MÚSICA
por Alex Saba

Milton e Gil
Vitor Ramil
Claudio Dauelsberg

Agenda de shows da semana: uma seleção


14/Outubro/2000

QUEICHO NO XÃO ou carta de um nordestino no Rio a seu primo ainda lá
"Caro Zé

Espero que as coisas por aí tejam melhores. Por aqui continua tudo igual. Trabalho muito varrendo o chão da redação e perdendo meu tempo em fila de caixa eletrônico, mas de vez em quando o editor chefe me deixa escrever alguma coisa pra revista. Ele inté falô que eu to escrevendo direitinho, mas que de vez im quando ainda erru uns português. Ele diz Qui num dá pra confia, que tem qui revisa. Mas não é por isso Qui ti escrevi.

Duas MP3 estão "escondidas" nesta foto
Expresso 2222 e Raça

Lembrei que você falo como tá difícil comprar disco. Seu Alex também reclama um bocado dos preços. até porque as gravadoras são um bocado lentas. Ele escreveu pra varias pedindo CD pra comentar aqui na revista, mas o máximo que conseguiu foi uma resposta padronizada de que em breve responderiam. Bom, acho que não vão responder porque fazem quatro semanas que ele recebeu isso.

Em compensação, recebi uma propaganda, isso mesmo, um encarte bonito e colorido mostrando um carro novo (ou velho?) da Fiat e que quando eu abri, caiu um CD. Achei que era mais um daqueles do provedor americano, que dá CD toda semana, mas errei.

Primo velho, você não vai acreditar (claro que vai, porque mandei um pra você). Era um CD do teu ídolo GILBERTO GIL e do meu MILTON NASCIMENTO...juntos!!!!

Seu Alex ouviu e disse que estava muito bem gravado. Sabe que eu não entendo muito dessas coisas de som. Pra mim bastava o BITUCA e se estivesse mau gravado, meu radinho portátil não ia sentir a diferença.

Já que agora você deve estar com ele na mão (se é que não largou minha carta no chão e foi mostrar pros outros primos) são os dois mesmo. Tem até a tal da BONUS TRACK, que me explicaram que é uma faixa extra, mas aqui são duas: RAÇA e QUANTA (lembra que você não teve grana pro álbum duplo dele? Taí a faixa que você mais gosta.).

Mas o espantoso é o seguinte: são 11 faixas, bem gravadas e completas. Não é embromação não, como você já deve estar ouvindo.

Impressionante não?

Quando tem grana envolvida, as gravadoras liberam os tais dos fonogramas, fazem capas bonitas (desde que o carro apareça tanto quanto os artistas) e não estão nem aí pro treco ser distribuído de graça ou não. Mas quando se trata de baixar o preço dos CDs pra gente poder comprar eles dizem não!

O pessoal aqui da redação compra aqueles CDR (CDs virgens para serem gravados) a R$ 2,00 numa lojinha aqui perto (com nota e tudo). Se unzinho custa isso, se comprar 100.000 o preço deve cair não? Mesmo com o preço da capa e tudo o mais, não dá pro CD chegar a custar o que cobram.

Fiquei bobo menino. Minha mãe foi logo dizendo que eles devem ter ganho uma grana muito boa por isso. Mas porque? Já era tudo coisa gravada! Músicas boas é verdade, mas nenhuma inédita, gravada especialmente (o que costuma deixar a gente com um comercial no toca discos - perdão - "cd prayer").

Vou ver se aparece outra dessas propagandas por aqui. Aparecendo, eu pego e mando pra você. Avisa pros primos, que se eles quiserem, eu compro a revista, mas vocês podem gravar em fita K7, porque afinal de contas, não tem nenhum chato implicando com nossos "uauq men" e podemos continuar trocando fitas, mas pode deixar que vo vê si escrevo pros cara Qui fizeram essa propaganda pedindo mais. Você não acha que ele tão de parabens?

Bem, avisa pra tia que depois eu mando o dinheiro pra ela consertar a geladeira!
Um abraço em todos e avisa pra prima Candinha que eu comprei um vestidinho bunitinho pra ela usar na primeira comunhão.
Abração na turma da vendinha e outro procê!

