COMENTANDO
BEM VIVER
por Sandra Florencio


23/setembro/2000

BOM DIA!

Sexta-feira última, dia 22, tive a oportunidade de assistir a um palestra do sociólogo italiano Domenico de Masi que, entre outros, é o pai de uma idéia muito legal (transformada em livro da Editora Sextante) chamada Ócio Criativo. A platéia? Seletos gerentes do Banco do Brasil (e alguns convidados, eu inclusive) em mais um evento de atualização técnico gerencial. Digna de registro tal iniciativa, que espero, signifique novos horizontes para todos aqueles profissionais.

Como sou fâ de Domenico (e é por isso que posso chamá-lo assim) com toda sua alegria napolitana e principalmente fã de suas idéias, me atreverei a contar para vocês um pouco do muito que ouvi. Um dos pontos importantes logo no início dizia respeito ao fato de que a grande maioria de gerentes hoje trabalha mais de 10 horas por dia. Imagina-se que haja ganho material, mas o fato é que os rostos não aparentam estarem felizes quando cruzamos por eles nos corredores das empresas. Queixas de que se estressam a níveis insuportáveis, de que o trabalho é monótono e a competitividade é sufocante demonstram, segundo nosso sociólogo (que pegou carona em Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre) o quanto vivemos numa cultura empresarial sado-masoquista onde todos ficam felizes em ser tiranos e tiranizados.

Ainda hoje é grande o número de empresas altamente burocratizadas onde burocratas infelizes parecem ter prazer somente, quando com suas regras sem fim, matam as idéias dos criativos à sua volta. Assim, é comum que leis simples e ruins superem idéias complexas e boas (mas que dão trabalho pelo simples fato de exigirem mais estudos, mais reflexão). Domenico ressaltou também que hoje não existe mais a hierarquia do saber: todos podem saber tudo desde que se movimentem para tal. Daí, vermos organizações não hierarquizadas (formadas por voluntariado, por exemplo) funcionando muito melhor que estruturas formais.

Ao comentar que não há felicidade nas empresas, apresentou um quadro histórico onde ficou claro o quanto elas ainda hoje são organizads de forma industrial, como no início do século (fordista, taylorista) numa sociedade pós-industrial que não é mais assim. Por mais que ainda hajam pessoas que acreditem que dinheiro e sucesso são valores importantes, o fato é que novos valores norteiam o cérebro coletivo. São eles:

- intelectualização (trabalhar com a cabeça não mais com o corpo);
- criatividade;
- ética;
- estética;
- subjetividade;
- emotividade
- feminilização (que é a soma dos três anteriores e que são o grande diferencial que vem dando sucesso às mulheres na vida corporativa, salvo àquelas que optaram mesmo que inconscientemente pela masculinização de sua postura de vida para sobreviver na seara dominada durante tanto tempo pelo sexo forte")
- desestruturação do tempo e espaço, ou seja, fazer qualquer coisa em qualquer lugar através de novas tecnologia (fax, celular, computador);
- qualidade de vida (vive-se só uma vez, que tal viver bem?)

Ao falar das necessidades qualitativas do homem hoje, com seu jeito brincalhão e ao mesmo tempo firme convidou-nos a refletir sobre nossas vidas e mudar. Interessante seu enfoque de trabalho: se você gosta do que faz, então tem prazer e, se tem prazer, se diverte e se há diversão...tudo bem, até mesmo no fato de trabalhar aquelas 10 horas mencionadas lá no início.

As necessidades qualitativas são:

- a introspecção que é a necessidade de pensar sua relação com a vida (olhar uma flor, namorar, ouvir boa música, ficar só);
- a amizade, o sentir-se solidário com outras pessoas
- o amor
- o jogo, a alegria

Conclui Domenico que tudo isso nos leva ao conviver. Eu, feliz por ter me sentido tão bem e à vontade ouvindo aquilo tudo que de alguma forma, já me soava familiar (minha amiga Ana Bolzan Medina, que também assistiu a palestra, diria que é porque estamos no mesmo fluxo) completo o grande mestre aqui do meu cantinho dizendo pra vocês que nos leva a conviver e é claro, bem viver!

Semana que vem tem mais


Eseva pra Sandra.

 

Sandra Florencio é administradora e consultora de gente.


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