Prefácio.

Pode ser oneroso, contudo é o prejuízo financeiro ou outro, gerado por ocasião de uma troca recíproca de gentilezas entre charlatões, que diferenciam o charlatão oportunista do charlatão profissional. Tanto um bilhete premiado como uma simples chapinha estampada são formas de transferência de culpa entre charlatões, que torna o charlatão final imune a qualquer acusação do charlatão babaca, normalmente tratado como a pobre vítima que adquiriu por apenas vinte, o bilhete de mil já premiado.

O Posto Chafariz.

Nos meados dos anos sessenta, surge no eternamente falido bairro do Engenho Novo, (Rj) um novo posto de combustível. O empreendimento denominado, Posto Chafariz, que situa-se ainda hoje no cruzamento da Av. Marechal Rondon com a rua Gregório Neves, no qual eram sócios, o industrial de sorvetes Torjal, o já falecido filho do empresário de jogos Charret e um terceiro membro representativo grupo (da parte do Piruinha) chamado Miro o qual respondia pela gerência do negócio, funcionaria noite e dia e além do abastecimento de veículos de gasolina, tinha como meta explorar também um pequeno comércio de conveniências voltado aos moradores da região, idéia muito avançada para a época.

Lembro-me desses detalhes por que além de ter emprestado ao sócio Torjal a quantia em dinheiro suficiente para encher os três reservatórios de combustível, o primeiro veículo a abastecer "durante a inauguração" foi a minha "Chrysler New York modelo 1956" nessa da foto acima. Gostaram?? (Não confundir com o Simca Chambord montado no Brasil ). Situações essas que de certa certa forma contribuíram para o sucesso da inauguração. (Não se preocupem, eles me pagaram).

Acho que foi desse modo que passei a freqüentar o local, que logo transformou-se num ponto de encontro superior, em número e qualidade, ao salão de sinuca anexo ao Bar Carioca na rua Barão do Bom Retiro.

Assim como eu, muitas "personalidades" que se identificam com o bairro do Engenho Novo, passaram a freqüentar o posto Chafariz como por exemplo ;

O (+) Paulo Maluco que permutava carro por feijão,

O crioulo Sarnabi que tambem se chamava Paulo mas constantemente era preso pela polica por pilotar lambreta sorrindo,

O (+) filho do dono do posto o Paulo Charrete que só ganhava no carteado,

O Wilson Carvoeiro que era só sujo de carvão mas só não era mecanico,

O Thiago que abandonou o colégio militar e foi ser mecanico com a minha caixa de ferramentas na rua Allan Kardec.

Os irmãos Dalmos filhos do almirante do mesmo sobrenome.

A Letícia que todos a conheciam como Claudinha mas que hoje possui uma danceteria em Hamburg (Alemanha).

O Joaquim conhecido como Quim que não deixa o presidente do Vasco roubar.

Complementando essa leva de freqüentadores e moradores que naturalmente ali iam afluindo, surgiram também as figuras proeminentes, como o radialista e precursor das pegadinhas Wilson Mussauer dono do Karmangia que constantemente era solicitado para intervir radiofonicamente nos assuntos gerais do posto e ao lado dele outros mitos, como a figura do negão Zé Mão de Porco não proeminnte mas sim proveniente (provavelmente) dos alicerces do posto, já que não possuía carro, família e nem por ali morava.

Contudo entre todos, foi esse ultimo que logo conquistou a amizade e confiança de todos freqüentadores, tanto que passou a ser uma parte integrante do posto Chafariz e como não tinha moradia mesmo, desfrutava das dependências do estabelecimento que funcionava tanto de dia como a noite.

A chapinha premiada do Zé Mão de Porco.

Já próximos aos anos 70, devido ao golpe militar, passávamos por uma penúria muito grande e como é comum nessas ocasiões, as grandes empresas fazerem propagandas milionárias para angariar fundos e numa dessas, houve uma repetição do prêmio Coca-Cola ocorrido anos antes ao qual eu já possuía algum domínio em 1963, visto que por forças de minha imaginação ter sido impelido a estampar a minha versão da figura de um automóvel no fundo da chapinha de coca-cola e no lugar do verdadeiro prêmio.

Como pouca coisa mudou, resolvi recriar a façanha de 63 na qual, eu mesmo, havia premiado o dono de um botequim na rua dos Arcos com relativo sucesso. (já que ele nunca me contou se a Coca-Cola "manteve ou não" palavra.)

Sempre gostei de brincar, mas transferir um bilhete premiado ou montar um conto do paco é diferente, além disso essa nunca seria a minha intenção. Talvez por isso que naquele dia encontrei uma certa dificuldade de repetir a façanha de 1963 e mesmo que a minha nova versão da chapinha fosse perfeita e a prova de qualquer fraude, as condições agora eram outras e não havia em quem aplicar o golpe.

Depois de muito pensar sobre essa pegadinha, já era noite quando resolvi desistir, foi quando pedi ao Zé Mão de Porco que segurasse num canto da geladeira, a coca-cola com a tampa premiada, para que no outro dia resolvesse o que fazer.

