À toda gente
Poemas escritos entre março e setembro de 1970
 


Gente

Gente que vem, gente que vai;
Gente que passa, gente que ri,
Gente que chora.
Gente que ama, gente que é gente,
Gente que vive
E gente que existe.

Gente, gente, gente.

O mundo está cheio de gente
Que nem ao menos sabe como se faz para tornar-se gente.

Ah como é bom a gente saber-se gente,
Precisar de gente
Que precisa da gente também!



Março 1970

Quem Sou Eu Afinal?


Quem sou eu?
Por que querem saber quem sou?
Não que eu tenha medo de revelar-me,
Mas por que perguntam quem sou?
Acaso são pelos versos que escrevo?
Pelas minhas contradições ideológicas?
Ou será porque carrego ódio e amor no peito,
Ambos unidos?

Eu lhes direi quem sou quando chegar a hora.
Por enquanto, sou poeta.


27.03.1970

Ontem

Ontem,
Enquanto te beijava
E te afagava os seios,
Embalei-me em doces devaneios,
Ao sentir exalar de ti, o amor.
E continuei com minha boca na tua,
Respirando os sentimentos teus;
Teu peito arfando, a espádua nua,
Levaram-me a contemplar os céus;
E vi,
Que teus olhos brilhavam mais do que as estrelas;
E os meus, já nem pousavam nelas,
Para ficarem mirados em ti.
Foi quando então querida me olhaste,
Fazendo de mim,
Dos homens o mais forte,
E com olhar terno e apaixonado,
Disseste, entregando-me todo teu porte:
“Sou tua, meu amado!”


05.08.1969

Quanto mais você se reconhecer pecador,
Quanto mais você sofrer com sua falta de amor,
Quanto mais você tiver fome de perdão,
Mais redenção você receberá.
M.Quoist


Desculpe-me,
Desculpe-me grande amor de minha vida;
De joelhos imploro teu perdão;
Perdoe o muito que te faço sofrer;
Ontem, por exemplo, eu errei.
Mas acredite querida
Que eu errei sem querer.

Às vezes comigo eu penso,
Que o amor que sentes me é indigno,
Que não mereço teus carinhos,
Nem teus abraços, nem tuas mãos,
Nem teus lábios;
Pois em ti coloquei dúvidas terríveis
E já pensei que tu não me amavas.

A confiança em ti voltou redobrada.
Agora o amor que sinto inda é mais forte.
Nada me fará duvidar de ti.
Aquele tolo que até ontem te ofendia
Com tanta mágoa e ciúme, morreu.
Tenho certeza no que afirmo amor,
Pois a partir de ontem tornei a ser eu.



07.01.1970

Hoje

Hoje, quero que sintas os meus beijos
E os abraços que vou te dar;

Quero que sorrias, tão logo me vejas
E que perguntes: “como vai querido?”.

Quero teus olhos brilhando
E os cabelos soltos dançando;

Quero-te naquele vestido que tanto eu gosto.

Quero ouvir-te a todo instante dizer que me amas.

Quero-te bem junto a mim
E este será o dia mais feliz de minha vida.


31.01.1970

Existem duas verdades: a primeira, é inerente, que
adquirimos ao existir; a segunda, a Verdade Absoluta,
nós só adquirimos quando começamos a amar. O amor é,
pois, a verdade que torna os seres perfeitos.

Aparecestes em minha vida,
Transformando-a por completo;
Fizestes de mim um ser feliz;
Das mulheres, és para mim,
A mais linda e mais querida;
A todos falo de ti,
De nosso amor não faço segredo;
Nem necessário é que seja secreto.
E por a todos estar exposto,
É que ele corre riscos
E de perder-te tenho medo.
Mas o medo que me aflige
Não é o de que me traias
Pois em ti confio e muito;
Em teu amor eu acredito,
Assim como acredito em tudo o que vejo.
Creio em ti, creio em tuas mãos,
Creio em tua alma
Materializada em forma de beijo.


07.02.1970
O que eu gosto

São tantas as coisas que eu gosto em ti,
Que seria difícil enumerá-las.

