JUSTINIANO DA CUNHA PEREIRA, PADRE

(exp. Vila do Príncipe, MG, Brasil, 27/mar/1798, + Barbacena [?], MG, Brasil > 1838)

  

NOTA: Extraído e adaptado da matéria apresentada originalmente como biografia, no BOLETIM do Projeto "Pesquisa Genealógica Sobre as Origens da Família Cunha Pereira", Ano 03, Nº 07, de 01/out/1997, às páginas 30-50, com o título "Padre Justiniano da Cunha Pereira".

 

Quem era o Padre Justiniano da Cunha Pereira? De outra maneira, a mesma questão poderia ser posta em termos genealógicos como: Quem eram os pais do Padre Justiniano da Cunha Pereira? Essa pergunta ainda é um pouco difícil de ser respondida. Só com mais pesquisa e um pouco de sorte ter-se-á uma resposta mais satisfatória.

Justiniano foi exposto em casa do Cadete Francisco Antônio da Silveira, este marido de Marianna Luciana da Cunha Pereira e pai de Simão da Cunha Pereira da Silveira, na Vila do Príncipe, MG, Brasil, aos 27/mar/1798 [ver: AEAD, Serro, batizados, 1794/1805, fls. 43; e também ver: AEAM, processo "de genere et moribus" de Justiniano da Cunha Pereira, n° 1095, fls. 8] (ver: documento nº 01 e documento nº 02).

Portanto, Francisco Antônio da Silveira é o pai-adotivo de Justiniano da Cunha Pereira, enquanto Marianna Luciana da Cunha Pereira é a mãe-adotiva do mesmo. Consequentemente, o jovem Simão da Cunha Pereira da Silveira seria irmão-afim, ou irmão-de-criação de Justiniano. Mas não se pode afastar a hipótese de que Simão possa ser também o pai biológico de Justiniano.

No ano de 1798, o jovem Simão da Cunha Pereira da Silveira tinha cerca de 23 anos de idade e já era Escrivão da Câmara da Vila do Príncipe, MG, Brasil, quando Justiniano foi adotado pela família dele. Simão já tinha, portanto, maturidade para ser pai.

Em que data nasceu Justiniano da Cunha Pereira? Esta é outra questão aparentemente insolúvel, por falta de mais informação. Poderia ter nascido no mesmo dia em que foi exposto, 27/mar/1798, ou apenas alguns dias antes dessa data. Por aproximação, pode-se tomar como data de nascimento a mesma de exposição: 27/mar/1798.

Justiniano foi batizado na Igreja Matriz (N. Sra. da Conceição) da Vila do Príncipe, MG, Brasil, em 08/abr/1798, apenas 12 dias depois de ser exposto (enjeitado e adotado) [ver: AEAD, Serro, batizados, 1794/1805, fls. 43; e também ver: AEAM, processo "de genere et moribus" de Justiniano da Cunha Pereira, n° 1095, fls. 8] (ver: documento nº 01 e documento nº 02).

Foram padrinhos de batizado de Justiniano o Capitão Antônio José Suares e Dona Anna Margarida Ferreira, esta filha do Capitão Francisco Pinto Ferreira (e, portanto, filha de Brízida Agostinha da Cunha Franco). Logo, Anna Margarida (Pinto) Ferreira (Franco) é neta de Anna Fortunata da Cunha Pereira e do Guarda Mor e Advogado Manoel Rodrigues Teixeira Franco, pelo lado de sua mãe, Brízida Agostinha da Cunha Franco. Anna Margarida (Pinto) Ferreira (Franco) tinha apenas 11 anos de idade, quando foi madrinha de Justiniano.

Esse batizado exibe implicitamente inúmeras relações de pessoas de diferentes ramos da Família Cunha Pereira, de um lado, de Marianna Luciana da Cunha Pereira (pelo marido, Francisco Antônio da Silveira), e do outro lado, de Anna Fortunata da Cunha Pereira (pela neta, Anna Margarida Ferreira).

Essas relações se repetem mais explicitamente no batizado de Maria, filha natural da escrava Maria Angola, em 13/jan/1811, na Vila do Príncipe, MG, Brasil, de quem foram padrinhos Justiniano da Cunha Pereira, então com cerca de 12 anos de idade, e Anna Fortunata da Cunha (Pereira) [ver: AEAD, Serro, batizados, 1805/1812, fls. 86] (ver anotação n° 01).

