LITERATURA
por Luiz Horácio

Contos
Ensaio
Poesia - Saber de Verso


30/Setembro/2000

O ARQUITETO, EM CARNE E OSSO, DO UNIVERSO

"Arquitetura é invenção" - Le Corbusier
Le Corbusier costumava dizer que Niemeyer tinha "as montanhas do Rio nos olhos", não duvido, apenas acrescento que as montanhas não são das mais arborizadas pois o sábio arquiteto tem uma queda enorme por cimento. O Memorial da América Latina em São Paulo é um monumento gigantesco ao cimento. Certa vez eu li não recordo em que jornal que Niemeyer dizia ser "contra tudo que é provisório", pelo visto inclui também o transitório. Isso tudo é apenas para ressaltar que embora não pareça, me ocuparei de um homem e sua obra magnífica e não um ser perfeito e sua obra inexplicável. Se é que talento sem medidas pode ser explicado.

MINHA ARQUITETURA
Autor: Oscar Niemeyer
112 páginas
R$ 10,OO
Editora Revan
Tel: 21 502-7495
fax: 21 273-6873
email:
divulg@revan.com.br
internet:
www.revan.com.br
Missas eram rezadas na casa do seu avô e frequentadas pelos vizinhos, Niemeyer não acreditava naquilo por achar o mundo injusto e o ser humano frágil. Frequentou a zona da Lapa, os cabarés. Hábitos esquecidos com o casamento. Niemeyer ingressa na Escola de Belas Artes e trava amizade com Rodrigo Mello Franco de Andrade, diretor do Patrimônio Histórico, que o aconselhava a ler os clássicos. Mais tarde Niemeier comprova a utilidade do aprendizado ao dizer: "quando os projetos são aprovados é mais pelo texto - de arquitetura ninguém entende".

Em uma entrevista à Silvio Cioffi dizia que antes mesmo de mostrar um projeto a Juscelino este já dizia: formidável!

MINHA ARQUITETURA - Oscar Niemeyer - Editora Revan - Rio - 2000 é um livro repleto de histórias, ensinamentos e vida deste complexo e ao mesmo tempo humilde brasileiro que detesta viajar de avião. Imune ao elogios, mesmo os mais merecidos, mantém acesa a chama da lucidez e da brevidade da existência humana. Um sábio que costuma dizer : "A arquitetura não é o mais importante. Importante são a familia, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar."

Em MINHA ARQUITETURA Niemeyer viaja no tempo, do conjunto da Pampulha até o Museu de Arte Moderna de Niterói sem esquecer Brasília e algumas obras espalhadas por vários países. O estilo descontraído do livro permite ao autor saltar décadas de um paragráfo para outro sem perder o ritmo mas quase provocando um acidente de trabalho. Nada que comprometa a narrativa que para arquitetos e estudantes é antes de tudo um documento. Uma confissão. Como proceder para ser um profissional exemplar sem descuidar da ética, sem esquecer os mais necessitados, preocupado com o aspecto social.Vinicius de Morais certa vez em uma entrevista afirmava: "Amigo é o Oscar Niemeyer e o Pixinguinha".

Niemeyer relata o episódio da libertação de Prestes, após cumprir nove anos incomunicável, em 1945 . Sem ter pra onde ir, uma dúzia de comunistas, são acolhidos em seu escritório. Um dia ele diz ao Prestes: "Fica com esta casa, sua tarefa é mais importante que a minha." E viu seu escritório ser transformado na sede do Comitê Metropolitano do Partido Comunista Brasileiro.

TRECHO

"Desde rapaz até hoje, a luta política me ocupa, mais importante para mim do que estes setenta anos que passei debruçado na prancheta. Nos meus contatos profissionais nunca escondi a minha posição política. Mas muitos que gostam da minha arquitetura me julgam um equivocado, e deles penso o mesmo."