Gosto de teu sorriso,
Tanto quanto gosto de ver uma manhã clara de sol;

Gosto dos teus olhos,
Tanto quanto gosto de ver as estrelas brilhando no céu;

Gosto quando franzes teu narizinho e me chamas de meu bem.

Gosto de tuas mãos que me fazem carinho;

Gosto dos teus lábios, doces, ternos, suaves,
Assim como uma brisa doce, terna e suave que vem do mar.

Gosto de tudo em ti,
Tanto quanto gosto de amar.


14.02.1970

Um Dia

Um dia, não muito longe por vir,
Em que tudo será poesia,
Em que tudo será belo,
Eu irei ao teu encontro
Levando nos olhos
Muito amor para ter ofertar.

Dar-te-ei todo o meu ser
Sublimado com o que de mais puro possuo.

Terei as mãos em forma de prece,
Nada direi, nada dirás;
Tudo será silêncio
Até o lindo momento,
Que com forte emoção,
Te pedirei em casamento.



15.03.1970

O Pescador de Estrelas

Saí a vagar pelo espaço,
Num barquinho à vela todo branco;
Andava por entre os astros
Com uma enorme rede na mão.

Passei por maravilhas mil
Num espaço tão grande, infinito.

Visitei todos os planetas,
De Marte a Vênus,
De Júpiter a Plutão.
Vi meteoros, vi cometas,
Astronaves a passar.

Vi a lua formosa brilhando,
Vi o sol luzes fogosas irradiando.

E fui invadindo o espaço
Até atingir as constelações,
Jogando a rede em todas elas
Para encher meu barquinho de alegria.

E após navegar bastante,
Já cansado e extasiado,
Voltei feliz à Terra,
Deixando no espaço tantas coisas belas.

Voltei, mas ansioso por revê-las,
Eu, um poeta apaixonado,
Que adora pescar estrelas.



23.03.1970

Nem Tudo é Amor

Nas ruas da cidade,
Espalhando o terror,
Vão os soldados armados.
O povo, assustado,
Aceita a ditadura em silêncio,
Está proibido de falar.
Lágrimas são o que restam ao povo acovardado.
Falta-lhe coragem e vontade para lutar.

Pequenos grupos isolados deram o alerta:
“A ditadura precisa acabar”.
Mas acabaram com os pequenos grupos.
Alguns pegaram em armas,
Mas os soldados, com mais armas,
Acabaram com eles.
E o povo, este coitado,
Continua subjugado.

Os generais seguem com sua política cancerosa,
Devorando todos lenta e lentamente.
O povo vai definhando.
Mas a mim este câncer não vence;
Podem me bater para que eu me cale,
Mas nada fará com que eu não pense.


19.03.1970

Os Meus Passos


Com meus passos lentos vou andando,
Pela estrada da vida vou errante;
Sigo só por esta estrada,
Lançado a um vai-vem constante,
E à própria sorte me entregando.

Com meus passos sem destino,
Sempre incerto e inseguro,
Abandono tudo o que é belo,
Tudo o que é puro,
Tudo quanto imagino.

Corpo marcado, rosto em agonia,
Alma doída num lamento,
Naquele instante eu não vivia,
Pois não sentia na pele
O frio, o calor ou o vento.

Descrente de tudo,
De Deus, da vida,
De meu corpo em amofino,
Sigo cabisbaixo e mudo,
Com meus passos lentos, sem destino.

Mas eis que numa curva da estrada,
Vejo Márcia, a mulher amada,
Livre das impurezas, tal como a imagino;
Ela, a mais perfeita das certezas,
Que dá aos meus passos um destino.


04.04.1970

26 de Maio

Neste dia, quisera fizesse o mais lindo céu;
Que estrelas formosas brilhassem à noite,
E que a lua saísse só para nós dois.

Neste dia, quisera os mais lindos versos te dar;
Das flores todas que uma só existisse,
E fosse tua, por mim oferecida.

Neste dia, quisera ser todo teu,
Deitar em teus braços e adormecer
Ouvindo-te dizer: eu te amo, eu te amo, eu te amo.

Neste dia, quisera tudo fosse belo;
E peço que nada faça com os anos,
Modificar tão grande e tão puro amor.