A mãe-adotiva do exposto Justiniano, Marianna Luciana da Cunha Pereira, recebeu ajuda financeira do Senado da Câmara da Vila do Príncipe, MG, Brasil, para criá-lo, como o comprovam seis (6) mandados de pagamento deste, do período 1800-1805, recebidos por aquela, entre 1801 e 1818 [ver: Câmara da Vila do Príncipe, MG, Brasil, Livro 4° de Registro de Mandados, fls. 185-v/186; e Livro 5° de Registro de Mandados, fls. 55-verso/126] (ver documento n° 03, documento n° 04, documento n° 05, documento n° 06, documento n° 07 e documento n° 08), os quais resumimos no QUADRO 1.

Os valores pagos pelo Senado da Câmara da Vila do Príncipe, MG, Brasil, a Marianna Luciana da Cunha Pereira, por conta de criar o exposto Justiniano, totalizando 100 oitavas (de onça) de ouro, calculadas à base de 3,586 gramas, correspondem a 358,6 gramas de ouro, que, ao valor atual, de R$12,00, nos dão um montante de cerca de R$4.303,20. No período de 5 anos, a média recebida, por ano, foi de cerca de R$860,64, quantia que pode parecer pequena nos dias atuais, mas que na Vila do Príncipe, MG, Brasil, do início dos anos 1800, era mais do que suficiente para a subsistência de uma criança, durante um ano.

Alguns anos depois que Justiniano foi adotado, não sabemos exatamente em que data, entrou um novo exposto na casa de Francisco Antônio da Silveira e de Marianna Luciana da Cunha Pereira, chamado Pacífico (da Cunha Pereira?), que faleceu na Vila do Príncipe, MG, Brasil, em 07/abr/1805, e foi sepultado na Igreja Matriz. Seria Pacífico irmão ou meio-irmão de Justiniano? É bem possível que fossem irmãos, mas essa é apenas uma hipótese. É curioso, entretanto, observar que a dupla, Justiniano e Pacífico, teve os nomes derivados, consciente ou inconscientemente, de "Justiça" e de "Paz", pois se Justiniano é aquele que faz ou persegue a Justiça, Pacífico é aquele que ama ou persegue a Paz. Com a morte prematura de Pacífico, o binômio "Justiça e Paz" ficou desfalcado. Qual teria sido o destino de Pacífico, se tivesse sobrevido? Seguiria Pacífico os passos de seu suposto irmão Justiniano?

Justiniano da Cunha Pereira ingressou no Seminário de Mariana, MG, Brasil, cerca de 1822, quando tinha uns 23 anos de idade, como se deduz de uma petição na qual foi transcrita sua certidão de batizado, com data de "Villa do Principe, 10 de maio de 1822", assinada pelo coadjutor Silvério Teixeira Coelho, que se encontra no seu processo "de genere et moribus" [ver: AEAM, processo "de genere et moribus" de Justiniano da Cunha Pereira, n° 1095, fls. 8] (ver documento n° 02). É bem provável que Justiniano tivesse realizado seus estudos na condição de "fâmulo", isso é, de um estudante que não paga as contas, isso é, não paga pensão e ensino, por ser pobre, mas que, em compensação, presta serviço como servente, o que só se poderá saber no Seminário de Mariana, MG, Brasil, se ainda existir o livro de matrícula do período, onde esta condição deverá estar registrada.

Em 03/mai/1824, em Mariana, MG, Brasil, o Bispo Dom Frei José ordenou Justiniano da Cunha Pereira como sacerdote, que aparece em 45° lugar na lista de ordenados por esse bispo, e como originário do Serro [ver: TRINDADE, Cônego Raimundo, Arquidiocese de Mariana - Subsídios para sua História, 2ª ed, vol 1, 1953, pag. 204] (ver anotação n° 03).

