MÚSICA
por Alex Saba

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25/Novembro/2000

LÍRICAS BALAS - por Míriam Fernandes
"Não quero ser triste como o poeta que envelhece, não quero ser alegre como o cão que sai a passear com o seu dono alegre" anuncia-se no início do espetáculo o compositor maranhense Zeca Baleiro. Pela primeira vez no palco do Canecão, Zeca mostra a face poética de uma já anunciada melancolia. Sentimento que talvez ficasse evidente não fossem pontuadas as canções novas com as antigas já conhecidas do público que lotou dia 14 de novembro a casa de espetáculos. Zeca Baleiro revela-se momentaneamente afastado do mundo pop por acreditar que seus poemas necessitem agora de um despojamento eletrônico.

Objetivo alcançado brilhantemente com este novo "Líricas". Ao revezarem-se nas cordas, o três músicos que acompanham o compositor exibem arranjos marcados pela simplicidade. Tuco Marcondes, Rogério Delayon e Lui Coimbra conduzem junto com Zeca a sonora pleiâde de cordas onde o violoncelo dá o toque diferenciador. Às vezes a gaita de boca quase imperceptível no detalhe, às vezes um pandeiro marcando rítmo. O cenário de Suzana Pinheiro antes de iniciado o espetáculo já prenunciava o clima que serviria de cena às melodias pungentes de Baleiro. Velas acesas em castiçais próximas dos músicos, alguns panos pendurados e esticados verticalmente como mastros combinados com uma luz descompromissada, quase sempre em tons pálidos. O compositor assim como os músicos permanece todo o tempo sentado tocando violão, em algumas músicas toca baixo elétrico. Zeca Baleiro não nega suas influências musicais, Bob Dylan e Sérgio Sampaio principalmente, nas citações quando emenda suas músicas com as dele e no tom melancólico, irônico, desalentado por vezes de sua poesia : "mas hoje eu só quero chorar como um poeta do passado/ ...eu sinto tanto,eu sinto muito, eu nado sinto..." canta em Blues do Elevador. Esse pessimismo não apresenta-se amargo para o público pois Zeca é bem-humorado "cansei de ser duro vou botar m`alma à venda" , estilo que vem ampliando seu público. Na interpretação da música "Proibida pra Mim" do grupo Charlie Brown Jr, o compositor foi acompanhado pelo público, que também cantou junto "Lenha". Sua interpretação nessa noite estava contida e discreta, muitas vezes algumas palavras não eram entendidas. Saiu perdendo quando cantou em inglês, perfeccionismos à parte, nem sempre o sotaque-brasil dá autenticidade, nesse caso a interpretação da canção "Mother" de John Lennon ficou morna e sem graça. É quando se percebe que o show está ficando monótono salvo então pelo roteiro que estratégicamente lança mão das músicas mais conhecidas. Outra canção que fica devendo: ao voltar para o bis o cantor conta a história que o levou a compor sobre letra do poeta Cummings, fica-se com a sensação de que música e letra não combinam, em métrica e dinâmica. Ao contrário dos outros Cds, onde predominam o humor com toque regional, as misturas de rítmos, reggaes, cocos, neste recente trabalho Zeca Baleiro coloca nua sua poesia e música, está menos festeiro. Das novas sobressai-se "Quase nada" de refrão envolvente. Toque de mestre para a escolha da última música do show o rock "Heavy Metal do Senhor" canção que projetou o compositor no início da carreira e única que fez o público levantar. O rock rasgado e irônico que por muito tempo foi a marca registrada do músico trouxe a certeza de que sim, Zeca Baleiro é "mix": underground e pop.

Míriam Fernandes é cantora, compositora e jornalista

Os discos citados nessa coluna podem ser encontrados na loja RENAISSANCE.


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Alex Saba é músico, compositor,
arquiteto, fotógrafo, escritor e muitas outras coisas dignas ou não de serem mencionadas aqui...