26.05.1970

Num Dia dos Namorados

Querida
Quanto eu quero,
Que dure
Este amor que eu sinto.
Ele é tão puro
E sincero,
Não vai morrer
Acredite,
Não minto!


12.06.1970

O Que é Te Amar

Te amar é um sofrer gostoso,
É um chorar sorrindo,
É querer-te perto a todo momento,
Para num gesto altivo e garboso,
Beijar-te e possuir teu corpo lindo,
Já que não me sais do pensamento.

Te amar é fazer da vida,
Todo um poema de ternura;
É ter paz e confiança,
É reencontrar a fé perdida,
É tornar a mente pura,
É voltar a ser criança.

Te amar é um sentir-se calmo,
É lutar com muita ira
Contra um mundo misterioso,
E derrotá-lo palmo a palmo;
É ver o que nunca antes se vira,
É um que de maravilhoso!


22.06.1970

Último Desejo

Amanhã, quando longe deste mundo eu estiver,
Quando eu não mais puder ver o sol iluminando os campos,
As flores nos jardins naturais aromando todo um mundo mal cheiroso,
Nem crianças correndo pelas ruas,
Como um dia, já longe, eu corri;

Amanhã, quando minha pena não mais escrever,
Quando meus lábios não mais sorrirem
E meu corpo estiver a caminho do pó,
Jogado num buraco qualquer da terra,
Servindo de alimento aos vermes,
Surgirão, talvez, alguns idiotas diante de minha sepultura
Para dizer que fui um grande homem,
Que fui bom e honesto.
E esses tolos,
Serão os mesmos, tenho certeza,
Que hoje me iludem com falsa amizade;
Que fingem amor.
Ah como eu gostaria de impedir isto!

Deixai-me pedir-te agora ó Deus,
Se é que existes:
Afastai de meu túmulo tais pessoas,
Pois eu já não estarei em condições de fazê-lo.
Permiti apenas que aqueles a quem eu amo
Chorem minha morte.
Mas fazei, enquanto vivo,
Que eu ame e seja amado pela criatura que amo,
Para que deste mundo eu não parta descontente.


11.07.1970

Este Mundo Angustiado

Hoje, com tudo mudado pelos anos,
Com homens e mulheres transformados,
Com um mundo todo confuso e angustiado,
Com jovens cantando liberdade,
Mas dentro da prisão do vício;
Hoje, que o amor, o puro e verdadeiro amor, está morto,
Calcado com os pés dos jovens,
Às vezes até cuspido para fora,
E que Sexus é o deus supremo
Do prazer e da felicidade,
E a quem todos se entregam
Adorando-o e praticando o “ato divino”;
Hoje, as ruas estão cheias de homossexuais.
Os homens já não são tão homens
Pois as mulheres já não os entendem
Ou não querem entendê-los.

E o mundo, outrora limpo e belo,
É agora nojento e vergonhoso.
E se os homens já não são homens como deveriam ser,
É porque, quase tão somente porque,
As mulheres não sabem mais,
Ou cansaram-se de ser mulheres.

E hoje, tudo está mudado;
Homens e mulheres estão transformados;
E vivemos em um mundo confuso e angustiado.


18.07.1970

Infância

Há muitas coisas para se lembrar;
Entretanto, uma não me sai da lembrança.
Já vai longe aquele tempo
Em que um dia eu fui criança.

Da bolinha de gude, do quadrado,
Do esconde-esconde, do pega ladrão,
Da vontade de ser soldado,
Do futebol, do roda pião.

Apesar de se bela esta fase de minha vida,
Pois tenho um amor a quem tanto amo e louvo,
Se eu pudesse, juro que iria
Começar tudo de novo!


20.07.1970

O Pão Nosso de Cada Dia

Seis horas da manhã:
Toca o despertador,
Levanta correndo,
Vai ao banheiro,
Escova os dentes,
Puxa a descarga,
Liga o chuveiro,
Toma o café,
Põe a gravata,
Acende o cigarro
E continua correndo.

Sete horas da manhã:
Entra no ônibus
Sempre apertado,
Trânsito ruim,
Fica sem troco
Olha um joelho
Lhe pisam no pé,
Engarrafamento à frente,
Chega atrasado,
Todo amassado,
Desce correndo
Continua, correndo
Correndo, correndo
Ufa!

