Teve
por Márcia Mendes Ribeiro

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04/novembro/2000

Grava mas não mostra!

A propaganda eleitoral no rádio e na televisão é impressionantemente ruim e desconfio seriamente que os maiores culpados sejam os publicitários contratados pelos partidos políticos. Bem... eles não têm culpa de terem sido contratados... pela grana que rola até eu toparia a empreitada. A culpa é mesmo dos comitês eleitorais, seguramente ocupados por gente que não tem qualquer idéia do que é fazer televisão.

Publicitários estão mais ambientados com pequenos filmes de 30 segundos... 60 segundos no máximo. Programas eleitorais, sobretudo os de segundo turno, duram bem mais que isto. É trabalho para diretores do quilate de um Jorge Furtado (Ilha das Flores), por exemplo.

Do jeito que são feitos, por publicitários, tudo vira um "longa-clipe". Uma música débil embalando imagens de crianças, apertos de mãos e passeios em bairros... aí entra o candidato, no estúdio, falando suas propostas (?). Corta e entra um monte de imagens em palanques, carros de som etc. Uns três ou quatro depoimentos de populares nem sempre tão populares assim... alguns apoios... uma vinheta do partido... uma faixa com slogan ou denúncia contra o principal opositor... e pronto. Está feito o programa.

Ao invés das “criações” que nos são ofertadas, poderíamos ter um reallity show (tão em moda) com os candidatos. Pensem que bacana seria uma câmera, nos quarenta dias que antecedem as eleições, acompanhando dia e noite os passos dos nossos futuros governantes.

Isto sim seria realmente No Limite. Os partidos deixariam de arcar com o ônus dos programas, que passariam a ser bancados por um fundo do TSE ou dos TRE.

Vocês podem imaginar a vida de um candidato que, na longa e decisiva reta final, fique impossibilitado de falar a sós com seus assessores... comparsas... e financiadores? Gostaria de vê-los obrigados a não falarem qualquer coisa que os pudessem comprometer. Suspeito que faltaria conversa e ação neste programa... mas quantos não deixariam cair definitivamente a máscara quando as pesquisas apontassem a queda do candidato e o comitê dele ali... sem um contato privado sequer. Nem um mísero segundo. 

Imagine qualquer um filmado o dia inteiro? Neguinho algum agüenta quarenta dias sem mostrar sua verdadeira face. O que agüentar, ou é o mais canalha ou o mais santo. E tudo com fiscalização dos partidos (na ínfima hipótese que permitam tal tipo de programa já que decisões como esta acabam sendo deles... depois de alguns acordos entre as bancadas).

Bem... é claro que o banho dos candidatos seria gravado mas não veiculado. Nada a ver com moral e bons costumes... É pra não corrermos o risco de daqui a pouco sermos governados pelo Cláudio Heinrich ou uma popozuda qualquer. Ou alguém votaria em nossos usuais candidatos depois de vê-los no chuveiro?

Cenas de escatologia também seriam afastadas. Quarenta dias sem... digamos... soltar gazes é para poucos. Não eructar depois da décima Coca-Cola do dia? Heróico!!! Não... pouparemos  candidatos e eleitores deste constrangimento. Para isso já nos bastam as câmeras em elevadores. Sexo? De jeito algum! Não queremos cenas bizarras.

“Grava mas não mostra!”, bradaria Maluf.

A audiência poderia ser baixa, mas não menor do que já é. E veríamos muito... muito mais.


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Márcia Mendes Ribeiro é jornalista, odeia televisão mas não consegue passar por uma sem dar uma olhada.