Crônica Arte Arteira

 

 
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                                                       CRÔNICA ARTE ARTEIRA

 
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Crônica Arte Arteira

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Crônica Arte Arteira Retrato do Dia a Dia is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial 2.5 Brasil License.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARA QUEM POSSA INTERESSAR - INTRODUÇÃO  

 

O interesse pelas palavras sempre existiu, desde que me lembro por gente. O interesse pela crônica, especificamente, apareceu há alguns anos através das atividades de relações públicas que desenvolvi na empresa onde trabalhava. Como era inevitável, acabei me envolvendo com a área de jornalismo. Primeiro pequenas colaborações no jornal empresarial, depois um boletim semanal para cerca de 2.000 pessoas que não estavam interessadas em ler. Era preciso conquistar esse público arredio. 

 

A chave que abriu este filão foi, simplesmente, a "conversa fiada". Aquela conversa de amigos, regada a cerveja e tira-gosto, onde se fala do que acontece, das notícias do dia, dos sonhos, da vida. Um ajuste aqui, outro ali e os fatos marcantes que aconteciam na empresa chegavam aos empregados através deste bate-papo. Foi uma ousadia colocar no meio empresarial esta linguagem tão distante do estilo formal utilizado no meio. No espaço de um ano conseguimos reabilitar o boletim. Foi uma vitória.

 

As pequenas crônicas começaram a aumentar em tamanho e número. Daí para a faculdade de jornalismo foi um pulo. Já que estava envolvida com a área dos impressos, por que não aprender direitinho?

 

Mas este foi apenas um dos ângulos pelo qual a crônica me "pegou". Um dia alguém me diz que tem um recadinho para mim no jornal "A Tribuna". Estava lá, na coluna Gente e Coisas da Cidade, da jornalista Lydia Federici. Foi uma emoção diferente receber um recado através de uma crônica, sabendo que milhares de pessoas também estão lendo aquelas palavras e, por um momento, você é a estrela daquele acontecimento.

 

Eu me diverti e são esses pequenos momentos de alegria que compõem a felicidade da gente. Na verdade, esta não foi a única vez em que achei algumas palavras para mim, na coluna da Lydia, mais duas vezes ela tornou a mencionar meu nome. Aliás, meu "nome de guerra": Nisia Maria. É assim que a grande maioria me conhece.

 

Eu estava irremediavelmente fisgada por este gênero ambíguo , matreiro, arteiro, que, falando das coisas simples do cotidiano, desafoga nossos sentimentos. De repente, eu percebi que, do mesmo modo que as palavras de alguém me emocionavam, eu também podia fazer rir ou chorar. Ainda não consigo descrever com clareza aquilo que sinto quando observo o rosto de um leitor. Só sei que faz bem, que gosto, e que eles também gostam! Portanto, porque não dividir com muitos minhas idéias, minhas palavras ? (1)

 

Decidi desenvolver este trabalho sobre a crônica porque o assunto me encanta, é simples e complexo ao mesmo tempo; porque percebi que quase não há literatura específica sobre o assunto. Existem capítulos embutidos nos mais diversos livros, o que dificulta muito o aprendizado sobre o tema, além dele ser considerado por muitos sem importância e até um tanto marginal. Entretanto, apesar do preconceito, a crônica sobrevive e gostem ou não muitos autores e jornalistas, ela tem seu espaço garantido. Não dá para suportar tanta "realidade" sem um pouco de tempero.

 

Este trabalho é baseado na reunião das idéias de vários autores e jornalistas, entremeado com minhas idéias; essencialmente didático, tento apresentá-lo de forma agradável para leitura, expondo conceituação, gênero, fontes, estrutura, linguagem, estilo etc. Finalizando, a vivência de um cronista conceituado: Lourenço Diaféria. A intenção é fornecer algum subsídio para quem possa se interessar sobre o assunto.

 

1- Silva, Nisia Andrade. O Guarda Chuva. In: Antologia Literária. Best-Seller Literatura Maior. Litteris, Rio de Janeiro, 1994, pag. 118.

 

ATRAVÉS DO TEMPO - A PALAVRA CRÔNICA 

 

Do Grego chronikós (relativo ao tempo), do Latim crhonica No começo da era cristã o vocábulo designava uma lista ou relação de acontecimentos ordenados cronologicamente.  A crônica registrava os eventos sem aprofundar-se nas causas, situando-se entre os anais e a História.

 

Atingiu o ápice depois do século XII, na França, Inglaterra, Portugal e Espanha, quando aproximou-se da História mostrando acentuados traços de ficção literária. A partir da Renascença o termo crônica cedeu vez à História. Liberto da conotação histórica, o vocábulo passou a revestir-se do sentido literário, a partir do século XIX, para finalmente encontrar seu significado jornalístico, como o conhecemos hoje. (1)

 

1- Massaud, Moisés. A Criação Literária. Melhoramentos, SP, 1979, 9a. ed., pág. 245

 

UM JEITO BRASILEIRÍSSIMO - A ORIGEM DA CRÔNICA MODERNA 

 

"Para qualquer brasileiro a palavra crônica tem sentido claro e inequívoco, embora ainda não dicionarizado: designa uma composição breve, relacionada com a atualidade, publicada em jornal ou revista. De tal forma esse significado está generalizado que só mesmo os especialistas em historiografia se lembram de outro sentido bem mais antigo, o de narração histórica em ordem cronológica." (1)

 

Ora, no Brasil, a crônica é o relato poético do real, situada na fronteira entre a informação da atualidade e a narração literária. Um gênero plenamente definido, segundo José Marques de Melo. (2)

 

O mesmo não ocorre em outros países. No jornalismo mundial a crônica está mais vinculada ao relato cronológico da narrativa histórica. Sua natureza é controvertida e varia de país para país. Foi com o sentido de relato histórico que a crônica chegou ao jornalismo.

