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AS SANTIDADES, AS LEIS E A FALTA DE ÉTICA
"Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim" - Fernando Pessoa
Conforme Descartes no Discurso do Método a finalidade da razão é "transformar-nos em
mestres e possuidores da natureza". E dominar implica na presença do autoritarismo, consequentemente,
violência e violência gera, para resistir, violência. É da natureza humana. Um ser se
apresenta para a vida através de violência, pela ação dos médicos, com seus instrumentos
e medicamentos, pela ação moral, pelo próprio ato de expulsão resultante da força
em meio a sangue, dejetos, e... por aí afora. Maiores detalhes sobre o assunto em Pour une naissance sans
violence- Fréderic Leboyer, Seuil,1974.
Tudo isso para dizer que um ser que é recepcionado pela violência e agonia nos seus primeiros segundos
de vida não pode resultar em algo bom. A humanidade não presta, o homem é ruim por natureza,
sádico, desprovido de ética e através dos séculos exercita e aperfeiçoa o ódio
pelo próximo e pela natureza. Exceções, raríssimas, confirmam a regra. E o ser humano
vive demais, não precisava tanto!
Na contra mão dos meus sentimentos trafega um santo, sua santidade o DALAI-LAMA. De ante mão informo
que a santidade dele para mim tem o mesmo significado da dos santos convencionais: nenhum.
Em todo caso cabe uma análise sobretudo na fé e esperança que ele deposita na humanidade apesar
dos sofrimentos impostos pelos seus conterrâneos. Sua santidade defende com ardor suas convicções
e ensinamentos. Cabe no entanto desconfiar dos resultados de tamanha profissão de fé.Mas aí
se faz necessário estender a desconfiança a todo e qualquer ser humano que se intitule lider do que
quer que seja. Tudo permanece igual, menos a vida deles. De aeroporto em aeroporto.
Sua Santidade DALAI LAMA- Uma Ética para o Novo Milênio- ed. Sextante-Rio 2000 pretende ultrapassar
as fronteiras budistas para atingir leitores de todos os credos visto que ainda hoje os maiores conflitos são
frutos de discordâncias religiosas. Na verdade meros artifíciso para o homem exercitar seu maior talento:
a discórdia.
TRECHO
"E mais: cheguei à conclusão de que não importa muito se uma pessoa tem ou não
uma crença religiosa. Muito mais importante é que seja uma boa pessoa."
Pois é justamente esse o problema: ser uma boa pessoa. O que é ser uma boa pessoa? Frequentar templos,
dar esmolas, pagar as contas em dia, não mentir, não roubar, não cobiçar a mulher do
próximo embora o próximo possa TER uma mulher? Besteiras. Para ser uma boa pessoa é preciso
antes de tudo ter conhecimento interior e é justamente essa a parte mais dificil, então a orda de
carentes, solitários e alienados sai por aí seguindo padres, gurus, monges e artistas do gênero.
Fica claro porém em Uma Ética Para o Novo Milênio que o DALAI LAMA é sobretudo uma pessoa
sensata e despojada de fanatismos. Mesmo formado no budismo não desconhece tampouco rejeita outras religiões,
o que não surpreende pois esta é prerrogativa de "uma outra santidade católica".
TRECHO
"A mente indisciplinada é como um elefante. Se deixado sem controle, andando às tontas, vai
fazer grandes estragos. Pois os danos e sofrimentos que nos acometem quando deixamos de controlar os impulsos negativos
da mente superam de longe os estragos que um elefante pode causar."
A conduta ética significa não causar mal às pessoas e o DALAI LAMA acredita que tal conduta
será alcançada por meio da compaixão. Compaixão esta resultante de uma disciplina interior.
Acredito mais na disciplina interior, a compaixão seria um extremo de bondade para homens tão ocidentais
com tantos bens materiais a serem conquistados. Cinismos e hipocrisias à parte convém esquecer tal
ensinamento.
