COMENTANDO
LITERATURA
por Luiz Horácio

Poesia - Evento
Poesia - Paula Taitelbaum


23/Setembro/2000

DESAFIANDO A RAZÃO

"Pergunta sempre a cada idéia: a quem serves?" - Bertold Brecht

Religião é um toma lá dá cá dos infernos. O sertanejo implora a uma estatueta do Padre Cícero, e este nem é santo, para que chova, pescadores seguem para alto mar levando uma estátua para ajudar na pescaria, um idiota joga moedinhas, de baixo valor, no mar na expectativa de agradar alguma mulher barata. Não vou citar aqueles que se açoitam, os que têm que virar para uma determinada cidade na hora certa e outras atitudes tão ou mais deploráveis denunciando alienação e comprometimento psíquico.

Então uma beata brada: "Meu filho religião é religar, religa o homem com..." Com? Com o que ele tem de mais primitivo, existiram povos que adoravam o sol, a lua, o boi,etc...Esses pelo menos eram coerentes com a política do toma lá dá cá. Não se pode religar o homem com algo que não existe. E a beata volta: "Meu filho a religião serve para dar conforto espiritual nada mais". E quer que eu acredite em conforto espiritual sem conforto material. Pois que meu espírito padeça en quanto posso fazer uso deste computador,do sofá macio,dos sapatos novos, logo mais ir ao teatro, viajar e sonhar sonhos que eu possa realizar. E nunca sonhei uma semana em Mauá mas um mês em Paris

Nunca falta um boca mole, fala mansa, geralmente "padecendo" de confortável situação econômica, para dar conselhos: cruzem as pernas assim, acenda o incenso, alimente-se de maneira frugal, sofra aqui para merecer a felicidade no além. Sou mais objetivo, estou vendendo casas à beira mar no além, despositem em minha conta quantia a combinar, desfaçam-se de tudo,transfiram carros e propriedades para o meu nome, sofram com suas pobrezas por que a vida depois da morte é muito, mas muito melhor, que a atual. É assim ou não é? Ia esquecendo, as casas que estou vendendo estão com todos impostos pagos. Eternamente.

Religião significa alienação.Idolatra-se falsos, todos são, deuses, estimula-se o sofrimento, é necessário sofrer para merecer a recompensa depois da morte. Definitivamente, o lampião a querosene não tem mais utilidade nas áreas urbanizadas, o ferro de passar roupa não necessita mais de brasas como combustível, a carne não exige ser salgada para só assim ser conservada e no entanto a religião sobrevive e se multiplica. Religação só se for com os antepassados da idade da pedra.

Um pouco do trabalho exercido, com objetivo de despersonalizar, alienar e culpar, pelo catolicismo pode ser examinado em LÁGRIMAS IMPURAS romance de Fúrio Monicelli- Cia. Das Letras-São Paulo-2000 mas não é uma simples história tendo a igreja como protagonista, é sim um profundo exame da mente humana onde desejos entram em choque com a doutrina e questionamentos geram tensão.

Furio Monicelli foi noviço jesuita e escreveu, em 1952 aos 28 anos, dois artigos que serviram como base para LÁGRIMAS IMPURAS, lançado em 1960 com o título de O Jesuita Perfeito, um ano depois publicaria Os Jardins Secretos encerrando sua carreira literária.

LÁGRIMAS IMPURAS tem em Andrea o protagonista que foge de casa para ser noviço-jesuíta., afasta-se do mundo que o corrompia e busca socorro na serenidade da religião. Ele não contava, ou não avaliara, porém a quantidade de privações que governariam sua existência intra-muros. Andrea e seus colegam seguiam uma cartilha de falsidades que, entre outras, obrigava-os a usarem o tratamento de "senhor" mesmo nos raros encontros particulares. As regras rígidas servem para despersonalizar, evitar questionamentos, não fazer uso da inteligência. Através da humilhação o noviço entra em contato com sua nova identidade formada principalmente pelo cinismo até esculpir o hipócrita.