 

Alberto Martinez atribui à crônica uma origem latina (França , Espanha, Itália) semelhante mas sem correspondentes precisos no jornalismo alemão, inglês e norte-americano. (3)

Juan Gargurevich afirma que a crônica é a antecessora imediata do jornalismo informativo. Essa tese encontra respaldo na bibliografia do jornalismo europeu de raízes latinas. (4)

 

Assim sendo, na Itália a crônica aproxima-se mais do sentido que no Brasil atribuímos à reportagem. Na França oscila entre a reportagem setorial e o colunismo. Na Espanha combina notícia e o comentário. No jornalismo português a crônica está bem próxima da sua caracterização no Brasil.(5)

 

Na Inglaterra existem dois gêneros bem próximos da crônica: actions stories e essay, ambos relatos poéticos do real. Na Alemanha encontramos a glosa, comentário breve sobre o cotidiano. Nos Estados Unidos alguns tipos de feature stories assemelham-se à crônica como a entendemos e, na Espanha, a croniquilla pretende ser uma espécie de crônica da vida diária, também chamada folhetin. (6)

 

É como folhetim que a crônica surge no jornalismo brasileiro, no século XIX. Era publicada junto com pequenos contos, artigos, ensaios breves, poemas em prosa. Um espaço que os jornais reservavam para informar aos leitores sobre os acontecimentos da semana. Nomes ilustres foram pouco a pouco transformando o folhetim, tornando-o um gênero autônomo no jornalismo, transformando-o na crônica moderna. Para tanto contribuíram Francisco Otaviano, José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis, Raul Pompéia, Coelho Neto e outros. (7)

 

Afrânio Coutinho afirma que a crônica adquire personalidade com Machado de Assis, o qual consagrou-se no gênero, contribuindo consideravelmente para a sua evolução. (8) "Machado de Assis ao praticar a crônica considerava-se escrevendo "brasileiro", pois a crônica exigia uma participação direta e movimentada na vida mundana - reuniões da sociedade, teatro, parlamento - induzindo o cronista a incorporar a linguagem coloquial à sua narrativa, abandonando pouco a pouco o estilo empolado e discursivo da prosa jornalística e literária de então." (9)

 

O perfil nacional da crônica, o gênero brasileiro firmou-se a partir de 1930, com nomes como o de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drumond e Ruben Braga, que, de certo modo, seria o cronista exclusivo desse gênero.

 

A partir desta época o desenvolvimento da imprensa assume proporções empresariais, conduzido a uma diversificação do seu conteúdo e à ampliação das seções permanentes, para atender um leitor mais exigente. Nesse âmbito a crônica adquire um lugar especial, sendo o cronista o intérprete das mudanças que ocorrem na sociedade.

 

1- Rónai, Paulo. Um Gênero Brasileiro: A Crônica. In : Hower, Alfred e Preto-Rodas, Richard, org. Crônicas Brasileiras. Center for Latin American Studies, University of Florida,1971.

2- Melo, José Marques. A Opinião no Jornalismo Brasileiro. Vozes, RJ, 1985, Pág.111.

3- Martinez, Alberto José Luiz. Redaccíon Periodística. ATE, Barcelona, 1974. Cap. VIII- A Crônica Como Gênero Jornalístico.

4 - Gargurevich, Juan. Gêneros Periodísticos. Ciespal, Quito, 1982, pág. 109-149.

5- Idem 2, pág.112,113.

6- Idem 2, pág. 113

7- Idem 2, pág. 114

8- Afrânio Coutinho. Ensaio e Crônica. In: A Literatura no Brasil. Sul Americana, RJ, 2a. ed. vol.VI, 1971, pág. 112

9- Idem 2, pág. 114

 

MOSTRANDO O OUTRO LADO DE TUDO - CONCEITUAÇÃO DA CRÔNICA   

 

Por meio de assuntos de composição aparentemente solta, do ar de coisa sem importância que costuma assumir, a crônica se ajusta à nossa sensibilidade de todo dia. Retratando a vida, a crônica serve a vida de perto, pois, está perto de nós. Despretensiosa, ela se humaniza e aprofunda seu significado.

 

A crônica nos ajuda a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas, quase sempre com humor. Sua perspectiva não é grandiloqüente, nem pomposa, mas do simples dia-a-dia.

 

A fórmula moderna reúne um fato pequeno, uma notícia, um toque de humor, uma pitada de poesia e representa o encontro mais puro da crônica com a vida real e com seu cúmplice favorito, o leitor. Mas, apesar de seu ar despreocupado, de quem está falando de coisas sem maior conseqüência, a crônica penetra fundo no significado dos atos e sentimentos do homem, aprofundando a crítica social.

 

Aprende-se muito quando se diverte e os traços simples, graciosos e breves da crônica são um veículo privilegiado para mostrar de modo persuasivo muita coisa, que, divertindo, atrai e faz refletir, amadurecendo nossa visão das coisas. Por meio de um zigue-zague de aparente conversa fiada, a crônica pode dizer as coisas mais sérias, como as descrições da vida, o relato caprichoso dos fatos, o desenho de certos tipos humanos, o registro de algo inesperado.

 

Tudo é vida, tudo é motivo de experiência ou reflexão, divertimento e esquecimento momentâneo de si, sonho ou piada que nos transporta ao mundo da imaginação, para voltarmos um pouco mais sábios. (1) A função da crônica portanto é aprofundar a notícia e deflagrar uma profunda visão das relações entre o fato e as pessoas, entre cada um de nós e o mundo em que vivemos.

 

Lourenço Diaféria traduz com sentimento e paixão o sentido brasileiríssimo da crônica:

"A crônica é a reinvenção da lua abstraída das violações científicas e espaciais, é a metafísica dos postes e das azaléias, é a lupa que permite confirmar com a palavra escrita, se o sabonete Palmolive continua a abrir os poros e manter a pele leve e acetinada. A crônica existe para dar credulidade aos jornais, saturados de notícias reais demais para serem levadas a sério. A crônica descobre as pessoas no meio da multidão de leitores. Ela revela ao distinto público que, atrás do botão eletrônico, existe um baixinho resfriado e de nariz pingando, que assoa e vocifera. A crônica serve para mostrar o outro lado de tudo - dos palanques, das torres, de eclipses, das enchentes, dos barracos, do poder e da majestade. Ela não consta no periódico por condescendência. A crônica é a lágrima, o sorriso, o aceno, a emoção, o berro, que não tem estrutura para se infiltrar como notícia, reportagem, editorial, comentário ou anúncio publicitário no jornal. E, contudo, é um pouco de tudo isso. " (2)

 

1- Antonio Cândido. A vida ao rés-do-chão. In: Para gostar de Ler Crônicas. SP, Ática, 1979/80, vol 5, pág.12.

2- Diaféria, Lourenço. Depoimento -Escritor Brasileiro/81. Secretaria Municipal de Cultura, São Paulo, 1981.

 

CRONIQUETA, CRONICÃO, CRONICAÇO - CLASSIFICAÇÃO DA CRÔNICA

 

Apesar da pressa característica da crônica, ela é uma somatória de pesquisa, seleção e inspiração. "Embora não tenha preconceitos temáticos, a crônica não aceita qualquer matéria: dentro de seu campo de ação - o acidental (ou circunstancial episódico) captado quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou incidente doméstico - a crônica deve escolher um fato capaz de reunir em si mesmo o disperso conteúdo humano"(1), pois só assim ela pode cumprir o seguinte princípio: informar, ensinar, comover, deleitar.

