Cinema
por Lula Rodrigues

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Alta Fidelidade


18/Novembro/2000

EMOÇÃO E TÉCNICA ATRAVÉS DA JANELA

Griffith era implacável! Praticamente exigia o envolvimento do espectador na direção da exteriorização verbal e emocional das suas repressões. Teve em Alfrede Hitchcock um dos seus mais competentes discípulos. Fiel ao mestre manipulava como nenhum outro a linguagem cinematográfica.

Em Janela Indiscreta um fotógrafo condenado à uma cadeira de rodas,está com a perna quebrada, espiona seus vizinhos através da janela de seu apartamento e suspeita de um assassinato. Como de costume logo no início Hitchcock enumera as pistas fundamentais ao desenrolar da trama.

No início o passeio feito pela câmera mostrando o pátio de um edifício, a seguir o interior de uma sala de onde se via o ambiente: um homem dorme. Da janela, a câmera mostra a rotina diária da vizinhança. Ao retornar para o interior a câmera apresenta em detalhes o homem em sua cadeira de rodas, câmera danificada e fotos.

A precisão dos detalhes avisa que estes serão de suma importância.

É velha a história da metáfora que Hitchcock cria com Janela Indiscreta.A sala de exibição:a janela seria a tela, o fotógrafo preso à cadeira de rodas refletiria o comportamento do espectador imovel durante o transcorrer do filme, a troca de objetivas da máquina fotográfica seria o correspondente à necessidade das mudanças focais exigidas.

No decorrer do filme o espectador suspeita, junto com o fotógrafo, que um crime possa ter sido efetivado por um dos seus vizinhos. A suspeita recai justamente sobre o homem que não apresentava um comportamento dos mais convencionais junto a sua esposa. Aqui um traço do moralismo do diretor.Divide sua suspeita com a noiva e o detetive que não o levam a sério. Através da subjetividade da câmera o espectador vê o que o personagem de James Stewart também vê.

O fato de o crime não ser mostrado permite que o espectador, de forma ilusória, participe da construção do quebra-cabeças mas Hitchcock interfere na cena do crime e aquelas pistas fundamentais mostradas no início são habilmente camufladas.

Hitchcock desistira de sua formação como engenheiro após a morte do pai, corria a década de 20 e o quase engenheiro contava 20 anos quando entrou para o cinema em Londres. Fez de tudo até sua estréia como diretor em 1922 com Number Thirteen.

Suspeita-se que seja graças a sua formação como engenheiro tenha desenvolvido um estilo que combine perfeitamente arte e técnica.Levemente caricato.

Janela Indiscreta, teve seu lançamento em 1954 e retorna agora em cópia restaurada, já serviu de tese para muito estudante de cinema, assunto para incontáveis ensaios no entanto nada mais é do que a prova da inventividade de um grande cienasta aliada ao seu inquestionável voyeurismo. Uma grande metáfora do próprio cinema.

Delicie-se com o voyeurismo de Janela Indiscreta e depois descanse junto a sublimação de Um Corpo Que Cai .

Janela Indiscreta
Titulo Original
Rear Window

Classificação: 14 anos

Direção
Alfred Hitchcock

Roteiro
Cornell Woolrich,
John Michael Hayes

Elenco
James Stewart,
Grace Kelly

Fotografia
Robert Burks

Montagem
George Tomasini

Música
Franz Waxman

País
Estados Unidos

Ano
1954

Duração
112min

FILMOGRAFIA
Filmes mudos
1. The Pleasure Garden (1925)
2. The Mountain Eagle (1926)
3. The Lodger (1926)
4. A Story of the London Fog (1926)
5. Downhill (1927)
6. Easy Virtue (1927)
7. The Ring (O Anel, 1927)
8. The Farmer's Wife (A Mulher do Fazendeiro, 1928)
9. Champagne (idem, 1928)
10. The Manxman (O Ilhéu, 1929).

