11/Novembro/2000
A ATRIZ E A MÚSICA - ALTA AFINIDADE
Como adaptar para a tela uma história cujos melhores momentos chegam através do pesamento do personagem
principal? Para teatro já é complicado...já foi. Leia comentário na seção
destinada ao teatro. Como? Primeiro, um excelente roteirista seria fundamental, a seguir um diretor de estilo conciso
acima de qualquer suspeita. Pois bem, o roteirista surpreende e o diretor acrescenta criatividade e competência
na condução da trama.
John Cusak é o principal coadjuvante masculino, a protagonista é a música pop, produziu e
adaptou o roteiro e Stephen Frears dirigiu magistralmente.
ALTA FIDELIDADE é uma história de homens e seus dissimulados problemas românticos. Como enfrentá-los?
Quanto mais superá-los! Adaptação do best seller ALTA FIDELIDADE- ed. Rocco- de Nicy Hornby
que, com enorme criatividade e repleto de particularidades, fala de assuntos pra lá de comuns, rotineiros,
tolos, chatos que acentuando as neuroses daí provenientes gera reflexão e risos.Muitos risos e alguma
emoção. Na passagem para a tela, é natural, muito se perde mas sob o comando de Frears o interesse
não se dilui. Pelo contrário. A solução encontrada pelo diretor para "fazer ouvir
os pensamentos" de Rob Fleming (no filme o sobrenome é Gordon) e manter o vigor do texto por si só
já recomendam o filme: Rob fala seus pensamentos em voz alta, diretamente para a câmera.Um recurso
velho mas longe de ser considerado gasto. E no livro estas são as melhores partes. No livro a trama se desenrola
em Londres, no filme é transferida para Chicago mas poderia ser São Paulo, Rio, qualquer lugar onde
um adolescente tardio permitesse que a cultura pop interferisse no seu crescimento emocional.
A infelicidade em ALTA FIDELIDADE tem início quando Rob, dono de uma decadente loja de discos, é
desprezado por Laura. Entra em cena a dor de cotovelos inspirando Rob e seus amigos, outros rejeitados pois o que
mais fazem é rejeitar, a fazerem listas de tudo. Rob é um tipo de fracassado que cairia como uma
luva nos filmes de Woody Allen, e o rapaz fala, fala, fala...
Ganha importância no filme a participação dos empregados da loja de Rob, Barry (Jack Black)
e Dick ( Todd Louiso) . Apesar de personagens ultra manjados, roqueiros esteriotipados, são responsáveis
por grandes momentos, principalmente Barry com seus palavrões. Quem tem mais de 30 anos encontrará
inúmeras identificações sem que para tanto necessite algum esforço.
No papel de protagonista, a música pop: Velvet Underground, Bob Dylan, Elvis Costello, Steve Wonder, a banda
escocesa Beta Band e outros acenam com a certeza do bom programa. É infálivel. Naqueles momentos,
e são muitos, que você já viu num outro filme, não se constranja, feche os olhos. Afinal
de contas não é todo dia que se tem mais de cem minutos de boa música.
Um detalhe por demais significativo, e por isso é detalhe, merece a devida atenção;Iben Hjejle,
atriz dinamarquesa que vive o papel de Laura e quando está em cena surpreende com seu talento que ficara
á deriva em "Mifune" de Soren Kragh Jacobsen. Com Laura, momentos obrigatórios de olhos
bem abertos |

ALTA FIDELIDADE
Título Original
High Fidelity
País de Origem
Reino Unido/ EUA
Ano
2000
Duração
113 minutos
Diretor
Stephen Frears
Elenco
John Cusack,
Iben Hjejle,
Todd Louiso,
Jack Black,
Lisa Bonet,
Joan Cusack,
Tim Robbins,
Chris Rehmann
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ASSÉDIO
AS CORES, OS AMORES E OS SONS, POR BERTOLUCCI
ASSÉDIO de Bernardo Bertolucci- Itália-1998 é uma história de amor, ou melhor uma tragédia
digna de um Nelson Rodrigues. Trata-se da história de Shandurai que trabalha com crianças deficientes
na África e seu marido professor de uma escola local. As primeiras cenas de ASSÉDIO não poderiam
ser mais pungentes, sem palavras cabe à imaginação concluir o que levou àquele estado
de coisas, lutas tribais, uso de minas e atrocidades do gênero. Aquela submissa população sobrevive
sob o chicote de uma ditadura. O professor, marido de Shandurai, faz oposição ao regime e um dia
sob o olhar atônito de sua mulher é arrancado da sala de aula e levado para lugar incerto porém
imaginado.
