COMENTANDO
LITERATURA
por Luiz Horácio


02/agosto2000

O LABIRINTO E O DESAMPARO DO HOMEM QUE MATOU O ESCRITOR

"As pessoas querem aprender a nadar e ter um pé no chão ao mesmo tempo." - Marcel Proust

" - Aqui você vai poder escrever seus livros em paz.

Eu não preciso de paz para escrever meus livros.

Preciso e de um lugar. Tambem não preciso que leiam os meus livros. Basta que os comprem."

O trecho acima faz parte do conto "O Escritor" e deve ser lido assim como as outras 14 historias de O Homem e Seu Algoz do indispensável Fausto Wolff. Você ri, chora, se revolta, grita...você simplesmente se emociona lendo Fausto. "Poético em meio a violência e angustia. Mas por que... "num universo de tantos bons, ele continua sendo o melhor?" Simples: Fausto nunca desprezou a triste realidade em suas historias e com poesia e dor oferece a seus leitores cálidos raios de esperança-revolta.

Infelizmente só existe um Fausto Wolff.

Corre a lenda que a carreira de escritor deve se iniciar pelo conto. Seria este o caminho mais suave. E assim, já nos primeiros passos, a maioria tropeça pois o gênero obriga passadas firmes, engatinhando não será possível alcançar a abertura sintética e profunda da realidade, a idéia total e ao mesmo tempo poética.

Alguns no meio do caminho param na tentativa de rasgar novas trilhas. Entre eles Sérgio Rodrigues com O HOMEM QUE MATOU O ESCRITOR- Ed. Objetiva-125 pag.-Rio-2000.

Sérgio atira para todos os lados e raramente acerta, talento o rapaz possui, no entanto do caleidoscópio de indecisões resultam, na maioria das vezes, imagens opacas.

Personagens em demasia evitam o aparecimento de uma verdade poética, a idealização de um herói por exemplo, os pontos de vista se sucedem e a ação nem sempre retorna ao personagem principal. O mundo físico, descrições de exteriores e interiores, também recebe sua parcela de holofotes. Arrisco ser a morte a personagem principal dos contos de Sérgio.

O HOMEM QUE MATOU O ESCRITOR beira o vaudeville e no teatro esse tipo de espetáculo agradava e muito ao gosto e padrão moral da burguesia. Nada modesto Sérgio tenta ser tudo, deixa nítidas pistas de tal intenção, premedita. Quando age naturalmente o talento despreza a mascara e nos serve um mundo tão complexo e ao mesmo tempo tão simples, como aquele em que vivemos. A realidade objetiva temperada na medida exata com a realidade subjetiva do autor.

TRECHO

(conto FILÓS' FO)

...Sua filhinha desapareceu só dois anos e meio numa pedra do Arpoador. Um escorregão, o tombo, quase uma rotina....

...Uma única coisa era esquisita, nunca terem achado o corpo....

...A mãe de Lurian nunca mais foi a mesma, sumiu no mundo em seguida. Dona Germana nunca mais foi a mesma, enlouqueceu aos poucos. Não, claro que sua filhinha não era ma. Não, claro que não deu tempo.

E agora essa criança, você diz, tem sempre uma criança morta no que você escreve, Ismael, você se tornou um escritor patético, você diz"

Sérgio sabe contar uma historia, talvez saiba ate contar bem demais, e no afã de enriquece-las com sua inteligência e requinte técnico, acabe inventando um labirinto onde ao entrar o leitor recebe o mapa do território, as possibilidades são tantas que a dispersão será o fio que conduzira a saída. Iluminada, e bom que se ressalte. O HOMEM QUE MATOU O ESCRITOR também pode ser lido como o livro dos sonhos de Sérgio onde, ao mesmo tempo, ele e ator, palco e platéia. O que não caracteriza um problema. Pelo menos quando não são tantas as artimanhas. Borges já alertava que "o conto é um breve sonho, uma curta alucinação."

Convencionou-se que os tempos atuais são reféns da velocidade, da escatologia, da farsa, da androginia e ...da assepsia emocional. A tal barco o naufrágio será sempre mais saudável.

Inegável a coragem do autor. Que ela persista impedindo assim o futuro do parágrafo que encerra o livro. E livros...não basta simplesmente vendê-los.

O HOMEM QUE MATOU O ESCRITOR
autor : Sergio Rodrigues
128 paginas
R$ 18,50
Editora Objetiva
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