Filmes sonoros
1. Blackmail (Chantagem e Confissão, 1929)
2. Juno and the Paycock (1929)
3. Murder (Assassinato, 1929)
4. The Skin Game (1931)
5. Rich and Strange (1932)
6. Number Seventeen (O Mistério no 17°, 1932)
7. Waltzes from Vienna (1933)
8. The Man who Knew Too Much (O Homem que Sabia
Demais, 1934)
9. The 39 Steps (Os 39 Degraus, 1935)
10. The Secret Agent (O Agente Secreto, 1936)
11. Sabotage (O Marido Era o Culpado, 1936)
12. Young and Innocent (1937)
13. The Lady Vanishes (A Dama Oculta, 1938)
14. Jamaica Inn (A Estalagem Maldita, 1939)
15. Rebecca (Rebeca, a Mulher Inesquecível, 1940)
16. Foreign Correspondent (Correspondente Estrangeiro, 1940)
17. Mr. and Mrs. Smith (Um Casal do Barulho, 1941)
18. Suspicion (Suspeita, 1941 )
19. Saboteur (Sabotador, 1942)
20. Shadow of a Doubt (A Sombra de uma Dúvida, 1943)
21. Lifeboat (Um Barco e Nove Destinos, 1943)
22. Spellbound (Quando Fala o Coração, 1945)
23. Notorious (Interlúdio, 1946)
24. The Paradine Case (Agonia de Amor, 1947)
25. Rope (Festim Diabólico, 1948)
26. Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio, 1949)
27. Stage Fright (Pavor nos Bastidores, 1950)
28. Strangers on a Train (Pacto Sinistro, 1951 )
29. I Confess (A Tortura do Silêncio, 1952)
30. Dial M for Murder (Disque M para Matar, 1954)
31. Rear Window (Janela Indiscreta, 1954)
32. To Catch a Thief (Ladrão de Casaca, 1955)
33. The Trouble with Harry (O Terceiro Tiro, 1956)
34. The Man Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demais, 1956)
35. The Wrong Man (O Homem Errado, 1958)
36. Vertigo (Um Corpo que Cai, 1958)
37. North by Northwest (Intriga Internacional, 1959)
38. Psycho (Psicose, 1960)
39. The Birds (Os Pássaros, 1963)
40. Marnie (Marnie, Confissões de Uma Ladra, 1964)
41. Torn Curtain (Cortina Rasgada, 1966)
42. Topaz (Topázio, 1969)
43. Frenzy (Frenesi, 1972)
44. Family Plot (Trama Diabólica, 1976)

A ATRIZ E A MÚSICA - ALTA AFINIDADE

Como adaptar para a tela uma história cujos melhores momentos chegam através do pesamento do personagem principal? Para teatro já é complicado...já foi. Leia comentário na seção destinada ao teatro. Como? Primeiro, um excelente roteirista seria fundamental, a seguir um diretor de estilo conciso acima de qualquer suspeita. Pois bem, o roteirista surpreende e o diretor acrescenta criatividade e competência na condução da trama.

John Cusak é o principal coadjuvante masculino, a protagonista é a música pop, produziu e adaptou o roteiro e Stephen Frears dirigiu magistralmente.

ALTA FIDELIDADE é uma história de homens e seus dissimulados problemas românticos. Como enfrentá-los? Quanto mais superá-los! Adaptação do best seller ALTA FIDELIDADE- ed. Rocco- de Nicy Hornby que, com enorme criatividade e repleto de particularidades, fala de assuntos pra lá de comuns, rotineiros, tolos, chatos que acentuando as neuroses daí provenientes gera reflexão e risos.Muitos risos e alguma emoção. Na passagem para a tela, é natural, muito se perde mas sob o comando de Frears o interesse não se dilui. Pelo contrário. A solução encontrada pelo diretor para "fazer ouvir os pensamentos" de Rob Fleming (no filme o sobrenome é Gordon) e manter o vigor do texto por si só já recomendam o filme: Rob fala seus pensamentos em voz alta, diretamente para a câmera.Um recurso velho mas longe de ser considerado gasto. E no livro estas são as melhores partes. No livro a trama se desenrola em Londres, no filme é transferida para Chicago mas poderia ser São Paulo, Rio, qualquer lugar onde um adolescente tardio permitesse que a cultura pop interferisse no seu crescimento emocional.

A infelicidade em ALTA FIDELIDADE tem início quando Rob, dono de uma decadente loja de discos, é desprezado por Laura. Entra em cena a dor de cotovelos inspirando Rob e seus amigos, outros rejeitados pois o que mais fazem é rejeitar, a fazerem listas de tudo. Rob é um tipo de fracassado que cairia como uma luva nos filmes de Woody Allen, e o rapaz fala, fala, fala...

Ganha importância no filme a participação dos empregados da loja de Rob, Barry (Jack Black) e Dick ( Todd Louiso) . Apesar de personagens ultra manjados, roqueiros esteriotipados, são responsáveis por grandes momentos, principalmente Barry com seus palavrões. Quem tem mais de 30 anos encontrará inúmeras identificações sem que para tanto necessite algum esforço.

No papel de protagonista, a música pop: Velvet Underground, Bob Dylan, Elvis Costello, Steve Wonder, a banda escocesa Beta Band e outros acenam com a certeza do bom programa. É infálivel. Naqueles momentos, e são muitos, que você já viu num outro filme, não se constranja, feche os olhos. Afinal de contas não é todo dia que se tem mais de cem minutos de boa música.

Um detalhe por demais significativo, e por isso é detalhe, merece a devida atenção;Iben Hjejle, atriz dinamarquesa que vive o papel de Laura e quando está em cena surpreende com seu talento que ficara á deriva em "Mifune" de Soren Kragh Jacobsen. Com Laura, momentos obrigatórios de olhos bem abertos

ALTA FIDELIDADE

Título Original
High Fidelity

País de Origem
Reino Unido/ EUA

Ano
2000

Duração
113 minutos

Diretor
Stephen Frears

Elenco
John Cusack,
Iben Hjejle,
Todd Louiso,
Jack Black,
Lisa Bonet,
Joan Cusack,
Tim Robbins,
Chris Rehmann


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