Resumo da ópera: DALAI LAMA é importante para budistas que, pelo visto, devem ler de olhos fechados
pois partem do princípio que " se é DALAI LAMA é bom e nos serve" e para os de outros
credos que terão a oportunidade de conhecer um pouco do pensamento de um líder prático e ao
mesmo tempo beirando a ingenuidade. Enfim um livro para ler na Quinta da Boa Vista ouvindo Enya no CD player.
No entanto convém lembrar Aleksandr Solzhenitsyn em O Arquipélago Gulag: "NÓS NÃO
TEMOS LEI."
Teremos ética?
Bom proveito.
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Sua Santidade-DALAI LAMA
Uma Ética para o Novo Milênio
tradução : Maria Kuiza Newlands
256 páginas
R$ 24,00
Editora SEXTANTE
Central de Atendimento : 0800226306 e 0xx21-524-6760
salvend@openlink.com.br |
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POESIA
É preciso que desaprendamos quase tudo, com urgência. Em poesia o quase é TUDO.
Esqueçamos a pieguice, a lágrima barata, a rima comprada. É necessário andar no fio
da navalha perder o equilíbrio e sentir o corte, o calor do sangue feito seda. É obrigatória
a ferida para nascer a cicatriz da sabedoria...da cultura...da paz.
Luís Augusto Cassas é um poeta incomum, com ele se aprende a amar a verdadeira poesia e todas as
artes. Conheci o poeta no mesmo instante em que conheci o amigo. E dos deuses que ele ama quero distância,
louvo apenas um: o deus das artes que é o mesmo deus da amizade.
A seguir um pouco do poeta, do amigo, do irmão, dos rios do Maranhão e dos becos das vidas de todos
nós
AS CONFISSÕES DE LUÍS AUGUSTO CASSAS: O NÃO ESPECIALISTA
Comentando - Você tem nove excelentes livros de poemas publicados. Sua temática incursiona
pelo filósfico, regional, espiritual e até um "toque maldito", em "Rosebud".
Qual a sua especialidade?
Augusto Cassas - Sou um não especialista num mundo de especializados. Uns fizeram a sua opção
preferencial pelo muro, outros pelos tijolos dos muros. Tento enxergar o tijolo e o muro, fundindo nessa cosmovisão,
o todo e a parte. O lúdico é a minha religião oficial. Só assim posso retornar ao estado
de infãncia e reinaugurar o paraíso pedestre com a minha parcela de barro humano.
Minha especialidade, portanto, é uma não- especialização. Tudo me interssa: do milk-shake
de chocolate ao sexo dos anjos na cama da eternidade. Acendo uma vela à tradição e outra à
renovação e nesse altar planto a oficina da permanência no culto da transitoriedade. Todos
os temas merecem ser visitados e escritos. Minha opção é pelo geral no particular e pelo particular
no geral. Sou um andarilho noturno de minha diurnidade pânica. Sedento de tudo. Mas uma matéria me
interessa profundamente: a espiritualidade. Ela me interessa em seu aspecto lúdico, metafísico, energético,
simbólico e seu conteúdo humano. Vôo muito preferencialmente no chão, 24 horas. Na experiência
do vivido e imaginado.
C - Enquanto alguns vão "iluminar-se" no Tibete, na India, nas viagens astrais, em Compostella
(vide Paulo Coelho e cia. ilimitada) em seu último livro, "Bhagavad- Brita" (A Canção
do Beco), você faz uma viagem iniciatória pelos becos de sua cidade ,São Luís do Maranhão.
É uma crítica aos que vão buscar " a iluminação" lá fora?
AC - Nasci e sempre vivi em São Luís do Maranhão, sob o curto-circuito de um sol quente e
equatorial, visões do passado, igrejas, becos, ruínas e sobrados. Talvez esse fato tenha me derretido
as meninges e compreendido o segredo das coisas do que se busca estão ao nosso redor. Pelo diálogo
com as pedras dos becos de minha cidade, mergulhei então, nos mistérios da luz e da sombra .O Bhagavad-Brita"
inspira-se no "Gita", bíblia da tradição védica. Enquanto eles privilegiam
o reino do espírito, mergulho no reino do espírito para privilegiar a matéria. É uma
viagem paradoxal em que inverto a polaridade, buscando a sobrevivência da unidade e fazendo a crítica
daqueles que de tão cristalizados no espírito converteram-se em granito. Mas faço a defesa
do coração.