Existem quatro tentativas de classificar a crônica. Luiz Beltrão usa o critério jornalístico, Afrânio Coutinho toma como base a tipologia literária, Moisés Massaud procura uma correspondência com os gêneros literários e Antonio Cândido guia-se pela estrutura narrativa.

 

Luiz Beltrão (2) propõe duas classificações: quanto à natureza do tema e quanto ao tratamento.

 

A partir da natureza do tema, são três espécies:

 

- Crônica Geral - sob uma forma gráfica determinada ou sob uma epígrafe geral aborda os assuntos mais variados, ocupando espaço fixo no jornal. É chamada coluna ou seção especial.

 

- Crônica Local - sempre sob a mesma epígrafe em página e coluna fixa, fala da vida cotidiana da cidade, atuando como um tipo de receptor da opinião da comunidade onde se insere o jornal. É chamada urbana ou da cidade.

 

- Crônica Especializada - integra página ou seção determinada, com apresentação gráfica do texto diferente das demais matérias e focaliza assuntos referentes a um determinado campo específico, como política, esportes, economia etc. Também é conhecida como comentário.

 

Quanto ao tratamento, surgem três modalidades:

 

- Analítica - a linguagem é sóbria, elegante e enérgica, os fatos são expostos com brevidade e analisados com objetividade. O cronista dirige-se à inteligência ao invés do coração.

 

- Sentimental - a linguagem é vivaz de ritmo ágil, os fatos apresentam-se a partir de aspectos pitorescos, líricos, épicos, capazes de comover e influenciar a ação. O cronista apela para a sensibilidade.

 

- Satírico-Humorística - a linguagem é de duplo sentido com o objetivo de criticar, ridicularizando ou ironizando fato, ações, personagens com a finalidade de advertir e entreter o leitor.

 

Afrânio Coutinho (3) define cinco tipos de crônicas:

 

- Crônica Narrativa - estória ou episódio próximo do conto contemporâneo, que não necessita obrigatoriamente de começo, meio e fim ( ex.: Fernando Sabino).

 

- Crônica Metafísica - são reflexões sobre acontecimentos e pessoas de cunho mais ou menos filosófico (ex.: Carlos Drummond, Machado de Assis).

 

- Crônica-Poema-em-Prosa - de conteúdo lírico expressa os sentimentos do cronista ante o espetáculo da vida, das paisagens ou episódios significativos (ex.: Ruben Braga, Manoel Bandeira, Raquel de Queiroz).

 

- Crônica Comentário - crítica de acontecimentos díspares, tomando o aspecto de "bazar asiático" (ex.: Machado de Assis, José de Alencar)

 

- Crônica Informação - relata os fatos, fazendo ligeiros comentários impessoais (ex.: Lourenço Diaféria, Flávio Rangel).

 

Moisés Massaud (4) propõe dois tipo de crônica baseado no ponto de vista da ambiguidade do gênero:

 

- Crônica-Poema - prosa emotiva que chega ao verso (Carlos Drummond).

 

- Crônica-Conto - o cronista narra um acontecimento que provoca sua atenção como se fosse um conto, sendo ele apenas o estoriador.

 

Antonio Cândido (5), sem qualquer pretensão de criar categorias, sugere uma classificação destacando diferenças entre os modernos cronistas brasileiros:

 

- Crônica-Diálogo - o cronista e seu interlocutor se revezam trocando pontos de vista e informações (ex.: Carlos Drummond, Fernando Sabiano).

 

- Crônica-Narrativa - apresenta alguma estrutura de ficção, semelhante ao conto (ex.: Ruben Braga).

 

- Crônica Exposição Poética - uma divagação sobre um fato ou personalidade, uma série de associações (ex.: Paulo Mendes Campos).

 

- Crônica Biográfica Lírica - narrativa poética da vida de alguém (ex.: Paulo Mendes Campos).

 

"Mas não apenas os teóricos do jornalismo e da literatura se preocuparam em classificar a crônica. Os cronistas também. Numa série de crônicas sobre as "definições da crônica", Luis Fernando Veríssino oferece um esquema classificatório, tomando por ponto de referência a qualidade. Ele divide a crônica em: crônica, croniqueta, cronicão, cronicaço. 

 

Como identificar cada uma? Crônica é qualquer crônica, ou uma crônica qualquer. Croniqueta é o nome científico da crônica curta, como pode parecer. (...) Cronicão é a crônica grande, substanciosa, com parágrafos gordos. (...) Grande crônica é o Cronicaço. O cronicaço é contagiante; seu autor sai na rua e deixa um rastro de cochichos - É ele, é ele!" (6)

 

1- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, SP, 1985, pág. 22.

2- Beltrão, Luiz. Jornalismo Opinativo. Sulina, Porto Alegre, 1980, pág. 68.

3- Coutinho, Afrânio. Ensaio e Crônica. In: A Literatura no Brasil, vol. VI, Sul Americana, RJ, 2a. ed. 1971.

4- Massaud, Moisés. A Crítica Literária. Melhoramentos, SP, 1979, 9a. ed., pág. 245-258.

5- Cândido, Antonio. A vida ao rés-do-chão. In: Para Gostar de Ler Crônicas. Ática, SP, 1979/80, vol. 5, pág.12

6- Melo, José Marques de. A Opinião no Jornalismo Brasileiro. Vozes, RJ, 1985, pág.118.

 

EQUILIBRANDO-SE EM LIMITES ESTREITOS - UM GÊNERO CONTROVERSO   

 

"Tida como um ponto na fronteira entre o jornalismo e a literatura, área de superposição regida por dois grandes astros do relato e em aparente convivência pacífica, a crônica vem sendo colocada em estreitos limites, aceitando com humildade ser gênero menor, jornalismo leve, o quase literário, quase jornalístico." (2)

 

A crônica ao longo de seu percurso tem informado, comentado e divertido com linguagem leve e descompromissada, afastando-se da lógica argumentativa ou crítica política para penetrar poesia adentro. É o relato poético do real o que a torna ambígüa e põe a descoberto a briga antiga e mal resolvida que existe entre literatura e jornalismo.

A crônica se equilibra entre o efêmero do cotidiano e o imortal do fato literário, ambigüidade que a transforma em um gênero difícil de ser produzido, classificado ou analisado, quer no texto jornalístico, quer no texto literário.

