COMENTANDO
MÚSICA
por Alex Saba
Agenda de shows da semana: uma seleção


26/Agosto/2000

COMPETIÇÃO DE MÚSICA BRASILEIRA

Eu deveria usar esse espaço pra escrever sobre o FESTIVAL DE MUSICA BRASILEIRA da Rede Globo. Mas será que esse é um assunto realmente interessante?

No Sábado fiz questão de assistir o FMB com toda a família. Queria ver a reação deles diante daquilo tudo, mas foi difícil não influencia-los. Por outro lado, não precisei abrir minha boca, por que logo meu filho André já estava reclamando. Só parou no final quando não tinha mais música nenhuma, mas aí entrou CAETANO e ele voltou a reclamar. André tem 10 anos e não sei se é um bom termômetro, mas serve.

Sei que lá pela metade do FMB eu estava impaciente e cheio de vontade de tocar alguma coisa. Recolhi-me ao estúdio e toquei por uns 20 minutos. Duas vezes Sandra veio me chamar a atenção de alguma coisa interessante que estava passando, mas ela mesma não achava nada assim tão maravilhoso. Nada levantou a platéia lá de casa. Em termos estatísticos (que a Globo gosta tanto) posso dizer que 100% dos "pesquisados" não gostaram do que viram.
Quando nos encontramos com Horácio no Domingo, comprovei que a sensação era "geral". Os 100% aconteceram também na casa dele.

O que faltou?

Pra mim faltou tudo. A produção estava impecável (como sempre) e as falhas (o microfone desligado em TUMBAÍBA) não comprometeram o todo. Mas será que isso é que é festival? Mesmo quando os arranjos não podiam, lá estava a competente orquestra da Globo dando o ar da sua graça. Mesmo quando o arranjo não pedia, aparecia a orquestra. É ótimo poder tocar com uma orquestra tão boa quanto aquela, mas os arranjos eram parecidos, senão iguais.

Os repórteres junto à platéia eram um show à parte. Estavam sempre nos revelando que a platéia havia sido "levantada" por esta ou aquela música. Mas (coincidentemente) entrevistavam sempre os parentes do artista. Será que era pra dar um toque "familiar" ao FMB?

Sevé (nosso estagiário-faxineiro-officeboy) disse que assistiu tudo comendo pipoca e quando lhe perguntei o que achara, disse que a pipoca estava muito boa, mas que a geladeira (da redação de onde ele aparentemente não sai) estava com defeito e o guaraná estava quente.

Além de não saber como ele fez a pipoca, fiquei intrigado diante da capacidade da Globo de transformar tudo o que ela "toca" ("Põe a mão fica feio seu Alex" - disse Sevé). Parecia o FESTIVAL DE SAN REMO que vez por outra aparece no canal italiano da NET.

Onde está a espontaneidade dos festivais de antigamente. O ABERTURA (que foi o último festival da "Vênus Platinada") não foi muito diferente, mas havia ALCEU VALENÇA, BURNIER & CARTIER, CARLINHOS VERGUEIRO, EDNARDO e JARDIS MACALÉ (dentre outros) com músicas um pouco mais criativas. O próprio WALTER FRANCO apareceu com um bom instrumental em uma repetitiva música que nada se assemelhava com a polêmica gerada por CABEÇA do citado festival anterior.

A polêmica parece ficar restrita ao NO LIMITE, mas pra quem freqüenta fila do INSS, ou apenas sai na rua aqui no Rio, esse programa parece brincadeira de criança.

Como já mencionou minha colega Márcia, a Globo terá assunto para vários JORNAL NACIONAL, GLOBO REPÓRTER ou sei lá mais o que eles inventem para promover seu próprio festival.

Pena que a RECORD de hoje seja apenas uma lembrança do que foi nos anos 60/70, quando o mesmo CAETANO apresentou-se no FESTIVAL DA RECORD.

Mas pensando bem, os festivais anteriores eram mesmo uma forma de conhecermos o trabalho de artistas promissores. Hoje, com a quantidade e facilidade de acesso a informações, podemos descobrir "novos promissores" aqui mesmo na WEB, visitando um dos inúmeros sites de MP3 e "baixando" suas músicas.

Como sempre, volto a dizer: há muita coisa boa por aí que não consegue chegar ao grande público. As gravadoras não sabem o que fazer para saírem do buraco, mas com certeza não será assistindo o FMB que eles encontrarão a solução para os problemas que os perturbam.

Só como lembrete, as melhores coisas dos festivais não foram os vencedores, assim como no FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO (da mesma Globo) os representantes internacionais não representavam coisa nenhuma.

No final, fiquei com a sensação de estar assistindo a um concurso de miss, pretensioso, anacrônico e irreal. Não tenho muita esperança de que semana que vem as coisas melhorem, talvez por isso não tenha estranhado ao ouvir Sevé citar (olhando por cima do meu ombro enquanto datilografava esse texto) o músico húngaro BELA BARTOK: "Competição é coisa para cavalos". (Acho que ele anda me trocando pelo ZITO).

Em tempo: ia me debruçar sobre o disco HIMALAIA do TOMÁZ LIMA, mas o FMB atrasou meus planos. Deixamos pois pra semana que vem.
Valeu!

PS: Respondendo à Márcia: Se até CD PLAYER é chamado de "vitrola"porque não chamar CD de "disco", "álbum" ou seja lá o que mais?

escreva para Alex Saba

Agenda de shows da semana (apenas uma seleção) Cartas Musicais - A opinião do leitor

Alex e um de seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor, arquiteto, fotógrafo, escritor e outras muitas coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...


Literatura, Música, Clássicos, Bem Viver, Teve, Esporte, Principal