Num primeiro momento a paz do convento faz muito bem a Andrea mas na sequência aparecem os confrontos, a disciplia do convento e a perda da liberdade, as privações em nome da purificação e os desejos. Entre a cegueira da fé e as tempestades da razão acende-se a trêmula e perigosa chama da paixão por Lodovici, belo companheiro de noviciado. Ao falar com o padre mestre a respeito da amizade particular escutou?

TRECHO

"Não deve perturbar-se com tão pouco. É evidente que o coração humano não pode viver sem afetos sensíveis. É inevitável, em suma, que vocês, jovens, aqui dentro, inconscientemente se procurem, segundo as simpatias e inclinações recíprocas. Mas o importante é dominar os impulsos internos, sufocá-los, destruí-los, quando ofendem a caridade. Se você sente uma inclinação desregrada pelo irmão Lodovici, a virtude da caridade para com os outros irmãos e a própria razão natural sugerem-lhe que fique o longe dele o mais possível, que o evite, procurando, ao contrário, os noviços que lhe parecem mais hostis, mais desagradáveis."

E Andrea via-se aconselhado a desviar da paixão como se evita uma rua escura, tal procedimento entrava em choque com a doutrina de Santo Inácio de Loyola, um santo que ele aprendera a admirar para quem "O jesuíta perfeito, segundo santo Inácio, tinha de ter sempre "antenas", possuir um refinado senso do demoníaco e do divino, não apenas nas contradições da vida interior, mas nos próprios acontecimentos da história humana, ter uma profunda competência em tudo que concernia a Jerusalém e à Babilônia".

Excluindo as divindades nada de exepcional no discurso do santo, duvido que alguém dotado de inteligência mediana pense de maneira oposta.

A fatalidade paira, sobre a vida religiosa e a paixão de Andrea , a harmonia interior tão perseguida se desfaz, a tragédia se anuncia.

LÁGRIMAS IMPURAS além de brilhantemente narrado permite várias investigações, algumas: a respeito do uso da liberdade, da necessidade das paixões, da necessidade vital da desobediência...

Eu lanço uma questão: Duvido que uma vocação religiosa, seja qual for, sobreviva ao apelo de uma paixão. Aqui me refiro de paixão de homem por mulher, de mulher por mulher , de homem por homem. Carnal mesmo! Duvido.

Atenção: aceito opinião de filhos de padres também.

LÁGRIMAS IMPURAS

autor: Furio Monicelli
Tradução: José Rubens Siqueira
133 páginas (R$ 21,50)
ed.Cia das Letras
tel: 11 3846-0801
fax: 11 3846-0814
www.companhiadasletras.com.br

POESIA

A POESIA DO DETALHE AO VIVO


No próximo dia 1º de outubro, o domingo não será apenas de eleições, mas também de poesia: às 20 horas, o escritor carioca Jacinto Fabio Corrêa apresentará o recital Sete senhas, no Espírito das Artes, na Cobal do Humaitá (R.Voluntários da Pátria, 446 lojas 39 a 42 A, couvert a R$ 5,00).

Além dos poemas, o espetáculo conta com a participação especial do cantor e compositor Paulo Corrêa e com a exibição do vídeo O trapezista, baseado na obra do poeta, realizado por Luís Alberto Rocha Melo, que também assina a direção do recital.

Jacinto surgiu no cenário literário brasileiro em 1989, com a publicação de Entre dois invernos, produção independente que anunciava a opção do escritor pela poesia do detalhe, em que palavra e programação visual se fundem numa só proposta artística.Essa proposta é marcada principalmente pelo aspecto artesanal dos seus livros, em que cada exemplar é tratado individualmente, através de colagens de papéis, metais, madeiras e de acabamentos que utilizam-se de cordas ou silk-screen para traduzir o lirismo dos poemas do autor.