Nesse mesmo ano, em 08/ago/1824, o então já Padre Justiniano da Cunha Pereira era matriculado como irmão na Arquiconfraria de São Francisco, da Vila do Príncipe, MG, Brasil, em ato realizado em sua sede, na Capela de N. Sra. da Purificação, pelo Secretário, Gregório Caetano Pereira de Vasconcellos [ver: AEAD, Irmandades Religiosas, Serro, Arquiconfraria de São Francisco, Entradas, 1805/1884, fls. 166-verso] (ver documento n° 09).

Como não se encontrou matrícula de Justiniano da Cunha Pereira em outra Sociedade Religiosa Leiga da Vila do Príncipe, MG, Brasil, pode-se pressupor que a escolha que fez dessa irmandade derivasse de ser um pardo ou descendente de um, já que essa era a "qualidade" da maioria dos seus "irmãos", ou, dito de outra maneira, a Arquiconfaria de São Francisco era uma federação de irmandades de pessoas pardas ou de seus descendentes (quartões e oitavões).

Mas pode não ser nada disso e Justiniano poderia ser um mestiço claro, considerado como branco, e ter escolhido ser irmão da Arquiconfraria de São Francisco apenas por influência de sua mãe adotiva, Marianna Luciana da Cunha Pereira, que era irmã da mesma Arquiconfraria.

Caso fosse um pardo, poderia, entre outras hipóteses, ser filho natural de uma pessoa da Família Cunha Pereira com alguma escrava ou ex-escrava (forra), nesse caso, preta (africana) ou crioula (brasileira), ou mesmo mulata ou parda, por exemplo. Mas é mera cogitação, sem qualquer prova concreta. Os documentos de arquivos eclesiásticos, notariais e outros estão à espera de pesquisadores, para esclarecer esse ponto ainda obscuro.

Nessa última hipótese, sem dúvida nenhuma, aparece como candidato a pai de Justiniano o jovem Simão da Cunha Pereira da Silveira, saído da adolescência, com cerca de 23 anos (em 1798).

Em Justiniano da Cunha Pereira já se observam traços que se tornaram marcantes e característicos de muitas personalidades da Família Cunha Pereira, da mesma geração dele e das que se seguiram imediatamente, como os dotes de inteligência, a preferência pela atividade intelectual, a inclinação para a cultura, a vocação pública e o gosto pela política.

Essas mesmas caraterísticas pessoais de Justiniano são encontradas, por exemplo, no Dr. Simão da Cunha Pereira (filho), que é filho de Simão da Cunha Pereira da Silveira. Mera coincidência? Além de uma causa preponderantemente genética, pode ter contribuído o ambiente familiar, isso é, a cultura familiar, aspecto ainda não abordado e que merece uma consideração futura.

Por outro lado, pode-se imaginar que Justiniano tivesse recebido o sobrenome "Cunha Pereira" apenas por ter tido como mãe adotiva Marianna Luciana da Cunha Pereira. Todavia, essa hipótese, sem dúvida, é a mais fraca de todas. Se a opção fosse dar a Justiniano o sobrenome da família adotante, seu sobrenome seria "Silveira", já que seu pai adotivo era Francisco Antônio da Silveira. Nesse caso, não receberia o sobrenome "Cunha Pereira".

Portanto, com altíssima probabilidade, Justiniano da Cunha Pereira é filho da Família Cunha Pereira. Aceitando-se essa possibilidade, Simão da Cunha Pereira da Silveira seria o mais forte candidato a pai de Justiniano. Tudo poderia, entretanto ficar esclarecido se o Padre Justiniano da Cunha Pereira tiver falecido com testamento, se esse testamento for encontrado, se ele soubesse quem eram os seus pais e se declarar a filiação dele no mesmo testamento. É possível ter resposta positiva para esses quatro "se"? Sim, tudo é possível.

O ingresso de Justiniano no Seminário de Mariana e, posteriormente, na carreira eclesiástica, demonstraram seu grau de inteligência e pendor para a atividade intelectual. De certa forma, a vocação pública também. Mas não para aí a demonstração.

Justiniano tornou-se um dos mais conhecidos intelectuais de Minas Gerais, em sua época. Foi fundador e redator do jornal O PARAHYBUNA, com sede em Barbacena, MG, Brasil, de cunho marcadamente político [ver: AN, Jornal O PARAHYBUNA, Barbacena, Typ. do Parahybuna, 1838, Ref.: J.P.1P.2L.34]. Aqui percebem-se as vocações para a atividade intelectual e a política, além da vocação pública.

