COMENTANDO
LITERATURA
por Luiz Horácio


26/julho/2000

O DIÁRIO DA BARONESA ou O ETERNO PAÍS DO FUTURO

"O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo." (Oscar Wilde)

A simples menção da palavra diário já desperta curiosidade, cheira a suspeita,perversidade, coisas escondidas,nada além dos fuxicos diários, "densos dilemas juvenis", geralmente femininos. Diário é algo extramente pessoal, repleto de segredos que repousam "implorando" que alguém os descubra. Quase sempre com data marcada. Resumindo: o diário, no passado, era um cantinho dos segredos íntimos, hoje é o retrato da futilidade do(a) seu(sua) dono(a).
As exceções existiram. Aqui entre nós: será que alguém ainda se dedica ao seu diário atualmente?

"Diário da Baronesa E. de LANGSDORFF"- tradução de Patrícia Chintoni/Marco Antônio Toledo Neder: prefácio de Miriam L. Moreira Leite.Florianópolis/Santa Cruz do Sul: Ed. Mulheres/Edunisc,1999 apresenta o olhar estrangeiro, no caso um íntimo olhar, penetrando no âmago da vida brasileira e trazendo à luz questões, para vergonha nossa, até hoje órfãs de soluções.

Debruçada na janela dos estrangeiros a baronesa assiste a vida nos trópicos com ar de espanto e reprovação, com o passar do tempo a visão crítica é apurada e a baronesa, irônica passa a "entender" o ritual político bem como o dia a dia da corte.

"Ouvi pessoas zombar da etiqueta da corte, tachando-a de ultrapassada, ridícula, não mais de nosso tempo, mas vi estas mesmas pessoas, surpreendidas pelo imperador que atravessava a sala, levantar-se precipitadamente, não por submissão a um hábito, mas por obediência a um impulso irresistível."

E a francesa sai às ruas, deixando seu posto de observadora para assumir o papel de protagonista e mesmo sem decorar totalmente seu papel, compõem a personagem complexa: vigorosa e frágil, perspicaz e ingênua. A baronesa, sem pretensões, pintava com os tons da honestidade um quadro sobre o Brasil.

"É preciso que se diga, jamais veremos lugares cujos contornos sejam mais majestosos, e cujas cores sejam tão esplêndidas. Aqui, a natureza é gigantesca, mas provida de uma graça que tira desta palavra tudo o que nela pode haver de assustador, conforme nossa imaginação européia. Assim, impressionada como sou pela elegância das formas todas essas montanhas, pela luminosidade e a harmonia do ar que as envolve, encantada a cada instante do dia pela visão dos loureiros-rosa em flor, pela beleza da folhas de coqueiros, que se recortam tão nitidamente neste belo céu azul, pela elegância régia das palmeiras, não posso explicar a melancolia, a tristeza mesmo desta benevolente e admirável natureza. Essa tristeza não tem nada de pessoal, não vem do afastamento da pátria, vem da contemplação da natureza em si e da impressão de sua beleza, que deixam a alma lânguida e sonhadora."

A baronesa entristecia-se ao admirar tanta beleza natural. Particularidade nefasta do ser humano, destruir o belo, especialmente quando o belo exagera e é também natural. A natureza estimula um sonho ou melhor, um pesadelo: o da destruição. Convém assinalar que nessa época o governo da "contemplativa" baronesa lançava um suspeito olhar dominador sobre a Amazônia. Mas não era apenas a natureza que espantava e surpreendia a baronesa. A condição dos escravos era de difícil compreensão.

"O carnaval chega a seu fim e fazem-se os preparativos para os "entrudos" da Semana Santa. Fui passar a manhã na casa da Sra. Saint.Georges, que me avisara que os confeccionaria o dia todo e me diverti muito em sua casa. Entramos numa saleta que abria para uma varanda e um belo jardim e , lá, cercadas de papagaios, de colibris numa gaiola de bambu, de negros e negras deitados no chão, sentamo-nos num grande sofá de junco de balanço, sempre em movimento. O aspecto do local assim povoado era muito estranho. Nunca me senti tão longe da Europa. O que mais me impressionou foi a bizarria das relações entre todas essas pessoas. Os escravos eram tratados por sua dona com uma doçura excessiva, e total liberdade, muito mais do que tratamos as crianças de nossos empregados. Apesar dessa grande liberdade, a obediência era maior do que aquelas que há entre nós."

A última frase, resume o livro, resume o Brasil daquela época e anuncia o país do futuro. Um país onde as liberdades continuam aparentes. E pasmem, conheço um grupo de abastados supostos intelectuais, que a-d-o-r-a Cuba. Devem andar de olhos vendados por este triste Brasil.

Diário da Baronesa E. De LANGSDORFF
tradução: Patricia Chittoni Ramos e
Marco Antônio Toledo Neder
Notas: Marco Antônio Toledo Neder
325 paginas
Editora MULHERES
Caixa Postal 5031-88040-970
Florianópolis-SC
telefax: 48 233-2164
editoramulheres@floripa.com.br
http://www.editoramulheres.com.br


Dê sua opinião.

 Luiz em meio à sua paixão

Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê...


Literatura, Música, Bem Viver, Teve, Esporte, Principal