 

Aceitar a crônica como um ponto tenso implica reconhecê-la como um contraponto crítico para qualquer dos dois lados. Na contradição, um dos astros em combate revela o outro pelo que não é.

 

Assim, as classificações que aceitam a crônica como gênero jornalístico, longe de honrá-la, a colocam na rabeira, praticamente desqualificando-a, pois, depois dela só as cartas do leitor. A classificação no gênero literário não é muito melhor. A imaginação criativa dos grandes romancistas e escritores a diminuem e desprezam, pois o cotidiano trivial tem pouco valor poético para estes (3).

 

Ora, se a crônica assume um caráter de relato poético do real, colocando-se na fronteira entre informação da atualidade e narração literária, ela se torna um gênero jornalístico-literário. Como gênero jornalístico é um comentário, gênero nobre e, como literatura, é poesia e prosa.

 

Mas não é assim tão simples aceitá-la. A crônica foge a todas as regras do jornalismo, embora "lide com informações jornalísticas, se realize numa edição diária e efêmera, utilize a linguagem coloquial. Ela não participa do ambiente do jornal, escapa do processo de produção jornalística convencional, independe da formação profissional técnica, não obedece às determinações de tempo e espaço típicas, foge das regras de interesse informativo convencionalmente estabelecidas para o jornalismo". (4) A crônica é o lado arteiro de um jornalismo que insiste em ser crítico, libertário, inovador e humanizado, o que vem sendo sufocado pela técnica industrializada.

 

Da mesma forma a crônica suavizou sua linguagem, descasou-a dos adjetivos mais retumbantes e das construções mais raras, como as que ocorrem na poesia, prosa e discurso. Na sua construção não cabem a sintaxe rebuscada, com inversões freqüentes, nem o vocabulário opulento para significar que é variado, modulando sinônimos e palavras tão raras quanto soantes. Ela escapa das regras literárias operando milagres de simplificação e naturalidade, num país que costuma identificar superioridade intelectual e literária com grandiloqüência e requinte gramatical. (5)

 

Enquanto o jornalismo não a quer e a literatura a desdenha, ela prossegue seu caminho fazendo cúmplices, conquistando espaços.

 

1- Antonio Cândido. A vida ao rés-do-chão. In: Para Gostar de Ler Crônicas. Ática, SP, 1979/80, vol.5, pág.5.

2- Guaraciaba, Andréa. In: Melo, José Marques de. Gêneros Jornalísticos Folha de São Paulo. FTD/ECA/USP, São Paulo, 1987, pág. 85.

3- Idem 2, pág. 85.

4- Idem 2, pág. 86

5- Idem 1, pág. 8.

 

JORNALISMO SIM!  - UM GÊNERO OPINATIVO

 

José Marques de Melo no livro "A Opinião no Jornalismo Brasileiro" afirma que, ser a crônica um gênero jornalístico, é ponto pacífico.

 

"Produto do jornal, porque dele depende para sua expressão pública, vinculada à atualidade, porque se nutre dos fatos do cotidiano, a crônica preenche as três condições essenciais de qualquer manifestação jornalística: atualidade, oportunidade e difusão coletiva". (1) Em sua análise dos gêneros jornalísticos, Marques de Melo coloca a crônica como um gênero opinativo.

 

Da mesma forma, Luiz Beltrão afirma que a crônica é a forma de expressão do jornalista/escritor para transmitir ao leitor seu juízo sobre fatos, idéias, emoções pessoais e coletivas, o que a coloca no nobre gênero do jornalismo opinativo. (2)

 

1- Melo, José Marques de. A Opinião no Jornalismo Brasileiro. Vozes, RJ, 1985, pág. 118

2- Beltrão, Luiz. Jornalismo Opinativo. Sulina, Porto Alegre, 1980, pág 66.

 

IDÉIAS QUE FLORESCEM, FATOS E EMOÇÕES - FONTE ESTRUTURA E REDAÇÃO

 

As fontes utilizadas pelo cronista para realizar seu trabalho são: as idéias que florescem na comunidade; a informação sobre fatos e situações; a própria notícia; as emoções pessoais.

Ora, para estruturar o texto o cronista deverá observar os seguintes passos:

- Dominar o tema, calculando seu tamanho, alcance, força, inteirando-se de suas causas, aspectos significativos, seqüência lógica, efeitos imediatos e repercussão.

- Selecionar os dados levando ao conhecimento do público o que seja veraz, conveniente e oportuno, não esquecendo das normas práticas e éticas que regem o exercício do jornalismo.

- Redigir o texto em três fases distintas e sucessivas: introdução, argumentação e conclusão. (1)

 

A crônica deve interpretar o tema utilizando argumentos lógicos, sugestivos e persuasivos, de modo ordenado que leve o leitor a aceitar a opinião final.

 

O aspecto informativo ou noticioso da crônica vem na introdução, onde o cronista coloca o tema de forma sintética (quem, que, quando).

 

O raciocínio e as idéias vêm a seguir na argumentação, desenvolvendo-se numa seqüência ritmada que permite mais liberdade criadora.

 

O cronista utiliza-se de citações, máximas, provérbios, metáforas, alegorias, humor, trocadilhos. "Matiza o texto com o jogo do maravilhoso - que oferece sugestão de quimeras, sonhos, aspirações cristalizadas em riquezas, conquistas, vitórias e feitos extraordinários; com o jogo do comum extraindo dados do cotidiano, do terra-a-terra, das idéias simples aceitas por todos; ou com revelações interiores dos próprios sentimentos mostrando-se sincero, melancólico, cético, apaixonado, rebelde, indiferente, seguro, de acordo com a tônica reclamada pelo segmento." (2)

 

Nesse trecho o cronista deve ainda prevenir-se dos argumentos contrários ao seu ponto de vista. Por fim, na conclusão é emitido o juízo do cronista sobre o tema, que foi tão bem exposto e debatido, que se torna incontestável, não admitindo desacordo.

 

A crônica terá alcançado seu propósito quando os efeitos dos seus juízos dão força às correntes de opinião, conduzindo à ação.

 

1- Beltrão, Luiz. Jornalismo Opinativo. Sulina, Porto Alegre, 1980, pág. 69.

2- Idem 1, Pág. 20.

 

UM PRATO DE SUAVE DIGESTÃO - ESTILO E LINGUAGEM

 

"Cronista sem estilo parece incongruência, entendido o estilo como linguagem." (1)

Direta, espontânea, jornalística, de compreensão imediata, assim é a crônica, que destinada ao jornal ou à revista vive o espaço de um dia, utilizando-se do estilo como chamariz. Sendo ágil, simples e poética ela atrai o leitor, distinguindo-se na página do jornal.