Além disso, escreveu pelo menos uma peça de teatro, uma sátira ou comédia, também de cunho totalmente político, Club dos Anarchistas, que teve grande repercussão na imprensa contemporânea, cerca de 1838 [ver: PEREIRA, Justiniano da Cunha, Club dos Anarchistas, comédia, Vila de Barbacena, MG, na Typographia do Parahybuna, 1838, 13 pp. Desta obra só se conhece um único exemplar, que se encontra na Biblioteca Nacional, Seção de Obras Raras, sob n° 99D, 11, 2]. De novo, aqui se encontram explicitadas as vocações para a atividade intelectual e a política, além da vocação pública.

O Padre Justiniano da Cunha Pereira foi citado como suplente do segundo mandato do Conselho Geral da Província de Minas Gerais, Brasil (1830-33) [ver: RAPM, 1896, pág. 397].

O jornal O PARAHYBUNA era um "bissemanal", ou seja, tinha duas edições por semana, às terças e sextas-feiras, em formato de "tablóide", sempre com quatro (4) páginas. Era composto e impresso na "Typographia do Parahybuna", na Vila de Barbacena, MG, Brasil, e circulava em todas a Província de Minas Gerais e até no Rio de Janeiro e além.

De O PARAHYBUNA existem nove (9) exemplares conhecidos, no Arquivo Nacional, do Rio de Janeiro, RJ, Brasil, que são os números constantes do QUADRO 2. Mas, pode haver outros exemplares, no Museu Histórico da cidade de Barbacena, MG, Brasil.

No cabeçalho de todas as primeiras folhas de O PARAHYBUNA constavam sempre os mesmos dados, de que transcrevemos o do n° 153:

 

O PARAHYBUNA.

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Rs 80 BARBACENA, TERÇA-FEIRA 8 DE MAIO DE 1838 N. 153.

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Logo abaixo, numa seção no lado esquerdo, constava: "Subscreve-se para esta Folha em casa do Sr. João / Gualberto Teixeira de Carvalho, e do Sr. José Ben- / to Costa de Azedias, a 2$000 réis por trez mezes; / e sahirá nas Terças e Sextas."

Também abaixo do cabeçalho, noutra seção no lado direito, separado por uma barra vertical, constava: "Os homens passão, passão as circunstancias; mas / os principios subsistem. Deus louvado, á despeito / das intrigas, á despeito das paixões, em todas as / lutas sahem triunfantes, e sabem vingar-se dos ul- / trajes que lhes irrogão a má fé, a ambição, ou a / ignorância. / Discurso do Deputado Vasconcellos."

A essas duas seções seguiam-se barras duplas horizontais, encerrando o cabeçalho.

Deve-se observar que o nome de Justiniano da Cunha Pereira não aparece no jornal, como Redator. Toda a correspondência é simplesmente endereçada e respondida por "o Redactor". Como identificar "o Redactor" de O PARAHYBUNA? Essa identificação só se tornou possível graças a uma referência indireta, onde consta ser "O club dos anarchistas, comedia composta pelo P. Justiniano da Cunha Pereira, redactor do Parahibuna" (ver anotação n° 02). A referência ficou confirmada, quando se encontrou o original da obra, como se mostrará mais à frente, quando se tratar da comédia CLUB DOS ANARCHISTAS.

Na página quatro (4), sempre a última do jornal, aparecia um rodapé, de que reproduzimos o do n° 153:

 

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Barbacena 1838. Typographia do Parahybuna. Rua Direita, N. 31.

 

 

Se o jornal O PARAHYBUNA tiver mantido sua freqüência "bissemanal" (duas edições por semana) desde a fundação, significa ter sido fundado 76 semanas antes do n° 153. Pode-se estimar que tenha sido fundado cerca de um ano e seis meses antes da semana do n° 153, que tem data de 08/mai/1838. Portanto a edição do n° 1 deve ter ocorrido cerca da primeira semana de novembro de 1836.

