COMENTANDO
MÚSICA
por Alex Saba
Agenda de shows da semana: uma seleção


26/Agosto/2000

PETER GABRIEL OVO

Segunda feira de manhã, nem poderia imaginar o que estava para acontecer. Saio de casa, pego o jornal na soleira da porta e venho para a redação. Como não é muito longe, caminho os 18 quarteirões, aproveitando para me exercitar (desculpa de quem não tem dinheiro para a passagem) e pensar em uma forma de arrancar um aumento do meu editor (descobri que ele não lê minha coluna), por isso não li o jornal (afinal ler enquanto se caminha pelas ruas do Rio é no mínimo uma total loucura).

Quando cheguei, apenas o Sévérino (assim com esses acentos mesmo - segundo ele) estava aqui. Ele é o nosso estagiário-faxineiro-office boy (EFO daqui pra frente) e é sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Não duvido nem um pouco de que ele more na própria redação (de fato, há um boato de que ele nunca foi visto saindo do prédio após o expediente, mas pela localização suspeita desse edifício, é próximo do impossível que haja alguém na rua quando o Sol ameaça se por). Não pense que temos porteiros aqui. O prédio é uma construção do final do século passado, com uma loja de sucos embaixo, uma estreita e alta porta do lado direito, que dá acesso a uma imensa escadaria que sobe ao segundo andar, onde existe esta redação, uma oficina de conserto de máquinas de escrever (acredite ou não!!) e uma gráfica (daquelas que fazem carimbos e cartões de visita - para quem não tem computador).

Bem, na ausência de grana (até para um suco) passei direto pela loja, com os olhos fechados para fugir da tentação e encarei os 65 degraus da escadaria. Quando cheguei aqui em cima, Sevé (como o chamamos por economia) estava tentando mais uma vez limpar o chão de tábuas (velhas) corridas e corroídas, cheias de falhas entre elas, que nos deixam ver tudo o que acontece na loja debaixo (acho que é por isso que minhas colegas só trabalham de calças compridas).

Mas deixemos isso de lado, o que importa é que abri o jornal e dei de cara com PETER GABRIEL no segundo caderno. A manchete dizia: PG JOGA O SEU OVO (e não se referia à sua "nova" careca. Conta a lenda que ele um dia se olhou no espelho e desistiu de disfarça-la, radicalizando para um corte próximo do zero). Mas lá estava ele com cara de bobo (desculpe Peter!). Talvez porque não tenha entendido a sutileza do título da matéria. OVO é o mais recente álbum de PG. Comprei meu exemplar com o "próprio" PG, no www.petergabriel.com. Como fã de carteirinha dele e de sua troupe (aguarde a trilogia do baixista TONY LEVIN), aproveitei e mandei vir outros dois discos (de músicas do oriente). A Receita Federal me cobrou uma exorbitância pelos três discos, como se eu estivesse desrespeitando uma lei federal. Nos bons tempos do LP, havia uma inscrição em toda capa de disco que dizia: "Disco também é cultura", mas nesse país de memória curta, arte (e principalmente música) não é cultura, salvo na hora dos "importantes" fazerem desconto no Importo de Renda (mas isso é outra história).

Sou tão suspeito pra falar do PG, que poucas vezes o mencionei aqui (ou naquela outra coluna do ex-concorrente, já que somos líderes de audiência no nosso horário). O disco é bom. Mais que bom. Não só é bom, como é daqueles que merece muito cuidado na audição, para não perdermos nenhum detalhe. Já o ouvi várias vezes, mas a cada nova audição, descubro várias coisas que me haviam escapado na anterior.

Mas, voltando ao tablóide, não gostei da comparação de PG a um capitão. O autor comentava que ele era o firme capitão comandando sua nau, etc, etc. Comentei minha indignação com Sevé, que tirava a poeira das estantes. Ele esticou o pescoço pra ver o motivo das minhas queixas e perguntou se eu queria falar com PG. Quase caí da cadeira (o que é um elogio para o mobiliário que me sustentava). Ele explicou que tinha um primo que era EFO nos estúdios da REAL WORLD, gravadora do PG. Fiz cara de quem não acreditava e ele não se fez de rogado, tirou o telefone celular do bolso do macacão e ligou. Cinco minutos depois eu estava falando (a cobrar, ainda por cima) com Raymundo (com "Y"), primo de Sevé e EFO de Peter Gabriel.

