CENTRAL  DE  QUADRINHOS  BRASILEIROS - Fazendo história 2 

VELTA NA PRAIA DE CABO BRANCO, EM JOÃO PESSOA, PB: Desenho do mestre Emir Ribeiro, datado de 1999, e extraído da apostila "Emir Ribeiro te ensina a desenhar", publicada pela Editora Escala.

Nos desenhos à direita, pela sequência, os dois primeiros são de Elton Brunetti, coloridos por Gianfranco Spinelli, e fazem parte da HQ "Velta, Crânio e Redentor contra o Maníaco do Parque."

O 3º, em formato horizontal, de Emir, foi também retirado da apostila da Editora Escala.

 VELTA,  A MUSA  DOS  QUADRINHOS  BRASILEIROS
 (Por Rod Gonzalez)

  Gosto de super-heróis desde quando eu ainda era apenas um bebê. Antes de aprender a ler, já gostava. Meu pai tinha coleções de Fantasma, Xuxá e Pequeno Sheriff, e passou esse gosto para mim. Fui crescendo, e por influências provavelmente dos desenhos animados, passei a curtir gibis Marvel e DC, mas não fiquei só nisso. Curtia gibi mesmo, muito. Então, traçava tudo que vinha. Lembro que gostava bastante do Zorro, que depois descobri que era feito pelos Brasileiros Seabra, Franco de Rosa e Zalla (este último, Brasileiro de coração); e dos heróis Hanna -Barbera, também feitos por aqui (pelo Zalla). Na TV, meus programas preferidos eram seriados japoneses, Ultraseven, Robô-Gigante, Invasores de Espaço e Spectremen, que eu também colecionava os gibis, mais uma vez material feito por Brasileiros da equipe do Homobono.

Também gostava dos seriados com as heroínas gostosas Mulher-Maravilha e Poderosa Ísis. E quando comecei a desenhar, misturei todas essas influências. Recordo-me que de maneira consciente, algo difícil de explicar, mas já tinha esse conceito Brasileirista de antropofagismo cultural no meu universo de personagens. Isso com apenas QUATRO anos de idade.
Lembro que com uns 6 anos vi o gibi do Chiclete com Banana e o do Geraldão na banca. Pedi para meu pai comprar e o cara da banca disse: "esse gibi não é pra crianças! ". Mas meu pai comprou mesmo assim, e acabou ele gostando e se tornando colecionador do negócio! Minha primeira Playboy foi ganha aos 7 anos. A primeira buceta da minha vida, inesquecível, era (com todo respeito e admiração) a muito bela (e peluda) da Lucia Veríssimo! Eu ia dormir com ela embaixo do braço. Foi a principal referência da xana da Thutharella. Inseri essas influências todas nos meus personagens, e desde criança que desenho hq de super-herói misturada com mulher pelada e sexo!  
Com uns 10 anos descobri uma gibiteca, a "Gibiteca Henfil", e lá pude ter contato com todas as grandes obras da hq mundial. Nessa época, já era colecionador, herdando esse gosto do meu pai, além dos gibis dele.

Não jogava sequer um gibi meu fora, e nessa época já tinha uma coleção invejável. Através da tal gibiteca conheci a história mundial dos Quadrinhos, a fundo mesmo, e nessa época não me importava em ler material estrangeiro, colecionando tudo de Marvel, Dc, Bonelli, sem dó. Se naquele tempo existisse internet, possivelmente eu estaria perdendo o meu tempo discutindo detalhes obscuros dos super-heróis insignificantes de tais editoras com os marvetinhos bilolados e DesCerebrados, e provavelmente com os fummetados também, desses que a gente encontra aos montes espalhados por fóruns de discussão da internet. Sorte que não existia nada disso, e eu passava dias bastante agradáveis lendo gibis na gibiteca, conhecendo de tudo um pouco sobre esse mundo louco da Arte Seqüencial!

