| COMENTANDO LITERATURA por Luiz Horácio |
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O QUE TINHA DE SER "A maior desgraça que pode acontecer a um artista é começar pela literatura, em vez
de começar pela vida" Minha amiga comentava a respeito de alguém que conhecera em sua última viagem. Ele era isso, aquilo,
aquilo outro e escreve. Grande merda! Minha filha, de sete anos, também escreve e bem demais para a idade;
alguns poemas e uma peça infantil em "sociedade" com o pai. Tamanha obra não faz da menina
uma escritora. Ou faz? Estarei equivocado? Ser um escritor é muito diferente de um ser que escreve. A prova pode ser vista e sentida em "O QUE TINHA DE SER" de Marcos Santarrita- Ed Imago- Fundação Cultural do Estado da Bahia- Rio-2000. O volume traz onze lições. Mas não são lições de como escrever e sim
de como alguém com talento estuda e aperfeiçoa suas qualidades. Marcos reuniu contos representativos
desses 40 anos, começando com "Mil- Réis Por Pé", primeira menção
honrosa no concurso literário promovido pelo jornal A Tarde de Salvador em meados de 1960. E Marcos não só encontra como abre as portas. Sua narrativa não é condicionada pelas descrições, brilhantes desde o conto de estréia, de interiores ou exteriores. A geografia literária de Marcos não apresenta exageros em seu relevo, pelo contrário, permite ao leitor descortinar um horizonte denso e instigante onde desponta o sol que ilumina e faz a distinção entre os que escrevem e os escritores. Antes de cada conto Marcos faz ricas observações, confissões autobiográficas, localizando o leitor no tempo e no espaço em que o conto foi escrito, são valiosos ensinamentos que vão da fascinação do menino ao se deparar com um livro em quadrinhos - "...e li na folha de rosto: A Volta de Tarzan. Fiquei confuso: aquilo era um filme, não um livro. Senti-me tapeado, mas, sem outro remédio,comecei a ler. E, juro, foi um deslumbramento. Descobri que se podia fazer um filme com simples palavras. Li todo o livro em poucas horas e devolvi-o a Macarrão sem ser pegado..."passando por Robert Ballantyne: "...De repente, descobri, extasiado, que com palavras, essas coisas corriqueiras do dia-a-dia, se podia não apenas construir um filme, mas beleza..."até o encontro com "Gabriela" de Jorge Amado: "...Bem, o comunismo podia não ser uma doença contagiosa, mas a literatura era, e a leitura de Gabriela foi a minha terceira e maior epifania. Eu sempre achava que romance era coisa que se passava em Londres, Paris, no Oeste americano, nas selvas da África..." O cinema, eu não diria influência, colabora de maneira indelével com a narrativa de Marcos mas seu talento não se deixa seduzir pela exigência do cinema, movimento, incidentes e rala profundidade psicológica. O escritor, por vezes, com enredos mínimos dentro dos limites das vidas ditas normais,acontecimentos anódinos e reminiscências corriqueiras consegue mergulhar nas profundezas da alma. É a simplicidade quase impossível. Em 193 magistrais páginas o leitor percorre 40 anos de um escritor onde o leitor pode observar as influências absorvidas pelo jovem enquanto aprendiz. E aqui trata-se de influência,enriquecer o jeito próprio de escrever, não confundir com o mais corriqueiro: imitação. O último texto autobiográfico, antecede o conto Princesa, merece larga reflexão e abrangente debate com professores e críticos. Marcos Santarrita prova com O QUE TINHA DE SER que a vida humana interior pode ser rica. Pelo menos de alguns....Infelizmente!!!
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Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê... |