Oito horas da manhã:
Bate o ponto,
Corre para a sala,
Começa escrever,
Começa somar,
Continua escrevendo,
Continua somando;
É o chefe quem chama,
O telefone que toca,
Precisa escrever,
Precisa somar,
Continua escrevendo,
Continua somando.

Meio-dia:
Se lava correndo,
Veste o paletó,
Bate o ponto,
Vai para a fila do elevador,
Acende o cigarro,
Dá um sorriso.
Doze e cinco:
O elevador não vem,
Joga o cigarro,
Diz palavrão.

Doze e dez:
Chega o elevador,
Vai entrar
Mas fica de fora,
Está lotado.
Desce as escadas
Sempre correndo;
Pega o ônibus,
O sol está forte,
Trânsito ruim,
Fica sem troco,
Desce correndo,
Continua correndo,
Almoça correndo,
Vai ao banheiro,
Escova os dentes,
Puxa a descarga,
Acende o cigarro,
Pega o ônibus,
Volta à cidade,
O calor está forte,
Fica sem troco,
Desce correndo,
A cidade está cheia,
Enfrenta a fila,
O elevador não vem,
Bate o ponto.

Duas da tarde:
Chegou atrasado,
Acende o cigarro,
Começa escrever,
Começa somar
Continua escrevendo,
Continua somando,
É o chefe quem chama,
O telefone que toca,
Buzinas na rua,
Continua escrevendo,
Continua somando,
O café não vem,
Acende o cigarro,
Chega o café,
Apaga o cigarro,
Toma o café,
Acende o cigarro,
O telefone que toca,
O chefe quem chama,
Precisa escrever,
Precisa somar,
O telefone não deixa.

São quase seis horas:
O chefe quem chama,
Atende correndo,
Continua escrevendo,
Continua somando,
Telefone tocando;
São mais de seis horas:
Sai correndo,
Vai ao banheiro,
Se lava correndo,
Bate o ponto,
Espera o elevador,
O elevador demora,
Chega à rua,
Começa a correr,
Vai para o ônibus,
A fila é grande,
Fica sem troco,
Olha um joelho,
Lhe pisam no pé,
O trânsito está ruim,
Desce do ônibus,
Acende o cigarro,
Continua correndo,
Não é mais homem,
Precisa correr,
Quer descansar,
Precisa dormir,
Para ir trabalhar,
Chega em casa,
Vai ao banheiro,
Abre o chuveiro,
Puxa a descarga,
Janta correndo,
Liga a tevê,
Só passa novela,
Vê os anúncios,
Abre o jornal,
Toma um café,
Acende o cigarro,
Fecha o jornal,
Apaga o cigarro,
Desliga a tevê,
Vai dormir,
Se despe correndo,
Vai para a cama.

Seis horas da manhã:
Toca o despertador...

Pra quê ?!?!?!?


20.07.1970

Eu ficaria feliz se todas as pessoas do mundo fossem como você; mas ficaria triste se você fosse como todas as pessoas do mundo.

Quando te falo de meu amor,
Se te pareço falso ou indeciso,
Não julgues minha conduta
Como ridícula ou até mesmo de mentira.

Pois se não for amor o que sinto,
Não posso crer que ele exista;
Em todos os momentos de um dia,
Meus pensamentos voltam-se para ti.

Penso em você de manhã, à noite ou à tarde,
Por isso, quando eu digo que te amo,
Pode acreditar sem medo,
Porque é verdade.