Sévérino"

Cvé - para os íntimos - é o EFO (estagiário, faxineiro, office boy do Comentando) e escreve regularmente para os primos que ficaram em Picos no Piauí.
TAMBONG - O TEMPO É O LUGAR. DE VITOR RAMIL
Por Luíz Horácio

Tambong é o título do novo CD, sexto, do cantor-compositor e escritor gaúcho Vitor Ramil. Um aviso aos tolos ou pseudo-letrados: Vitor não se aventura pela literatura como anunciou um desatento jornalista do jornal O Globo. Quem se aventura é aventureiro e à maioria dos aventureiros sobra incapacidade. Não é o caso do Vitor que escreveu o instigante Pequod e se aqui não me ocupo do mesmo é para não desviar do assunto principal. Mas estou à disposição não só do referido e aventureiro literário jornalista como de quem quiser conversar sobre Pequod. Segundo a sua assessoria de imprensa este é o primeiro disco produzido para o mercado internacional. Caso estivesse apresentando outro irrelevante e superficial trabalho de algum oportunista e efêmero cantor o rótulo até serviria. Mas alto lá!

Para Lindsay (6973186-6)

O artista em questão é Vitor Ramil, o que Tambong tem que os outros CDs de Vitor ficam devendo? Enquanto Tambong já nasce com passaporte permitam uma breve visita, "uma passadinha", aos imigrantes ilegais de Vitor.

Primeiro portão de embarque:Estrela Estrela -1981 das obras primas "Tribo" com a participação especial de Tetê Espíndola e " Mina de Prata" conta com arranjos, entre outros, de Egberto Gismontei e Luís Avelar e talentosos músicos como Ricardo Silveira, Mauro Senise, Vitor Biglione, Robertinho Silva e Wagner Tiso. Participações especiais de Zizi Possi e Tetê Espíndola.

Vitor já causa problemas a partir daqui, como enquadrá-lo, como rotulá-lo para melhor vendê-lo?

Olha para o regionalismo para apreender o universo, avesso aos modismos e seus superficiais adereços o canto de Vitor sobre a imensidão do pampa. E a Estrela desconhece fronteiras.

Segundo portão de embarque: A Paixão de V Segundo Ele Próprio - 1984 traz a emblemática "Ibicui da Armada", a inquietação genial de "A Paixão de V Segundo Ele Próprio" e a inquestionável "Semeadura". A Paixão... traz entre seus arranjadores os irmão de Vitor. Kleiton e Kledir, Wagner Tiso e o acréscimo erudito do maestro Celso Loureiro Chaves marcando de forma indelével a influência de Armando Albuquerque na obra de Vitor.

Os músicos que assinam os trabalhos com Vitor são, mais uma vez, da primeira linha: Nico Assumpção, Arthur Maia, Gilson Peranzzetta, Luís Avellar...O regionalismo está presente, sem o ranço folclórico, como uma carteira de identidade (conforme a assessoria aqui ele ainda não merecia o passaporte) a provar sua maioridade como artista de rara criatividade. Vitor constrói sua obra apoiada em dois pilares, aprincípio inconciliáveis, aquele que conseva as tradições e aquele que inventa, que inova sem desprezar o passado.

Terceiro portão de embarque:Tango -1987- Começa sua caminhada sobre a confessional "Sapatos em Copacabana" onde dá mostras da inadaptação ao grande e ilusório centro visto que o artista não necessáriamente é obrigado a residir nas capitais, com passadas lentas surge "Joquim" a "quilométrica"e difinitiva versão para "Joey" de Bob Dylan. "Loucos de Cara" em parceria com Kleiton Ramil atesta a visão universal da obra de Vitor. Os arranjos são do próprio Vitor e Banda que tem entre seus integantes Carlos Bala, Repolho, Marcio Montarroyos, Hélio Delmiro, Léo Gandelman...

Quarto portão de embarque: À Beça - 1996- Edição especial limitada,a meu ver o trabalho mais pop (no sentido pejorativo do termo) de Vitor,consequentemente datado e que não acrescenta qualidade à obra, tal crédito pode recair sobre a guitarra "surrada" de Carlos Martau. O que não proibe Vitor de "cometer" algumas obras primas que seriam confirmadas mais adiante já livres do reducionismo pop como é o caso de "Não é Céu", "Grama Verde", "À Beça" . Ainda a ressaltar as liricas existencialistas "Deixa eu me perder" (destaque para André Gomes com baixo e sitar e a ausência da guitarra de Martau) e "Resposta" (aqui um Martau em forma).

