PIAGET E VIGOTSKI

PIAGET E VIGOTSKI

Se compararmos os dois maiores teóricos do desenvolvimento humano, podemos dizer, correndo algum risco de sermos simplistas, que Piaget apresenta uma tendência hiperconstrutivista em sua teoria, com ênfase no papel estruturante do sujeito. Maturação, experiências físicas, transmissões sociais e culturais e equilibração são fatores desenvolvidos na teoria de Piaget. Vigotski, por outro lado, enfatiza o aspecto interacionista, pois considera que é no plano intersubjetivo, isto é, na troca entre pessoas, que têm origem as funções mentais superiores. A teoria de Piaget apresenta também a dimensão interacionista, mas sua ênfase é colocada na interação do sujeito com o objeto físico; e além disso, não está clara em sua teoria a função da interação social no processo de conhecimento.

A teoria de Vigotski, por outro lado, também apresenta um aspecto construtivista, na medida em que busca explicar o aparecimento de inovações e mudanças no desenvolvimento a partir do mecanismo de internalização. No entanto, temos na teoria sócio-interacionista apenas um quadro esboçado, que apresenta sugestões e caminhos, mas necessita de estudos e pesquisas que explicitem os mecanismos característicos dos processos de desenvolvimento. Se tivéssemos agora que apontar um desacordo entre essas teorias, resgataríamos as palavras de Luria: "Quando a obra de Piaget, A linguagem e o pensamento da criança, chegou ao nosso conhecimento, nós a estudamos cuidadosamente. Um desacordo fundamental da interpretação da relação entre a linguagem e o pensamento distinguia nosso trabalho da obra desse grande psicólogo suíço... descordamos fundamentalmente da idéia de que a fala inicial da criança não apresenta um papel importante no pensamento."

Piaget e Vigotski: diferenças e semelhanças

É possível afirmar que tanto Piaget como Vigotski concebem a criança como um ser ativo, atento, que constantemente cria hipóteses sobre o seu ambiente. Há, no entanto, grandes diferenças na maneira de conceber o processo de desenvolvimento. As principais delas, em resumo, são as seguintes:

Quanto ao papel dos fatores internos e externos no desenvolvimento Piaget privilegia a maturação biológica; Vigotski, o ambiente social. Piaget, por aceitar que os fatores internos preponderem sobre os externos, postula que o desenvolvimento segue uma seqüência fixa e universal de estágios. Vigotski, ao salientar o ambiente social em que a criança nasceu, reconhece que, em se variando esse ambiente, o desenvolvimento também variará. Neste sentido, para este autor, não se pode aceitar uma visão única, universal, de desenvolvimento humano.

Quanto à construção real Piaget acredita que os conhecimentos são elaborados espontaneamente pela criança, de acordo com o estágio de desenvolvimento em que esta se encontra. A visão particular e peculiar (egocêntrica) que as crianças mantêm sobre o mundo vai, progressivamente, aproximando-se da concepção dos adultos: torna-se socializada, objetiva. Vigotski discorda de que a construção do conhecimento proceda do individual para o social. Em seu entender a criança já nasce num mundo social e, desde o nascimento, vai formando uma visão desse mundo através da interação com adultos ou crianças mais experientes. A construção do real é, então, mediada pelo interpessoal antes de ser internalizada pela criança. Desta forma, procede-se do social para o individual, ao longo do desenvolvimento.

Quanto ao papel da aprendizagem Piaget acredita que a aprendizagem subordina-se ao desenvolvimento e tem pouco impacto sobre ele. Com isso, ele minimiza o papel da interação social. Vigotski, ao contrário, postula que o desenvolvimento e a aprendizagem são processos que se influenciam reciprocamente, de modo que, quanto mais aprendizagem, mais desenvolvimento.

