MÚSICA
por Alex Saba

Comentários Anteriores

Agenda de shows da semana: uma seleção


11/Novembro/2000

QUATERNA RÉQUIEM LIVRE

Não sei se você já reparou, mas três últimas semanas ando comentando bandas nacionais Tá certo, você está atendo e viu que a duas semanas atrás falei do LARRY GRAHAM, mas antes falei do LUMMEN (do qual esqueci de informar a página, mas meu amigo Lanzarini - responsável pela excelente página de rock progressivo - me alertou da falha). São duas: uma no site da Rock Progressivo e outra no do selo Som Interior. Em ambas, mais informações sobre o grupo e muitas informações sobre o rock progressivo.

QUATERNA RÉQUIEM LIVRE, foi comentado em uma edição recente da revista francesa HARMONIE e o comentarista achou que LIVRE era a palavra brasileira para LIVE, ou seja, AO VIVO. Bem, a desinformação do crítico não invalida a bem feita análise, mas é uma falha "lingüística".

LIVRE foi gravado no SCALA, Rio de Janeiro em dezembro de 1977 no RIO ART FESTIVAL realizado lá e que contou com outras boas bandas (mas isso é pra outro comentário).

Um disco ao vivo traz no mínimo dois desafios para o artista. O primeiro de ordem técnica: "Será a gravação tão boa quanto o álbum de estúdio?". Graças a tecnologia, hoje isso não é mais um grande problema. LIVRE é perfeito nesse ponto. O segundo desafio (também de ordem técnica, mas "pessoal") é: "Serão eles capazes de tocar ao vivo o que fizeram no estúdio?". Aí a coisa complica. As vezes, maravilhados pela capacidade de se fazer o "impossível" em um estúdio, a apresentação ao vivo fica integralmente comprometida. Quanto ao QUATERNA, parece nem ter tido esse tipo de preocupação. A execução é impecável.

Normalmente, um disco desse tipo, é lançado com as melhores execuções realizadas em vários shows. Mas nem sempre se pode contar com todo o aparato tecnológico para ser realizar uma boa gravação. O que reforça ainda mais a qualidade dos músicos é ser este LIVRE, o documento de uma apresentação única. Não havia como (nem porque) escolher entre diferentes versões. Todas "valeram".

O grupo é formado por ELISA WIERMAN (teclados), CLAUDIO DANTAS (bateria & percussão), JOSÉ R.CRIVANO (guitarra) e enriquecido pelas participações especiais de FRED FONTES (baixo) e KLEBER VOGEL (violino).

Poderia ficar escrevendo parágrafos e mais parágrafos sobre o fato de ser liderado por uma mulher, mas seria machismo demais da minha parte. Como não sou dado a isso, apenas saliento o fato, já que são poucas as mulheres instrumentistas nesse mundo (pretensamente) capitaneado pelos homens.

LIVRE é o terceiro disco da excelente carreira do grupo, que fez sua estréia com VELHA GRAVURA (1992) seguido por QUASIMODO (1994). QUATERNA é daquelas bandas que parece ter nascida "pronta". Essa é uma característica muito comum no rock progressivo, mas que não encontra similar nos outros estilos. VELHA GRAVURA é um disco, que após a primeira audição, nos perguntamos: "Como será o segundo?". "Terão eles idéias, imaginação, capacidade, para outro tão bom?". A resposta é simples: tiveram. QUASIMODO é tão bom quanto o primeiro.
Este ao vivo, abre com FANFARRA e QUASIMODO (em versão reduzida de 19 minutos) do segundo álbum. Depois a inédita TRÍADE seguida por IRMÃOS GRIMM (do album QUASIMODO) e VELHA GRAVURA (do album homonimo). Entre elas um solo de bateria.

Na capa aqui ao lado, clicando na imagem da tecladista, você pode ouvir um trecho (3 minutos) da faixa de abertura e na do baterista o primeiro minuto (e meio) do seu solo.

Preciso abrir um parênteses aqui. Não espere um solo muito convencional, pois a exemplo de outros bateristas contemporâneos, DANTAS é capaz de ser melódico e usar sintetizadores acoplados a seus tambores - pra que acredite no que estou dizendo, coloquei um trecho deste solo pra que você mesmo comprove.
Dantas é um excelente pintor (com exposição de 16 a 30 de novembro na Sala Djanira - Galeria de Artes Av. Carlos Peixoto, 54 - Botafogo - RJ em frente ao Shopping Rio Sul), além de baterista. São dele as belas gravuras usadas nas capas dos dois primeiros álbuns. Tal diversidade nem um pouco incompatível, confirma a sensibilidade do artista.
Fecha parênteses.

EW por sua vez é uma tecladista que sabe muito bem como colocar seus instrumentos. Seja fazendo base para os solos da guitarra de CRIVANO ou nas boas passagens de solo. Seu mérito não acaba aí, pois também são dela (em parceria com DANTAS), as composições e arranjos.

Minha música favorita é a romântica VELHA GRAVURA, que conta com o belo violino de VOGEL, integrante da primeira formação do QR e líder do grupo KAIZEN, que espero estar comentando nas próximas colunas.
O QR é sinfônico sem ser megalômano, romântico sem ser piegas, uma excelente banda que merecia ter mais espaço, mas não é tão ouvida porque o público (em geral), tem pouca (ou nenhuma) chance de ser apresentado a eles. Falha que não é culpa do grupo. Culpa sim, de um "sistema", que segrega bons músicos e boas músicas, enchendo nossos ouvidos com um lixo desagradável.

QR tem um lugar assegurado no cenário artístico brasileiro e mundial. Como outros tantos, merecia maior e melhor e destaque. Pra isso, é preciso que você ajude a mudar o "sistema".

Semana que vem mais nacionais!
Valeu
T+

Os discos citados nessa coluna podem ser encontrados na loja RENAISSANCE.


escreva para Alex Saba

Agenda de shows da semana (apenas uma seleção)

Comentários Anteriores

Alex e seus instrumentos

Alex Saba é músico, compositor,
arquiteto, fotógrafo, escritor e muitas outras coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...