O corte conduz personagens e espectadores à Roma onde Shandurai habita um cubículo, trabalha casa
de um pianista tímido, e estuda medicina. Jason Kinsky, o pianista, apaixona-se por Shandurai e tal paixão
não é abalada mesmo ao saber que a moça é casada e seu marido é prisioneiro
na África. Ela faz todo o serviço para o sr. Kinsky porém à noite é açoitada
por constantes pesadelos onde o tema é o destino infeliz de seu marido. E o sr. Kinsky, como um paciente
observador de pássaros, destina seu olhar à esquadrinhar os movimentos e o corpo da bela africana.
Como em toda história de amor chega o momento do amor mostrar sua perversidade e tirania. E o mesmo amor
que aceita condições absurdas sujeita-se a receber em troca prosaicas quantidades de simples atenção
mas que um dia quem sabe...
E pensando exatamente no raiar desse dia o sr. Kinsky aposta todas suas fichas.
Primeiro um anel, depois obras de arte, por último despede-se do piano. Tudo para custear um julgamento
justo para o marido da sua amada. Kinsky organiza um concerto de despedida para seus alunos e durante o conserto
Shandurai recebe um telegrama do marido avisando que fora solto e que brevemente chegaria à Roma. Mas a
essa altura Shandurai já provara demais dos encantos de Kinsky e confusa foge para logo em seguida tomar
a decisão.
Bertolucci, como poucos, filma sem fazer uso do piloto autimático. Diferente da maioria de seus colegas
que ao alcaçarem determinada altura acionam o establizador e adormecem à mercê de uma velocidade
de cruzeiro num céu de brigadeiro,ele arrisca, incansável parece alfinetar o espectador, arrancar
a emoção a cada cena em que aproxima a câmera das pessoas.Por exemplo: a dor na cena com o
cantor africano, as cenas com as crianças deficientes e toda a truculência na sequência da prisão
do professor. Quando a câmera abandona o continente africano e pousa em Roma o tom é amenizado. Sem
deixar de mostrar a Itália xenófoba, os bairros pobres, Bertolucci apresenta a realidade italiana
multiracial. E a história de amor inter-racial entre a faixineira africana e o pianista aristocrata-branco-italiano
transcende as motivações politicamente corretas que exigem cotas étinicas em produções
americanas e traz à tona a discussão, infelizmente, sempre em moda sobre uniões inter-raciais,
sejam elas uniões de amor, de trabalho ou de simples sobreviência. Enfim, em se tratando de um dos
paises mais racistas, Bertolucci talvez seja o único soldado com o passo "errado". Infelizmente!
Bertolucci no entanto paga o preço de ter cometido uma obra prima inquestionável em 1972, O ÚLTIMO
TANGO EM PARIS e toda história de amor que ele tenha coragem de contar passa pela inevitável comparação.ASSÉDIO
está muito longe de ser uma obra prima mesmo assim é uma atraente cartilha tanto para cienastas como
para amantes do cinema de imagens puras. Caso raro. |

ASSÉDIO
(Besieged, FRA/ITÁ, 1998)
92min
Ficha Técnica
Diretor
Bernardo Bertolucci
Elenco
Thandie Newton (Shandurai),
David Thewlis (Sr. Kinsky),
Claudio Santamaria (Agostino)
Roteirista
Bernardo Bertolucci
Clare Peploe
(baseado numa história de
James Lasdun).
Direção de Fotografia
Fabio Cianchetti.
Montagem
Jacopo Quadri.
Música Original
Alessio Vlad.
Arranjo e instrumentos
Stefano Arnaldi.
Design de Produção
Gianni Silvestri.
Figurinista
Metka Kosak.
Cenografia
Cinzia Sleiter.
Produção Associada
Clare Peploe.
Produtor
Massimo Cortesi.
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DANÇANDO NO ESCURO
"...por que num musical nada de horrível acontece."
Lars Von Trier é o idealizador do Dogma, uma maneira despojada de realizar filmes, que em seguida apresentou-a
a Thomas Vinterberg ( "Festa de Família") e juntos estabeleceram o rascunho de como gostariam
que fossem feito os filmes. Aos dois uniram-se outros dois diretores dinamarqueses e firmaram um pacto ao qual
todos os filmes do Dogma devem obedediência : tomadas sempre em externas, áudio nunca produzido à
parte, câmera na mão e tomadas feitas onde ocorre a ação do filme, sem flashbacks, contra-regras
ou maquiagem e sem crédito para o diretor. Uma das razões do Dogma é fazer com que a vivência
interna dos personagens justifique o enredo. Parece simples? Realmente, só que exige um elemento não
listado pelos rapazes dinamarqueses: "talento". Lars Von Trier já provou que tem com "Ondas
do Destino-1996" e com "Os Idiotas - 1998" seu primeiro filme no Dogma.