O capítulo Martau e guitarras: exageradamente em primeiro plano.

Os arranjos são de Vitor, André Gomes e Banda.

Músicos: André Gomes, Alexandre Fonseca, Carlos Martau,Eduardo Neves, Guilherme Dias Gomes.

Quinto portão de embarque: Ramilonga - A Estética do Frio - 1997 - A problemática estabelecida com Estrela Estrela atinge o ápice, Vitor continua à margem e isso não é ruim. Evita a contaminação. Em silêncio ele trabalha com temas regionais acrescidos de sua visão de mundo, bem mais farta do que em disco de estréia, no seu talento para abordar o regionalismo sem cair no folclore para turista Vitor cria um clássico da tradição sulista. O sul nocaso vai até o fim do sul mesmo. Vitor didadicamente aponta a influência da milonga, tipicamente argentina, na cultura do seu estado - Rio Grande do Sul e na sua formação. Instrumentos indianos enriquecem a tempatica regionalista. A ousadia simples que não despreza as referências.

Vitor em um trabalho de pesquisa conseguiu registrar parte da obra oral de João Da Cunha Vargas e musicou os originais versos do poeta. A beleza triste de "Gaudério", "Último Pedido" e "Deixando o Pago" dão o tom predominante da Estética do Frio, tom magistralmente quebrado com a épica "Indo ao Pampa" composta num set de filmagem.

No quesito belo e triste vale um registro. Vitor Ramil fez longa e insuficiente temporada no começo deste ano na Casa de Cultura Laura Alvim em Ipanema-RJ, era comum presenciar "gaúchos" distante dos pagos enxugando lágrimas enquanto Vitor cantava a clássica "Ramilonga". Entre os gaúchos chorões este que aqui se atreve.

Não foi anunciado como um disco para o mercado externo mas sabemos que serviu de passaporte parmitindo a entrada de Vitor em outros países

Os arranjos são de Vitor Ramil e os músicos que contribuiram para o livre trânsito do CD são Nico Assumpção, Alexandre Fonseca, André Gomes, Roger Scarton.

Sexto portão de embarque: Tambong- Gravado e mixado em Buenos Aires apresenta as características que comprovam e consolidam a carreira de Vitor.

A tradição envolta em novidades, músicos de enorme credibilidade, participações especiais que realmente participam, acendem o brilho da musicalidade e poética de Vitor. "Não é Céu" e "Grama Verde" aperfeiçoam a qualidade apresentada em À Beça, "Foi no Mês Que Vem"com Vitor ao violão e Egberto Gismonti é delicada iguaria para ser degustada a cada manhã enquanto você admira alguém ou algo que tanto ame. Não por acaso é dedicada por Vitor a Ana Ruth sua inspiradora companheira.

"Um Dia Você Vai Servir Alguém" é uma versão para Gotta Serve Somebody de Bob Dylan tem a participação de Lenine acrescentando a voz agreste e o violão de nylon aos sarcásticos versos de Vitor.

"Você pode ser demente/pode ser doutor./Você pode ser sincero/ pode ter rancor./Você pode ser um crente,/você pode ser ateu./Pode ser um leitor vaidoso/ou uma miss que nunca leu./Mas um dia vai servir alguém". "A Ilusão da Casa" com Julio Barone na bateria e vocalise de Chico César fazendo lembrar Ali Farka Touré serve como atestado da usina criativa de Vitor. "Espaço" com baixo acústico de Pedro Aznar, bateria e citarina de Santiago Vazquez e Vitor ao violão é uma mostra do melhor jazz, infelizmente em extinção.

