BRUXAS
E FEITICEIROS
"Não
permitirás que uma bruxa viva" diz o Êxodos (XXII, 18). Esta e outras
admoestações bíblicas definiram as bruxas e prescreveram o seu destino. Uma
bruxa ou feiticeiro é alguém em ligação com Satanás, o Mal em pessoa, o
espirito que se rebelou contra Deus.
Hoje é
retratada como uma velha num vestido preto, com um chapéu pontiagudo e montando
uma vassoura à Lua Cheia. As crianças vestem-se assim no Carnaval ou no
Halloween, para pena de alguns pios cristãos. Hollywood, por outro lado,
conjurou imagens de mulheres sexy com poderes paranormais ocultos e um instinto
psicótico. "Pagãos" ou religiões anti-cristãs da Nova Era, são muitas
vezes identificadas com bruxas e feiticeiros porque alguns cristãos pensam que
praticam bruxarias ou porque algumas dessas religiões afirmam praticar mágicas
ou "o trabalho". Alguns dos membros destes grupos referem-se a si
mesmos como bruxas e warlocks (bruxas machos). Alguns auto-intitulam-se
feiticeiros e adoradores de Satanás. Acreditar em Satanás e fazer rituais que
(pensam) os leva a partilharem dos poderes ocultos e sobrenaturais deste.
Contudo, muitos dos bruxos e feiticeiros da Nova Era não adoram Satanás, e são
associados com o oculto ou com tentativas de restabelecer religiões naturais
que os seus membros associam a religiões antigas pagãs, como a céltica. Uma das
mais espalhadas é a Wicca.
Wicca
Uma religião natural baseada no que
se pensa eram as práticas de antigas religiões, especialmente a celta, mais em
consonância com as forças da natureza que o cristianismo e outras modernas
religiões do Ocidente. Contudo, mais que ver os wiccans como membros de uma
religião, é talvez mais certo vê-los como partilhando uma base espiritual da
natureza e dos fenômenos naturais. Pois os wiccans não teem credo escrito a que
os ortodoxos devam aderir, nem templos de pedra ou igrejas para adoração.
Praticam os rituais em parques, jardins, florestas, ao ar livre. De acordo com
uma FAQ da Wicca "Wicca"
é o nome de uma religião contemporânea neo-pagã, largamente popularizada pelos
esforços de um funcionário publico reformado inglês chamado Gerald Gardner
(finais de 40). Nas ultimas décadas, Wicca espalhou-se em parte devido à
popularidade entre feministas e outros que buscam uma religião com uma imagem
mais positiva da mulher e mais próxima da terra. Como a maior parte das
espiritualidades neo-pagãs, Wicca adora o sagrado como imanente à natureza,
retirando muita da sua inspiração da religiões da Europa não-cristãs e
pré-cristãs. "Neo-Pagão" simplesmente significa "novo
pagão" e vem dos tempos anteriores ao espalhar das atuais religiões
monoteístas. Uma boa regra é que os Wiccans são Neo-Pagãos mas nem todos os
Pagãos são Wiccans.
Uma boa
regra é que não parece haver um conjunto de crenças ou práticas que constituam
a Wicca, embora uma regra se destaque: Não causes dano a ninguém, faz o que
desejas. Também alguns rituais parecem associar os Wiccans a fenômenos
naturais como as estações, solsticios e equinócios. Por exemplo, celebram o
verão num rito de fertilidade chamada Beltane. Em vez de rezarem a um deus não
natural e para lá da experiência, parecem mais concentrados em ligarem-se à
natureza. Os seus rituais parecem metáforas para processos psicológicos.
Cantam, dançam, acendem velas e incenso. Usam ervas e podem favorecer ervas em
detrimento das medicinas tradicionais. Em rituais de grupo expressam os seus
desejos de comunidade. Não fazem encantamentos. Pedem bênçãos ao norte, sul,
este e oeste. Meditam. Não cozinham poções em caldeirões. Rezam aos deuses e
deusas da natureza, podendo ser considerados panteístas.