Até quando sobreviveu O PARAHYBUNA? Não se conhece o último número desse jornal. Pode ter durado enquanto viveu o Padre Justiniano da Cunha Pereira, mas pode ter findado antes. Nessa época, os jornais tinham vida curta, de alguns poucos anos, dois ou três. Deve-se observar que O PARAHYBUNA já se encontrava em seu segundo ano de existência.

No QUADRO 3, apresentamos os títulos das principais matérias incluídas nos números conhecidos de O PARAHYBUNA.

Os versos que aparecem em O PARAHYBUNA podem ser, alguns, de lavra própria de Justiniano da Cunha Pereira, embora muitos pareçam ter como referência outros periódicos (aparentemente, foram reproduzidos de outros jornais, principalmente do Sete de Abril). Comparando-se o objeto desses versos com os da comédia CLUB DOS ANARCHISTAS, verifica-se que em ambos os casos o assunto é o mesmo: a situação política do país e, principalmente, da província. Vejamos alguns deles.

No n° 153, à pagina 3, aparecem versos, que descrevem as situação da políticas nacional e regional, com referências à revolta dos "Sabinos", á indicação de Bernardo Pereira de Vasconcellos para senador do Império, ao regente Pedro e aos "chimangos" (possivelmente os "farroupilhas") (ver: POESIA Nº 01).

No n° 157, na pag. 4, encontramos versos, que constituem uma referência direta aos personagens do CLUB DOS ANARCHISTAS (ver: POESIA Nº 02).

No n° 159, à página 4, encontra-se um soneto, que é um acróstico, formado com as letras de "HE O PARLAMENTAR", onde existe referência a "O Limpo", que deve ser Antônio Paulino Limpo de Abreu (depois, Visconde de Abaeté), que foi Conselheiro de Estado, Presidente da Província de Minas Gerais, por dois períodos, com posse em 05/nov/1833 e 03/dez/1834, e chegou a senador do Império, nomeado em 1847, tendo sido deputado pela Província de Minas Gerais, na Câmara Geral do Império, na 1ª legislatura (1826-1829), 2ª legislatura (1830-1833), 3ª leg. (1834-1837), 4ª legislatura (1837-1838), em 1842 (dissolvida), e na 6ª legislatura (1845-1847) (ver: POESIA Nº 03).

No n° 161, à página 4, o soneto é também um acróstico, formado com as letras do nome de "ANTONIO PAULINO", referindo-se, certamente ao então deputado à Câmara dos Deputados do Império, representante da Província de Minas Gerais, Antônio Paulino Limpo de Abreu (depois, Visconde de Abaeté) (ver: POESIA Nº 04).

No n° 168, à página 4, mais um soneto, que também é um acróstico, com as letras da expressão "HE O LIMPO DE BRIO", que pode se referir também a LIMPO DE ABREU, então deputado da Câmara Geral do Império, pela Província de Minas Gerais, Antônio Paulino Limpo de Abreu (depois Visconde de Abaeté) (ver: POESIA Nº 05).

No n° 171, à página 4, encontramos mais versos, com uma direta e clara alusão a Teóphilo Benedicto Ottoni, líder da revolução liberal de 1842 e fundador da Companhia do Mucury, que chegou a senador do Império, nomeado em 1864, e foi deputado à Câmara Geral do Império, pela Província de Minas Gerais, na 4ª legislatura (1831-1838), em 1842 (dissolvida), na 6ª legislatura (1845-1847), na 7ª legislatura (1848), na 11ª legislatura (1861-1863), e na 12ª legislatura (1864-1866), depois de ser deputado provincial na 1ª legislatura (1835-1837), na 2ª legislatura (1838-1839), e na 4ª legislatura (1842-1843) (ver: POESIA Nº 06).

Quem era o Sete de Abril? Havia dois jornais que tinham esse título, mas o mais provável deles é O SETE D’ABRIL, editado no Rio de Janeiro, RJ, Brasil, na Typografia Americana [ver: O SETE D'ABRIL, Rio de Janeiro, Typ. Americana, do qual existem, na Biblioteca Nacional, os n°s 1-272, 275-556, 558-718, no período de 01/jan/1833 a 20/mar/1839, no microfilme PR-SOR 604 (1-3) N/P]. Teriam sido os versos transcritos desse jornal? Ou seria Sete de Abril o pseudônimo de Justiniano da Cunha Pereira? Normalmente, as transcrições eram acompanhadas de uma indicação: "transcrito de". Observe-se que essa expressão não é usada junto do nome Sete de Abril. A falta da expressão "transcrito de" pode ser um lapso da redação, mas realmente, pode ser também indicação de que se trata de um pseudônimo do poeta. Não temos elementos para distinguir. Qual a sua preferência ou opinião?

