COMENTANDO
LITERATURA
por Luiz Horácio


26/agosto2000

ARMADILHO ou AS SUTILEZAS DO DESEJO

"Tudo é ousado para quem a nada se atreve" - Fernando Pessoa

No seu livro anterior- O DESTINO DE NATHALIE X E OUTRAS HISTÓRIAS-ed. Rocco-1999 - mais precisamente no conto Noite Transfigurada: "Por que detesto tanto esses homens simples e tolos? Por que não consigo ser impassível? Desprezo minha própria fraqueza, a incapacidade de me distanciar da banalidade"

Pois a banalidade é um dos refinados pratos a disposição do leitor no detalhado cardápio de ARMADILHO- ed Rocco-Rio-2000.

Da banalidade como entrada, passando pelo sonho e paixão como prato principal acompanhado de humor inteligente . De sobremesa uma trama policial.

Banal, assim era a vida de Lorimer Black. Era. Até o momento em que chega ao escritório de um cliente e o encontra pendurado por uma corda, amarrada no pescoço.Acionava-se naquele instante o botão dos trágicos acontecimentos. Ao investigar as causas de um incêndio de um hotel em construção com um seguro suspeito, seu carro é destruido, é ameaçado de morte e cada vez que se aproxima de uma pista sobre o incêncio outra tragédia se apresenta, é agredido na rua, seu pai morre. Os acontecimentos assustadores forçam Lorimer, que até então acreditava-se imune aos sofrimentos físicos e emocionais, a buscar outra proteção além da sua capacidade física e das suas convicções.

William Boyd faz uso de uma linguagem despojada e sutil, ARMADILHO é quase um roteiro cinematográfico com inicio meio e fim, um rito de passagem, o amadurecimento, aos sobressaltos, de Lorimer Black.

Lorimer tinha sérios problemas para dormir e tornou-se uma espécie de cobaia do Instituto dos Sonhos Lúcidos . Foi num sonho que ele visualizou a paixão,o desejo é a matéria dos sonhos, e sonhar também é uma banalidade. O desejo apontava a necessidade de um ruptura e consequentemente anunciava mudanças na vida de Lorimer.Sonhar é também uma forma de agir e o sonho despertava Lorimer. Apaixonado por uma atraente atriz ele sabia que sua vida banal estava prestes a mudar.

TRECHO

"Flávia Malinverno beijava-o de uma maneira como ele jamais fora beijado. Não se sabe como, ela inseria seu lábio superior entre o lábio superior dele e os dentes atrás. Exceto isso, era um beijo ortodoxo, ardente, porém a sobrepujar tudo, havia essa estranha pressão na parte superior de sua boca. Era uma excitante estréia. Flávia interrompeu o beijo.
-Mmmm - disse ela. - Bom
-Me beije de novo - disse ele, e ela beijou, com as mãos espalmadas contra as faces dele, desta vez chupando seu lábio inferior, em seguida passando para a língua, com a força de um bezerro mamando...

Fora um sonho lúcido, definitiva e inequivocamente, pensou ele, ao escrever uma versão integral dele no diário dos sonhos ao lado de sua cama."

A parte policial é relatada com sutileza e elegância sem prejudicar a tensão, Boyd não economiza na descrição das locações, o cenário é parte importante na trama e fugindo a regra, complexa psicologia envolve os personagens. Nada é gratuito na história aparentemente simples, no entanto densa e irônica, onde faz contundente crítica do século em que a busca por riqueza, segurança,bens materiais substitui a necessária ousadia de sonhar e desejar.

Desejar mudar de vida pelo menos. Não ser tão banal.

TRECHO

"Lorimer desembrulhou um cobertor novo e estendeu-o na outra cama, no pequeno quarto debaixo do telhado.Tirou as roupas e se enfiou entre o colchão e a lã piniquenta. Ele ouviu-a no corredor e por um breve momento fez uma fantasia que ela talvez batesse na sua porta - mas depois de alguns momentos, ouviu-se o ruído da descarga.

Ele dormiu a noite toda, ininterruptamente e sem sonho nenhum. Acordou às oito horas com sede e com fome, enfiou as calças e desceu meio trôpego, quando encontrou o bilhete na caligrafia grande e muito inclinada dela.

Pode vir para Viena comigo, se quiser. Air Austria, Heathrow, terminal 3, 11:45. Mas não posso te prometer que nada vá durar. Você precisa saber isso - se resolver vir. F."

William Boyd fez de ARMADILHO um thriller sofisticado, passado e futuro constantemente postos em cheque por um presente repleto de perturbações e falsos valores. Filme tenso que exige a cada cena redobrada atenção do leitor/espectador.

ARMADILHO também pode ser visto através da lente da espionagem. Da "auto-espionagem". Do leitor.

William Boyd é roteirista de cinema e integra a geração de grandes escritores ingleses, entre eles Ian McEwan, Marin Amis e Julian Barnes. Mas como aqui, lá também nem tudo é perfeito, e sobra espaço para o aparecimento de "coisas" do calibre de Magnus Mills.

E.T.: Armadilho é um animal de couraça extremamente próximo ao tatu.

ARMADILHO
autor: William Boyd
Tradução: Roberto Grey
352 páginas
R$ 42,00
Editora Rocco
Tel: 21 507-2000
Fax: 21 507-2244
e-mail: rocco@editorarocco.com.br


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