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Carta ao meu
amor...
Sérgio
Perdoa-me se
escrevo estas coisas, perdoa...
Nem sei bem o que escrevo, estou escrevendo à
toa
estas linhas que lês, esta filosofia barata,
eu a pensei já a luz do dia,
que está clareando o céu e desenhando as ruas,
cheguei, sentei-me aqui e reli mensagens tuas...

Que amargura
interior, que imensa saudade tua
invadiu-me! E por mais que pareça estranho,
descobri por mim mesma um desprezo tamanho
que vem de ti, e que os meus olhos choraram, bem
sei porque...
É tarde...e é muito cedo...o dia começa a
nascer,
é uma difusa, e extensa claridade,
como uma olheira roxa a envolver a cidade que
dorme,
ouvem-se ao longe, passos, raramente,
que ficam muito tempo no ouvido da gente
e se perdem distante...e mais longe...e mais
longe...
A noite é agora assim como um capuz de monge
sobre a face pálida do dia, esbranquiçando o
espaço,
há uma funda poesia ao redor, no silêncio do
meu quarto...

E eu penso que
nesta hora
tu dormes, e antevendo o chegar da aurora,
invejo o sol e teu amor que vão te despertar...
Como deves ser lindo a dormir e a sonhar!
Fecho os olhos...já sinto as pálpebras
pesadas,
mal vejo no papel as letras rabiscadas,
a mão que as vai traçando, vacila, falseia,
como uma bêbada que andasse a pisar sobre a
areia...

E nem queiras
saber porque te escrevo, eu mesma
não saberia dizer...faço esta carta à toa,
e lendo-a, pensarás talvez que enlouqueci...
Que seja! Fiquei louca de pensar em ti!
Se chegasses aqui, por milagre ou encanto,
haverias de me ver (talvez cheio de espanto),
ajoelhar-me aos teus pés...e pedir-te somente
que pousasses a mão na minha face ardente...
Nada mais...nada mais ousaria pedir,
eu que agora queria esquecer e dormir...

Pensa o que
quiseres, pensa que estou louca,
mas não me queiras mal.
Cheguei...sentei-me aqui, alma abatida e
cansada,
e abrindo o micro por acaso,
reli tuas mensagens, aquelas que eu releio
chorando, a te adorar,
e a pensar que me odeias...
Perdoa se te escrevo, esta é uma carta morta,
bem sei que nada há mais entre nós dois...que
importa
que eu te fale ainda? É um desabafo triste,
já que tudo levaste...e nada mais existe...

É tarde...o
dia chega...a madrugada é alta...
Ah meu amor! Se pudesses ver como me fazes
falta!

Fernanda

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