COMENTANDO
Teatro
por Gustav Marhaban
 


9/Setembro/2000

GERALD x THOMAS

"Em algumas pessoas o talento parece menor do que é, pois elas sempre se impõem tarefas grandes demais."
Friedrich Nietzsche

N x W é anunciada como pocket ópera. E não há nenhum embuste no enunciado. Na verdade Nx W ilumina o problema. Ou as várias faces do mesmo problema: a crise da narrativa,a agonia,a incapacidade do relacionamento humano, quando se relacionam é numa condição de sado-masoquismo, e a consequente e inevitável solidão humana.

Nx W é um exercício de memória onde personagens perplexos tentam refazer os percurso de suas patéticas existências.

Antes de começar a peça o diretor faz o seu monólogo e avisa que a platéia pode rir, que espera que todos se divirtam. Pois bem, não há diversão, não há comédia, há um enigma que frustrará as expectativas. A forma não se adequa a narrativa onde personagens não encontram seu lugar no mundo.

Sob o cinza do universo por ele criado, Gerald ri de si próprio, ironiza sua própria narrativa, repete a exaustão cenas desprovidas de graça mas que inevitavelmente provocarão risos tamanho o absurdo.

Os atores não contam uma história, a duplicidade de princípios não está presente em Nx W, modelo primitivo de narrar. O bem contra o mal já antecipando o inevitável vencedor para a indispensável catarse da hipócrita platéia. A humildade do texto, sua linguagem banal,traduz a sua magnitude.Como um poema. E os grandes poemas, infelizmente, são para poucos.

Talvez resida aí o problema, não especificamente de Nx W, mas do teatro de Gerald Thomas, a ausência salutar de sentimentalismos. É preciso estar atento, enquanto uma atriz repete incansávelmente gesto e texto ao atender telefonemas em uma cadeira cibernética, no alto da arquibancada um ator sentado lia, talvez em braile, uma partitura. Mas...

"A gente deve viver com o problema e não fugir dele. Resolver o problema afirmando a fé na arte, na arte pura" ensinava o rabino Henry Sobel.

O cenário é modesto porém farto em simbolismos, a cadeira repleta de tecnologia mas que não traz certezas à personagem que se apresenta com uma alucinada refém da tecnologia, as enormes pedras, a que é açoitada frenéticamente e a que protagoniza a última cena, retorno?

A luz de Gerald Thomas e Caetano Vilela é irretocável, a música originalmente composta por Borut Krzinik e Arrigo Barnabé expressam a angústia dos ditos " tempos modernos".

O grupo de atores é homogêneo, ocorrem aqui ou ali alguns "incidentes" permitindo a um ou outro extravasar o indisfarçável talento. É o caso de Bruce Gomlevski e Camila Morgado. Principalmente Bruce que em dois momentos rouba o espetáculo, seria ele o alter-ego do diretor? Já Camila,áspera e elegante, cumpre seu papel sem jamais fazer uso da fácil e acessível caricatura.

O espetáculo é do diretor, indiscutivelmente. Mas se fosse um pouco mais dos atores, mais Bruce, mais Camila, não soaria melhor? Não?

Talvez a última cena resuma essa relação, o beijo do cantor na pedra. Estaria ali o beijo do diretor em seus atores?

N x W, pode ser visto como uma antipeça, uma oposição a literatura dramática convencional.

O ponto negativo da peça está fora do palco, está sentado na ausência inexplicável das confortáveis cadeiras que revestiam as, atualmente torturantes, arquibancadas do teatro de arena do SESC Copacabana.

O diretor antecipou que a ação se daria num campo de concentração. O sofrimento se anunciava nas arquibancadas. Mas valeu a pena. Em cartaz no mesmo teatro,outro trabalho de Gerald Thomas, VENTRILOQUIST.

Como alertara Nietzsche: "Os autores mais espirituosos provocam o sorriso mais imperceptível."

N X W - Pocket Opera
Concepção e Direção Gerald Thomas
com a Cia. de Ópera Seca
Camila Morgado
Bruce Gomlevski
Ludmila Rosa
Fábio Mendes
Marcello Bosschar
Marcos Azevedo
Fabiana Guglielmetti
Paulo Szot (cantor)


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  Luiz em meio à sua paixão

Gustav Marhaban adora teatro.