Além de Entre dois invernos, Jacinto Fabio Corrêa lançou outros cinco livros seguindo essa mesma linha de trabalho, com a criação visual sempre assinada pela designer Heliana Soneghet Pacheco: Cenas nuas (1990), Jogos urbanos (1992), O derrame das pedras (1994), Pedaços – O parasempre da hora (1996) e seu mais recente trabalho O diário do trapezista cego (1999).

No recital Sete senhas, o poeta faz um resumo do trabalho já publicado e apresenta poemas inéditos de seu próximo livro, como "Para sempre": A vida tornou-se aprender/amar é colocar as cadeiras na varanda da lua/e ficar/vendo o sol nascer/vendo o sol morrer/sem medo ou constrangimento de ser imortal.

Jacinto é jornalista e publicitário, atualmente integra o grupo de poesia Letra Itinerante e trabalha como editor-chefe na agência de comunicação Franco, Celano & Baroncelli.

Informações

Telefax.: 275-9914
Tel.: 508-8322/96090876
E-mail: jacinto@alternex.com.br
Sobre o vídeo

Baseado nos seis livros do poeta, O Trapezista procura frisar, em imagens em preto e branco filmadas no Rio de Janeiro, o caráter urbano da poesia de Jacinto. "Procurei cenas que traduzissem o espírito do poeta, fazendo analogias entre o circo e a feira, os personagens dos livros e as pessoas da rua, mostrando sempre o interesse do escritor pela composição e decomposição da cidade", afirma o videasta Luís Alberto Rocha Melo, que também assina o roteiro e a produção do vídeo.

Com 15 minutos de duração, O Trapezista é um passeio visual sobre os versos do autor, amarrados pela trilha sonora do cantor e compositor Paulo Corrêa. Além disso, conta com a fotografia de Flávio Melo e Silva, que procurou reproduzir o sentido ora intimista, ora arrebatador de alguns poemas.

Luís Alberto Rocha Melo, 28 anos, dirigiu seu primeiro vídeo, Alex Viany - Um Documentário em Vídeo, em 1989. Em 1994, dirigiu Fernando Py e em 1997, Fragmentos - Uma Narrativa Intranqüila.
A POESIA ERÓTICA DE PAULA TAITELBAUM

Os mamilos encapsulados
Gritam por trás da blusa
Os olhos abusam
Obscenos e obsecados
Eles secam tudo
Meu suor
Minha respiração
Meu disfarce
No meio da multidão
Os batimentos aceleram
E liquidificam um sêmen oculto
Não sou nada além de um vulto
Enclausurado
Por uma fêmea no cio
Por dois mamilos pontiagudos
Que alfinetam meu vazio
Suas pontas tiram meu sangue
E meu prumo
E fazem sair do rumo
O meu olhar.

Nem sei de onde veio
Mas quando vi tinha meu seio
Em sua suada mão
Senti seu hálito quente
Falo e fala dormente
Como uma parte de mim
Naquela noite
Dançamos assim
Rosto colado
Sem música
Só rebolado.

No lugar de uma linha de vida, o destino reservou a mim um novelo.
Sem ponta, cheio de nós, emaranhado em si mesmo.
A esmo.
Empurrado por dois gatos vagabundos.
Pra lá e pra cá. Pra lá e pra cá.
A sujeira grudando no novelo.
E os pêlos. Os pêlos felinos aderindo ao meu tecido.
Novelo entumecido. Pra lá e pra cá. Pra lá e pra cá.

Há pessoas que doem enquanto doam
Que reservam suas entranhas a estranhos
Na esperança de preencher
Há pessoas que se fecham enquanto abrem
Que fingem pela pressa do querer
Eu não
Se for para ser assim, que eu seja cobaia de mim
A permitir que as minhas mãos autofágicas
Tornem-se, num passe de mágicas,
Pura fantasia
Fantasmas
Na cama vazia.


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