Meu interesse não foi fazer uma crítica aos que buscam essa compreensão em ashrams, mesquitas,
templos em lugares distantes e exóticos. Foi apenas dizer pra mim mesmo: Deus mora aqui e o meu Himalaia
é onde piso com as minhas sandálias. Por isso, no poema, a iluminação vem de uma pedrada
desferida nos becos.
Meu rio sagrado é o Rio Anil, um dos rios de minha terra.
C - " Fuja dos poetas", aconselhava, com ironia, Rachel de Queiroz. E eu acrescento: fuja dos poetas
domesticados, adestrados em escolas por mestres forjados em "Oficinas Literárias ". É possível
aprender a ser poeta? Decorar as receitas dos versos?
AC - Entendo que, paradoxalmente, o aprendizado poético gesta-se mais nas páginas dos livros da vida
do que nos livros de poemas. O laboratório poético - falo do exercício do conhecimento- vem
posteriormente, lapidando o poeta já existente. Se as "oficinas literárias" já conseguem
repassar, a preços módicos, aos seus alunos, " o sentimento do mundo" , de que falava Drummond,
então, parabéns, estão aptas, a desenvolverem o seu caráter lúdicoEm verdade
lhe digo: há os que são vocacionados e não se profissionalizam: há os vocacionados
que se profissionalizam: e ainda há os que não-vocacionados se profissionalizam. Falo por antenas
parabólicas.
Muitos desses "iniciados da poesia" querem ser franciscos de assis pós-modernos para cantar o
nvo cântico das criaturas ao "irmão-sol" e a "irmã-lua", desconhecendo
que os espinhos do caminho- e não as flores- foram os condutores da luz.
Poesia não é ordem e progresso, mas desordem e processo. Essa é a sua lei. É uma hiroshima
interior. Muitos dos verdadeiros poetas que conheci em vida não preferiram ser poetas. Foram-no por imposição
do seu inconsciente, num intrincado jogo do destino e arbítrio. Não puderam fugir. Aceitaram, as
duras penas, o seu áspero caminho, tirando leite das pedras, fazendo ouro do chumbo.
"A poesia deve queimar as mãos". Escrevi em 1990, num dos livros que publiquei. Quanto aos frequentadores-analisados
das Oficinas, resta a eles o consolo terapêutico da Poesia, fato louvável. Quanto a mim, bem aventurados
os excessivos, escrevo por carência de ser. Essa é minha pena.
C - Hoje temos poetas de todas as raças: poeta-jogador-de-futebol, poeta-apresentador-de-tv, poeta-fazendeiro,etc.etc.
Em suma, uma extensa lista de desocupados, que após breve exposição na mídia saem a
colher os frutos de sua fraudulenta lira. Você que é poeta-poeta, a sua espécie está
ameaçada de extinção? Nesse caso, quais seriam os seus representantes?
AC - Sou um pisciano que rende culto a Saturno, Plutão e Urano, respectivamente, os senhores do Tempo, da
Transformação e da Revolução. Em alguns instantes eles entram em trígono para
botar abaixo falsos modismos e pseudas concepções , e restabelecer a ordem da vida. "Tudo que
é sólido desmancha no ar", disse certa vez Marx, prevendo, inconscientemente, a própria
explosão de seus conceitos unilaterais da formulação de um novo paradigma. Por analogia, aplica-se
o caso à poesia. Em algum ciclo quebra-se o espelho da aparência e restaura-se a essência. Ninguém
manda flores de plástico para a namorada, só à mansão dos mortos.
