| COMENTANDO LITERATURA por Luiz Horácio |
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O DIÁRIO DA BARONESA ou O ETERNO PAÍS DO FUTURO "O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo."
(Oscar Wilde) "Diário da Baronesa E. de LANGSDORFF"- tradução de Patrícia Chintoni/Marco Antônio Toledo Neder: prefácio de Miriam L. Moreira Leite.Florianópolis/Santa Cruz do Sul: Ed. Mulheres/Edunisc,1999 apresenta o olhar estrangeiro, no caso um íntimo olhar, penetrando no âmago da vida brasileira e trazendo à luz questões, para vergonha nossa, até hoje órfãs de soluções. Debruçada na janela dos estrangeiros a baronesa assiste a vida nos trópicos com ar de espanto e reprovação, com o passar do tempo a visão crítica é apurada e a baronesa, irônica passa a "entender" o ritual político bem como o dia a dia da corte. "Ouvi pessoas zombar da etiqueta da corte, tachando-a de ultrapassada, ridícula, não mais de nosso tempo, mas vi estas mesmas pessoas, surpreendidas pelo imperador que atravessava a sala, levantar-se precipitadamente, não por submissão a um hábito, mas por obediência a um impulso irresistível." E a francesa sai às ruas, deixando seu posto de observadora para assumir o papel de protagonista e mesmo sem decorar totalmente seu papel, compõem a personagem complexa: vigorosa e frágil, perspicaz e ingênua. A baronesa, sem pretensões, pintava com os tons da honestidade um quadro sobre o Brasil. "É preciso que se diga, jamais veremos lugares cujos contornos sejam mais majestosos, e cujas cores sejam tão esplêndidas. Aqui, a natureza é gigantesca, mas provida de uma graça que tira desta palavra tudo o que nela pode haver de assustador, conforme nossa imaginação européia. Assim, impressionada como sou pela elegância das formas todas essas montanhas, pela luminosidade e a harmonia do ar que as envolve, encantada a cada instante do dia pela visão dos loureiros-rosa em flor, pela beleza da folhas de coqueiros, que se recortam tão nitidamente neste belo céu azul, pela elegância régia das palmeiras, não posso explicar a melancolia, a tristeza mesmo desta benevolente e admirável natureza. Essa tristeza não tem nada de pessoal, não vem do afastamento da pátria, vem da contemplação da natureza em si e da impressão de sua beleza, que deixam a alma lânguida e sonhadora." A baronesa entristecia-se ao admirar tanta beleza natural. Particularidade nefasta do ser humano, destruir o belo, especialmente quando o belo exagera e é também natural. A natureza estimula um sonho ou melhor, um pesadelo: o da destruição. Convém assinalar que nessa época o governo da "contemplativa" baronesa lançava um suspeito olhar dominador sobre a Amazônia. Mas não era apenas a natureza que espantava e surpreendia a baronesa. A condição dos escravos era de difícil compreensão. "O carnaval chega a seu fim e fazem-se os preparativos para os "entrudos" da Semana Santa. Fui passar a manhã na casa da Sra. Saint.Georges, que me avisara que os confeccionaria o dia todo e me diverti muito em sua casa. Entramos numa saleta que abria para uma varanda e um belo jardim e , lá, cercadas de papagaios, de colibris numa gaiola de bambu, de negros e negras deitados no chão, sentamo-nos num grande sofá de junco de balanço, sempre em movimento. O aspecto do local assim povoado era muito estranho. Nunca me senti tão longe da Europa. O que mais me impressionou foi a bizarria das relações entre todas essas pessoas. Os escravos eram tratados por sua dona com uma doçura excessiva, e total liberdade, muito mais do que tratamos as crianças de nossos empregados. Apesar dessa grande liberdade, a obediência era maior do que aquelas que há entre nós." A última frase, resume o livro, resume o Brasil daquela época e anuncia o país do futuro. Um país onde as liberdades continuam aparentes. E pasmem, conheço um grupo de abastados supostos intelectuais, que a-d-o-r-a Cuba. Devem andar de olhos vendados por este triste Brasil.
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Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê... |