LITERATURA
por Luiz Horácio

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18/Novembro/2000

ENTRE SÍNDROMES E SONHOS

"Muitos acham que a inteligência é um empecilho para a felicidade. O verdadeiro empecilho é a imaginação" -Adolfo Bioy Casares

O que era uma suspeita agora é uma certeza: o grande sonho de um escritor gaúcho é acordar argentino. Do contrário como explicar tamanho fascínio e identificação com o gênero fantástico tão familiar a Borges, Bioy Casares e Cortázar? Admirar e ler, pelo menos esses três, não implica em assimilar o talento, se bem que alguns podiam assimilar a cegueira de Borges pelo menos, o que nos privaria de uma sub literatura feita de mera imitação descarada.

SÍNDROME DE QUIMERA de Max Mallmann-Ed. Rocco-2000 é o romance de um autor gaúcho que está mais para Bioy que para Borges e Cortázar pois localiza com precisão no tempo e espaço seus relatos, explica de maneira material o fantástico em sua história, tampouco se deixa levar pelo lirismo tão comum à Cortazar.

Max Mallmann joga mentalmente, o personagem Bruno costuma desenroscar a tampa da cabeça, retirar o cérebro e colocar numa bacia para descansar, a seguir bebe cerveja, a metade derrama em cima do cérebro. Mais tarde tudo volta ao lugar. Poderíamos dizer também que após a experiência fantástica o indivíduo forçosamente terá de retornar ao costumeiro estado de impotência, entre o terror e o riso, diante do grande mistério da vida. Mas talvez a característica que mais aproxime Max de Bioy seja o caráter satírico. Bioy enveredou toma o caminho da sátira em "Dormir ao Sol" de 1973, seguem-se os volumes de conto "El Héroe de las Mujeres"-1978, "Histórias Desaforadas"- 1986 e "Una Muñeca Rusa"-1991. Max traz à tona nossos medos e desejos, ao avistá-los transforma-os em fina sátira tratada com carinho por uma linguagem acessível e precisa. É impossível evitar o riso ao ler SÍNDROME DE QUIMERA, uma história aparentemente simples que exige mais de uma interpretação. Assim como Bioy, Max Mallmann alerta em seu oportuno romance para a possibilidade da existência de mundos paralelos exatamente iguais, para tanto demonstra domínio da técnica literária garantindo ao leitor a tensão que o leva ora ao provável ora ao sobrenatural. Há em Max o humor excêntrico de Macedônio Fernandes, cuja literatura Bioy afirmava ser "espantosamente ruim", que teve como discípulos Borges e Cortázar.Talvez o mundo paralelo dos escritores gaúchos seja Buenos Aires.

TRECHO
"Famílias sempre são problemas. Se você é criança e precisa da família por perto, a família desaparece. Está todo mundo trabalhando. Você é largado na escola pra levar surra dos outros guris. Se você é adolescente e quer ficar sozinho, a família te oprime. Todo mundo acha que tem que dialogar com o adolescente, nem desconfiando que adolescente não quer diálogo, quer é privacidade pra bater punheta. E, quando finalmente você se sente pronto para a reconciliação, porque se tornou tão adulto, hipócrita e piegas quanto a geração anterior, quando você se dispõe a compreender e perdoar - depois, claro de fazer aquele pequeno discurso profundo e íntimo que você vem imaginando desde os doze anos...cadê a família? Todo mundo já morreu ou ficou caduco."

SÍNDROME DE QUIMERA é uma fantástica história onde Viktor, o narrador, traz enrodilhada ao seu coração uma serpente, juntamente com seu amigo Bruno-aquele que costuma desenroscar a tampa do cérebro, resolvem abrir um café-livraria chamado A Quimera. Em Porto Alegre ,entre livros, sonhos, medos e desejos, arrastam suas vidas até Viktor ser sequestrado por asseclas do Senhor das Inclemências e descobre um terrível segredo sobre seu passado.

SÍNDROME DE QUIMERA é um jogo, um jogo da razão e como tal, numa primeira interpretação, não reflete a vida. Mas se permita outras, caro leitor.Tantas quantas forem necessárias, todas levarão ao riso e quem sabe...às lágrimas;

TRECHO
"-Você tem certeza de que está bem agora? - ele me perguntou;
-Estou ótimo;
-Legal
-Mentira. Estou péssimo. Descobri um segredo de família que vai acabar me enlouquecendo.
-Você é filho adotivo?
-Antes fosse.Bruno, sou filho de uma criatura que nem pertence à espécie humana. Você pode avaliar o que isso significa? Meu pai é um megasminto!
-O meu é economista...
-Não é a mesma coisa."