Meu "cânon" poético é absolutamente pessoal e nele trafegam criadores de todos os
elementos- ar, fogo, água, terra - embora reconhecendo, que poucos deles conseguiram produzir um quatérnio
interior.
Começo pelo próprio Maranhão, meu estado natal e berço de grande tradição
poética que se mantém na modernidade, para citar cinco poetas de minha predileção:
Ferreira Gullar e Salgado Maranhão, residentes no Rio; Nauro Machado, José Chagas e Raimundo Fontenelle,
com raízes em nosso chão. A Bahia é Florisvaldo Matos, Ruy Espinheira Filho e Luis Antonio
Cajazeira Ramos. No Rio Grande do Sul, admiro a poesia de Carolos Nejar, Marta Medeiros e Armindo Trevisan: no
Rio de Janeiro, Ivan Junqueira, Moacyr Felix, Alexei Bueno, Olga Savary; Bruno Tolentino, Carlito Azevedo. O Amazonas
é Luis Bacellar, Aníbal Beça, Jorge Tufic. Em Mato Grosso do Sul, continua a florescer a poética
terrestre de Manoel de Barros e a mística profana de Rachel Naveira. São Paulo é Horácio
Costa e parte das poéticas dos irmãos Campos. Em Pernambuco Ariano Suassuna,Marcos Accioly, Alberto
Cunha Melo e Cézar Leal. Na Paraíba, Hildeberto Barbosa Filho.Existem ainda alguns nomes que não
me ocorrem agora, mas gostaria de destacar um grande poeta goiano, Gabriel Nascente, residente em Goiás
e autor de que quase 30 livros de poemas. Gabriel é um dos grandes injustiçados pela crítica
e um dos maiores nomes da poesia contemporânea, sempre expondo as pérolas interiores num saguíneo
jogo visceral de samurai dos chapadões. Seu último livro, "Torre de Babel", com quase 600
páginas e editado por uma editora de Goiânia, a KELPS, é um canto homérico à
sua terra e às raizes de nosso tempo. Infelizmente, não vejo seu nome em nenhuma resenha dos jornais
da grande imprensa.
C - Em "O Shopping de Deus & a Alma do Negócio", num de seus títulos, você diz:
"a teologia mata o amor." A teologia mata o amor?
AC - Essa pergunta já me foi formulada numa entrevista ao jornal "O Imparcial", pelo jornalista
Romero Azevedo. Respondo-a, dentro da mesma ótica, que ensejou a resposta anterior.
Acredito que a teologia católica, de fundo agostiniano, acabou criando um grande fosso entre o aspirante
ao amor de Deus e sua convivência no mundo, por refletir elementos antagõnicos para essa harmonia.
Dentro dessa ótica, acredito que as regras teologais decretam mais a morte do amor que o seu nascimento,
já que o homem contemporãneo necessita a cada dia de equilibrar a gravitação entre
esses dois reinos, rompendo o estágio de unilateralidade em que vive. A atual teologia está em descompasso
com a vida.. Não se atualizou, não se nutriu de outras fontes, como o budismo, o taoismo, o zen,
etc.. Daí o grande êxodo do católico praticante para outras formas de conexão espiritual,
quando não cai no mais profundo materialismo. Falta-lhe uma releitura que nutra espiritualmente o homem
contemporâneo. Ademais, o amor de deus é maior do que a teologia.
C - "O dinheiro é um deus terrível." Podemos amá-lo face a face?
AC - Em "O Shopping de Deus & a Alma do Negócio", defendo o dinheiro, porque ele tornou-se
o bode expiatório da humanidade, na discussão das forças do Bem e do Mal. Para alguns, queima
as mãos, enquanto a outros, oferta-se ávaro na circulação do egoísmo da existência.
Em nossa visão polarizada oscilamos entre a ganãncia e o desinteresse. É do Diabo, o dinheiro,
então ele constrói templos, sinagogas, mesquitas. E é de Deus, o dinheiro?Sendo Deus, o Supremo
Bem e o dinheiro um justo valor, então é seu parente em linha direta. A minha opinião é
a de que o dinheiro é uma pobre vítimas dos que, farisaicos, se dizem materialistas e espiritualistas.