A obra que tornou Justiniano mais conhecido foi sua comédia CLUB DOS ANARCHISTAS, de cuja folha de rosto damos uma transcrição: "CLUB DOS ANARCHISTAS. / COMEDIA / Composta / Pelo P. Justinianno da Cunha Pereira, / Redactor do / PARAHYBUNA. / - - / Ridentem dicere verum / Quis vetat? / Horat. / ---------- / VILLA DE BARBACENA. / NA TYPOGRAPHIA DO PARAHYBUNA. / 1838" (ver "fac-símile" do original, neste mesmo site).

Na segunda folha, onde são apresentados os "actores", e depois deles, vem um esclarecimento fundamental: "A Scena he representada na Capital da Provincia de Minas Geraes."

Um leitor da peça, que se identificou apenas como "O Amante do bom gosto", escreveu para a redação de um jornal, em 1838, dizendo ter achado "tão bem descriptos os caracteres de alguns dos nossos deputados mineiros, que não pude resistir á tentação de tomar a pena e rogar-lhe o obsequio de fazer conhecida tão excelente peça que tanto honra o genio do seu autor. Outrossim é do meu dever revelar as desconfianças que eu tenho do serem os deputados de Minas o objeto dessa peça, e por isso permitirá que apresente também ao publico esta minha suposição." (ver anotação n° 02).

Os "actores" da peça, na ordem do original, são, respectivamente: Mané Pansa, Presidente; Matraca, Secretário; Narigão; Macaco; Rebôlo; Tiple; Fanhoso; Môpadinho; Joia; Chicrapires; Mentira e mais uma "Turba de farroupilhas", "Hum Official de Policia", e "A Guarda Policial". Deve-se notar que um outro ator ou personagem foi o Imparcial, o qual foi esquecido na lista.

A peça teve mais de uma edição, porque existe também referência a uma publicação pela tipografia de O Correio de Minas, de Ouro Preto, MG, Brasil, com 22 páginas, formato de l4 cm, e com folha de rosto ilustrada, que então não havia sido encontrada (ver anotação n° 02).

Dessa peça, na versão original, publicada pela tipografia de O PARAHYBUNA, da Vila de Barbacena, MG, em 1838, era conhecido um único exemplar, que se encontra na Seção de Obras Raras, da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, RJ. Na capa da obra encontravam-se anotados, a lápis, muito tênuemente, os nomes de alguns políticos identificados com os personagens, mas alguns nomes foram cortados, porque estavam escritos sobre a "orelha" da capa, que, lamentavelmente, foi arrancada e perdida.

Dentre aqueles cujo nome ficou inteiro, na anotação a lápis, só não havia sido possível identificar o "Pontes". Graças à colaboração do Cientista Político Claus Rodarte, por e-mail de 14/out/2005, tivemos sua identificação completa: "Trata-se do deputado provincial Manoel José Pires da Silva Pontes (não sem razão o nome do personagem é Chicrapires - um trocadilho 'Xícara-Pires'). Ele, no texto, refere-se ao tempo em que foi Presidente da Província do Espírito Santo (a posse dele em tal cargo foi no dia 21 de abril de 1833)."

Entretanto, quanto ao Macaco, o mesmo Claus Rodarte, no mesmo e-mail de 14/out/2005, observa: "Não acredito que o personagem Macaco seja o Visconde de Jaguari: ele não fazia parte da legislatura de 1838-39 e acredito estarem nela todos os personagens da peça - que tem caráter nitidamente panfletário (divertidíssimo, por sinal!)..."