Um livro como MINHA ARQUITETURA deve ser objeto do olhar dos alunos e arquitetos, de todo aquele sedento de aprendizado e sobretudo dos arrogantes e prepotentes, eu diria que é um livro que cabe como uma luva no ego dos "médicos".

Em nenhum momento Niemeyer coloca sobre sua cabeça os louros dos seus inúmeros projetos bem sucedidos.

"Os CIEPs do Rio de Janeiro são escolas públicas pré-fabricadas, e o mais importante nessas escolas, reconheço, não é a arquitetura, mas a idéia de Darcy Ribeiro de manterem nelas as crianças em tempo integral, assegurando-lhes alimentação e traqüilidade, o espaço para estudarem que em casa lhes falta."
CONTOS

O AMOR


Resolveu terminar aquele relacionamento, tinha durado além do esperado e ele estava cansado daquele rosto feito de nuvens que se modificava ao som do vento de suas palavras.

Ele não era o que se poderia chamar de um otimista visto que já várias e várias vezes procurara a morte mas descobriu que quanto mais se procura morte mais se encontra vida. Decidira aproveitar a sua. E bem! Sua mulher havia saído e ele tentava encontrar o ponto final para aquela história, a sua história.

Estava em casa com a filha naquela manhã chuvosa, abriu o jornal e deu de cara com a notícia da morte de um escitor que admirava. Choque. A filha de três anos brincando no sofá percebeu aqueles olhos, de tantas brincadeiras, enchendo-se de água, a água triste de saudade. Deixa de lado o brinquedo e salta para o colo do pai e num abraço de filha diz: "- papai eu quero sempre amor." E ele pergunta o que é o amor e ela responde: "- é uma coisa boa, é água." Então ele chora, ela repete o abraço, agora abraçando com mais força aquele homem que ainda não sabe amar. E foram para a janela namorar a chuva.

CICATRIZ

Aquela era a sensação mais triste que ele já experimentara, acordar chorando. E o mais grave, não sabia a causa, não lembrava de nada que pudesse ter ocorrido naquela noite. Logo ele que era famoso por ter uma memória excelente. Mesmo depois de ter lido em algum lugar que a memória é a única glória do pobre coitado ele fazia questão de relatar fatos de sua infância. Mas por que ultimamente dera para acordar chorando?

Seria algum sonho? Não, seus sonhos eram todos velhos. Saudades? Talvez. Costumava dizer que só a saudade era verdade, os amores eram frutos do acaso.

A noite chegou outra vez e ele sentiu o perfume daquela florzinha noturna do jardim de sua mãe. Enfim entendera tudo.

As lembranças são sobreviventes feridos dos nossos naufrágios.Uma lágrima alcançou o chão e ele jogou fora o carrinho preferido do filho morto e doi dormir. Poderia acordar chorando, não teria mais tanta importância. Ele estava leve. O choro é a cicatriz que evapora.

Matilde Valente é jornalista e crítica de cinema, natural de Valladolid, mora em Madri
(tradução de Luiz Horácio)
SABER DE VERSO

Saber de Verso é um evento que inaugura o debate da poesia com outras áreas do saber.A finalidade é burilar a estética do conhecimento, apontando ou revelando nas filosofias, nas ciências, no texto bíblico-religioso, na psicanálise, no cinema e no teatro, o poético.
Dia 2 de outubro, segunda-feira, o Saber de Verso terá como convidados o psicanalista Joel Birman e a professora de literatura Vera de Souza Lima.Os dois buscarão os elos de ligação entre poesia e psicanálise tendo como enfoque o processo criativo psicanalítico e poético.
O saber de Verso, é coordenado pela poeta e psicanalista Rosália Milsztajn e acontece toda primeira segunda-feira do mês no Café da Livraria Ponte de Tábuas, rua Jardim Botânico, 585, 20:00horas. A entrada é franca.
ENSAIO - Hemingway, suas muitas faces - por Elaine Pauvolid

Hemingway, tal a maioria esmagadora dos americanos que viveram ao lado do Surrealismo, não aderiu ao movimento. Seu estilo segue características essencialmente americanas no que se refere a seu estilo e narrativa: escrita rápida e sucinta, sentimentos traduzidos em racionalismo angustiado e ansioso, depois, apaziguado. Estilo presente em Elizabeth Bishop, poesias e cartas, em Bukowski, crônicas, Henry Miller nos seus escritos, em Ezra Pound nos ensaios.