Um dia, essa biblioteca de gibis se mudou para bem longe da minha casa, mas sua missão estava cumprida. Em termos de HQ ela era completa. Tudo que se imaginar, tinha lá. Fora os exemplares que eu ganhava de amigos. A partir dessa gibiteca também passei a procurar muitos quadrinhos pelo centro da cidade, e foi por lá que também eu encontrei tudo quanto é tipo de gibi.

E foi andando pelas ruas do centro de São Paulo que certa vez encontrei um oásis para qualquer amante do gibi. Ficava numa travessa da Amaral Gurgel na Santa Cecília. Imagina isso, QUALQUER gibi por 1 real, mas qualquer mesmo, de qualquer época ou formato! E tinha de tudo por lá, coleção da Ebal, Bloch, do Grilo, Gibi Semanal, terror, e tudo mais que imaginar, as quais comprei nessa base de preço. Eu fazia a festa nesse sebão, que depois mudou de dono, e esse novo fazia os preços bem diferentes - era o contrário, muito careiro e um tipo bem rabugento. Às vezes passo por lá e o sujeito continua no mesmo local, fazendo cara feia até hoje.

O outro pelo que diziam era viciado em drogas e vendia os gibis barato só pra saciar seu vício. Acabou na falência mesmo.

Aí, chegou a adolescência trazendo todas as motivações típicas da idade, e eu me deixei levar pelas minhas aspirações. Sexo, balada, rock'n'roll e até uma dose de delinquência juvenil fizeram parte dessa época. Fico puto quando dizem que eu sou isso e isso, ou que li o livro tal para adquirir minha ideologia. Nunca li nada na intenção de decorar um discurso pronto, fiz minha cabeça vivendo intensamente o mundo, a vida, e é assim que tiro as minhas próprias conclusões! Os gibis eu esqueci que existiam por mais de 10 anos. E a coleção que eu tinha subiu! Virou moto, guitarra, presente para amigos, amigas, namoradas e até carro. Já tive muito gibi, muito mesmo! Até um trabalho de macumba já paguei com gibi, para uma mãe-de-santo que colecionava!

Sempre fui questionador, e essa minha postura de boicote-cultural ao Estados Unidos da América do Norte surgiu antes do que nos quadrinhos, na música! Porque me revoltava (e ainda incomoda) ver a nossa juventude idolatrando músicos estrangeiros, e escanteando ou ignorando nossos talentos musicais, muitos superiores aos de lá de fora. Quantos cantores, compositores ou músicos alentosos eu vi deixando a carreira de lado ou se prestando a fazer "covers" de músicas estrangeiras, de sonoridade anglo-saxônica para ser mais preciso, apenas para poderem sobreviver fazendo o que gostam. O mesmo que eu descobri que acontece com quadrinhistas brasileiros, por melhores que sejam são esquecidos e criticados, ou vão trabalhar para estrangeiros. Sou fiel no meu compromisso de divulgar e estimular um boicote-cultural aos enlatados norte-americanos, porque SEI que essa é não só a solução para os Quadrinhos, mas solução para o Brasil e para o mundo! Impedindo eles de dominarem culturalmente, a força opressora deles acaba. Porque a força deles vem do fato de serem aceitos, quando não idolatrados !
Quando minha filha nasceu, sosseguei um pouco da música, na intenção de curtir e educar a menina, foi quando através da Velta redescobri os Quadrinhos. Não só na qualidade de fã e leitor, mas mais uma vez como autor. Mantive no meu trabalho com História em Quadrinhos a mesma posição que já tinha com relação a música, filmes, etc, e procuro fazer super-heróis bem brasileiros com passagens por nossas terras, seguindo o exemplo da Velta.

