Teatro
por Gustav Marhaban

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18/Novembro/2000

ESPERANDO UMA ATRIZ
por Luíz Horácio

O resumo do curto (menos mal) espetáculo é o seguinte: os atores são figurantes e uma entrevistadora de TV interpretando a si própria é a protagonista. Dedicada debate-se entre o esforço desmedido e o patético na frustrada intenção de representar.

Durante quase 50 minutos os espectadores testemunham uma apresentação digna de uma aluna iniciante do curso de artes cêncicas,obediente e voluntariosa. No caso em questão acrescente uma pitada, nada modesta, de arrogância.

Entre caretas , um bem ensaiado roteiro de passos e gestos, além de um texto "decorado", a entrevistadora faz de tudo, menos interpretar.

Afinal de contas, estando no papel dela mesmo ( no espetáculo atende por Gabi ) bastaria decorar o texto para ser teatro? E estando Gabi, que não é atriz e está muito longe de ser, no centro do palco a desfiar um texto e a tal chamar de teatro, é justo a cobrança de ingresso? E o sindicato, geralmente tão atuante em questões menores e extremamente corporativista, não se opõe?

ESPERANDO BECKETT em cartaz no Teatro do SESC- Copacabana é um espetáculo onde tudo é falso, o único suspiro de verdade é Gabi(infelizmente) e seu clown sem alma.

Gerald Thomas na função de diretor está irrepreensível pois faz da "entrevistadora" o que bem entende, desconfio que inclusive a monitora utilizando-se de ponto eletrônico, o que não fugiria à realidade da protagonista.

Mais uma vez o dedo do horror de Thomas está presente , agora menos sanguinolento, em seu espetáculo. Gabi abre a geladeira revelando em seu interior o tronco de uma mulher loira. Em Quartett, de Heiner Müller os dois personagens movimentam-se entre enormes pedaços de carne suspensos num cenário onde escorre sangue por todos os lados lembrando um açougue, em Matogrosso havia pedaços de corpos espalhados pelo chão, coração e cabeça arrancado em The flash and crash days e o pseudo cadáver em Nowhere man.

Mas o espetáculo não é ESPERANDO BECKETT, o que Beckett tem a ver com isso? Muito pouco, quase nada.

"Nada a fazer"

O que fazer, ou melhor o que dizer quando num estúdio, exageradamente escuro ,de TV por onde circulam obscuros elementos, aqui o desperdício da Cia.de Ópera Seca, em trajes de gosto discutível, uma alinhadíssima entrevistadora em seu terno preto confere os últimos detalhes e aguarda a chegada de seu entrevistado? Enquanto isso, sentada e bem iluminada, a maquiadora passeia seus olhos por uma revista que estratégicamente traz na capa Gabi e seu namorado. Várias vezes abandona seu banquinho e na pele da mesma e caricata personagem vivida por ela em NxW e Ventriloquist vai até Gabi e retoca cabelo, maquilagem...

"Nada a fazer"

O cenário não tem nada a ver com o universo da desesperança de Beckett e o texto, embora a dicção exemplar de Gabi, perde o tom assustador da poética beckettiana. Em ESPERANDO BECKETT não se faz notar a imprescindível relação teatral entre palavras e imagens. O diretor optou pelo efeito em detrimento de uma humanidade que poderia ser conferida por Gabi caso esta tivesse condições para conceder uma dimensão interpretativa à altura do texto.

Os personagens de Beckett são homens presos em seus corpos que evitam ao máximo a integração com o restante da humanidade, contemplar já é o bastante, têm em comum o desprezo pela vida. Por exemplo, em Fim de Jogo temos Hamm-paralítico e cego,Clov que não pode sentar. Os pais de Hamm, Nagg e Nell-não têm pernas e moram em latas de lixo,Winnie em Dias Felizes está enterrada na areia.

Em ESPERANDO BECKETT percebe-se uma tênue presença de Beckett justamente no tendão de Aquiles da peça: a suposta atriz. Se Beckett teve em Billie White sua atriz fetiche, aquela que melhor o compreendeu e com ela encenou diversos textos para tanto ensaiando a exaustão mesmo quando aparecia apenas sua boca, Gerald teve em Gabi sua Billie, com um agravante: desprovida de talento.

Algumas atrizes talentosas não conseguiram se adaptar ao rigor de Becket. Pelo visto Marília Gabriela, que em seu elegante terno preto nada condizente a um personagem de Beckett, conseguiu se adaptar sem problemas ao método Gerald.

