| COMENTANDO LITERATURA por Luiz Horácio |
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ARMADILHO ou AS SUTILEZAS DO DESEJO No seu livro anterior- O DESTINO DE NATHALIE X E OUTRAS HISTÓRIAS-ed. Rocco-1999 - mais precisamente no conto Noite Transfigurada: "Por que detesto tanto esses homens simples e tolos? Por que não consigo ser impassível? Desprezo minha própria fraqueza, a incapacidade de me distanciar da banalidade" Pois a banalidade é um dos refinados pratos a disposição do leitor no detalhado cardápio de ARMADILHO- ed Rocco-Rio-2000. Da banalidade como entrada, passando pelo sonho e paixão como prato principal acompanhado de humor inteligente . De sobremesa uma trama policial. Banal, assim era a vida de Lorimer Black. Era. Até o momento em que chega ao escritório de um cliente e o encontra pendurado por uma corda, amarrada no pescoço.Acionava-se naquele instante o botão dos trágicos acontecimentos. Ao investigar as causas de um incêndio de um hotel em construção com um seguro suspeito, seu carro é destruido, é ameaçado de morte e cada vez que se aproxima de uma pista sobre o incêncio outra tragédia se apresenta, é agredido na rua, seu pai morre. Os acontecimentos assustadores forçam Lorimer, que até então acreditava-se imune aos sofrimentos físicos e emocionais, a buscar outra proteção além da sua capacidade física e das suas convicções. William Boyd faz uso de uma linguagem despojada e sutil, ARMADILHO é quase um roteiro cinematográfico com inicio meio e fim, um rito de passagem, o amadurecimento, aos sobressaltos, de Lorimer Black. Lorimer tinha sérios problemas para dormir e tornou-se uma espécie de cobaia do Instituto dos Sonhos Lúcidos . Foi num sonho que ele visualizou a paixão,o desejo é a matéria dos sonhos, e sonhar também é uma banalidade. O desejo apontava a necessidade de um ruptura e consequentemente anunciava mudanças na vida de Lorimer.Sonhar é também uma forma de agir e o sonho despertava Lorimer. Apaixonado por uma atraente atriz ele sabia que sua vida banal estava prestes a mudar. TRECHO "Flávia Malinverno beijava-o de uma maneira como ele jamais fora beijado. Não se sabe
como, ela inseria seu lábio superior entre o lábio superior dele e os dentes atrás. Exceto
isso, era um beijo ortodoxo, ardente, porém a sobrepujar tudo, havia essa estranha pressão na parte
superior de sua boca. Era uma excitante estréia. Flávia interrompeu o beijo. Fora um sonho lúcido, definitiva e inequivocamente, pensou ele, ao escrever uma versão integral dele no diário dos sonhos ao lado de sua cama." A parte policial é relatada com sutileza e elegância sem prejudicar a tensão, Boyd não economiza na descrição das locações, o cenário é parte importante na trama e fugindo a regra, complexa psicologia envolve os personagens. Nada é gratuito na história aparentemente simples, no entanto densa e irônica, onde faz contundente crítica do século em que a busca por riqueza, segurança,bens materiais substitui a necessária ousadia de sonhar e desejar. Desejar mudar de vida pelo menos. Não ser tão banal. TRECHO "Lorimer desembrulhou um cobertor novo e estendeu-o na outra cama, no pequeno quarto debaixo do telhado.Tirou as roupas e se enfiou entre o colchão e a lã piniquenta. Ele ouviu-a no corredor e por um breve momento fez uma fantasia que ela talvez batesse na sua porta - mas depois de alguns momentos, ouviu-se o ruído da descarga. Ele dormiu a noite toda, ininterruptamente e sem sonho nenhum. Acordou às oito horas com sede e com fome, enfiou as calças e desceu meio trôpego, quando encontrou o bilhete na caligrafia grande e muito inclinada dela. Pode vir para Viena comigo, se quiser. Air Austria, Heathrow, terminal 3, 11:45. Mas não posso te prometer que nada vá durar. Você precisa saber isso - se resolver vir. F." William Boyd fez de ARMADILHO um thriller sofisticado, passado e futuro constantemente postos em cheque por um presente repleto de perturbações e falsos valores. Filme tenso que exige a cada cena redobrada atenção do leitor/espectador. ARMADILHO também pode ser visto através da lente da espionagem. Da "auto-espionagem". Do leitor. William Boyd é roteirista de cinema e integra a geração de grandes escritores ingleses, entre eles Ian McEwan, Marin Amis e Julian Barnes. Mas como aqui, lá também nem tudo é perfeito, e sobra espaço para o aparecimento de "coisas" do calibre de Magnus Mills. E.T.: Armadilho é um animal de couraça extremamente próximo ao tatu.
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Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê... |