COMENTANDO
LITERATURA
por Luiz Horácio


09/agosto2000

PACELLI O AMIGO DE HITLER.

"Vá cada um aonde possa pelos seus próprios meios: guias e gurus são más companhias." - José Saramago

Diversas novidades estão sendo requentadas neste final de século. Uma delas trata do silêncio do Papa Pio XII durante os longos dias do holocausto. Nos últimos dias de 1942, líderes da comunidade judaica, estadistas dos países aliados e inúmeras instituições humanitárias quase imploraram ao papa Pio XII que se posicionasse contra o assassinato de judeus pelos nazistas. Pois a "santidade" se referiu apenas às pessoas condenadas por causa de sua raça. Não falou que os mortos eram judeus tampouco informou que os criminosos eram nazistas. Postura de omissão, covardia ou colaboração da igreja com o estado? Apaixonados católicos argumentam que a postura assumida foi a correta: a esquidistância. Mesmo estando em um dos lados um estado nazista?

Trata-se de mais uma velha novidade. Na Alemanha, em 1963 foi montada uma peça que mostrava um Papa anti-semita "O REPRESENTANTE" de Rolf Hochhuth e o que consta aí em cima você pode encontrar em inúmeros relatos de historiadores ao enfocar a II Guerra Mundial.A apresentação da peça provocou uma busca de documentos.

O PAPA DE HITLER - A história secreta de Pio XII, de John Cornwell-Ed. Imago, 472 pgs, Rio-2000 deve ser lido como um romance policial, antes de tudo uma grande investigação cujo título anuncia a conclusão.
Pio XII é apresentado primeiramente como Eugênio Pacelli, diplomata do Vaticano. Nuncio papal na Alemanha seguia os procedimentos de Bento XV que pregava a imparcialidade do Vaticano como estratégia em busca da paz. Quando chegou a sua vez, Pio XII seguiu a risca seu mestre e exercitou a "omissão". Silencioso assistiu a remessa de judeus em direção aos campos de concentração, inclusive judeus romanos. Qual seria a razão da omissão? Para Cornwell é necessário que voltemos aos tempos do núncio Pacelli na Alemanha quando tentava fazer um acordo entre a Igreja e o Estado. Conforme Cornwell, Pacelli assinou um contrato com Hitler traindo o partido católico alemão pois não acreditava na influência dos católicos na política.

Hitler costumava afirmar que uma pessoa ou era alemã ou era cristã. Não podia ser as duas coisas. Em 1943 Hitler ameaçava invadir o Vaticano, acabar com "aqueles porcos" e pedir desculpas depois.

TRECHO

Quatro dias depois de sua eleição, Pacelli reuniu-se com os cardeais de língua alemã, Bertram, Shulte, Faulhaber e Innitzer. Deixou claro que cuidaria pessoalmente de todos os problemas alemães. Queria lhes mostrar o esboço de uma carta que planejava enviar para Adolf Hitler, marcando sua elevação ao papado.

"Ao Ilustre Herr Adolf Hitler, Führer e chanceler do Reich Alemão! No início de nosso pontificado, desejamos lhe assegurar que permanecemos devotados ao bem-estar do povo alemão, confiado à sua liderança. (...) Durante os muitos anos que passamos na Alemanha, fizemos tudo ao nosso alcance para consolidar relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. Agora que as responsabilidades de nossa função pastoral aumentaram as oportunidades, rezamos com muito mais fervor para alcançar esse objetivo. Que seja uma realidade a prosperidade do povo alemão e seu progresso em todas as áreas, com a ajuda de Deus!"

O PAPA DE HITLER apresenta no relatório de sua investigação inúmeras evidências que apontam para o "espírito preconceituoso" do Papa em relação aos judeus. Ao relatar uma manifestação refere-se ao líder como " russo e judeu; pálido, sujo, com olhos vazios, vulgar, repulsivo." Eu acrecentaria que o "espírito preconceituoso" demonstrava um potencial deveras abrangente. O talento para a discriminação racial e o preconceito bem como a defesa com unhas e dentes dos princípios mais retrógrados é uma prerrogativa de todo líder religioso, pouco importa a cor de seu manto. Importa o brilho do ouro e atualmente no que diz respeito aos sacerdotes católicos importa e muito o brilho dos holofotes e aquela luzinha vermelha em cima das câmeras.

O PAPA DE HITLER não é romance, não é reportagem, é o relato, pode se dizer até que comedido, de uma pessoa que na tentativa de amenizar a culpa ou quem sabe absolver o criminoso descobre que outros crimes "engrandecem" seu currículo. Algo me faz crer que a parte dois esteja a caminho.Acusações a Pio XII não faltam, Carlos Falconi um ex-padre publicou The Silencius of Pius XII em 1965 Walter Laqueur em 1980 publica The Terrible Secret.

O Papa João Paulo II admitiu a omissão da Igreja em relação ao Holocausto, dia desses pediu desculpas aos negros, aos índios....

Gostaria de saber qual o significado prático de tais atitudes visto que desculpas não garantem absolvição. A mim ofende a existência das religiões. Todas. Sacerdotes. Todos. Beatos e beatas. Sem exceção. Que grasnem longe de mim.

Por que a verdade vive às escondidas?

Por que as religiões erguem seus templos sobre a sepultura da verdade?

O PAPA DE HITLER merece leitura cuidadosa e isenta. Ao final você tomará partido. Espero que escolha o lado da razão.

Alguns se surpreenderam com a omissão da igreja. Tolinhos! Minha filha de sete anos já sabe que não pode esperar atitudes práticas e reais daqueles que vivem e se locupletam às custas do imaginário semi-analfabeto.Malandros banhados na água benta das más intenções a quem destino um profundo pesar.

Espero que John Cornwel continue a trilhar a senda da reabilitação de "vultos duvidosos" que busque outros nomes para limpar. De alguns judeus, alguns maçons, alguns luteranos, evangélicos, presidentes, etc....Essa corja que influencia e governa incautos.

O PAPA DE HITLER- A história secreta de Pio XII
Autor : John Cornwell
Tradução: A. B . Pinheiro de Lemos
472 páginas
R$ 40,00
ED: IMAGO
Rua Santos Rodrigues, 201-A
Rio de Janeiro
Tel; 21 502-9092
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