Segundo Ray (ele disse que eu podia chama-lo assim), PG é um "cara muito legal, mas não tem nada de capitão. Ele fica trancado lá no que eles chamam de RAITIM RUM (depois de alguma pesquisa descobri que Ray referia-se a WRITING ROOM, que vem a ser a Sala de Composição de PG dentro dos estúdios REAL WORLD) e vez por outra vem pro MEIM ISTÚDIO (nova pesquisa: de MAIN STUDIO ou estúdio principal) com os amigos gravar umas coisas. Só que ele grava muitas vezes com muita gente diferente e as músicas parecem diferentes o tempo todo. Sabe seu Alex, ele é muito indeciso. Pro senhor vê, ele está com aquele tal do álbum UP há não sei quantos anos pra lançar, mas ele não acaba nunca. Aí chamaram ele pra fazer esse negócio aí do OVO, que foi encenado lá em Londres dentro de um troço que chamam de DOMO, mas que pelas fotos que me mostraram parecia mais um circo. Tá certo que bem maior que o da minha cidade, mas igualzinho a um treco que eu vi quando faxinei lá pro seu Perfeito (Fortuna) no (Circo) Voador dele. Tinha uns caras pendurados, girando de um lado pro outro (acho aqui que Ray referia-se à Intrépida Trupe). Pelo que eu entendi, depois que eles usam o MEIM RUM, eles vão pra MICSIM RUM (haja pesquisa: leia-se MIXING ROOM ou Sala de Mixagem) onde colocam os instrumentos nos volumes certos ou então tiram alguns que não ficaram bons. Quando fazem isso mudam tudo. Já ouvi muito gringo dizer, que nem reconhecia a música que ele mesmo tinha tocado, pra não falar nos que reclamam que não são ouvid..."

E acabou-se a bateria do celular de Sevé. Olhei para ele, que pegou o aparelho da minha mão e sem me dar atenção, virou de costas e foi coloca-lo para recarregar.

Fiquei pensando no que Ray me falara e, primeiro, pensando se era possível um primo de Sevé estar por lá e depois, no que ele me dissera. Com certeza há um tanto de fantasia nisso tudo, mas como diz o velho ditado: "Onde há fogo há um incendiário."

Resolvi dar algum crédito a Ray. Algumas coisas que ele me contou eu já havia lido, meses atrás, no próprio site do PG.

OVO é muito bom. Tão bom que não pode ser comentado simplesmente. Não pode ser reduzido a palavras. Dê um crédito à sua delicada estória. Ela não conta a trajetória da humanidade, mas da Inglaterra. As culturas que permeiam todo o disco, são as das antigas Colônias do Império Britânico. Quando decidiu sair do grupo GENESIS, no auge da carreira nos anos 70, PG não tinha um trabalho solo com sequer 10% do que seu companheiro de banda PHIL COLLINS tem. Ele saiu sabe-se lá porque (na época corria o boato de que o guru dele havia recomendado) e cercou-se dos melhores músicos por toda sua carreira solo, e acabou recompensado. SLEDGEHAMMER (do álbum SO) foi o mega sucesso que possibilitou (ou por outra) pagou as contas do complexo REAL WORLD (não deixe de visitar o site, que é o mais bonito de toda a rede). Outro dia mostrava pra minha esposa, como a capa de SO é tão diferente de todas as outras dele. É de longe a capa mais popular ou mais convencional, ou mais burocrática, enfim, a mais insossa. Mas além de pagar as contas, é possível descobrir grandes pérolas no meio das coisas mais comerciais e que pouco tocaram no rádio.

PG não foi o capitão de nenhum barco, mas sim um indeciso timoneiro, que acabou por descobrir um novo continente.
Valeu
T+

Não poderia deixar de mencionar a valorosa presença do grande ZITO, que junta-se a nós preenchendo uma lacuna que me seria impossível. ZITO é um dos maiores conhecedores de música clássica, mas acima de tudo, e por isso está entre nós, um apaixonado pelo assunto. Algumas vezes pedirei licença para dizer algumas "besteiras" sobre os clássicos, mas agora você e eu teremos essa grande figura para nos guiar.

Em tempo: Márcia pede desculpas na coluna dela por entrar na minha seara, mas não há do que se desculpar, pelo contrário, eu que agradeço a "invasão". Todos ganhamos com essas "invasões".

escreva para Alex Saba

Agenda de shows da semana (apenas uma seleção) Cartas Musicais - A opinião do leitor

Alex e um de seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor, arquiteto, fotógrafo, escritor e outras muitas coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...


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