Quanto ao papel da linguagem no desenvolvimento e à relação entre linguagem e pensamento: Segundo Piaget, o pensamento aparece antes da linguagem, que apenas é uma das suas formas de expressão. A formação do pensamento depende, basicamente, da coordenação dos esquemas sensorimotores e não da linguagem. Esta só pode ocorrer depois que a criança já alcançou um determinado nível de habilidades mentais, subordinando-se, pois, aos processos de pensamento. A linguagem possibilita à criança evocar um objeto ou acontecimento ausente na comunicação de conceitos. Piaget, todavia, estabeleceu uma clara separação entre as informações que podem ser passadas por meio da linguagem e os processos que não parecem sofrer qualquer influência dela. Este é o caso das operações cognitivas que não podem ser trabalhadas por meio de treinamento específico feito com o auxílio da linguagem. Por exemplo, não se pode ensinar, apenas usando palavras, a classificar, a seriar, a pensar com reversibilidade. Já para Vigotski, pensamento e linguagem são processos interdependentes, desde o início da vida. A aquisição da linguagem pela criança modifica suas funções mentais superiores: ela dá uma forma definida ao pensamento, possibilita o aparecimento da imaginação, o uso da memória e o planejamento da ação. Neste sentido, a linguagem, diferentemente daquilo que Piaget postula, sistematiza a experiência direta das crianças e por isso adquire uma função central no desenvolvimento cognitivo, reorganizando os processos que nele estão em andamento.

Envolvimento com questões educacionais

Apesar das muitas áreas do desenvolvimento cognitivo exploradas por Piaget, ele evitou sistematicamente o tema da educação. De modo geral, deixou aos educadores a tarefa de extrair de seu trabalho implicações para o ensino, insistindo em afirmar: "Não sou pedagogo". Entretanto, Piaget decerto não é uma pessoa sem opiniões sobre a educação. Com freqüência os psicólogos e educadores têm considerado a teoria de Piaget como uma abordagem "radical" à educação. Ao contrário, em muitos aspectos a teoria piagetiana é uma abordagem conservadora ao ensino de crianças. Sugere, sem dúvida, práticas de ensino e currículos que não são normalmente encontrados nas escolas tradicionais. Mas, a principal exigência da teoria de Piaget é a de que a prática educacional deve ser tão coerente quanto possível com o que se sabe a respeito do desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças. Esta não é absolutamente uma noção radical. Todos os teóricos piagetianos acreditam que as crianças devem aprender a ler, escrever prosa, solucionar problemas aritméticos, e desenvolver as diversas habilidades que as escolas tradicionalmente estabelecem como objetivos. Além disso, o núcleo da teoria piagetiana trata da aquisição do conhecimento, e da verdadeira compreensão daquilo que é adquirido. Os métodos piagetianos de aquisição de habilidades e conhecimentos formam um conjunto mais eficiente que os tradicionais. Não se deve supor que os métodos de "classe ativa" são sinônimos dos métodos piagetianos. A maior parte da filosofia do movimento da sala de aula aberta realmente se situa na psicologia do desenvolvimento e, em parte, na teoria piagetiana. Algumas pessoas podem achar que uma abordagem piagetiana é "desestruturada" e indisciplinada em relação à educação, pois incorpora elementos de auto-seleção e encoraja a interação dos alunos na sala de aula. Nada poderia estar mais longe de verdade.

Em uma escola piagetiana, as crianças não estão livres pra fazer folia, brincar e fazer o que quiserem de modo caótico e desordenado. Uma sala de aula piagetiana, é ordenada até mesmo quando é bastante ativa. Os sinos não são tocados a cada cinqüenta minutos, e as atividades não são sempre começadas e interrompidas dentro de horários rígidos. Às vezes, cada criança pode estar trabalhando em atividades individuais selecionadas. Isto não precisa e não deve ser desordenado ou desestruturado. Uma das principais mensagens da teoria piagetiana aos educadores e pais é a de que as crianças adquirem conhecimento de objetos e raciocínio através de atividades que são úteis para a criança. Significado e compreensão são construídos através de ações sobre objetos e de experiências com as coisas a serem conhecidas. Significado e compreensão não podem ser adquiridos somente através de leitura e de ouvir exposições. Por essa razão, uma sala de aula piagetiana é ativa. As crianças fazem coisas; não trabalham exclusivamente com símbolos. Há muita manipulação e exploração dos objetivos que o professor coloca no ambiente da criança. A ênfase reside na experiência com as coisas que devem ser conhecidas.