Os Wiccans
pensam-se como uma religião da Natureza. Os seus rituais baseiam-se nas quatro
estações; os seus símbolos na ligação da vida humana à Natureza. Contudo, penso
que os verdadeiros adoradores da Natureza são as estátuas de Pompeia. São eles
os que viram a vaga de lava levar os seus, os que foram sugados das suas casas
e atirados ao céu do vulcão. São os enterrados nas rachas da terra, devorados
por uma paisagem indiferente. Os wiccans cantam ao vento, ao ar, ao fogo e à
terra mas caem de joelhos frente ao furacão? Adoram os tornados? Penso que se
tentam ligar às forças naturais criativas, não deviam ignorar as forças
destrutivas da Natureza, pois são tão abençoadas e naturais como a lua cheia.
Nenhuma
magia wiccan magick para uma inundação, não acalmou os tornados, não acalmou o
tremor da terra, nem adormeceu o tsunami. A atração da wicca pode dever-se à
sua posição sobre as mulheres, a sua visão naturalistica do sexo, e à promessa
de poder pela mágica. É muito popular entre as mulheres, e é tentador dizer que
a wicca é a vingança das mulheres por séculos de misoginia e de
"genocídio" praticado pelas religiões estabelecidas. Wicca, como a
religião celta, permite às mulheres participação total nas suas práticas. As
mulheres são iguais, se não superiores, aos homens. As mulheres na mitologia
celta são invulgares. São inteligentes, poderosas guerreiras, sexualmente
agressivas e lideres de nações.
Finalmente,
devemos notar que wicca não está relacionada com adoração satânica. Esta está
relacionada com a perseguição de "bruxas" pelos Cristãos,
especialmente durante a Inquisição. O espirito da Inquisição, contudo, vive nos
corações de muitos devotos cristãos que continuam a perseguir wiccans, entre
outros, como adoradores do diabo. Os modernos inquisidores não queimam pessoas.
Em vez disso tentam abolir o Dia das Bruxas, livros infantis que falem de
bruxas, e qualquer nome, numero ou símbolo que os cristãos associem a satanás.
São as modernas vitimas de rituais satânicos tão iludidas como as bruxas
caçadas pelos cristãos ao longo dos séculos que acreditavam que eram mesmo tão
diabólicas como os perseguidores diziam que eram? São as wiccans de hoje parte
de uma conspiração satânica? Duvido. Se há cristãos a serem abusados por
adoradores do diabo, os seus abusadores não pertencem à conspiração religiosa
internacional conhecida como Wicca.
As bruxas da mitologia cristã eram
conhecidas por terem sexo com Satanás e usar os seus poderes para fazer o mal.
O culminar da mitologia da bruxaria ocorreu do século 15 ao 18 na descrição dos
Sabbath. O Sabbath era uma farsa ritual da Missa. Bruxas e feiticeiros eram
representados como voando em vassouras ou bodes, até ao Sabbath onde o Diabo
(em várias formas) onde o Diabo representaria uma versão blasfemica da Missa.
Haveria danças obscenas, um banquete com poções feitas em caldeirões, O
banquete incluiria deliciosas criancinhas. A poção era usada para magoar ou
matar pessoas ou para mutilar o gado. Os iniciados recebiam uma marca física,
como uma garra debaixo do olho esquerdo. O Diabo era representado como um bode
ou um sátiro ou uma besta mística com chifres, garras, cauda e/ou asas: uma
farsa de anjo, meio homem meio besta. Um ato particular do Sabbath incluía o
beijo ritual do traseiro do Diabo , aparentemente uma farsa ao tradicional ato
cristão de submissão, de ajoelhar e beijar a mão ou o anel do clérigo.
Numerosos testemunhos de Sabbath estão registados. Por exemplo, uma pastora,
Anne Jacqueline Coste, relatou no meio do século 17 que durante a noite de S.
João ela e os seus acompanhantes ouviram um tremendo ruído e olhando para todos
os lados para ver de onde vinha pudemos ver sobre o monte, gatos, bodes,
serpentes, dragões, e toda a espécie de impuros animais, que faziam o seu
Sabbath e fazendo terrível confusão, que diziam as mais sujas e sacrílegas
palavras que se podem imaginar e enchendo o ar com as mais abomináveis
blasfêmias.