"Valérie" é de uma doçura agressiva acentuada pelos violões de Vitor e Pedro Aznar. A síntese perfeita: literatura , música e imagens: "O rosto se perdeu/o gesto se desfez/ depois daquele beijo teu/nada real ficou./Nenhuma lágrirma/ nenhuma dor sequer/ só o mistério desse amor/ pelo que já não sei./ Valérie/quero te ver/ só pra te esquecer." "Só Você Manda em Você" é uma leitura jazz/rock de Vitor para You’re a Big Girl Now de Bob Dylan. "O Velho Leon e Natália em Coyoacán" com a percussão de Santiago Vazquez o acordeon de Pedro Aznar e o sax soprano de Carlos Lastra criam atmosfera de um filme enquanto Vitor canta o enigmaáticopoema de Paulo Leminski. "Subte" destoa no CD, pelo menos no CD em português visto que há uma versão do CD estratégicamente direcionada aos "pueblos latinos", trata-se de um Fito Paez com vantagem apenas nas vozes, o instrumental é farto em clichês argentinos.

Ao piano, Vitor apresenta "Para Lindsay" a versão de Cláudio Willer para o poema de Allen Gisnberg, momento de estranheza e ritual que se repete pela impactante obra deste gaúcho, o Woody Allen da sua tão querida Pelotas. "Estrela, Estrela" dispensa comentários, exige aplausos. Penúltimo tema do CD a versão cuidadosa de "À Beça" indiscutivelmente superior a versão do CD de mesmo nome, contribui decisivamente o os baixos de Pedro Aznar. "Quiet Music" primeira composição em inglês fecha o CD. O que não significa silêncio, inevitávelmente aciono o play... Como podemos ver Tambong não possui nenhuma nova qualidade, nada que Vitor não tivesse anunciado em Estrela, Estrela. Apenas aperfeiçoou um pouquinho mais a quase perfeição. Ele já tinha seu passaporte desde 1981, espero que ele aterisse logo aqui no Rio, pode ser na Casa de Cultura Laura Alvim para admirá-lo de perto.
E pra não dizer que eu não fiz nada essa semana, aqui vão mais alguns dados deste CD que o Luiz recomendou:

TAMBONG, Vitor Ramil é uma realização Satolep Music e contou com o financiamento do Funproarte, Prefeitura de Porto Alegre e apoio cultural do seo BAM, Buenos Aires Música, Prefeitura de Buenos Aires.

Pedidos pela internet: http://www.vitorramil.com.br
e-mail: satolepmusic@terra.com.br
assessoria de imprensa; Valéria Libório
tel: 21 -527.0133 fax: 21 -579.3548 e-mail: vlibório@aol.com
PAISAGENS BRASILEIRAS EM TOURNÉE PELA EUROPA

O tecladista Claudio Dauelsberg levará o seu mais recente CD Paisagens Brasileiras, gravado ao vivo no ano passado no Festival de Montreaux, para uma tournée na Europa.

O início será no dia 20/10, onde participará do Sofia Jazz Festival (Bulgária), onde estará dividindo o palco com Scotch Henderson e o saxofonista Michael Brecker.

Cláudio estará acompanhado do baterista e percussionista Robertinho Silva e o baixista Ney Conceição, que
participaram das gravações deste último Cd. Após Sófia, os músicos seguirão para Alemanha onde se apresentarão em Munique, na sofisticada casa de jazz BAYRISCHER , local onde se apresentam os grandes nomes do circuito
americano, europeu e sul-americano de músicos e cantores como: Marisa Monte, Gal Costa, João Bosco, etc. Em Berlim , no dia 22/10. No dia 31/10, será a vez dos músicos se apresentarem em Moscou, na suntuosa Sala de Concertos Tchaikovski. Em novembro, os músicos estarão na Noruega: no dia 02/11-Tonsberg- Kongsgärden , 03/11- Fredrikstad-Teglhunset , 05/11- Narvik, 06/11- Show em Oslo. No repertório, Pixinguinha/Benedito Lacerda, Noel Rosa; João Bosco ;Aldir Blanc; Vila Lobos; Tom Jobim, além das composições do próprio pianista.
O show de despedida destes músicos no Brasil será nos dias 16 e 17 na Sala Funarte, às18h30m à preços populares de R$ 10,00 e R$ 5 ,00 (estudantes).

Contatos - Valéria Liborio- 527-0133 / 96472439

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Alex e seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor,
arquiteto, fotógrafo, escritor e muitas outras coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...