DE MÃOS DADAS COM OS NOVOS TEMPOS
"O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."
- Mário Quintana
O casamento é um ardiloso e sedutor serial-killer. Num primeiro momento encanta suas vítimas que
hipnotizadas rumarão ao precipício.
Em primeiro lugar apagam-se as individualidades, a seguir explodem-se os sonhos e no estágio seguinte evapora-se
a verdade, a fidelidade, não a carnal mas a fidelidade de idéias, de ideais. Mas ao atingir tal patamar
os dois "coitados" já estarão acostumados com o estado de cinismo que os envolve. No entanto
nem tudo é tão simples e pode ficar ainda mais complicado desde que surja, no mínimo, um filho.
E a novela patética, via de regra, passa a contar com cinco "artistas".
Como tudo o casamento também tem fim, embora alguns afirmem o contrário. Mas tem fim. O primeiro
tem fim, o segundo também acaba e assim por diante. O casamento porém, é um filme dirigido
pela carência com roteiro da covardia e a cena final é protelada.
Os covardes carentes arrastam suas insatisfações dia após dia com medo de romper, segundo
eles, com a corrente de proteção que envolve o filho, o patrimônio, etc...
Mas é melhor uma criança viver na certeza da incapacidade do bom convívio entre seus pais
ou na incerteza de uma vida harmoniosa mesmo que sob o mesmo teto? E convenhamos, é muito grande a possibilidade
de dois adultos frustrados inocularem seus venenos em uma criança.
O amor não exige nada, até a presença de quem amamos é dispensável desde que
haja a certeza daquele sentimento que nos torna forte.
Alguns casais sentem que a separação se faz necessária, algumas vezes na tentativa de preservar
um arremedo daquele suposto amor, outros chegam a mesma conclusão em nome da própria sobrevivência.
Tanto nesses como nos casos mais equilibrados o terceiro envolvido, ou interessado, não possui um arsenal
de informações que permita o enfrentamento do "monstro do vazio" alimentado geralmente
pela ausência do pai.
Como proceder? Não sei, mas uma píplula de realidade em todo conto de fadas nunca é demais.
DE MÃOS DADAS-ed. Ao Livro Técnico-Rio de Janeiro-2000 de Isabella de Castro Barbosa ilumina algumas
pistas que podem conduzir ao esconderijo do monstro da separação e consequentemente a constatar que
ele não morde, é manso, é doméstico, útil e por fim "não é
monstro" é sim um bichinho de estimação que tem lá suas utilidades.
A separação chega ao(s) filho(s) como fato consumado, o que pode parecer uma arbitrariedade está
longe de ser pois raras atitudes são decididas em conversas com os filhos, ainda mais se eles tiverem a
idade do protagonista de DE MAÕS DADAS. Que psicólogos e psiquiatras se ocupem dos "estragos"
causados pela "arbitrariedade".
Isabella de Castro trata o tema com cuidado mas sem mistificá-lo, doses corretas de tristeza e satisfação
temperam a curta história onde não existem vítimas tampouco heróis mas pessoas em busca
de paz, de novas maneiras de viver, de um novo tempo...
TRECHO
"Um dia meu pai não quis mais dar a mão para minha mãe. Eu dei.
Outro dia minha mãe não quis dar a mão para o meu pai. Eu dei.
Nos outros dias eu dei a mão para os dois.
Ainda dava para todos sorrirem."
Fica porém a possibilidade de sempre poder dar a mão. E o que é a vida? Não é
o incessante correr atrás de possibilidades?