Por exigência dos produtores DANÇANDO NO ESCURO teve sessão única no Festival do Rio
BR 2000. Infelizmente! Palma de Ouro em Cannes e prêmio de melhor atriz para Björk é um musical
lacrimoso onde apenas uma tragédia pode amenizar a outra. Selma emigra da República Tcheca para os
Estados Unidos, ela está ficando cega e sabe que o futuro do seu filho Gene também será escuro.Embora
escandinavo, DANÇANDO NO ESCURO apela para a culpa como mola propulsora das açôes de Selma.Usando
um método nada convencional ela consegue ser aprovada no exame oftalmológico e passa a trabalhar
como operária numa fábrica economizando cada centavo para custear a operação salvadora
do garoto. Ingenuidade como embalagem mais o conteúdo da cegueira fazem de Selma a vítima em potencial.
Ela ensaia um musical e o espectador adivinha que nas próximas duas horas viverá a história
de alguém com grande chance de ganhar a coroa do fracasso. É enorme o abismo que separa a vontade
da aptidão. Mas quem irá sacanear a pobre heroína cega que aluga um trailer nos fundos da
casa de um casal que recebeu uma herança e a mulher se encarregou de gastar? O banco ameaça tomar
a casa e uma bela noite o marido (Bill), que para acentuar a opressão é policial, espreita Selma
cega guardar o dinheiro.Enquanto isso, para o espectador, a cegueira de Selma ameniza a tragédia financeira
do seu senhorio. E a pergunta está respondida.
Selma adora musicais e quando ela confessa ao seu pretendente a razão para tamnho fascínio brilha
na tela o talento de um grande diretor: "Sonhava ser estrela de um musical por que nos musicais nada de horrível
acontece". Sutil ironia.
DANÇANDO NO ESCURO é um melodrama dos mais pesados, sobra frustração e tristeza apesar
de musical, esqueça os musicais hollywoodianos por que você forçosamente irá lembrar
deles logo após os créditos. Os números musicais representam os sonhos da heroína e
são filmados de inúmeros pontos de vista, a medida que o filme avança os devaneios musicais
adquirem o tom trágico da existência de Selma.
Certas profissões não conseguem esconder sua verdadeira face mercenária, no alto do pódio
estão os insuperáveis médicos, em DANÇANDO NO ESCURO os advogados são homenageados
na cena em que Selma recebe, o advogado que irá reabrir o caso. Ela discorda da forma encontrada para remunerar
os seus serviços e ele pergunta cinicamente se ela sabe no que implica aquela decisão. Mais uma crueldade
desaba sobre os ombros da pequena, frágil, ingênua e cega imigrante. Para aumentar sua desgraça
a moça tem como sua melhor amiga e protetora a mais bela-eterna-inexpressiva e agora velha- Catherine Deneuve.
E como as desgraças nunca andam só, seu chefe é o também inexplicável e inexpressivo
Jean Marc Barr. Apesar de musical não vi ninguém cantando após a exibição tampouco
sorrindo. E as canções compostas por Björk são maravilhosas.
A câmera constantemente tremida e a lendária quantidade de câmeras de vídeo digital espalhadas
pelo set causam o estranhamento instigante de DANÇANDO NO ESCURO.
Lars Von Trier inventou o Dogma, ainda bem, do contrário o rapaz seria mais um a repetir clichês.
Escapa por pouco, creio que o rigor das leis que inventou marquem o limite do seu melodrama, mesmo assim exagera.
Seus filmes são curiosos, estranhos na forma, azedos no conteudo. |

Dançando no Escuro
Titulo Original: Dancer in the Dark
Titulo em Inglês: Dancer in the Dark
Classificação: 18 anos
Direção
Lars Von Trier
Roteiro
Lars Von Trier
Elenco
Björk, Catherine Deneuve, Joel Grey
Fotografia
Robby Müller
Montagem
Molly Malene Stensgaard , François Gedigier
Música
Björk
País
Dinamarca / França / Suiça
Ano
2000
Duração
140min
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