Exemplo: Por quem os sinos dobram. O herói levanta inúmeras questões sobre o amor, sobre estar vivo por apenas mais 24 horas e isso até ser uma vantagem, indo e vindo do desespero à calma quase transcendente por meio de diálogos em sua própria cabeça.

Hem consegue tirar do protagonista a profundidade. Convida o leitor a ser interlocutor do pseudo-herói, não deixando margem para surpresa. Somos levados a concordar com o "Inglés" [apelido do protagonista] que segue a linha do bom senso.

Em uma análise mais cuidadosa, percebe-se um elevado conteúdo artístico e vem a surpresa. O herói da narrativa é, na verdade, Pablo, um cigano, um espanhol, que age por medo e valentia, o verdadeiro homem, o sábio real da história. Este é o peso do tijolo que vale a pena carregar.
Diferente dos escritores europeus, o escritor americano utiliza-se da linguagem coloquial e não busca grandes insights, detém-se no rasteiro do dia-a-dia e resume tudo a uma questão de ser ou não alguém de valor.

Os textos de Hemingway trazem sempre a marca de sua biografia que acabou em suicídio em 1961. A idéia de morte estará presente sensivelmente em Por quem os sinos dobram.

Hemingway foi americano, jornalista, boxeador, pescador, motorista de ambulância, herói e muitas outras coisas mais. Seus livros foram adaptados para Hollywood. Não gostou de nenhuma destas adaptações, mas enriqueceu com isso.
A versão de Por quem os sinos dobram com Ingrid Bergman fazendo o papel de Maria é uma violência contra a obra do autor. O mais importante, que é a entrelinha, o contraste do homem latino e do anglo-saxão, a questão histórica não aparece nem como figuração.

O filme preocupou-se mais em fazer do herói o mesmo herói de sempre e a mocinha, a mesma. A personagem Pilar vivida por Katina Paxinou consegue driblar esta monotonia e nos dá um grande prazer. Não foi à toa que foi premiada por esta atuação.

Para Hem, o filme foi um desastre. Pareceu-lhe uma versão mal feita de Carmen. Generosidade de Hem, Carmen passa longe deste filme, mesmo a mais terrível das versões cinematográficas da novela de Prosper Merimée.
Hem, participou da I Guerra como voluntário da cruz vermelha, da guerra civil espanhola como correspondente, criou uma agência de operações anti-nazistas em 1942, com sede em Cuba e, depois, caça navios alemães por dois anos no Golfo do México. Viveu na aventura e desafiando a morte, como os toureiros de seus textos.
Os contos de Hem primam pelo lirismo e encontra-se uma grande diferença entre estes dois estilos na sua obra. Em romance, Hem é mais seco, mais direto. Nos contos, a linguagem é trabalhada chegando-se quase à perfeição.
Pode-se dizer que Hem foi melhor contista que romancista, não pelo fato de ser menor sua obra em romance, mas por ser extremamente fantástica sua obra em contos. Como exemplo, A vida breve e feliz de Francis Macomber.

Se Hem foi polivalente na vida, o mesmo fez na arte e se não o fez com a mesma variedade, com a força dos leões que gostava de ver nos safáris.

No que se refere aos contos, é um dos maiores da história da literatura mundial ao lado de Dostoievski e Katherine Mansfield.
*Elaine Pauvolid é poeta e escritora, autora do livro: Brindei com mão serenata o sonho que tive durante minha noite-estrela... (Imprimatur/Sette Letras)

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