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A Chapinha Premiada

O fato a seguir descrito , aconteceu no inicio de um inverno por volta do ano de 1963 quando eu quem vos escreve ausentei-me momentaneamente de minha firma de desinfestações de insetos Insectkill Produtos Químicos, com sede nos extintos prédios de n. 53/55 da rua dos Arcos para ir ao armazém da esquina com rua do Lavradio saborear a minha Coca-Cola matinal, ao retornar topei com um cartaz publicitário colado em um pilar de entrada do estabelecimento , divulgando que uma grande multinacional titulo promocional premiava com um carro 0 km quem de direito encontrasse estampado a figura de um Volkswagem no fundo da tampinha do delicioso refrigerante fabricado por eles . ( entre a cortiça e a chapinha).

Aquele cartaz despertou-me tanto a atenção , que durante o retorno a minha empresa fui meditando sobre o assunto, imaginei primeiro que o fabricante poderia no dar prêmio algum , uma vez que todos ns consumidores sabíam que raramente alguém perderia tempo conferindo sorteios, se com o jogo do bicho não sabemos nem onde é feito o sorteio, o que pensar dos outros jogos? Mas mesmo assim se no final houvesse ou não ganhadores em nada mudaria a vida das pessoas e muito menos o bom andamento da multinacional organizadora do evento, pois o importante para eles era que naquele inverno atingissem um novo recorde de vendas, fazendo ver aos patrões norte americanos que os executivos daqui são tão ou mais criativos que os de lá .

Como ninguém sabia a aparência do desenho original, fiquei imaginando se um gaiato colasse na chapinha um desenho qualquer, qual seria o parecer dum perito criminal ? adiantei-me mais, imaginei na hipotese do outro alguém , inocentemente viesse a reclamar o prêmio com uma chapinha (*) falsa ? ... qual seria o procedimento do fabricante para contornar esta delicada situação - afinal , ainda hoje é muito natural o repasse de bilhetes premiados - infelizmente para mim e para voces essas serão respostas sem soluções que ficarão para a eternidade.

Chegando a empresa , comodamente sentei-me na poltrona junto a mesa de trabalho( no inverno era costume dos insetos sumirem de modo que no havia mesmo trabalho algum ) e tirando do bolso a minha chapinha , calmamente com a ponta de um clipes fui removendo a cortiça ( naquele tempo usavam uma película de cortiça colada entre a tampa e o frasco servindo como junta ou vedante )e ao deslocar a cortiça confirmei que segundo minha estimativa, eu como as de milhares de outras pessoas, não teríamos a mínima chance de acertar tal prêmio e muito saber como era o desenho da chapinha premiada.

Estes pensamentos na medida que evoluiam eliminando as impossibilidades tornavam cada vez mais tentador a posiblidade de eu aceitar tal desafio, qual seja, inserir numa chapinha uma versão qualquer da figura do automóvel prometido como PREMIO.

Seria desnecessário descrever aqui a técnica utilizada no desenho, mas de qualquer forma a exporei rapidamente , portanto quem quiser saber é só pular o parágrafo , e quem não se interessar é só ler todos os parágrafos abaixos.

Materiais.

Papeis da embalagem de um maço de cigarros Holliwood, (diz-se Roliude)

uma lente de aumento 3- um tubo de Araldite

3 - uma pena de caneta nanquim.

4 - uma pequena tesoura.

5 - uma pinça.

A técnica

Primeiramente com a pena seca duma caneta e com a ajuda da lupa , arranhei um cromo antioxidante muito comum no aço das chapinhas. Paralelamente ao perímetro inferior da mesma até formar um dístico inseri as palavras " Ao feliz contemplado", de modo que ficou reservado ainda espaço no centro para a silhueta da corroceria do carro , a qual foi recortada do papel vermelho "rubro" do maço de cigarros e posteriormente colado ao fundo com uma fina camada de cola tal qual fazemos nos computadores hoje em dia, em segundo plano usando o papel prateado recortei e colei os cromados, a antena e as calotas, sem esquecer a pestana do farol e para-choques também cromados.

Tudo isso foi colado parte a parte com precisão milimétrica dentro da chapinha a qual posteriormente recebeu uma grossa camada de verniz grosso conseguido com a cola Araldite " incolor a prova d'água ", de modo que se alguém duvidasse e esfregasse fortemente a unha ou outro objeto pontudo, muito dificilmente danificaria sequer o brilho do desenho alli estampado.