Falta à Marília Gabriela talento e formação, à sua voz singular falta técnica vocal. Ao excesso de ruídos e trilha sonora faltou o silêncio, a escuridão e o esquecimento próprios do teatro de Beckett. O espectáculo cujo único momento teatral ocorre quando da chegada de Beckett, embora lembre cena de "O Exorcista", deixa a desejar justamente onde o teatro de Beckett é pródigo, o uso dos sons e suas repetições na construção de um mundo sem saída.

Ah! Gabi não é um persongem de Beckett. Pois bem. É um personagem de Gerald vivendo um texto de Beckett? Não. Mas é a própria Gabi que está no palco, vivendo Gabi. Ah! Então ela é personagem dela mesma. Mas e o texto? Ora esqueça o texto.

Enfim, tenha a certeza caro espectador que ao terminar ESPERANDO BECKETT duas pessoas estarão rindo de você. Uma totalmente vestida de preto, a outra de longos cabelos crespos, óculos e seu inseparável cigarro.


ESPERANDO BECKETT

Com Marília Gabriela

Concepção e Direção
Gerald Thomas

Colaboração no texto
Ninho Moraes

Participação
Cia.Ópera Seca

Iluminação
Gerald Thomas e Carina Camurati

Figurinos
Clô Orozco

ESPERANDO PARA VER...A VOZ
Estreiou no Teatro do SESC Copacabana ESPERANDO BECKETT, montagem de Gerald Thomas inspirada em textos de Samuel Beckett com Marília Gabriela e a participação da Cia. De Ópera Seca. Direção: Gerald Thomas

Gerald , Maríla e Luana Maya-Gerente Cultural do SESC concederam entrevista coletiva no palco do teatro após o ensaio da segunda-feira,dia e 06/11.
A entrevista, repleta de perguntas "interessantes" sobre a vida de Marília e seu atual marido, aguçou a expectativa pela estréia da entrevistadora nos palcos como atriz visto que como cantora ela já deu mostras do seu limite tão próximo.Os momentos relativos a vida particular da entrevistadora, momentaneamente atriz, não os reproduziremos pois julgamos desinteressantes às pessoas de bom senso.

ESPERANDO BECKETT apresenta Maríla Gabriela como uma entrevistadora de TV que está esperando seu convidado, Beckett.

Marília contou que não foi a primeira vez, embora pouquíssimas, que recebeu um convite para interpretar mas que dessa vez com Gerald deu vontade. "Pois se ele viu uma possibilidade então valeria a pena. Era uma experiência que eu gostaria de ter"

MONÓLOGO - "Eu acho uma viagem solo mais fácil pra quem vai começar. Contracenar poderia atrapalhar alguém. Como tenho paixão pelas palavras, facilidade com elas...achei que bem dirigida me sairia bem"

FACILIDADES - "Tem sido bom, não é fácil. O Gerald permite a iniciativa do ator e depois corrige. Sempre com muito carinho"

CRÍTICAS - "Provavelmente aos 50 eu esteja mais preparada do que aos 30. Provavelmente eu venha a me aborrecer com uma coisa ou outra. Costumo dizer que a opinião dos outros é dos outros. A opinião dos outros é um problema deles mesmos. Gosto demais do que faço e estou atriz com muita alegria. Acho difícil abandonar uma carreira e começar outra."

GERALD - Parece mentira mas Geald pouco falou, manifestou-se quando solicitado a contar o espisódio de seu encontro com Beckett em Paris e justificou a escolha de Maríla por causa da voz

"Quem está no palco não é um personagem é Marília Gabriela. Eu jamais conseguiria esta fusão de uma pessoa que tem uma voz no cenário da cultura brasileira e ela é a voz.

A PERGUNTA IMBECIL SEMPRE PRESENTE - "Eu sempre quis saber como é esse processo de criação. Eu tenho uma colcha de retalhos de informações. Perguntei a Marília Pêra e a Ana Carolina como é que se decora. E estou utilizando esses dois processos que tirei das entrevistada"

SER BECKTIANO - "Eu me considero um ser becktiano, uma pessoa como outra qualquer, cheia de indagações e que se permite "pirar". Se nos momentos de crise cada um de nós disser em voz alta o que nos incomoda então saberemos que somos todos becktianos"

É ver para crer! Ou não.


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Luiz em meio à sua paixão

Gustav Marhaban adora teatro.