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UM POETA NA ENCRUZILHADA
"Não se encontra a solidão. Nós a fazemos" - Marguerite Duras
Algumas formas de arte utilizam a morte como matéria prima. Artes plásticas por exemplo. Lembro de
uma exposição de fotos exclusivamente com pessoas mortas. Aqui a mão de alguém morto,
lá um rosto, acolá os pés, etc.. No cinema sempre tem alguém que morre para a história
deslanchar e no teatro também se morre bastante.
Na poesia no entanto, estuário de grande alienação, morre-se pouco. Não é poético,
não é lirico morrer, embora os alienados, os poéticos e os líricos também venham
a morrer.Mas a maioria usa a poesia para edulcorar a vida. Duvido que consigam com as próprias. A poesia
é um problema, quanto mais difundida mais se alastra a péssima poesia alavancada pelos férteis
poetastros que, incasáveis, multiplicam os estéreis encontros poéticos pela cidade do Rio
de Janeiro. É muita quantidade para minguada qualidade. E não me venham com o gasto argumento: "pelo
menos enquanto o cara faz poesia ele não está vendo novelas." Nesse caso, fico com a novela
que é bem feita. Quem se sentir atacado é por que está na coluna dos poetastros. Espero que
pelo menos as editoras tenham critérios. Não chegando aos livros ainda é possível a
salvação. Dos leitores. O problema porém não estará solucionado se o candidato
a "vaidoso publicado" resolver pagar a sua edição. A distribuição, menos
mal, será dificil e a contaminação não ultrapassará as fronteiras das amizades.
Mas nem tudo está perdido, existe um poeta que frequenta esses patéticos encontros corporativistas,
e mesmo assim transpira qualidade e foge ao lugar comum da maioria.
Tanussi Cardoso com VIAGEM EM TORNO DE (ed. Sette Letras-Rio-2000) elege a morte como musa e na contramão
dos sentimentalismos despe a morte deixando claro seu corpo: saudades.
Morte é saudade, quem vive e vai pra longe não deixa saudade, cria espaço. Outro vem e ocupa.
Tanussi trata a morte com rigor sem mágoa, sem reverência com questões. Evito as palavras esperança
e Deus que o poeta usa por serem, com licença do "poeta maior": palavras gastas.
VIAGEM EM TORNO DE segue a linha de Poemas Reunidos de Ivan Junqueira e aqui discordo de ambos quando avistam
na morte a possibilidade de outra (s) existência (s) . Creio porém que qualquer obra erigida sobre
os alicerces da morte remete a um diálogo profundo com os artistas que influenciaram sua formação.E
Tanussi tem algo de Baudelaire. O melhor. O lirismo critico, a ausência de sentimentalismo barato e o contato
com os mitos.
Divido em três partes bem distintas, Livro dos Elos, Livro das Impressões e Livro do Acaso, VIAGEM
EM TORNO DE ganha o leitor pela emoção, no primeiro livro tenta resistir à morte.
Não sei se a barca/ é a chegada ou a partida/ só sei que ela é feita/ de sal, ferro
e adeus, para no segundo exagerar na crença de que pode vencer, que o amor a tudo redime: O amor
é, sobretudo/ a faca no laço do laçador/ O amor é, exatamente/ o tiro no peito do matador,
mas Tanussi não é um poeta comum e ainda no segundo livro evita os exageros do otimismo: O pai
se chama culpa/ a mãe se chama mágoa. /O filho agora é ausência: triste triângulo
do nada.
E o poeta reconhece que o mesmo amor que gera vida, inventa a morte...saudades.
No terceiro livro o poeta fraqueja, demonstra arrependimento por ter "cutucado" o monstro e pede perdão,
se nos livros anteriores é comum a presença de Deus ou Santo ou Cristo ou o Cucificado na parte final
Tanussi exagera na sua elevação e o poema perde a força. E não se trata aqui de preconceito
ou ignorância pois se o poeta tratasse mais da parte arquetípica que acompanha a quase todos nós
não haveriam tantos problemas mas o que ocorre é uma desesperada busca de esperança. Tanto
perde que o poeta tenta injetar vigor nos versos usando da escatologia. Aqui uma encruzilhada escura do poeta:
Policias rondam a praça/alheios à música. /O medo vem dos seus dentes/não das patas
dos cavalos. /Fico com os revoltosos/não com os revoltados. /Meus intestinos doem e não me importo./CAGO
PRA ELES.
VIAGEM EM TORNO DE é um livro irregular de um poeta incomum. O que o levou a publicar no mesmo volume
o complexo e o precário? Dois exemplos, respectivamente:
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A HORA ABSOLUTA
Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos,minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham
calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim
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VISÃO
Não adianta correr atrás do verso.
Deixa-o escorrer pro esquecimento.
Perdidos no cemitério dos fonemas,
Outros virão, galopantes e insinceros.
O escolhido, esmagado e dolorido,
Contemplará o teu poema.
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Até que ponto o mal influencia o bem visto que a recíproca não é verdadeira? O talento
de Tanussi é uma evidência mas... não estaria o uso do cachimbo entordando a boca, não
estaria Tanussi assimilando a rasa poesia defendida bravamente em encontros e mais encontros poéticos pelos
quatro cantos da cidade, na Lagoa, em Ipanema, em Santa Teresa, na Gávea, no Catete?
Tanussi é uma ave rara, pássaro livre equivocadamente procurando pouso. Que seu voar não
cesse, voe alto, cada vez mais alto evitando deuses , santos ou crucificados, bandos e vampiros e que brilhe como
o sol. Cálido e solitário.
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