Ficou perfeito, chegava a reluzir , parecia que o carro era real e que a tampinha havia sedo mesmo confeccionada em uma fabrica do primeiro mundo ,...e finalmente o toque de mestre ! ....coloquei sobre a arte a junta de cortiça .

Após este extenuante trabalho , eu e o operador das maquinas o "Humberto" fomos ao bar do Seu Manuel tomar umas Coca-Colas. Enquanto saboreávamos do delicioso refrigerante, disfarçadamente troquei as chapinhas, isso é, peguei as original e no lugar deixei a clonada . Quando íamos sair, o Seu Manuel, muito educadamente nos pergunta:

-No vaes ver ? ... Nâo vaes conferire se tem premio na chapinha ?.

Com essa resposta, parecia até que as coisas pediam para se encaixar, ainda meio engasgado com o susto e já com vontade de rir tomei fôlego e respondi bruscamente como se eu fosse um destes indivíduos revoltados com tudo.

- Isto tudo conversa fiada, não passa de conversa pra boi dormir, isso é premio para os "trouxas".

Seu Manuel, que ia com a ponta da faca retirando a cortiça já exclamava, repetindo as minhas palavras.

-Tens razão isto para "enganare" os trouxas , isso no d prêmio nenhum mesmo.

Ao deparar-se com a imagem acima ( reprodução fiel do desenho falso ) , podem ter uma idéia do contentamento não demonstrado no ato da retirada das cortiças.

Ato continuo, de imediato o portuga joga a tampinha premiada no chão, mas na parte de dentro do balcão.

Saimos calmamente do boteco, deixando o Seu Manuel totalmente livre e a vontade para se arrepender da esperteza devolvendo-nos a chapinha ou se preferir reclamar seus direitos junto ao fabricante.

Eu e o Humberto nos postamos no outro lado da rua junto ao armazem da Fernanda para acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Não durou 10 minutos , quando subitamente seu Manuel rompe porta a fora de paletó e gravata. O homem ficou momentaneamente parado encostado a coiceira, parecia que raciocinava sobre o lance e enquanto ele permanecia ali congelado, eu , tentando adiantar os acontecimentos comentei com Humberto: .

_ Agora , ele vai nos ver aqui e raciocinar que é muita moleza acertar essa e com certeza vai nos devolver a chapinha.

- Seu Wilson ( meu nome ), deixa de ser "bobo", duvido muito que lhe devolva a chapinha .

Dito é feito, asssim que o Humberto acabava de professar, o seu Manuel transpõe de vez a velha soleira brunida pelo passar e o passar do tempo deixando de vez o estabelecimento aos cuidados da cozinheira ( procedimento incomum da classe ) tomando rumo da rua do Lavradio e de lá em direção a do Senado até o perdermos de vista.

Quando e resto do pessoal da fabrica souberam da historia chegaram ( mos ) a sentir cãibras nos músculos da barriga de tanto rirem .

Como voce pode notar, pelo menos teoricamente não existem charlatões e muito menos pessoas honestas, tudo resume-se numa questão de oportunismo. Pode parecer cômico, contudo é o prejuízo financeiro ou outro, gerado por ocasião de uma troca recíproca de gentilezas entre charlatões é que diferenciam o charlatão do charlatão. Tanto o bilhete como a chapinha premiada são formas de transferência de culpa entre o charlatões que torna o charlatão final imune a qualquer acusação do charlatão verdadeiro (mal caráter) normalmente tratado como a pobre vítima que adquiriu por apenas vinte, o bilhete de mil contos já premiado.

E foi assim que anos depois, já no Bairro do engenho novo o Zé mão de Porco repetiu a façanha de forma bem diferente, mas isso é historia para depois dum modo mais engraçado, infelizmente não dá para emendar esses dois fatos agora. Mas continuemos com outro tema muito interessante , a fraude na Historia da ciencia no Mundo.

Aviso;

É indispensavel que tenha calma e que teu espirito esteja preparado para abandonar essa dimensão,...portanto continue com calma e vai apertando o mause nessa mandala , o círculo branco inscrito numa quadra logo abaixo e tenha fé que suas mãos o conduzirá em segurança até meus dominios.

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