26.07.1970

Agora e Na Hora de Nossa Morte

O que será que me reserva o amanhã?
Todos fazem a mesma pergunta.
Uns acumulam capitais para uma garantia no futuro.
E passam a vida inteira guardando riquezas;
E a vida passa correndo, correndo, correndo.
Outros, vivem apenas o presente,
Talvez por não confiarem no futuro.
E vivem, vivem e vivem,
Sempre sem motivação para lutar por algo,
Um ideal, um amor.
Para estes a vida torna-se às vezes, repleta de monotonia.
E uns terceiros ainda vivem no passado,
Com um terrível medo de encarar o presente
Que lhes apresenta uma imagem perversa
E, quem sabe, até degradante.
Seus olhos estão voltados para trás
e não podem nem mesmo imaginar o dia de amanhã,
Pois não vivem hoje.
E o tempo passa, passa, passa.
As coisas mudam,
O mundo se transforma
E eles permanecem os mesmos,
Retraídos num passado distante.
E o mundo fica todo diverso,
Pois são tão poucos aqueles que unem
Passado, presente e futuro.
Apliquemos a experiência do passado,
Analisando os possíveis erros de outras gerações;
Redobremos nossas forças de hoje,
E, unidos, construiremos o mundo de amanhã,
Para que todos nós possamos dizer
Que sabemos como é o mundo de agora,
E como será na hora de nossa morte.


08.08.1970

Eu me considero poeta não pelo que escrevo, mas por tudo aquilo
que penso e pela maneira como encaro a vida.

Na Praça Júlio Mesquita,
O menino viu muitas mulheres sozinhas;

Na Praça Dom José Gaspar,
O menino viu muitos homens sozinhos;

De mãos dadas com seu pai,
O menino pergunta:

Papai,
Porque estes homens
Não vão conversar
Com aquelas mulheres?


09.08.1970

Mais vale saber-se correspondido pela mulher amada, que a
incerteza de possuir todas as mulheres do mundo.

Aos dois grandes amores de minha vida

Às vezes, parece-me que o mundo
A mim se desaba em tristeza;
Ao ver num canto do quarto,
Minha mãe calando o pranto,
Todas as coisas perdem o encanto,
Perdem a beleza.
Os meus olhos se enchem de lágrimas
E fico pensando no que fazer para ela sorrir.

Mamãe querida mamãe eu te amo;
Devo-te tudo o que sou;
O amor que recebo de ti
Faz com que eu possa amar outras pessoas.
Não chores mais mamãe,
Pense em mim e não chores mais.

Penso também em minha namorada,
Que às vezes chora também
Por não receber amor.
Márcia querida Márcia,
Eu te amo tanto
Que te darei amor eterno,
Te darei um lar;
És o motor que conduz minha vida,
E te prometo anjo querido,
Que nunca,
Nunca te farei chorar.


15.08.1970

E agora José?
Carlos Drumond de Andrade

Now,
Now that the end is coming;
Now that man made war,
Now that death killed life,
Now that liberty is over,
Now, I ask to everybody:
Are you happy now?

You did not make
Anything to finish with war,
With pain, with tyranny,
With racial discrimination.
While people were being killed
All over the world,
You did not make anything to help them.
And now you are crying.
These people only wanted
Food, love, friendship,
And you said no to everything.
And now,
That you have lost all liberty
You had before,
You cry.
But when I said
that it was necessary to catch,
You did not hear me.
And now,
You ask yourselves
If things one day
Will be better;
If one day
You will be free again;
But I say to you:
I do not believe more
In a peaceful world.
One day perhaps,
Who knows?


16.08.1970

Todos serão nossos amigos até o momento em que precisarmos deles.

Nós que nos amamos tanto,
E que fazemos da vida
Um poema de contentamento,
Sabemos ser felizes.

Jovens amantes que somos,
Onde quer que estejamos
Deixamos amor,
E ele sempre fica onde o pomos.


02.09.1970
Não sei se perceberam, mas...


Minha poesia é de revolta,
Fala da fome,
Fala da miséria.
Minha poesia é revolucionária,
Fala do ódio,
Fala da morte.
Minha poesia é de paz,
Fala de amor
Num mundo de guerra.

03.09.1970

Um Domingo no Estádio

Tarde de domingo, lá está João;
O estádio está lotado
E ele, apertado na multidão.

Foi ver seu time jogar;
Chegou bem cedo ao campo
Mas não arrumou lugar.

Seu time está perdendo
E João grita: Córintia, Córintia, Córintia.
João está com fome mas continua torcendo.

Pobre João, apostou tudo no desespero.
E grita: Córintia, Córintia, Córintia.
O Corinthians perdeu o jogo, João perdeu o dinheiro.

E João: essa não Córintia, essa não!
E volta para casa de cabeça baixa,
Murmurando: pão, pão, pão.