Quem eram os deputados à Assembléia Provincial de Minas Gerais da 2ª legislatura (1838-1839)? Consultando o volume 5 da 2ª edição da História de Minas Gerais, de João Camillo de Oliveira Torres, às páginas 1.294 e 1.295, encontramos a relação de 37 nomes: Dr. Antônio da Costa Pinto, Antônio Ribeiro de Andrade, Dr. Bernardino José de Queiroga, Bernardino Jacintho da Veiga, Desembargador Manoel Ignácio de Mello e Souza (depois Barão de Pontal), Conselheiro Bernardo Pereira de Vasconcellos, Carlos Pereira Freire de Moura, Dr. Domiciano Leite Ribeiro (depois Visconde de Araxá), Domingos Theodoro de Azevedo Paiva, Coronel Francisco Theodoro da Silva, João Antônio de Lemos (depois Barão do Rio Verde), Dr. Joaquim Antão Fernandes Leão, José de Abreu e Silva, Dr. José Agostinho Vieira de Mattos, Dr. Francisco de Paula Cerqueira Leite, José Alcibíades Carneiro, Cônego José Antônio Marinho, Joaquim Dias Bicalho, Coronel José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, José Ferreira Carneiro, João Fernandes de Oliveira Penna, Dr. José Joaquim Fernandes Tôrres, Dr. José Jorge da Silva, José Pedro Dias de Carvalho, Major Luiz Maria da Silva Pinto, Manoel José Pires da Silva Pontes, Mariano José Ferreira Armonde, Cônego Manoel Júlio de Miranda, Dr. Manoel Machado Nunes, Dr. Pedro de Alcântara Cerqueira Leite, Quintiliano da Rocha Franco, Dr. Tristão Antônio de Alvarenga, Theophilo Benedito Ottoni, João Teixeira da Fonseca Vasconcellos, Bento de Araújo Abreu, João Antunes Corrêa e José Justiniano Carneiro. Dentre estes, quem eram os "anarchistas"? Façam suas apostas!!!...

Novamente, em 30/jan/2006, recebemos de Claus Rodarte uma nova mensagem, informando que havia localizado uma outra edição da peça Club dos Anarchistas publicada em 1838, em Ouro Preto, MG, na Typografia do Correio de Minas, microfilmada pelo Arquivo Público Mineiro e disponibilizada para consulta na seção Assuntos Mineiros, caixa n.9, volume 26, flash 4, estante F-1, em que consta a seguinte listagem: "Mané Pança, Presidente - Desconfio que será o Manoel Ignacio de Mello e Souza; Matraca, Secretario - É elle mesmo, Bento de Araujo Abreu; Narigão - Desconfio que será o Bacharel Joaquim Antão Fernandes Leão; Macaco - Idem José Antonio Marinho; Rebolo - Idem José Alcibiades Carneiro; Tiplo - Idem, não affirmo que é, Theofilo Benedicto Ottoni; Fanhoso - Qual?... Este não é Bernardino José de Queiroga!; Mó Padinho - Este parece que é José Pedro [Dias] de Carvalho; Joia - Idem Domiciano Leite Ribeiro; Chicra-Pires - Idem Manoel José Pires da Silva Pontes; Mentira - Idem José Joaquim Fernandes Torres".

Consolidamos todos os dados obtidos, para uma possível identificação dos 11 políticos mineiros caricaturados, em 1838, os quais se encontram sumariados no QUADRO 4.

Deve-se observar que, por razões ainda ignoradas, além dos acima citados, há mais um personagem, "O Imparcial", o qual não foi incluído pelo autor no rol dos "Actores", embora tome parte ativa na trama, todavia sempre do lado do "bem". Quem seria o "Imparcial"? O autor não o incluiu na lista porque ele não era um "anarchista"? Ou foi apenas por um lapso, por esquecimento? Ou o "Imparcial" representa a intervenção do autor na ação?

A identificação de Joaquim Antão Fernandes Leão com o "Narigão" tornou-se mais fácil pela quadra dos versos publicados no n° 157 de O PARAHYBUNA, referentes aos personagens de CLUB DOS ANARCHISTAS (ver: POESIA Nº 07).

Na última estrofe da primeira quadra, talvez uma indicação de um político mineiro, "Marinho", certamente o Cônego (Padre) José Antônio Marinho, que foi eleito deputado à Assembléia Geral do Império em 1842 (dissolvida), na 6ª legislatura (1845-1847) e na 7ª legislatura (1848), e que foi deputado provincial na 1ª legislatura (1835-1837), na 2ª legislatura (1838-1839), e na 4ª legislatura (1842-1843), que corresponda a alguns dos personagens de CLUB DOS ANARCHISTAS (ver: POESIA Nº 08).