 

Oscilando entre o coloquial e literário, casando a oralidade com os temas do cotidiano tratados com uma gota de análise ou filosofismo, a crônica pode se traduzir num prato de suave digestão, no meio de tantas notícias duras.

 

Ambigüidade, brevidade, subjetividade, diálogo, efemeridade são os requisitos indispensáveis para a construção da crônica. (2)

 

1- Massaud, Moisés. A Crítica Literária. Melhoramento, SP, 9a. ed., 1979, pág. 256.

2- Idem, pág. 257

 

CÚMPLICE DO AUTOR - LEITURA CRÍTICA 

 

A primeira leitura da crônica trata apenas tomar conhecimento do assunto, num breve momento.Lemos sem compromisso, sem nada esperar. A partir daí, o texto nos atingirá ou não. De acordo com a intensidade das palavras repercutidas em nós, faremos uma nova leitura, voltaremos atrás em um parágrafo, paramos um instante para avaliar. Aí começa a leitura propriamente dita, quando substituímos aquela primeira leitura "ingênua" pelo senso crítico.

 

Descobrimos, então, vários registros no discurso, interpretando cada passagem até alcançar uma interpretação global que, por fim, nos conduz para uma determinada visão do mundo. O leitor percebe o significado da crônica, que só então começa a ser valorizada, pois, uma vez ultrapassado o consumismo imediato, ela nos solicita a participar como seu co-autor ou como seu cúmplice, papéis que nos levam à fruição total do conteúdo do texto.

 

A carga emotiva da crônica atinge o leitor com maior profundidade, fundindo autor e leitor numa única entidade. O cronista fala por nós aquilo que não temos a chance de dizer. É o intérprete qualificado para nos devolver aquilo que a realidade sufocou. (1)

 

1- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, SP, 1985, pág.79

 

PROSA FIADA - O EXERCÍCIO DA CRÔNICA 

 

"Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio ]a tapas pelos personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino." (1)

 

O exercício da crônica é o testemunho de nosso tempo. A crônica conta conversas, recolhe frases, observa pessoas, registra situações, tudo com um olhar lúdico de quem quer superar a realidade sufocante. É como conversa fiada onde todos os assuntos se encontram, sempre na base do dialoguismo, bate-papo ou reunião de amigos. Compor essa conversa fiada é realmente uma arte ingrata, principalmente porque ela se escraviza à urgência da máquina da empresa jornal, que tem hora para fechar. (2)

 

A crônica deve injetar um sangue novo em um fato qualquer do cotidiano, trabalhando com um conceito de verossimilhança que liga a coerência do texto com a coerência do fato acontecido. A partir do real a crônica usa suas artimanhas para alcançar uma dimensão mais profunda, chegando à crítica social.

 

O familiar e gasto deve ser rompido através do insólito e estranho a fim de que uma nova experiência nos atinja intensamente e se torne nova experiência nossa, verdadeira informação estética. De modo geral a crônica amplia e enriquece a visão da realidade. Permite ao leitor a vivência intensa e ao mesmo tempo a contemplação crítica das condições e possibilidades da existência humana.

 

A crônica é o lugar privilegiado em que a experiência vivida e a contemplação crítica coincidem num conhecimento singular, cujo critério não é exatamente a verdade e sim a validade de uma interpretação profunda da realidade tornada experiência. Na fruição da crônica podemos assimilar tal interpretação com prazer (vivendo-a) mesmo no caso dela, no campo real, se nos afigurar avessa às nossas convicções e tendências.

 

Embora não transmitindo nenhum conhecimento preciso, capaz de ser reduzido a conceitos exatos, a crônica suscita uma poderosa animação de nossa sensibilidade, da nossa imaginação e do nosso entendimento , que resulta prazenteira. Este prazer pode acontecer através da empatia com situações, emoções veementes, sofrimentos e choques dolorosos, sem que deixe de ser prazer, já que tudo decorre em nível simbólico.

 

Nada tão simples, nem tão fácil quanto qualquer desavisado possa imaginar.

 

1- Moraes, Vinícius de. Para viver um grande amor. José Olympio, RJ, 1962, pág. 7.

2- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, SP, 1985, pág. 75

 

UMA JANELA PARA O MUNDO - A CRÔNICA E O JORNAL

 

Vivemos hoje numa aldeia global, estamos simultaneamente em todos os lugares e nossa individualidade se universaliza de tal forma que os mais distantes acontecimentos afetam nossas vidas. Tudo nos atinge estampado num gráfico que é o jornal.

 

Ora, a função do jornal é abrir uma janela para o mundo, transmitir impressões sob a forma de notícias, buscando o fato em si e deixando em segundo plano aqueles que participam da cena.

 

Neste contexto deve a crônica ensinar ao leitor ver mais longe, além do factual, elaborando uma linguagem que traduza as muitas linguagens cifradas do universo.

 

A crônica deve "aprofundar a notícia e deflagrar uma profunda visão das relações entre o fato e as pessoas, entre cada um de nós e o mundo em que vivemos e morremos, tornando a existência mais gratificante. Portanto o jornal nos dá notícias da vida e da morte; a crônica nos faz compreender a coexistência desses dois elementos que se opõem, mas não se excluem."(1)

 

Oscilando entre a reportagem e o lirismo, entre o relato impessoal e sem cor de um acontecimento e a recriação do cotidiano por meio da fantasia é exatamente dessa ambigüidade que a crônica retira suas qualidades e defeitos. Os jornais lhe conferem a missão de colocar o dia-a-dia no pequeno espaço dessa narrativa transitória, destinada a durar o tempo de uma edição.

 

Entretanto, por obra e arte de uma força mágica ela acaba repercutindo em cada um, ultrapassando o consumo imediato. A crônica por ser tão despretensiosa, incitante e reveladora permite ao leitor sentí-la na força de seus próprios valores, obtendo um certo destaque que lhe permite não se dissolver no contexto do jornal.

 

1- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, 1985, SP, pág. 56.

2- Diaféria, Lourenço. Depoimento- Escritor Brasileiro 81. Secretaria Municipal de Cultura, SP, 1981.

 

BATALHA CONTRA A VELHICE PRECOCE - DO JORNAL PARA O LIVRO

 

Em sua batalha contra o envelhecimento precoce, a crônica por vezes transfere-se de seu ambiente natural, o jornal, para o ambiente do livro.