03.09.1970
Não se deve julgar um homem pelo que faz, mas pelo que pensa.

-Quem és tu homem? Que fazes assim tão maltrapilho? Por que bebes tanto?
Acaso a vida não te ensinou como ser gente? Quem és tu?

- Cristo.

-Estás louco? como ousas blasfemar assim? Vamos, dize-me quem és!

- Cristo.

- E por que te julgas Cristo?

- Por ouvir-te.


06.09.1970

O que mais me desagrada na verdade é quando ela é de mentira.

Desejo

Quero sentir tua pele fria,
Teu beijo quente,
O peito ardente,
A boca úmida.

Quero ouvir tua fala
Baixa, quase gemida;
Quero beijar teu rosto,
Tuas mãos, teu corpo enfim.
Quero teus olhos em lampejo,
E depois quero perder-me
E adormecer no devaneio de teus braços.


10.09.1970

A felicidade existe sim. O que não existe é tristeza,
e sim momentos tristes. Eu sei que isto passa.

Na solidão causada por tua ausência,
Se me rói o peito em fragmentos dolosos;
Meu corpo ávido de teu corpo
É consumido por uma enorme tristeza.

Meu cérebro deixa-se dominar
Por pensamentos estranhos;
As dúvidas atormentam-me,
As incertezas alucinam-me.

Quero-te perto
E tu manténs distância.
E sinto a morte percorrer meu corpo
Tomado por desejos.


16.09.1970

Os poetas sempre vêem a verdade primeiro que os outros.

Na noite fria de meus desencantos,
Perdido pelas ruas da cidade,
Procuro risos, encontro prantos,
Procuro poesia, encontro maldade.

Alma sequiosa de amor,
Ando em meio da gente,
Em cada rosto vejo uma dor,
E vejo ódio em cada mente.

Em meio a gente sofrida,
Qual pássaro sem norte,
Tento entender a vida,
Mas o que vejo é a morte.

Deste mundo de bondade escassa,
Quero partir sem que me enoje,
Pois correndo a vida passa,
Já eu sinto que ela me foge.

16.09.1970
Buscando Um Novo tema

Eu procurei na noite fria,
Nas ruas, nos bares, nas esquinas;
Eu procurei nas boates, nos salões.
Eu procurei nos homens,
Negros ou brancos;
Eu procurei ns mulheres,
Direitas ou não;
Eu procurei nas crianças,
Eu procurei nos animais,
Eu procurei na vida,
Bela e cruel,
Eu procurei no mundo,
De paz ou de guerra;
Eu procurei em Deus;
Eu procurei na verdade,
Eu procurei na fantasia,
Eu procurei na natureza,
No sol, na lua, nas estrelas,
No mar, nas flores.
Eu procurei em mim.
Em tudo procurei um tema
Sem contudo encontrá-lo.
Tudo que faço,
Tudo que escrevo,
Meu tema é você.


27.09.1970

Desabafo

Eu preciso entender que tudo passa com o tempo.
Nada é eterno. Ainda vou ter novos amigos para substituírem
os que já passaram. Em um ano que se passou, novos amigos,
novas desilusões. É, realmente eu preciso entender que tudo
passa com o tempo, nada é eterno. O mundo mudou bastante,
os homens já não são os mesmos, o amor tomou novas formas.
Já não sei a que devo apegar-me. Talvez a mim mesmo, não sei.
Assim como o mundo, como os homens, os sentimentos também mudaram.
Por que será que eu não vejo isto?
Não creio mais na comunicação de minha poesia.
Já não vejo razão para continuar escrevendo.
Mas não vou parar não, pois estaria, também, parando de viver.
Acima de tudo o que existe, amo aquilo que escrevo.
Pode não ter importância para quem lê, mas tem para mim, isto é o que importa.
Nos meus versos estão todos os momentos de minha vida, os maus ou belos momentos.
Neste círculo vicioso que é a vida, onde as coisas sempre passam,
sempre tornam ao mesmo ponto, chegará o dia, talvez, em que isto
que faço, poesia, seja importante para algumas pessoas.
Espero viver para ver.


WebDesigner Isolda Nunes
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