COMENTANDO
MÚSICA
por Alex Saba
Agenda de shows da semana: uma seleção


26/Agosto/2000

TRANSFORMAÇÕES (2)

Já que enveredei por esse caminho das transformações, vamos continuar olhando esse "mundo transformista" (agora mais do que nunca) pela ótica musical.

Quando há muitos anos atrás apareceram os primeiros sintetizadores capazes de imitar (ou reproduzir) o som de outros instrumentos com facilidade, os músicos acharam que haveria desemprego em massa. A coisa não foi bem assim.

Primeiro cabe lembrar que os "primeiros" sintetizadores eram verdadeiros monstros. Muitos grandes e muito, muito pesados. O primeiro a fazer um que fosse possível levar a um palco (com a ajuda de vários ajudantes) foi BOB MOOG e o primeiro músico a fazer uso dele foi KEITH EMERSON, do EMERSON LAKE & PALMER. Para ele (o músico) não fazia muita diferença o peso, pois os órgãos HAMMOND que usava não eram nenhuma pluma. Nem falo dos pianos de cauda, porque aí já é covardia.

Ter um monstro desses era inviável para a maioria dos mortais, mas o próprio BOB MOOG estava trabalhando em algo mais leve. Esse projeto resultou no MINI MOOG, que custava uma pequena fortuna de milhares de dólares (algo em torno de US$ 5.000,00) quando foi lançado e que era realmente MINI, fazendo até som de outros instrumentos. Os músicos eletrônicos, valiam-se dos sintetizadores para criarem sons inéditos, não produzidos pelos (então) instrumentos de verdade.

Mais uma vez o incansável BOB MOOG (ainda hoje em atividade), junto com o músico WALETR CARLOS (atual WENDY CARLOS) produziram o primeiro disco onde os sintetizadores reproduziam instrumentos "verdadeiros": SWITCHED ON BACH. Este album emblemático, que gerou um SWITCHED 2000, mostrou para o mundo, que os sintetizadores poderiam ser encarados como instrumentos reais. Só que para programar qualquer um deles, era uma tarefa inglória.

Pelo idos dos anos 70/80, os MINI estavam firmes no mercado e todo tecladista (principalmente os de ROCK PROGRESSIVO) usavam vários deles (lembra daquela quantidade de synths do RICK WAKEMAN?) no palco, mas não era pela simples quantidade, é que eles pré regulavam os synths, fazendo com que cada um já estivesse com um som que ele precisaria.

Em meados dos anos 80, meu colega de banda (BETO FREGA) comprou um PROPHET 1, que era na linha do MINI MOOG, cabendo (literalmente) dentro de uma mala de viagem. O som era "novo" e nos valíamos disso, mas durante o show, alguém da banda tinha que falar com a platéia enquanto ele regulava (ou programava) o sintetizador para a próxima música.

Várias marcas estavam no mercado oferecendo sintetizadores que "lembravam" diversas programações, mas todos eles caríssimos. A fábrica KORK, foi a primeira a oferecer um teclado razoável a preço idem, era o POLY 800, que custava exatos US$ 800,00. Era fabuloso para uma maquina tão "barata". O som não era lá essas coisas, principalmente nos pianos, mas fazia sons que ainda hoje são a alegria dos tecladistas domésticos.
Depois disso a coisa cresceu muito. Junto com o desenvolvimento da informática, que permitia synths melhores, mais baratos e com melhor som. A tecnologia atrás deles tornou-se transparente. Você não mais precisava ser um expert para programar um sintetizador. Todos os sons estavam ali ao alcance de um único dedo.

Foi nessa época que o mundo estarrecido achou que não haveria mais músicos sobre a face da terra. Lembro de uma conversa com um amigo saxofonista (o grande GUILHERME BRICIO) onde comentávamos que o único emprego que seria perdido, seria o dos "pianistas". Por que isso? Porque ninguém melhor do que um saxofonista para "imitar" um sax no teclado, ou para fazer um naipe de metais. O músico sabe a "respiração" do seu instrumento.

Bem, nossas previsões não estavam assim tão erradas. Mas o mais interessante, é que uma nova leva de músicos apareceu. Não só aqueles que tocavam sintetizadores não tendo passado pelo seu irmão maior (o piano), como outros que eram os responsáveis pela programação e muitas vezes sem saber tocar uma única nota.

Hoje em dia, pode-se comandar um sintetizador através de um teclado (como desde a pré história desse instrumento) como também usando uma guitarra ou um instrumento de sopro. Com isso, os músicos ganharam mais um instrumento.

Para exemplificar, PAT METHENY foi um dos primeiros a usar a GUITARRA SINTETIZADA, que de instrumento de preço exorbitante, passou a ser apenas um "aparelinho" que pode ser acoplado a uma guitarra convencional e custa algo em torno de US$ 95,00. MICHAEL BRECKER fez pelo WIND CONTROLER o que PM fez na guitarra. O WC é um instrumento que controla sintetizadores na forma (ou no jeito de tocar - se você preferir) de um saxofone.

Lembre que tanto o WC quanto a GS não tem som próprio. Eles precisam estar conectados a um sintetizador, que pode ser uma caixa (parecida com um gravador K7 e sem o teclado convencional), com botões para as regulagens.
Onde quero chegar? Comprovar a teoria lançada semana passada, quando conversamos sobre as transformações e falei estarmos no meio de um período de mudanças. Em 1985 não sabíamos exatamente o que iria acontecer com os sintetizadores. Nós (músicos) gostávamos da liberdade que nos davam e da liberdade criativa que nos permitiam.

Hoje em dia, qualquer músico tem pelo menos um, qualquer casa tem um teclado (por favor não chamem aquele sintetizador de orgão - isso é um outro instrumento muito diferente, cuja única semelhança é ter um teclado com teclas pretas e brancas). Quem não tem, pode comprar um em qualquer supermercado (e isso não é piada ou ironia!).

O grande músico e compositor FRANK ZAPPA, lançou em 1986 um disco (execrado pelos fãs do seu grupo MOTHERS OF INVENTION) um disco que não foi tocado. Calma...explico. Ele escreveu todas as músicas em um teclado como esse que está na sua frente. Qual a diferença? Ele fez o que MOZART, BACH, VIVALDI ou qualquer outro grande compositor faria usando um pentagrama (aquelas linhas da pauta musical), só que ao invés de levar suas partituras para a orquestra, ele introduziu suas "tabelas" (e não partituras) em um sintetizador (moderno para a época) chamado SYNCLAVIER.

Quer conferir? Procure por JAZZ FROM HELL da gravadora RIKO (mais uma vez peço desculpas aos que estavam acostumados com o áudio nas minhas colunas em outros "periódicos", mas o problema de espaço aqui é grave e além disso, teremos um convidado muito especial que usará o espaço do áudio em algumas de suas colunas - aguarde!!!)
Transformações? Sei lá! Temos é que ficar com a mente aberta, porque parece que a única coisa que não irá mudar é de que somos seres biológicos e analógicos, por mais implantes de chips que nos façam.

Valeu
T+

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Agenda de shows da semana (apenas uma seleção) Cartas Musicais - A opinião do leitor

Alex e um de seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor, arquiteto, fotógrafo, escritor e outras muitas coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...


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