Max faz do realismo alucinação e da sua arte invenção de uma realidade avessa às repetições.
Do que mais necessita a vida?
E o grande sonho do jornalista/crítico gaúcho meio uruguaio é simplesmente acordar e continuar lendo...lendo...lendo.

SINDROME DE QUIMERA foi sucesso de vendas e crÍtica durante a recente Feira do Livro de Porto Alegre e terá lançamento no Rio de Janeiro dia 22 de novembro às 20 H na Livraria Argumento- Rua Dias Fereira, 417 -Leblon- Tel: 21 239-5294

SÍNDROME DE QUIMERA
autor: Max Mallmann
112 páginas
editora Rocco
tel: 21 507-2000
fax: 21 507-2244
email: rocco@editorarocco.com.br
www.rocco.com.br

Lançamento de Natal

Cozinha brasileira
(com recheio de história)

Dr. Ivan Alves Filho e Roberto Di Giovanni
110 páginas
14x21 cm
Preço: R$15,00
ISBN: 8571062064
Código: 0215

O livro, bonito e ilustrado, traz a receita dos mais conhecidos e melhores pratos da cozinha típica brasileira, com suas variações nos diversos estados. Feijoada, arroz de carreteiro, pato no tucupi, moqueca de peixe, está tudo lá.

E traz também, para cada prato, sua história, a lembrança de suas origens nos costumes indígenas ou africanos, e da lenta construção cultural nos hábitos populares que os transformaram em pratos brasileiros.

Editora Revan
TAPUIAÇU - Desejos Velados

Tapuiaçu de Creso Balduíno da Silva, mineiro, morando em Brasília há 30 anos, faz-nos recordar belos livros. Temos uma bem contada história dum rico dono de terras do interior de Minas que possuía, para alegria da vida, o sexo com belas mulheres, donzelas e casadas. O destino o leva à cadeira de rodas, ainda novo, esposa mais nova ainda. Começa então a história que escapa ao estilo de Jorge Amado apesar do título ser quase uma citação à Tocaia Grande [tapuaiçu: tapuia grande]. Escapa porque Creso traz psicologismo como marca. Mais que relatar regionalismos, abre-nos seus personagens e nos escancara contradições, intenções, medos, ações interditas, ao estilo de Machado de Assis (Quincas Borba).

Amante das obras do colombiano Gabriel García Márquez, há de se notar uma pontinha deste escritor logo no início do livro, uma ponta de Cem Anos de Solidão. É quando se nos apresenta um esqueleto enorme, majestoso, alvejado, montado e pregado à porta duma mercearia. O esqueleto dum índio, um tapuio. Tal cena lembra o deserto de almas de Macondo. Mas esta semelhança é deveras breve, um cartão de visitas aos leitores.

Quanto a Jorge Amado, preciso é dizer que aparências enganam muito. Em Tocaia Grande uma cidade é construída, em Tapuiaçu também. Tapuiaçu significa Tapuia Grande, tapuio ou tapuia: índio bravio. A diferença está no fato de que a cidade mandada construir pelo protagonista foi uma forma de lhe distrair na vida, enquanto Tocaia Grande vai surgindo conforme os acontecimentos e nenhuma fantasia, senão a das prostitutas, é maior do que a aridez da necessidade.
Em Tapuiaçu falará alto e claro o desejo. Desejo pelas e das mulheres. A nova mulher de Creso, posto que a outra o abandona, quer fazê-lo "reviver", acredita que haverá no companheiro uma fantasia, mistério a ser desvendado. Literalmente, fantasia-se a cada noite buscando-lhe o desejo. Este não aparece. Excitam-se olhos, pele, reflexos frouxos. O verdadeiro desejo, velado. Por que não falarmos da exaltação do sexo nos meios de comunicação que visam ao prazer imediato do olhar, do toque sem levar em conta o desejo, a identidade do sujeito? Assim, o livro vale muito. Lembrará, ainda, ao leitor o livro sublime de Assis Brasil, Beira Rio Beira Vida devido à narrativa. O trabalho de Creso é o de flashback inesperado, sem aviso. Em Assis Brasil isso vai mais trabalhado, verdadeira obra de arte dando ao texto o aspecto da circularidade, do inferno de Dante, da repetição. Em Creso o vaivém inesperado que enriquece a obra e demonstra o domínio técnico do autor neste primeiro livro.

TAPUIAÇU
Creso Balduíno da Silva
Editora: Revan
192 páginas
Preço: 20,00

Elaine Pauvolid
é poeta, autora de Brindei com Mão Serenata o Sonho que Tive durante minha Noite-Estrela... (Imprimatur/Sette Letras) sette@ism.com.br

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