 

Ela é, então, reelaborada, isto é, escolhida pelo autor que seleciona seus melhores textos, dando-lhes uma seqüência cronológica temática capaz de mostrar ao leitor um painel que se fragmenta nas páginas do jornal. É como passar a vida a limpo. Isto permite que se descubra as características de cada cronista.

 

Nesta mudança de ambiente a crônica sai lucrando. As possibilidades de leitura crítica se ampliam, o texto atua com maior liberdade sobre o leitor, uma vez despido de certas referencialidades e a partir da releitura o leitor descobre novas possibilidades interpretativas, ampliando sua visão humana do homem na sua vida de todo dia.

 

1- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, SP, 1985, pág. 86.

 

CADA UM É CADA UM - O CRONISTA

 

Quem narra a crônica é seu autor e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se os leitores estivessem lendo uma reportagem. Embora não seja densa, a crônica demonstra a liberdade do cronista que pode transmitir a aparência de superficialidade para desenvolver o seu tema; os fatos acontecem como se fossem por acaso.

 

Mas, na verdade, o autor sabe que nada é por acaso na construção do texto, pois o cronista que deseja cumprir sua função de antena do público, captando o que a maioria não está preparada para apreender, tem de explorar as potencialidades da língua, buscando construções de frases com várias significações, descortinando aos leitores uma paisagem até então esmaecida ou ignorada.

 

O cronista deve juntar harmoniosamente os dados que a realidade vai lhe oferecendo, usando a imaginação para selecionar esses dados e no modo como os substitui no plano do texto por equivalentes, além de inventar os que estão faltando. Sua linguagem adquire logicidade e um ritmo próprio, repensando constantemente pelas vias da emoção, aliadas à razão. É fundamental que o cronista se defina em um tempo e espaço compondo uma cronologia, não limitadora, mas sim esclarecedora de sua (nossa) relação com o mundo.

 

Recriar os flagrantes de rua ou os incidentes domésticos, colocar em cenas pessoas semelhantes a tantas outras que conhecemos ou de quem já ouvimos falar é a ligação com o real da qual se utiliza o cronista, através de diálogos engraçados, irônicos, sem agressividade, pois o texto deve ser leve mas sempre com uma visão crítica.

 

Não há dois cronistas iguais, nem duas crônicas idênticas, porque a mudança eterna do cotidiano determina a maleabilidade do texto e porque a crônica capta a variação emocional do autor. (1)

 

1- Massaud, Moisés. A Criação Literária. Melhoramentos, São Paulo, 1979, 9a.ed., pág. 251.

 

OS ESPIÕES DA VIDA - CRONISTAS FAMOSOS

 

Os cronistas são os espiões da vida, e muitos são os bons cronistas brasileiros. Seria impossível falar de cada um. Então, nos limitamos a uns poucos no meio de tantos.

 

JOÃO DO RIO Consagrou-se como cronista mundano, que, ao invés de um simples registro do formal, fazia o comentário dos acontecimentos que tanto podiam ser do conhecimento público quanto da imaginação do cronista, tudo examinado pelo ângulo da recriação do real. Ele inventava personagens e dava aos seus relatos um toque ficcional. (1)

 

FERNANDO SABINO

Sempre voltado para a busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano, ele nos mostra que o cronista tem seu "momento de escrever" e que, apesar da pressa, característica do ofício, ele também recebe o impulso da inspiração, seleciona e pesquisa, trabalhando o texto em suas diferentes fases.

 

SÉRGIO PORTO

Traz a força total do humor tipicamente brasileiro expresso nas crônicas de Stanislaw Ponte Preta. Além de registrar a vida cotidiana, ele critica aquele tipo inculto que inventa palavras e expressões, criando um mundo de baboseiras (na mira, Ibrahim Sued). Influenciado por Manoel Bandeira, consciente das técnicas narrativas e dos recursos da língua, Porto recupera, através do humor, a poesia. Foi um raro criador de tipos que representam a índole do povo brasileiro, dando-lhes sempre a preferência em suas narrativas, um tanto fatídicas. (2)

 

LOURENÇO DIAFÉRIA

Segue outra vertente do humorismo: a precedência dos fatos sobre os personagens

que os vivem, vistos com um olhar mais otimista. Consciente de que sua função é prestar atenção ao banal, ele vai costurando retalhos de informações até transformá-los em um relato verossímel, estruturado de acordo com as leis da coerência do texto, as peças ajustadas como num quebra-cabeça. Diaféria vai cumprindo o exercício da crônica como um testemunho do nosso tempo, contando as tragicomédias diárias, fazendo o leitor recuperar seu senso crítico enquanto se diverte, alcançando o que está além da banalidade. (3)

 

PAULO MENDES CAMPOS

É um caçador de imagens perdidas nas lembranças. Suas crônicas parecem poema em prosa tentando resgatar o tempo da infância perdida, em um jogo de analogias que envolve o leitor num somatório de emoções. Seu universo imaginário aproxima-se do real, permitindo ao leitor suportar as pressões do mundo convencional e partir para buscar novos horizontes, lembrando que ainda vale a pena viver.

 

CARLOS HEITOR CONY

A experiência pessoal serve como ponto de partida para o trabalho deste cronista. Do convívio com sua própria família nascem as reflexões que servem de pretexto para formar uma visão crítica do mundo. Transitando entre textos despreocupados e dramáticos, Cony demonstra claramente sua preocupação em mergulhar na alma de seus personagens para melhor compreender os mistérios do ser, aproveitando "a leveza da crônica para buscar a leveza do espírito, na imagem do amor eternamente retornando ao homem e lhe devolvendo o sentido da humanidade". (4)

 

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Seus textos apresentam a magia da síntese, o ritmo adequado, o jogo de imagens e o fino humor que revela o cansaço da vida e sua reabilitação. Drummond sabe que a crônica também tem sua "musa", o objeto nomeado para o nosso reencontro com a essência, nosso renascer. Dessa relação ele tira o necessário distanciamento para compreender seus próprios atos, confirmando o encontro do homem com alguma coisa que esta fora dele.

 

VINÍCIUS DE MORAES

Apesar de considerar a "prosa como uma arte ingrata" ele mantém o equilíbrio entre o não ficcional e o ficcional, usando artimanhas peculiares. Transita entre a poesia, a prosa e a crônica usando

subjetivismo como forma de apreensão do ser humano. Um artista, no sentido pleno da palavra.