Se o queimássemos em praça pública, outra moeda seria inventada certamente com maior poder
no câmbio negro. E é preciso acabar com a sídrome da transcendência do dinheiro ( que
o mantém à distância) e da doença de poder ( que o mantém preso a nós,
como um cão em sua coleira), e deixá-lo viver a sua vida. Acho que até devemos rezar pelo
dinheiro para que ele se compadeça e acabe com tanta miséria terrena. Devemos fazer um novo pacto
com o dinheiro e redimi-lo. Pra que ele nos salve das vãs promessas e a sua pobre alma. Amém e nota
de cem.
C - Existe o caminho do poeta? Nesse caso, qual o seu destino?
AC - O caminho da poesia não é o do guerreiro, do yang, do forte, do poder. É o caminho do
yin, do feminino, da transcendência, do sublime, sempre escapando do yang que quer estrangular a sua criatividade.
Pressupõe humildade, para muitos, sinônimo de fraqueza. Baseia-se na esperança, para nulos,
característica dos tolos. Mas por que seguí-lo? Por que só ele dá tesão e esperança
para enfrentarmos em praça pública o laço da história.
Temos que desrealizar o mundo para realizar-nos , muitas vezes, com o desregramento de todos os sentidos. Roubamos
aos desuses o fogo da criação para sermos amaldiçoados. Gastamos a maior parte da nossa energia
psíquica para a efetivação do poema e muitas vezes perdemos a chance de sermos bons pais ou
cidadãos. E por que continuamos a trilhá-lo? Porque para nós, poetas, a poesia é paixão
e obsessão, lucidez e loucura, sexo e transcendência, prazer e significado de vida.
Poetas nunca estão na terra. Sobra-lhes o céu às cabeças. Falta-lhes o chão
aos pés. Os pensamentos são raízes de nuvens. Seu endereço é o coração.
Beleza e tragédia, eis seus companheiros de viagem Amados ou esquecidos, sublimes ou desterrados, poetas
vivem apenas o seu destino.
C - Poetas são em série de fabricação ou os burros da carroça? E quando eles
passam quem lhes oferece um sorriso de égua?
AC - Poetas são em série de fabricação quando falsificam a existência e transformam
o poema em máquina monótona, sucata fria, sem emoção, privada de identidade e individualidade,
pis levam apenas na lombada o peso físico de seus livros.
Os insensíveis, estes normalmente têm um sorriso de égua
C - Você falou no início que era um não especialista. Então, como se define?
AC - Como um mestre em becos, phd em ladeiras, ofm das águas do Maranhão.
LIVROS DE POEMAS DE LUIS AUGUSTO CASSAS
JÁ EDITADOS:
1- "República dos Becos" - Civilização Brasileira-1981
2- "A Paixão Segundo Alcãntara" - Roswhita Kempf/ Editores-1985
3- " ROSEBUD" - Massao Ohno-1990
4- "O Retorno da Aura" - Editorial Nórdica-1994
5- "Liturgia da Paixão" - Editorial Nórdica- 1996
6- "Ópéra Barroca" - Imago Editora -1998
7- "O Shopping de Deus & a Alma do Negócio" -Imago Editora-1998
8- "Titanic- Boulogne - A Canção de Ana e Antõnio" Imago Editora-1998
9- "Bhagavad-Brita -A Canção do Beco" - Imago Editora - 1999
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SOLIDÃO
Eduardo era um cara sério demais. Carrancudo. Ranzinza. Era mesmo uma pessoa de uma tristeza que contagiava,
por isto, não tinha amigos. Tinha um emprego burocrático que combinava direitinho com sua maneira
de ser. Andava sempre da mesma forma: camisa para dentro da calça jeans caretinha e aquele óculos
preto e pesado. Todo dia executava as mesmas coisas de uma forma mecânica, fria e apática. Pagava
as contas em dia, não vacilava, não dava bom dia, não curtia música, cinema, teatro
e pornografia. Não entrava em amigos ocultos, não comparecia às festas da repartição
e detestava bares cheios de gente chata falando alto.