Tais
histórias foram contadas por séculos e eram aceites pelos pios cristãos sem um
traço de duvida quanto à sua veracidade. Tais histórias eram consideradas
exatas.
Pierre de
l'Ancre, no seu livro sobre anjos, demônios e feiticeiros publicado em 1610,
afirma ter assistido a um Sabbath. Eis a sua descrição:
Eis os convidados da Assembléia,
tendo cada um atrás de si um demônio, e saibam que no banquete é apenas servido
nada mais que a carne dos que foram enforcados, os corações de crianças não
batizadas, e outros estranhos e impuros animais, estranhos ao costume e uso do
povo cristão, tudo sem sabor e sem sal.
As
afirmações feitas em livros como o de l'Ancre e a descrição das atividades do
Sabbath em obras de arte ao longo de anos não eram consideradas ficções
humorísticas nem manifestações de espíritos perturbados. Essas noções, por
absurdo que nos pareça, eram consideradas verdade por milhões de cristãos. O
mais estranho é que muitas pessoas hoje acreditam em histórias semelhantes
acerca de comer crianças e a morte ritual de animais, combinadas com abuso
sexual e influências satânicas.
Deixo aos
Freudianos a interpretação destes persistentes mitos de criaturas satânicas com
chifres, cauda, e grande apetite sexual; de raptos e abusos sexuais, mutilação
e morte de crianças; de mulheres a esfregarem-se com ungüentos e voando para
relações como um bode demoníaco; e de poderes sobrenaturais como a metamorfose.
O meu palpite é que a bruxaria e feitiçaria são parte da repressão sexual e
servidos como justificação para o uso em arte e literatura, de pornografia
criada, santificada e glorificada pela Igreja.
Certo que
havia perseguições dos que mantinham uma ligação com o passado pagão. Mas é
difícil de acreditar que as descrições das bruxarias saiam das vitimas
torturadas e mutiladas e não das mentes dos seus torturados. Os poderes dos
inquisidores eram tão grandes, as suas torturas tão variadas e sádicas, que as
vitimas acreditavam que estavam realmente possessas. As crueldades duraram
séculos. A caça às bruxas só foi abolida em Inglaterra em 1682. A caça nos EUA
teve o seu pico em 1692, em Saldem, Massachusetts, onde dezanove bruxas foram
enforcadas. A ultima execução judicial teve lugar na Polônia 1793. A ultima
tentativa de execução teve lugar na Irlanda em 1900 quando dois camponeses
tentaram queimar uma bruxa na sua lareira.
Quaisquer
que sejam as bases psicológicas para a criação de uma anti-Igreja, o resultado
prático foi uma Igreja mais forte e mais poderosa. Ninguém sabe quantas bruxas,
heréticos ou feiticeiros foram torturados ou queimados pela Inquisição, mas o
medo que criou afetou toda a Cristandade. Ser acusado de ser uma bruxa era
igual a ser condenado. Negá-lo era provar a sua culpa: claro que uma bruxa dirá
que não o é, e que não acredita em bruxarias. Lancem-na ao rio! Se afogar
então não é uma bruxa; se nadar, então saberemos que é bruxa e que o Diabo a
ajuda. Tirem-na da água e queimem-na, pois a Igreja não gosta de verter sangue!
Na verdade, a Igreja criou um reino de terror superior em muitos aspectos aos
de Stalin ou Hitler. Estes duraram apenas alguns anos e restringiram-se a territórios
limitados; o da Igreja durou séculos e estendeu-se a toda a Cristandade. O
terror da Igreja também se dirigiu em particular às mulheres. Não admira pois
que as religiões atuais que se definem como pagãs e anti-cristãs se centrem nas
mulheres. Não é estranho que as religiões da Nova Era exaltem o que a Igreja
condenou (como o egoísmo e a sexualidade saudável mesmo entre homossexuais) e
condenem o que a Igreja exaltou (tal como a subserviência da mulher e a
auto-negação). Quem os pode criticar?