 

RUBEN BRAGA

Dotado de uma sensibilidade especial e um lirismo reflexivo, Braga conhece a importância dos pequenos momentos que, somados, completam o quebra-cabeças da vida. Certamente capaz de produzir contos, novelas ou romances, ele não se deixou seduzir pelos chamados "gêneros nobres" e tornou-se essencialmente, cronista. Ocupa lugar de destaque na história da crônica brasileira. Pertencendo à linhagem do poeta Manuel Bandeira, de quem recebeu influência e de João do Rio, antecessor de todos os cronistas, Ruben Braga através de valores que recebeu em sua formação situa-se como um indivíduo num contexto social amplo. Ele compõe, então, um caminho claro, através do qual o prazer da leitura pode ser reencontrado, mostrando, através de um fato miúdo ou da estória inventada, a nossa própria estória. Ler Ruben Braga é encantar-se com suas palavras.

 

1- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, São Paulo, 1985, pág. 9.

2- Idem, pág. 31-37

3- Idem, pág. 39-47.

4- Idem, pág. 64

 

VIVÊNCIA DE UM CRONISTA - LOURENÇO DIAFÉRIA 

 

Solicitado a colaborar com este trabalho, o paulistano do bairro do Braz, Lourenço Diaféria, foi muito prestativo, respondendo sem economia de palavras e com seu modo especial, perguntas sobre a crônica e o cronista, tais como: conceituação, gênero, fontes, estrutura, redação, linguagem, estilo, crônica e jornal, leitura etc.

 

Considerando-se namorado fiel e persistente andarilho da Cidade de São Paulo, Diaféria observa os desvãos da cidade e seus habitantes anônimos, utilizando-os como temas preferidos de suas crônicas, publicadas na imprensa nos últimos trinta anos. Está, portanto, plenamente habilitado para discorrer sobre o assunto.]

 

Diaféria conceituou a crônica como um texto aberto, que se completa com a imaginação do leitor. Não afirmou, decididamente, que a crônica seja unicamente um gênero jornalístico, mas confirmou que o jornal é seu território e que ela é uma derivante do jornalismo.

 

Apontou que o cronista trabalha as informações de acordo com seu modo pessoal de ser e garante que um dos segredos da crônica é o seu gancho inicial. É preciso encontrar a embocadura certa, o tratamento do assunto. No seu caso particular as informações, sensações e emoções são tratadas em banho-maria, são curtidas até que, de repente, elas se transformam em inspiração ou proposta de texto

 

Ele acredita que a crônica necessita de uma linguagem específica, mais direta com o leitor, mais sensível, mais coloquial, mas esta linguagem varia de acordo com o mês, o dia, a hora, a estação do ano, o fígado, o humor, a disposição, o céu e o funcionamento da máquina de escrever.

Quanto ao estilo, o seu, se é que tem algum (ele o diz), é fotografar a rua, a cidade, a vida, como um lambe-lambe de praça pública. Preocupar-se com coisas e pessoas sem importância. Seu assunto são as anti-manchetes.

 

Diaféria pensa que a função da crônica num jornal diário é fornecer leitura amena e vender os exemplares, pois a crônica tem seus leitores. Sua leitura deve ser feita do modo que o leitor queira fazê-lo: de manhã no café, depois do almoço, à noite em casa. A crônica é um texto ágil, rápido, lépido, fugaz, um texto curto que não toma o tempo, nem enrola ninguém. É um zás.

 

Por fim, ele confirma que o cronista é o observador de coisas minúsculas e de coisas imensas; ambas estão na frente de todos e ninguém as vê. As repostas em prosa de Lourenço Diaféria vêm confirmar tudo o que foi exposto até agora neste trabalho. 

 

 

POR FIM... CONCLUSÃO 

 

Nem tão simples, nem tão fácil quanto qualquer desavisado possa imaginar! A crônica é o resultado de um modo muito pessoal de ser, algo que oscila entre o objetivo e o subjetivo, tendendo ora para um lado, ora para o outro, e por isso mesmo suas técnicas são difíceis de descrever. Entretanto, é evidente que tem traços estilísticos próprios.

Seu interesse pela atualidade, sua difusão coletiva, seu oportunismo na transmissão de idéias e emoções, a colocam como um gênero jornalístico opinativo.


Sozinha a crônica é efêmera, dura o tempo de uma edição de jornal. Reunidas, as crônicas formam um painel da vida que tanto pode ser localizada, quanto abrangente. 

 

Elas registram um certo lugar, num certo tempo. Então, tornam-se duradouras. A crônica assemelha-se a uma máquina fotográfica, desfocando o ponto visado: ela registra o momento, fazendo emergir os contornos do objeto, suas circunstâncias, seus detalhes, que o olhar comum e corrido não havia registrado. A crônica é um gênero "expressionista", também. É a expressão da impressão. 

 

A crônica é um pequeno oásis de prazer para quem a escreve e para quem a lê. É o grito de liberdade de um escrevente rebelde que insiste em temperar os fatos diários, insiste em ver o que a maioria deixou de ver, insiste em revelar emoções para outros tantos que querem saber daquilo que na sua correria deixaram de perceber. 

 

A crônica com sua simplicidade, tem conseguido manter uma simbiose perfeita entre autor e leitor, que a mantém viva. Nada conseguirá bani-la dos jornais e dos livros. Arte arteira, impertinente, sedutora, brasileira a crônica prossegue conquistando seu espaço.

 

EM TEMPO - A ÚLTIMA CRÔNICA 

 

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar café ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um.

 

Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança

ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.

 

Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

 

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor.

 

Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo.

 

A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegura-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha obedecem em torno à mesa a um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa.O pai se mune de uma caixa de fósforos e espera, a filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa, além de mim.

 

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. e enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam discretos; "parabéns pra você, parabéns pra você... Depois a mãe recolhe finalmente as velas, torna a guardá-las na bolsa.

 

A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai no colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.(1)

 

Esta crônica traduz, com simplicidade, os itens que foram discutidos neste trabalho. Você consegue não se envolver?

 

1- Fernando Sabino. A Companheira de Viagem. Sabiá, Rio de Janeiro, 1972, 2a.ed., pág. 179-182.

 

ANEXO - Carta de Lourenço Diaféria 

 

Prezada Nisia

 

Tenho vários conceitos de crônica. Vários conceitos, porque a crônica pode ser um quase-conto, uma quase-dissertação, um quase-poema, uma quase-reportagem, uma crônica e até, se me permite, uma quase-crônica. Existem vários tipos de crônica. A memorialística, a meditativa, a humorística e assim por aí vai.