A leitura e a conversa a respeito das coisas não são negligenciadas, embora não sejam enfatizadas a ponto de se excluir tudo o mais como nas escolas tradicionais. Segundo uma perspectiva piagetiana, a estrutura e a liberdade precisam sempre ser mantidas em equilíbrio. O professor impõe a estrutura através das regras estabelecidas e dos materiais colocados no ambiente. As crianças precisam de liberdade suficiente que lhes permita a construção do conhecimento. Piaget acha que muitos professores ainda estão empregando métodos educacionais arcaicos e que seus alunos, quando não estão ativamente alienados, sentam-se passivamente nas salas de aula, que consideram insignificantes e irrelevantes. A aprendizagem, longe de ser interessante e incentivadora, significa quase sempre a repetição de uma série de fatos maçantes, completamente dissociados do pensamento e dos sentimentos. Mesmo depois de todos esses anos, Piaget assinala que, ainda não respondemos claramente a algumas questões fundamentais acerca da educação, como: Qual é o objetivo do ensino? O que devemos ensinar? Como devemos ensinar?. Essas são apenas três das questões fundamentais ainda não respondidas pela educação atual. E, segundo Piaget, jamais serão respondidas enquanto os educadores não se voltarem para a pesquisa experimental em busca de informações decisivas. Para ele, é chocante e difícil acreditar que em um campo tão acessível à experimentação ... o pedagogo ainda não tenha organizado experimentos bem apoiados e metódicos, mas continue satisfeito em decidir ... com base em opiniões cujo "senso comum" oculta, na verdade, mais afetividade (emoção) do que raciocínio efetivo.

A maneira quase exclusiva de que dispomos para julgar a eficácia de nossos métodos educacionais consiste em confiar nas notas escolares, nos testes de avaliação e nas provas. Proceder assim conduz-nos a um círculo vicioso, pois boa parte do trabalho executado nas escolas se volta para a preparação dos alunos para tais exames e para sua aprovação neles; assim, como podem ser considerados um critério adequado no exame da eficácia da educação? O que se deveria fazer, segundo Piaget, seria testar o aluno vários anos depois, para verificar quanto daquela aprendizagem foi retido, uma vez esquecidos os exames. Ou, o que seria ainda melhor, comparar os resultados das escolas que não realizavam provas, onde o valor dos estudantes é avaliado pelos professores em função do trabalho realizado ao longo do ano, com os obtidos nas escolas regulares, onde a perspectiva dos exames finais pode deturpar o trabalho não só dos alunos como também dos professores. O fato de a pesquisa educacional "permanecer em silêncio" com respeito a muitas dessas questões fundamentais é, para Piaget, um testemunho mudo da "atemorizante desproporção que ainda persiste entre o alcance e a importância dos problemas que a confrontam e os meios empregados para solucioná-los".

Estando o futuro educacional e vocacional das crianças na dependência das respostas a essas e outras questões, Piaget constata apenas o desenvolvimento da mais escassa das pesquisas no campo da educação , e esse panorama lhe é desanimador. E porque isso se dá?, indagava Piaget. Porque numa época em que a sociologia, a psicologia, a antropologia a outras ciências sociais dispõem de uma base ampla de conhecimento científico, encontra-se a educação tão atrasada? E a resposta ecoa, clara e honesta: a educação não é considerada uma ciência, mas antes uma profissão de segunda classe. O professor carece de status social e de prestígio intelectual. É difícil conseguir elementos capazes em muitas áreas da educação devido aos salários relativamente baixos. O professor não é considerado, por ele próprio ou por quem quer que seja, um especialista em técnicas e criatividade científica, mas sim o mero transmissor de um tipo de conhecimento que está ao alcance de qualquer um. È bastante claro que o público (que inclui certas autoridades educacionais e muitos dos próprios professores) não reconhece o ensino como uma ciência difícil e complexa. Em vez de trabalhar, como os médicos, sob a jurisdição de associações profissionais compostas por outros médicos, os professores se vêem forçados a conformar-se a programas e métodos ditados pela administração escolar ou pelos órgãos estatais da educação. Tais órgãos são constituídos por cavalheiros que, se algum dia chegaram a lecionar em uma sala de aula , dela escaparam o mais rápido possível.

