COMENTANDO
LITERATURA
por Luiz Horácio

1. A Chave
2. Finalmente (Infantil)


2/Setembro/2000

A CHAVE ou FRAGMENTOS PATÉTICOS DE UM CASAL

"Nossos pensamentos mais importantes são os que contradizem nossos sentimentos" - Paul Valéry

Escrever um diário.

Geralmente é algo tão individual que para justificar sua existência é necessário que uma multidão saiba que ele existe e está escondido.Para ser encontrado.É obrigatório o olhar e a análise de no mínimo uma segunda pessoa para justificar o fato.

O diário é fruto do pensamento e o que pode existir é o que se pode pensar e se pode pensar dentro dos limites da lógica da linguagem. Os limites da linguagem são os limites do mundo e os limites do mundo são os limites da linguagem (pensamento).

"O pensamento contém a possibilidade da situação que ele pensa. O que é pensável também é possível".Ludwig Wittgenstein- Tractatus Logico-Philosophicus.

A CHAVE romance de Junichiro Tanizaki- Cia das Letras-2000 conta a história através dos diários que marido e mulher escrevem em segredo, aquele segredo relatado anteriomente. Paira sobre ambos a suspeita de que são lidos um pelo outro.

Com sutileza, erotismo e mistério Tanizaki encena o drama do professor universitário de meia-idade, cada dia mais apaixonado, que já não consegue satisfazer as exigências da esposa mais nova do que ele.

Na tentativa de frear o declínio sexual apela para hormônios, drogas, fotos eróticas que tira da mulher quando ela está embriagada . Nada disso surte tanto efeito quanto o ciúme. E busca meios para enciumar-se, dando assim um sentido à vida. Esquece porém que o sentido da vida só pode ser a própria vida e para existir felicidade é obrigatório o sentimento da indiferença, o sentimento de que nenhum fato tem valor.

Enciumar-se passa a ser o objetivo do professor. Sendo o ciúme uma paixão, sub-produto da posse,consequentemente prima pela cegueira, violência e obsessão.

Ikuko, a esposa, representa muito mais que uma simples companheira, por ser mais nova é o pedaço bom do professor que faz de tudo para satisfazê-la evitando assim a perda. No entanto seu desempenho sexual começa a não ser tão satisfatório e ele busca na possível traição dela com seu amigo Kimura o estímulo para melhorar seu desempenho. Mas o professor passa a valorizar demais o fato e sofre a consequência fatal. Ikuko entra no jogo completando a dupla patológica, como se existisse um pacto entre os dois. Desconfia da filha misteriosa, Toshiko - que terá papel fundamental no desfecho da trama - estaria acobertando encontros, recomendando lugares, incentivando a relação de sua mãe com Kimura?

TRECHO

"Assim como Toshiko sentia ciúme de mim, também eu, no fundo nutria extremo ciúme dela. Apesar disso, esforcei-me por não deixar transparecer nada, evitando até mesmo escrever sobre isso em meu diário. Talvez isso se deva a minha natureza dissimulada, mas também ao fato de que, estando convencida de ser superior a minha filha, não desejava ferir meu orgulho. Além disso, mais uma razão para sentir ciúme de Toshiko era a desconfiança de que Kimura estivesse também apaixonado por ela, temendo que ele o dissesse a meu marido.

Meu marido escrevera que "se tivesse em seu lugar e tivesse de dizer qual das duas mais me atrai, diria certamente que a mãe, apesar de sua idade." Mas ao mesmo tempo "No entanto Kimura não parece se definir". E ainda "Não estaria ele tentando comprar a confiança da mãe para através dela procurar chegar a Toshiko?" Eram as dúvidas que meu marido por vezes se colocava. Eu odiava que ele as tivesse. Queria que acreditasse que Kimura só amava a mim e que não hesitaria em fazer sacrifício algum por mim. Se assim não o fizesse, não aumentaria nele o violento ciúme que sentia de Kimura."

O ciúme está presente em grandes obras, nas ficções da bíblia às ficções de Shakespeare e Machado de Assis com Dom Casmurro e a enigmática Capitu.

O ciumento de Tanizaki é refém do ciúme, combustível de sua performance sexual, tem em comum com outros ciumentos o detalhe, a necessidade de cutucar a ferida em busca de provas que confirmem suas suspeitas.