Mais de um autor já tentou  - alguns conseguiram chegar perto - definir a crônica com precisão. Passo-lhe um definição do Dicionário de Comunicação, de Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Barbosa: crônica é um texto jornalístico, livre e pessoal, criado a partir de fatos da atualidade. Pode ser crônica política, esportiva, artística, literária, de amenidades. Eu, pessoalmente, entendo a crônica como um texto aberto e que se completa com a imaginação do leitor. A crônica não é um fato seco, um episódio escrito. A crônica exige o pacto do leitor. O leitor completa a crônica. A crônica é  o episódio embalado pela imaginação. Do cronista e do leitor.

 

Não dido que a crônica seja um gênero unicamente jornalístico. Mas ela está tão ligada ao jornal - o jornal é seu território - que muitas vezes se confunde com o próprio jornalismo. Mas a  crônica é um derivante do jornalismo. A crônica é como a estrada vicinal do jornalismo. Ela dá voltas, faz rodeios, circunvaga, flana, adeja, sobre os acontecimentos. Os acontecimentos que aconteceram, que podia ter acontecido e que jamais aconteceram. A crônica é a ficção jornalística do cotidiano.

 

Depende do cronista e as fontes do cronistas podem ser o mar, a família, uma dor de dente, um filho, uma amiga, um resto de amor, uma montanha, um pássaro, um avião, um pedaço de telha, uma rua, as esquinas, o luar, um cadáver abandonado no asfalto enquanto o camburão do Instituto Médico legal não chega. Uma crônica como a definiu o cronista Artur da Távola, são os sustos do dia-a-dia.

O cronista trabalha as informações de acordo com seu modo de viver e de olhar o mundo. Sem dúvida, um dos segredos da crônica é seu gancho inicial. O gancho que prende o leitor. O Luís Fernando Veríssimo, filho do Érico Veríssimo, escreveu que qualquer assunto é assunto de crônica. Mas é importante achar a embocadura. o tratamento do assunto. No meu caso, que nem sei se serve de exemplo, as informações - melhor diria, as sensações, as emoções - são tratadas em banho-maria. Remoendo. Muitas vezes, pensando as informações durante horas. Por vezes, a informação é recolhida dias antes, meses antes. E ficam curtidas, maceradas. De repente, elas tomam corpo. Se solidificam. Deixam de ser fumaças na cabeça. Mas não é um trabalho rigoroso, sistemático, disciplinado. Torna-se um hábito. As informações dia-a-dia vão para uma gaveta imaginária, um cofre imaginário, um cantinho da memória. Súbito, a informação se apresenta, como inspiração. Ou proposta de texto.

 

A linguagem varia de acordo com o mês, o dia,  a hora, a estação do ano, o fígado, o humor, a disposição, o céu e o funcionamento da máquina de escrever (para quem escreve sem computador). Acredito que a crônica necessita, sem, de uma linguagem específica. Mais direta com o leitor. Mais sensível. Mais coloquial. Se se aplicar 'a crônica a técnica jornalística - mas qual técnica? - a crônica poderá terminar sendo uma reportagenzinha, um comentariozinho, uma noticiazinha, um editorialzinho. A linguagem da crônica é a linguagem cordial - no sentido de cor, coração - de quem se abre para o público. Costumo dizer que, com o tempo, a crônica se transforma no strip tease do cronista.

Não sei. Nunca tive a preocupação de descobrir um estilo. Meu estilo é fotografar a rua, a cidade, a vida, como um lambe-lambe de praça pública. Eu me preocupo com as coisas e as pessoas sem importância. meu assunto são as antimanchetes.

 

Eu penso que a importância da crônica num jornal diário ~e dar leitura amena ao leitor. è fazê-lo descobrir, sentir na própria pele, que a vida não é apenas grandes fatos, grandes acontecimentos, grandes títulos de primeira página. Uma viagem de ônibus, bairro a bairro, pode não ser notícia para ninguém. Mas é assunto de crônica. Quem já escorregou numa casca de banana, no meio da rua, mesmo sem ter fraturada nenhum osso, carrega a sensação por horas e até dias. A crônica pega a emoção do tombo sem fraturas. Pega a emoção banal da viagem de ônibus que vai da rua Tal 'a rua Tal e chega ao ponto final com as pessoas, os passageiros, vivos. A importância da crônica num jornal diário é, também, o fato simplório de que a crônica vende jornais. A crônica tem leitores. No dia em que a crônica não vender jornais, não tiver leitores, o cronista terá de vender batas na feira-livre do bairro.

 

Como ler uma crônica? ora, do jeito que a pessoa gosta de ler. De manhã, no café da manhã. Depois do almoço, se é que a pessoa almoçou. De noitinha, quando chega em casa depois do trabalho. A crônica é um texto ágil, rápido, lépido, fugaz. Um texto muito curto. Sua leitura não toma tempo de ninguém. Essa é uma das características da crônica: texto curto, leve, ágil. Sem muita enrolação. Mas um texto que toque as pessoas. Como um gesto de mágica. Nada mais que isso. O leitor lê a crônica como queira ler. Mas tem que ler tudo, do começo ao fim. Não é como um romance, que pode ser lido aos pedaços. Não é como um biografia. A crônica não tem capítulos. è um zás.

 

Acho que já expliquei, de certa forma, quem é o cronista.  O cronista é o observador das coisas minúsculas, e o observador das coisas imensas - enormes - que ninguém vê. Nelson Rodrigues, com fina ironia, costumava escrever que o carioca não enxerga o Pão de Açúcar. O morro está lá, na cara, e o carioca não o vê. Tão comum, isso. Certa ocasião mataram um assaltante aqui perto, no bairro. De manhã cedo, o moço estava lá, estirado na calçada. As pessoas olhavam de longe, curiosas. Dois policiais militares montavam guarda ao defunto. O cadáver estava coberto com jornais. O defunto, o cadáver, era assunto para a seção de polícia dos jornais. Mas os jornais que o cobriam, as notícias estampadas no jornais que o cobriam, seriam um tema para crônica. Do cadáver, sob os jornais, aparecia apenas a ponta do pé, cor de cera. Um único pé. Imóvel. Hirto. Pacificado pela morte definitiva. O pé do assaltante morto é que era a crônica.

 

Não sei se deu para entender. Tudo bem. Se você quiser, há um livro editado recentemente pela editora Scipione, de autoria da Flora Bender e da Ilka Laurito. Chama-se Crônica - história, teoria e prática. Procure esse livro. Vale a pena.

 

Abração e bom trabalho

Cordialmente

Lourenço Diaféria

1994

 
 
 
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