlim, permitiu que os dois blocos políticos, exercessem suas ideologias e influências e domínio econômico no terceiro mundo, no entanto, a constante vigilância que a economia russa tinha que manter e da mesma forma o mundo capitalista, inibia boa parte da influência dos ideais capitalistas pois grande parte desta competição era no campo econômico, e, o cultural nos países latinos tinha no socialismo uma ferramenta que permitia uma apologia ao elemento étnico e popular onde reafirmava-se um nacionalismo mais realista e dialético, porém, o brusco avanço tecnológico, a falácia do economicismo histórico, a suposta vitória do capitalismo, a falência do Estado Keynesiano, a previsão de variantes no modelo de produção fordista, a exigência de uma qualidade total nos produtos fabricados, a quem das fronteiras somado com o avanço da micro eletrônica, configura o que chamamos globalização, que utiliza o markenting a nível mundial, a imagem ao invés do conteúdo e a interação virtual dos povos da terra.
       Na globalização as multinacionais são flutuantes, o capital não tem um dono, mas um trust, os produtos não são apenas padronizados, mas, multipadronizados de acordo com o gosto do cliente. Na globalização as multinacionais e o capitalismo deixam de ser uma discussão, uma ação física e tangível para tornar-se, não a ditadora das tendências, mas a própria tendência; na globalização, não existe moda e nem postulados, mas o que existe são constantes variantes, não existe diálogo mas demonstração; não existe golpe, pois não existe Estado; não existe o sagrado, nem o profano, pois não há absolutos; na globalização, discordando de Marx, o capitalismo não chegou ao ápice para desintegrar-se, ele fragmentou-se, mas deixou um emaranhado de Latinos-Americanos, com a maior das perdas, enquanto no início o capitalismo escravizava o corpo com enormes cargas horárias, um universo de produtos na linha de produção, na globalização ele democratiza excluindo, ele modeniza marginalizando, ele permite poder de compra mas proibe o acesso; na globalização permite-se o celular mas não cuida-se da cárie. As transnacionais ultrapassam as fronteiras e atingem a vida, o privado torna-se público cultural, o familiar é permitido quando se tem poder de compra. Como afirma Marshal Mac Luhan: "os meios de comunicação tornam-se extensão do corpo, o Ter substitui o ser e nesse momento o teu moderno já está ultrapassado.


VI - CONCLUSÃO

       "Para os que conhecem a História como uma disputa, o atraso e a miséria da América Latina são o resultado de seu fracasso. Perdemos; outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam graças ao que nós perdemos".

Eduardo Galeano


       O atual estágio da América Latina, pode perfeitamente ser entendido como o resultado da história da exploração sofrida pelo nosso povo. A América tem hoje aproximadamente 280 milhões de habitantes, dos quais, cinqüenta milhões estão desempregados ou sub empregados, cem milhões são analfabetos, 140 milhões moram em lugares inadequados à condição humana, e, a soma dos três maiores mercados (Brasil, Argentina e México) não chega ao que se consome em um Estado como França ou Alemanha, por exemplo.
       Diante de tal quadro, o neoliberalismo de hoje não seria mais liberdade ou uma justificativa para a continuação deste processo de exploração e de fabricar miseráveis? Em um mundo com distancias sociais e econômicas tão grandes a globalização não seria um instrumento de massacres, invasões e isolamento, muito mais do que de aproximação?


Trabalho cedido pela turma de História das Faculdades Integradas Simonsen

*** QUERO VOLTAR

1