LITERATURA
por Luiz Horácio

Poesia, Inédito
Evento
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07/Outubro/2000

CORAÇÃO FORA DO COMPASSO

CORAÇÃO BRASILEIRO- Imago-Rio-2000 texto teatral de Flávio Marinho também pode ser lido como uma grande reportagem, uma peça com carteira de jornalista. Flávio faz uso das vozes de um grupo de amigos para narrar, num suspeito bom humor, a história do Brasil nos últimos 35 anos .A história começa com o golpe de 1964 e termina em 1999 ano do casamento e também da separação de Adriane Galisteu.

Mesmo provocando enxurradas de riso fácil o trabalho de Flávio merece um olhar mais detido.

Como peça cumpre o papel daqueles trabalhos que você vê e logo esquece, é o humor obrigatório, o autor sataniza certos icones que ele mesmo ajudou a erigir. É fácil você marcar um ano com casamento e separação de Adriane Galisteu, dificil é você fazer humor sem citar nomes. É fácil fazer rir utilizando-se da figura do Enéas por exemplo, da Hebe.Do Collor alguém não ri? O autor elege o alvo e a flecha, ambos vulgares. Tenta ser político num texto alienante. Usa o episódio da queima de mendigos para fazer graça e causa constrangimento.

TRECHO

JONAS:
Maurício,os teus amiguinhos incendiaram uma pessoa! O que é que você tá pensando da vida?
MAURÍCIO:
Eles-não-sabiam-que-era-uma-pessoa! Eles não param de repetir isso!
JONAS:
Ah! maravilha...Essa vai ser a defesa do advogado...?
MAURÍCIO:
Eles não pensaram que fosse uma pessoa! Tava escuro!
JONAS:
E por que você não fez alguma coisa? Por que você não impediu? Por que você não falou nada?
MAURÍCIO:
Eu não... O meu avô, pai da minha mãe, sempre diz que, nessas horas, é melhor a gente se fingir de morto...


Percebe-se que é muito engraçado não é mesmo?

Jonas é o protagonista da história, acredita que geralmente as coisas nunca estão tão ruins quanto poderiam estar mas uma faísca de otimismo vez por outra aparece para iluminar suas expectativas.

Os amigos de Jonas, no transcorrer da história, experimentam alguns reveses. Jonas sofre das formas mais variadas, tentativas profissionais frustradas, relacionamentos desfeitos e aos 44 anos encontra-se em meio a uma encruzilhada, abandonado pela mulher, desempregado enquanto o filho Maurício em Brasília comete atrocidades e usa a frase do avô como justificativa: "é melhor a gente se fingir de morto".

Jonas não suporta o Padre Marcelo, "erguei as mãos e dái glória...", o Tchan, a Tiazinha e os casamentos da Adriana Galisteu.

O rapaz, tão consciente!, se deixa abalar pela futilidade.

Para completar a caricatura o autor esqueceu de fazer graça com os homosexuais, os negros, etc...

Ou não aconteceu nada disso no período em foco?

E a platéia não nega gargalhadas às piadas sobre negros, judeus, viados. Quem sabe na próxima!
Decididamente CORAÇÃO BRASILEIRO cumpriu exitosa carreira. Sua leitura não se justifica.


CORAÇÃO BRASILERIO
Autor: Flávio Marinho - 128 páginas - R$ 15,00 - Ed. IMAGO - Tel 21: 502-9092 Fax: 21 502-5435
e-mail: imago@ism.com.br - www.imagoeditora.com.br
Swingue e Poesia - Show de Zé Ricardo

Abertura: recital com Alexandra Maia e convidados - Sandra de Sá, Letícia Spiller e Mano Melo -
DIA: 09 de outubro
HORÁRIO: 22:00 h
LOCAL: Hipódromo Up
Praça Santos Dumont 108, Gávea
Telefone: 21. 294.3743
Couvert: R$ 5,00 - Consumação mínima: R$ 10,00

II CONCURSO NACIONAL POESIA VIVA - PRÊMIO GILBERTO MENDONÇA TELES

O poeta Tanussi Cardoso foi o grande vencedor do II CONCURSO NACIONAL POESIA VIVA - PRÊMIO GILBERTO MENDONÇA TELES, com o poema "Morada". No mesmo Concurso, o poeta ganhou, também, o Prêmio de Interpretação. Entre os jurados, Leda Miranda Hühne, Ricardo Máximo, Dirceu de Mattos e Helena Ortiz.
Tanussi Cardoso lançou este ano, com sucesso de crítica e público, o livro "Viagem em Torno de", pela Sette Letras, que, em tempo recorde, encaminha-se para a 2ª edição. Dia 18 de outubro, o poeta apresenta-se no Projeto Fórum Poesia, iniciativa do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

Segue o poema vencedor:

MORADA

Ali, onde os girassóis aprendem a dor do sol
o mar salga as águas primevas
e os peixes aprendem guelras e escamas.
Onde o primeiro homem sangra o primeiro dente
e sacia a sede do próximo.
Ali, onde os jardins sonham suas texturas de seda
a primeira palavra se pronuncia
e a primeira lágrima mancha a face serena.
Onde os insetos queimam peles e copulam flores, frutas e mel.
Ali, onde se ouve o nome que será seu:
o escolhido, o criado, o nome que será chamado Eu.
Onde as estátuas morrem, pedra e amálgama, e se fazem alma.
Ali, no morder das línguas, no arder das chuvas
onde se reproduzem sombras e auroras
e o silêncio se faz poema e ilumina a Terra.
Onde Deus habita e dança, bafeja o Seu Hálito e alivia a Sua Febre.
Ali, dentro dos umbigos, onde se ordenam Tempo e Movimento.
No oco, onde explode e vive - único - o azul.
No abismo, onde reverberam os instintos...
É que o Amor - nascedouro - cresce belo - e a tudo inunda.

Tanussi Cardoso

1º lugar no II CONCURSO NACIONAL POESIA VIVA
- PRÊMIO GILBERTO MENDONÇA TELES - Setembro 2000

Um poema inédito de ANIBAL BEÇA

BOLERO DAS ÁGUAS

O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezin ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.

Anibal Beça - Recife 29.09.00


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Luiz Horácio escreve ... e lê, lê, lê...