ADORO a Velta mesmo. Sou amigo do Emir Ribeiro por acaso, ou por destino. Curto a poderosa loira bem antes de conhecê-lo, e quem me trouxe de volta para os quadrinhos foi ela.
O Tito Augusto Tavares disse no fotolog dele http://fotolog.terra.com.br/titoaugusto:8 que era mais fã da Velta do que eu, porque conheceu ela antes. Pode até ser que tenha mais gibis da Velta do que eu, mas ter conhecido antes? Duvido!
Conheço Velta desde guri, quando ouvi falar dela numa seção de cartas da revista Hulk em 1986, e já fiquei com aquele nome marcado na cabeça para sempre, querendo conhecer aquela heroína brasileira. Apesar de ser apenas uma criança, já me perguntava por que aqui no Brasil não tinhamos nossos próprios super-heróis!
Mas sem disputar com Tito, o Marconi Lapada já disse que sou o fã número 1 da Velta. Independente, isso tudo é apenas brincadeira entre amigos. Porque eu não disputo nem com o Tito e nem com ninguém esse título, já que para mim (e para nós, né, Tito?) quanto mais fãs da Velta existirem, melhor será, para que finalmente possamos ter suas aventuras produzidas regularmente! 
Quero que vocês saibam a origem das minhas idéias. Tenho experiências de vida, da favela e da mansão, do camarote e da sarjeta, o que não me faz mais ou melhor do que ninguém. Apenas não tenho vergonha de contar um pouco da minha vida e lutar pelo que eu acredito, e quem sabe, conseguir mais aliados! A compreensão disso tudo é fundamental para que se adote uma nova postura para com a vida e o país. Vai além de Quadrinhos. É exercer cidadania, e nada tem a ver com um nacionalismo tacanho que alguns supõem que eu defenda.
Quanto aos Quadrinhos, acho que já deu pra ver que não sou nenhum leigo no assunto, muito pelo contrário.

 

 

 

 

 

 

 



A Velta me agrada porque ela tem tudo o que eu procuro numa História em Quadrinhos. Mistura todos os gêneros que eu gosto. É de super-heróis (meu gênero preferido), possuindo um vasto universo que se expande desde os anos 70; com uma influência de outras que durante um tempo foram minhas paixões: as heroínas européias (sempre imaginei Valentina ou Octobriana inseridas num universo de super-heróis). Discute comportamento e temas atuais, tais quais os quadrinhos dos Irmão Hernandez e de Jayme Martim, que antes eram de minha apreciação (para quem não conhece os primeiros são chicanos, norte-americanos filhos de mexicanos, e o outro é espanhol). Lembrando que na Velta o enfoque não costuma ser apenas o do submundo, como costumam retratar os autores estrangeiros citados, já que os quadrinhos dos Hernandez e Jayme Martim tem como personagens principais na maioria das vezes mulheres marginais.

E a Velta é uma menina de família (o que torna inclusive a aceitação dela mais fácil em certos meios mais conservadores da sociedade ), mas existe a abordagem da marginalidade através da participação de personagens coadjuvantes. E outra coisa que me atraiu pra Velta, não poderia deixar de faltar, é mulher semi-nua, é claro, que eu gosto desde guri e acho que não faz mal nenhum para petizada, apesar de Velta sempre ter sido direcionada para um público adulto.

Além disso, vejo no Emir Ribeiro quem eu teria sido se não tivesse interrompido minha produção de quadrinhos na adolescência. Se tivesse continuado desenhando meus personagens de infância continuamente, não tivesse parado de praticar. Saberia desenhar as minhas próprias histórias, o que facilitaria muito a confecção das minhas hqs. Mas me apaixonei pela música, deixei os quadrinhos de lado! Por mais que eu goste de tocar, agora a situação é diferente, meus personagens despertaram de um sono profundo de mais de uma década no fundo da baú, resgatados por uma certa loira (Velta). E os Quadrinhos voltaram a fazer parte da minha vida! Logo mais, meus filhos de papel vão estar vivendo suas aventuras desenhadas no Universo dos Super-Heróis Brasileiros, que quer muitos também queiram e outros combatam, já é
uma realidade!!

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