Tanizaki trata o erotismo com a delicadeza, mistério, paixão e arte. Não há palavrões tampouco escatologia, intelizmente tão em moda atualmente, e a tensão, comum a todas personagens, faz com que todos sofram. Ao leitor fica a certeza de ter estado em contato com o grande escritor que se faz notar nas primerias páginas e de forma magistral entrega suas credencias com o desfecho da trama.

Leitura obrigatória.

A CHAVE
autor: Junichiro Tanizaki
tradução do japonês: Jefferson José Teixeira
R$ 21,50
ed. Cia. Das Letras
tel: 11 3846-0801
fax: 11 3846-0814
www.companhiadasletras.com.br
e-mail:divulgaçao@companhiadasletras.com.br

COLEÇÃO FANTASIAS - PARA OS FILHOS, PARA OS PAIS.

"Devemos escrever para as crianças do mesmo jeito que escrevemos para os adultos. Só que melhor" - Maximo Gorki

O sentido da vida é a infância. Justifica-se a insistência somente pela possibilidade de outras infâncias. Do contrário vigora a hipocrisia, a dor, falsos amores.

Mas a infância requer adereços, um deles é companhia. Infância significa também solidão, carência. Época de mudanças, uma atrás da outra, emoções a cada instantes. Carinho e calor iluminam a trilha para a adolescência.

Hoje os pais já não se dividem tanto entre os filhos e os compromissos profissionais, são obrigados a quase que exclusivamente se dedicarem a seus trabalhos. E os filhos? Creches, babás, alguns no abandono de uma casa trancada. Não é raro encontrarmos pais que se reencontram com seus filhos depois de eles se perderem no caminho das drogas, não motivados pelas drogas tão somente mas pela possibilidade de companhias.

A criança necessita de vários tipos de companhia. Qual a criança que não gostaria de ter um animalzinho de estimação. Tive a sorte de tê-los, dos mais comuns aos mais exóticos. Todos foram importantes. Minha filha tem gato, tartaruga e já teve um cãozinho, porquinhos da índia, peixes. E quando alguns morreram e o cãozinho teve que mudar de endereço ela se depediu deles sem drama, era só um animal por quem tinha carinho, mas não confundia com um ser humano. Quando o peixinho morreu ela jogou no vaso sanitário e puxou a descarga, acabava ali aquela relação. Compramos outro.

O cãozinho não combinava com o ambiente exíguo de um apartamento.

FINALMENTE de Nilma Gonçalves Lacerda conta a história de Vitória, uma menina que vive com seu pai em um apartamento pequeno, nas férias costumam viajar e consequentemente não pode ter um bichinho de estimação.O pai sempre promete que vai conseguir um animlazinho mas nunca cumpre a promessa. Vitória não se zanga. Em vista disso ela passa a criar animais em sua imaginação. FINALMENTE integra a cuidadosa e carinhosa Coleção Fantasias-ed. Revan-Rio-2000.

Usando a sua imaginação Vitória permite ao pai reencontrar a sua própria imaginação.

TRECHO

"- Vitória, Vitória, essa sua imaginação acaba contagiando a gente.
-Pai, essa imaginação é muito bonitinha, não é?
-É verdade, minha filha, é muito bonita.
-Posso ficar com ela?
-Pode minha filha, pode. A imaginação não ocupa espaço, não precisa de comida,de vacina, nem é um problema quando a gente precisa viajar."

O uso da imaginação, a criatividade, isso deve ser estimulado, é dever dos pais, não esperem pelas escolas que elas farão justamente o contrário. Conviver e aprender com os filhos é a segunda chance que é dada ao ser humano de mudar alguma coisa, de mudar a si próprio. De que maneira?

Usando a imaginação, brincando com os filhos no mundo deles.

Este texto é dedicado ao meu pai, à Thamara, ao André, aos futuros amigos do Colégio Integral de Curitiba, uma escola que foge à regra e a todos os pais que souberam aproveitar a segunda chance. Os que ainda não o fizeram que comecem adquirindo a coleção FANTASIAS.

Coleção Fantasias
FINALMENTE
autor: Nilma Gonçalves Lacerda
ilustrações: Angela Amarante
ed. REVAN
tel: 21 502-7495
fax: 21 273-6873
e-mail: editora@revan.com.br
www.revan.com.be
informações:Eliane Paz - Assessoria de Comunicação
tel:21 502-7495
e-mail: revan@alternex.com.br


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Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê...


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