| Teve por Márcia Mendes Ribeiro |
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Serão os gladiadores invenções de Roberto Marinho e Sílvio Santos? O que assusta na TV brasileira não é a qualidade da programação mas sim os números. A qualidade do que passa na telinha não é pior do que a percebida em outras áreas, mudam apenas as proporções. Pegue qualquer lista de livros mais vendidos no Brasil. Não vale o truque aplicado pela Veja, que criou uma categoria especial para os livros de auto-ajuda e exoterismo para não ser obrigada a listar apenas os “laires ribeiros” das letras. O que encontramos lá? Paulo Coelho, Sidney Sheldon e afins (com um ou outro se salvando da sub-literatura). Quais os CDs mais vendidos no Brasil? Harmonia do Samba, Belo, KLB, Fala Mansa, Sandy & Júnior, É o Tchan etc. Entre em um táxi e peça emprestado o jornal que repousa no console do veículo. Será a Folha de São Paulo? O Estadão? Não... será um Notícias Populares ou similar. Os exemplos citados são melhores que Gugu? Ratinho? Marcelo Rezende? Cada um em sua categoria, todos representam o que há de mais simplório nas “artes” e na “cultura” brasileiras. Ah, dirão alguns, mas ao menos na música a influência da TV é grande. Será? Não será o contrário? Não serão as gravadoras e seus jabás que colocam a porcaria toda na TV? O fato é que TV é um negócio como outro qualquer. E aquela senhora escandalizada com este ou aquele programa é a mesma doce esposa do empresário patrocinador da “inhaca”. E seus pimpolhos adorados são aqueles que preferem Pokemon a Ra-tim-bum. Porque o povo... a massa... estes querem sangue na arena. É assim desde sempre. Ou o Coliseu e seus gladiadores são invenções de Roberto Marinho e Sílvio Santos? Recentemente Regina Casé & troupe iniciaram, ou tentaram iniciar, um movimento pela qualidade na TV. Além de um aplauso aqui e outro ali... tudo não passou de notas de canto de página. Ninguém quer saber disso. A iniciativa deles é interessante... mas peca por ingenuidade. TV não é arte... é indústria. Seus produtos são fabricados para atender o “Sr. X”, que representa a média do telespectador. E todos nós sabemos que a média de qualquer coisa no Brasil é lastimável. A renda média, a escolaridade média, a cultura média, a saúde média... Sou completamente cética em relação a este assunto. Não tenho qualquer esperança de melhoramentos na área. Os exemplos europeu e norte-americanos só agravam esta incredulidade pois comprovam que nem as avanços sócio-culturais são capazes de melhorar o horizonte. O humanismo morreu. Convençam-se disso. Supondo que um capítulo de novela leve 24 horas para ser feito (e leva mais)... falta tempo para a qualidade. Pense em uma colheitadeira... destas que recolhem soja nos campos. Um monstrengo daqueles leva 48 horas para ser feito... mas dura ao menos 15 anos. Um capítulo que leve 24 horas para ser feito dura... 40 minutos. E todo dia é um novo (ou requentado, que seja), ao contrário de uma colheitadeira cujo projeto só é renovado de quatro em quatro anos, no mínimo. E novela não é o melhor exemplo pois, dentro do quadro geral, ainda são o que temos de melhor. Veja o que acontece com Marília Gabriela, nossa antiga versão brasileira da Oriana Fallacci, que tendo que entrevistar uma “celebridade” por dia tem levado a seu programa “personalidades” do quilate de Paula Burlamarqui (é assim?) ou Assíria “Pelé do Nascimento”. E o que acontece então no jornalismo? Pior ainda. Como em toda indústria nacional, os quadros foram enxugados ao máximo. Repórter que antes fazia uma... duas matérias por dia... está fazendo quatro ou cinco. Isto quando não foram desativadas sucursais em capitais do país. Qualidade? Humpft. A máquina industrial da televisão é muito mais rápida que o tempo humano de alimentá-la com criatividade e qualidade. E muito, muito mais cara. A questão, me parece, não é melhorar ou não a qualidade da TV. Isto é impossível. A questão é decidir entre desligar o aparelho ou amortecer em frente a ele. Obs.: E mesmo considerando que nossa “elite cultural” assumisse o comando da TV penso que a situação não melhoraria. Não gosto do Ratinho mas também não preciso de programas dirigidos pelo incensado Gerald Thomas e sua galera.
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Márcia Mendes Ribeiro é jornalista, odeia televisão mas não consegue passar por uma sem dar uma olhada. |