A partir do único original então conhecido de CLUB DOS ANARCHISTAS, foi feito um microfilme, do qual se tirou uma cópia eletrostática, de que foi feita uma reprodução, a qual foi retocada à mão e novamente copiada xerograficamente, formando-se uma matriz. A partir da matriz, foi feita a reprodução fac-similar que se encontra exibida neste mesmo site.

Uma boa parte da situação política nacional e provincial retratada nos versos de O PARAHYBUNA e da comédia CLUB DOS ANARCHISTAS pode ser explicada pelo noticiário dos jornais da época, ano 1838.

Em O Correio de Minas, de 13 de março de 1838, à página 4, vem um artigo sobre o comportamento da Assembléia Provincial de Minas Gerais [ver: O Correio de Minas, Ouro Preto, Typographia do Correio, 13 de março de 1838, n° 20, pag. 4. Exemplar existente no Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, RJ] (ver: ARTIGO Nº 01).

Na sua edição de 19 de abril de 1838, O Correio de Minas, à página 4, volta a publicar outra notícia sobre a situação política nacional [ver: O Correio de Minas, Ouro Preto, Typographia do Correio, 19 de abril de 1838, n° ??, pag. 4. Exemplar existente no Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, RJ] (ver: ARTIGO Nº 02).

Voltando ao objeto central desse estudo biográfico, o Padre Justiniano da Cunha Pereira, devemos dizer que não possuímos ainda indicações sobre o local e a data do falecimento dele, que pode ter ocorrido em Barbacena, MG, Brasil, ou não, ou mesmo em Ouro Preto, MG, Brasil, ou, eventualmente, no Serro, MG, Brasil, embora não tenha sido encontrado o registro de óbito, depois do ano de 1838. Teria o Padre Justiniano deixado testamento? Se o Padre Justiniano tiver falecido com testamento, este se torna muito interessante porque, caso tivesse conhecimento de sua filiação e estivesse disposto a revelá-la, certamente o teria feito nesse testamento. Embora os livros de registros de testamentos do Serro, MG, Brasil, estejam repletos de testamentos de sacerdotes – em alguns volumes, dos séculos XVIII e XIX, quase que exclusivamente, prova de que houve uma grande concentração do clero católico nessa cidade e naquela época – também aí não encontramos, até agora, o testamento do Padre Justiniano.

É digna de nota a ligação do Serro, MG, Brasil, com Barbacena, MG, Brasil, pois não foi apenas o Padre Justiniano da Cunha Pereira que migrou da primeira cidade para a segunda, encontrando-se muitos outros serranos que o fizeram, total ou parcialmente, como o Capitão José Pinto Ferreira Franco, filho de Brízida Agostinha da Cunha Franco e do Capitão Francisco Pinto Ferreira, que aí nomeou dois testamenteiros, em 1837, para o caso de vir a falecer nesta última cidade, onde certamente tinha negócios; também de Arthur Carneiro da Cruz Machado, filho de Josephina Cândida Ferreira Carneiro e de Antônio Cândido da Cruz Machado, este depois Visconde do Serro Frio, o qual aí constituiu um grande ramo dessa família; e, ainda mais, da Irmã Sílvia da Conceição da Cunha Pereira que, nesta última cidade, esteve por mais de uma vez e por muitos anos, servindo em várias instituições católicas, e onde fundou o "Ginásio Baronesa Maria Rosa", que dirigiu, tendo falecido em 31/mai/1971, em acidente de carro, na rodovia federal BR-040, km 408, para Belo Horizonte, MG, Brasil.

Encerramos aqui esse estudo biográfico sobre o Padre Justiniano da Cunha Pereira, embora reconhecendo que, pelo visto, essa matéria possa ainda render muito. Você tem alguma sugestão ou contribuição? Tem alguma correção ou acréscimo a fazer na carreira política dos resumos biográficos dos nossos "anarchistas"? Sabe quem foi "O Imparcial"? Escreva um e-mail para nosso Web-Master, comunicando.

  

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