Morava no oitavo andar de um prédio antigo em Sampa de onde se via da janela da sala todo o centro da cidade.
Ele odiava o horizonte cinza que se contemplava dali e jurava que ía chegar o dia de se livrar de tudo aquilo.
Quando chegava cansado do trabalho, e às vezes isto era muito tarde, tomava um banho quente para relaxar
e na maioria das vezes comia um Miojo com suco de caju de garrafa. Ligava a tv e de cueca ficava ali vegetando
por horas. O telefone nunca tocava. Ninguém aparecia. Não tinha empregada nem diarista. Ele só
saía de casa quando era urgente. Quando não dormia no sofá mesmo, deitava na sua cama olhando
para o teto e esperando o sono vir. Mas, toda noite, no apartamento quase colado ao seu, a voz de Donna Summer
proclamava let’s dance e umas luzes coloridas inundavam o quarto. De pé, escondido pela fina camada da persiana,
observava a coreografia alucinada de um jovem de no máximo seus vinte anos: cabelos dourados e muito longos,
corpo esguio e muito branco usando uma samba-canção caqui. O jovem bebia às vezes e um cheiro
de maconha vinha de lá. Pensava sempre em ligar para a portaria, reclamar com o síndico ou interfonar,
mas nunca fazia. E toda noite era a mesma coisa.
Às vezes, a música mudava e podia ser escutada durante o dia também: Rolling Stones, Rita
Lee, Beatles, Michael Jackson, Village People; tudo o que pode machucar ouvir quando se está sozinho. E
sempre aquela música invadia o espaço do apartamento como se fazendo uma faxina, abrindo janelas,
batendo a poeira e botando o lixo para fora.
Passou então a observar o apartamento vizinho, sempre escondido, e cada a dia uma comemoração
diferente: uma música, uma dança, uma luz, um cheiro que vinha de lá. Numa tarde de sexta-feira,
saindo do trabalho, passou num sebo vagabundo numa galeria do centro e comprou um monte de lps antigos. Demorou
horas manuseando as capas empoeiradas das bolachas de vinil. Em casa, abriu todas as janelas- eram duas apenas-
e botou a primeira faixa de um lp de discoteca. Discoteca. Discoteca. Há quanto tempo não ouvia este
nome? Do seu quarto, vinham luzes coloridas que rodavam na parede e tudo rodava- paredes, quadros, teto, cama,
retratos-, e ele rodava também, cantando as músicas como podia numa alegria quase infantil. Na janela
do apartamento quase colado ao seu, o jovem sorria cúmplice. Eduardo então, resolveu olhar o rapaz
de frente, como se olha um amigo. Este momento durou alguns minutos que valeram por uma eternidade de contemplação.
No dia seguinte, encheu a geladeira de latinhas de cerveja e fez faxina na casa. Quando a noite chegou, pôs
o som bem alto. A senha. O código. E ficou esperando as luzes coloridas. Nada. Naquela noite, o jovem não
apareceu. Nem na seguinte. E nas outras de toda a semana. Na sexta-feira, pediu para o porteiro interfonar para
o 804- era tudo ou nada. Mas o 804 estava vazio fazia uns quatro meses, o porteiro afirmava porque estava com a
chave, se quisesse, poderia conferir. O apartamento estava a venda e tudo.
O apartamento era idêntico ao seu, mas parecia muito maior. No quarto vazio, abriu a janela que dava exatamente
de frente para a sua. E viu seu quarto com a cama imensa e vazia, a mesinha de cabeceira sem telefone, o corredor
escuro. Uma vitrola CCE antiga. A persiana cinza levantada de forma desalinhada. E de fora, ficou por horas observando
e pensando no que iria imediatamente fazer para tornar aquele cantinho um lugar mais feliz para se viver.
Rodrigo Ribeiro é ator e escritor |