COMENTANDO
MÚSICA
por Alex Saba
Agenda de shows da semana: uma seleção


2/Setembro/2000

MÚSICA (DE VERDADE) PARA MEDITAR

Quando cheguei na redação na Sexta-feira, pra variar, encontrei Sévérino (nosso estagiário-faxineiro-officeboy), vulgarmente conhecido pela alcunha de Cvé, prontíssimo para o trabalho. Assim que abri a porta, pude vê-lo esconder algo e fingir que estava varrendo o chão. Cumprimentei-o e fui para minha mesa datilografar (já pedi uma máquina de escrever elétrica, mas por motivos de economia tenho que me contentar com essa REMINGTON velha) meu comentário.

Ele ficou atrás de mim em pé. Podia sentir sua incomoda presença e me virei. "Queria fazer um convite pro sinhô!" - falou no seu típico linguajar. "O que é Sevé?". "Queria convida-lo para assistir o Festival da Grobo cumigo!" Levei um susto, pois será que finalmente chegara o dia de conhecer a casa dele? (Como você sabe, conta a lenda que ele mora na própria redação).

"Claro, rapaz!" - respondi sem perceber o que vinha. Ele virou de costas e voltou a varrer o piso, jogando a poeira por entre as frestas do assoalho para a loja de sucos no térreo. "Lá pelas 10h eu chego na casa du sinhô." Fiquei apatetado. Ele estava SE convidando e não ME convidando. Mas tudo bem, Sandra não iria ficar chateada com a visita, porque não seria inesperada, como ele costumava fazer assim que começou a trabalhar conosco. (mas isso é outra história).

No Sábado, ele chegou pontualmente e (como sempre) faminto. Sandra preparara seu (dele) "prato" favorito: pipoca com "guanará". Enquanto aguardávamos o começo do programa, ele (agarrado com um "balde" de pipoca) fuçava nossos CDs. "Cês gostam do 'Seu' Tômaz? (não sei porque a pronúncia dele colocava esse acento no O, já que não há nenhum acento no nome de TOMAZ LIMA). Expliquei que os CDs eram de Sandra, que foi quem me apresentou ao trabalho de TL, do qual só conhecia da época do grupo HOMEM DE BEM, verdadeiro ALTER-EGO do próprio. Entre punhados de pipoca e goles de "guanará" ele disse que conhecia o seu Tômaz porque tinha uma prima (Edmunda) que foi faxineira da D. Lúcia (produtora esposa de TL).

Encurtando a história (que você que me acompanha já teve um bom exemplo quando falei por telefone com o primo dele que trabalha pro PETER GABRIEL), no dia seguinte estávamos sentados frente à frente na simpática e agradável sala de estar do próprio TL.

TL é uma pessoa extremamente simples, agradável e simpática. Sendo totalmente parcial, passei a gostar mais (ainda) dos seus discos. Nada como estar com O Artista (e ele não tem nada do PRINCE) e saber como foi gravado, o que inspirou ou o que aconteceu em uma determinada gravação. Sandra disse que TL parecia comigo (obrigado Sandrinha!) colocava um disco atrás do outro e não parava de falar. Tivemos uma tarde muito agradável regada a boa conversa e boa música.

A principal característica para o tipo de música que TL faz, esteve ali na nossa frente, visível e palpável como ele todo o tempo: sinceridade. Ele vive suas músicas que não são mero aproveitamento de um "modismo esotérico". Como já dizia um certo filósofo, o mundo está precisando olhar mais para Deus para concentrar-se em coisas menos passageiras. Ninguém hoje pensa em plantar uma árvore para as gerações futuras por querer desfrutar JÁ da sombra.
Por todo o tempo, me lembrava de GEORGE HARRISON, que começou a "apresentar" os sons indianos aos jovens ingleses e ao mundo, apesar da música de TL não ter nenhuma semelhança com a de GH.

Seu CD HIMALAYA, que foi composto com o intuito de servir à meditação, nada tem de parecido com os "discos de meditação" vendidos pelas lojas de produtos esotéricos. Apesar da informação da contra-capa de que se trata de uma "Suíte Eletrônica", é na verdade uma bela suíte instrumental em quatro partes: LAGO MÍSTICO, MANDALA, DAKINIS (FADAS TIBETANAS) e O PARAÍSO PERDIDO, com TL ao violão e o tecladista JOSÉ LOURENÇO. TL informou que 96 páginas de partitura compõe a peça e diante de meu rosto espantado, quase as pegou para me mostrar. Meu espanto se devia ao fato de muito pouca coisa ser feita hoje de forma escrita, mas a audição de HIMALAYA logo deixa claro que cada nota foi colocada intencionalmente naquele lugar. O CD presta-se não só à meditação (atividade à qual TL dedica-se diariamente), mas também à qualquer audição mais atenta, resistindo como composição e execução, o que bastaria para coloca-lo como um dos meus favoritos.

Mas, como todo artista, o próprio TL tem um outro CD como o seu favorito. JOY, gravado em setembro e outubro de 1999 em ESCONDIDO (Califórnia) e Rio de Janeiro. Nesse disco onde se destacam as percussões SUFI, HINDU e AFRO-BRASILEIRAS, TL entoa MANTRAS e BHAJANS de sua autoria. Ele é acompanhado por um grupo de músicos de primeira linha, como NIVALDO ORNELAS (sax & flautas), JAMIL JOANES (baixo), CLARK JAMISON (darabukka & tablas), LAUDIR DE OLIVEIRA (percussão afro-brasileira), MARCELO AUGUSTO (sitar) e HARIDARSHANA (mridangam). Dessa impressionante mistura, nasceu um álbum meticulosamente bem produzido e belo, cuja percussão foi gravada nos EUA sob direção do próprio TL.

A discografia de TL conta com dez CDs (incluído aí um singelo disco de Natal lançado com uma revista pela Editora Planeta e já esgotado). Ele está preparando (a convite) um novo trabalho que deverá apresenta-lo a um público maior e menos afeito a meditações. Como não estou autorizado a revelar (sempre quis usar esta frase!), vou deixar o suspense no ar, mas é bem interessante o que vem por aí.

Bem, e o Festival da Globo (ou Grobo segundo Sevé)? A segunda edição foi mais previsível do que a primeira e talvez tenha gerado mais injustiças. Independente disso, não perdi a sensação de irritação com os arranjadores (todos de comprovada excelência) no uso da orquestra. Ela sempre me soou desnecessária. Não ouvi ainda nenhum arranjo que a valorizasse. O recurso de colocar um ou dois músicos junto com o(a) cantor(a) no palco quando não havia um grupo acompanhando, me soou falso. Sei lá. Na metade do programa, quando Cvé cochilava em um canto, Sandra lia na poltrona, tive vontade de trocar de canal. Será que só eu?

Neste sábado tenho outro programa melhor!

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Alex e seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor,
arquiteto, fotógrafo, escritor e muitas outras coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...


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