| COMENTANDO Teatro por Gustav Marhaban |
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| GERALD x THOMAS "Em algumas pessoas o talento parece menor do que é, pois elas sempre se impõem tarefas grandes demais." Friedrich Nietzsche N x W é anunciada como pocket ópera. E não há nenhum embuste no enunciado. Na verdade Nx W ilumina o problema. Ou as várias faces do mesmo problema: a crise da narrativa,a agonia,a incapacidade do relacionamento humano, quando se relacionam é numa condição de sado-masoquismo, e a consequente e inevitável solidão humana. Nx W é um exercício de memória onde personagens perplexos tentam refazer os percurso de suas patéticas existências. Antes de começar a peça o diretor faz o seu monólogo e avisa que a platéia pode rir, que espera que todos se divirtam. Pois bem, não há diversão, não há comédia, há um enigma que frustrará as expectativas. A forma não se adequa a narrativa onde personagens não encontram seu lugar no mundo. Sob o cinza do universo por ele criado, Gerald ri de si próprio, ironiza sua própria narrativa, repete a exaustão cenas desprovidas de graça mas que inevitavelmente provocarão risos tamanho o absurdo. Os atores não contam uma história, a duplicidade de princípios não está presente em Nx W, modelo primitivo de narrar. O bem contra o mal já antecipando o inevitável vencedor para a indispensável catarse da hipócrita platéia. A humildade do texto, sua linguagem banal,traduz a sua magnitude.Como um poema. E os grandes poemas, infelizmente, são para poucos. Talvez resida aí o problema, não especificamente de Nx W, mas do teatro de Gerald Thomas, a ausência salutar de sentimentalismos. É preciso estar atento, enquanto uma atriz repete incansávelmente gesto e texto ao atender telefonemas em uma cadeira cibernética, no alto da arquibancada um ator sentado lia, talvez em braile, uma partitura. Mas... "A gente deve viver com o problema e não fugir dele. Resolver o problema afirmando a fé na arte, na arte pura" ensinava o rabino Henry Sobel. O cenário é modesto porém farto em simbolismos, a cadeira repleta de tecnologia mas que não traz certezas à personagem que se apresenta com uma alucinada refém da tecnologia, as enormes pedras, a que é açoitada frenéticamente e a que protagoniza a última cena, retorno? A luz de Gerald Thomas e Caetano Vilela é irretocável, a música originalmente composta por Borut Krzinik e Arrigo Barnabé expressam a angústia dos ditos " tempos modernos". O grupo de atores é homogêneo, ocorrem aqui ou ali alguns "incidentes" permitindo a um ou outro extravasar o indisfarçável talento. É o caso de Bruce Gomlevski e Camila Morgado. Principalmente Bruce que em dois momentos rouba o espetáculo, seria ele o alter-ego do diretor? Já Camila,áspera e elegante, cumpre seu papel sem jamais fazer uso da fácil e acessível caricatura. O espetáculo é do diretor, indiscutivelmente. Mas se fosse um pouco mais dos atores, mais Bruce, mais Camila, não soaria melhor? Não? Talvez a última cena resuma essa relação, o beijo do cantor na pedra. Estaria ali o beijo do diretor em seus atores? N x W, pode ser visto como uma antipeça, uma oposição a literatura dramática convencional. O ponto negativo da peça está fora do palco, está sentado na ausência inexplicável das confortáveis cadeiras que revestiam as, atualmente torturantes, arquibancadas do teatro de arena do SESC Copacabana. O diretor antecipou que a ação se daria num campo de concentração. O sofrimento se anunciava nas arquibancadas. Mas valeu a pena. Em cartaz no mesmo teatro,outro trabalho de Gerald Thomas, VENTRILOQUIST. Como alertara Nietzsche: "Os autores mais espirituosos provocam o sorriso mais imperceptível." |
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Gustav Marhaban adora teatro. |