Na manhã seguinte, não deu outra, fui informado que uma certa pessoa, queria muito conversar comigo, imaginei logo que o Zé Mão de Porco poderia me dizer o que se tratava, já que foi ele o único que conhecia o canto na geladeira onde estava a garrafa premiada, mas antes de falar com ele, fui sabendo com outras pessoas que houve uma festa no prédio ao lado do posto e que de algum modo o morador foi premiado, inclusive um dos sócios do posto queria urgentemente saber se eu tinha algo a ver com prêmio ou se a chapinha era a verdadeira mesmo.

Fiquei sem saber o que dizer mas por precaução evitei reabastecer durante algum tempo até estar com o Zé Mão de Porco e saber detalhadamente o que houve.

Uma semana depois com tudo já amornado, foi que encontrei o Zé Mão de Porco e só assim pude conhecer os detalhes.

Não deu outra coisa, na ocasião o Zé alimentou uma troca de gentilezas entre ele e o dono da festa na qual resultou num conflito de interesses muito interessante que merece ser incluso nos anais dessa nobre arte de charlatanear devido ao fato do "Zé Mão de Porco" contornar a situação de formas até bem diplomáticas até o ultimo instante.

Segundo o Zé, a pessoa que festejava o aniversário, encomendou ma lojinha do posto, uma leva de refrigerantes e como não havia ninguém para entregar, pediu ao Zé para entregar os refrigerantes. Lá chegando, o dono da festa teve a idéia de também contrata-lo para abrir as garrafas e ir servindo nos copos, em troca, daria ao negão a remota possibilidade do prêmio, de modo que ficou subentendido que se não houvesse premio algum o negão voltaria para casa, quero dizer ao posto de barriga vazia mas com as mãos cheias de chapinhas de coca-cola.

Foi nessa justa oferta que o Zé Mão de Porco teve a presença de voltar a geladeira do posto e incluir junto as demais a coca-cola com a minha versão da chapinha premiada. Vejam!

Aviso importante; Nunca faça você mesmo .

Mas se quer saber como são feitas essas chapinhas clique na figura.

O dono da festa, ao saber do premio e ver o desenho acima estampado no verso da chapinha justo nas mãos do Zé Mão de Porco, evidentemente arrependido da proposta, na intenção de reaver a chapinha passou a usar de vários argumentos, para comover o negão no sentido de se desinteressar da chapinha.

A partir dessa, o negão usado para abrir as coca-colas, passou a ser parte da família do aniversariante de modo que a festinha que deveria acabar às onze, varou noite adentro com o Zé sentado a cabeceira da mesa sendo servido como um rei pelo dono da festa e só mesmo as palavras do próprio Zé poderia transmitir o grau de bajulação usado no estranho processo de reversão das gentilezas "... e eu só lá nos comicibebise..." .

No final e já de barriga cheia o Zé simplesmente explicou ao dono da festa, que era amigo de um cara que costumava a desenhar essas coisas nas chapinhas, e se ele quizesse, poderia ficar com a chapinha premiada que depois pediria outra pra mim.

Apesar de usar muita psicologia, até que no final o negão arrematou muito bem, dando a entender que chapinhas premiadas eram muito comuns o que contribuiu para diminuir o conflito de interesses da pobre vitima, haja visto ter passado o resto da noite alimentando a sua própria pegadinha.

Como viram, na vida real, não existem charlatões e muito menos pessoas honestas, tudo resume-se numa questão de sobrevivência e oportunismo.

Nota da Redação ;Todos os personagens aqui citados não são de ficção mas sim verdadeiros. Os quais hoje, são responsáveis diretos pela formação da estrutura cultural do bairro Engenho Novo , são eles que respondem pela identidade do local e de certa forma são de interesse antropologico já que constantemente são usados como exemplos de honestidade e trabalho, nesse sentido, caso alguem lembrar de outros integrantes desse grupo avisem aqui ao Thiago para que o incluam AKI nessa lista única, de modo fechar logo esse pacote e entrega-lo na delegacia mais próxima.

Retificações:

Face ao grande número de pessoas que não eram freqüentadores do posto Chafariz, mas por outros motivos pertencerem ao bairro nessa mesma época, é natural que se sintam prejudicados por seus nomes não figuram na relação e já que outros freqüentadores não dedurados no listão reivindicam o mesmo direito, diante disso a redação abre alguns precedentes, não importando mais se eram cúmplices ou não.

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O Ferrari que lia livros com capas trocadas e conteudos misturados sem saber. (+)

O Gigante eletricista, que trocava a fiação do meu carro em pé e sob o painel de instrumentos.

O Zé Rossi que inventou o sistema em série para recomposição de suspensões danificadas. (+)

Chico Gordo que deixou de beber para continuar gordo e só ficar chato.

Antonio filho da puta que despacharam-no lá de Portugal, acondicionado numa caixa de bacalhau para cozinhar toucinho e com a banha fritar os bolinhos de bacalhau no boteco do Afonso.

O Carlinhos Bandido que só andava de carrão e blusão de couro.

O Heitor Maracana que deu uma cambalhota dentro do Hanomag em movimento.

O Luiz PIRU que pilotava bem, mas só vivia colidindo de motocicleta.

Esqueci de me apresentar, sou o Wilson (maluco) um dos sócios da industria de móveis Ferrari e Wilson localizada na Rua Barão de Bom retiro n/ 190 a.

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