Os professores, portanto, vêem-se extremamente restritos, em comparação com outros profissionais, por uma burocracia que dispõe de pouco tempo para dedicar à pesquisa tão aflitivamente necessária à educação. Além disso, nas reuniões profissionais dos educadores, comparadas às convenções médicas ou psicológicas, dizia Piaget, não há como não surpreender-se com a falta de dinamismo científico vigente ... ao se discutirem os problemas (educacionais). A última crítica levantada por Piaget em relação ao magistério é também a mais grave; dirige-se às instituições de treinamento para o magistério, quase sempre isoladas das demais práticas universitárias e inteiramente carentes de qualquer vínculo direto com a pesquisa. Apartados das tendências científicas e da atmosfera de pesquisa e experimentação que poderia haver injetado neles uma vida nova, os professores freqüentemente obtêm aprovação nos créditos educativos que lhes são exigidos e passam pelo processo de efetuar um único trabalho de pesquisa, que apresentam com um suspiro de alívio, para nunca mais voltar a realizar outro, quando a rigor deveriam empenhar-se constantemente em experimentos informais e em experimentar idéias novas em suas salas de aula. Embora não se negue a existência de excelentes e criativos professores nos departamentos de educação, há um número muito mais elevado de elementos medíocres que se afundam nas minúcias corriqueiras do método e do planejamento das aulas.

O problema fundamental, segundo Piaget, é que os educadores estão mais interessados no ensino do que nas crianças. Sua concentração e seu adestramento restringem-se aos métodos e ao currículo. Seu conhecimento de psicologia infantil é quase sempre superficial, e seu interesse pelo desenvolvimento mental da criança, limitado. Os professores querem ensinar e fazer com que as crianças ouçam; mas isso, como vimos, é a antítese da maneira pela qual as crianças aprendem! Piaget diz que "o conhecimento deriva da ação... Conhecer um objeto é agir sobre ele e transformá-lo... Conhecer é, portanto, assimilar a realidade a estruturas de transformação, sendo essas as estruturas que a inteligência elabora como extensão direta de nossas ações. Desde o bebê que engatinha em busca de seu brinquedo escondido, elaborando assim idéias de espaço e de permanência do objeto, até a criança que conta, seria e mede, elaborando as idéias de número, seqüência e peso, todo o conhecimento deriva das ações executadas pela criança sobre os objetos, posteriormente organizadas e retidas em sua mente. As crianças não aprendem sentando-se passivamente em suas carteiras e ouvindo o professor, assim como não aprendem a nadar sentando-se em barcos ancorados e observando os nadadores mais velhos na água.

"Se o objetivo do treinamento intelectual é moldar a inteligência e não armazenar dados na memória, e produzir exploradores intelectuais em vez da mera erudição, a educação tradicional é evidentemente culpada de grave deficiência".

Mesmo os métodos mais modernos de aulas acompanhadas por demonstrações não são tão eficazes, afirma Piaget, quanto permitir a criança que descubra ou invente por si mesma os meios de lidar com os objetos. Para Piaget, efetuando os experimentos na presença da criança em vez de levá-la a executá-los perde-se todo o valor informativo e formativo oferecido pela ação propriamente dita. É desse tipo de pesquisa básica que a educação é lastimavelmente carente, afirma Piaget. Se os professores em formação fossem sistematicamente solicitados a observarem as crianças, formulando-lhes perguntas, aprenderiam muito mais sobre a maneira como se desenvolvem a mente infantil e sobre como estimular a criança a pensar por si mesma. Infelizmente, contudo, os estudantes que se preparam para o magistério quase sempre sofrem do mesmo tipo de aprendizagem passiva que seus alunos; podem assistir a certo número de palestras sobre psicologia infantil e obter aprovação em um exame sem jamais se defrontarem realmente com uma criança.

Piaget defende que estudar a psicologia infantil não basta - os professores precisam desenvolver efetivamente sua própria pesquisa, " para verificar como é difícil fazer-se compreender pelas crianças e compreender o que dizem elas". Os professores, quando colocados diante de suas turmas, têm a ilusão de estarem compreendendo seus alunos e de se fazerem entender. Só o empenho em uma pesquisa real lhes permitirá compreender quão longe se encontram da verdade. As crianças têm amiúde a possibilidade de uma verbalização loquaz, sem nenhuma compreensão real daquilo que estão falando. Esta é a razão pela qual a inteligência da criança de classe média é às vezes superestimada pelos professores enquanto a criança de favela, com sua linguagem malpronunciada, é quase sempre subestimada. Piaget sustenta que todos os professores deveriam empenhar-se ativamente na pesquisa, ao invés de simplesmente ler a respeito. É através da pesquisa que a profissão do magistério deixa de ser meramente um ofício e ... adquire a dignidade de todas as profissões que extraem seus recursos das artes e das ciências. Ele é inflexível em sua insistência no fato de que não só os professores primários, mas todos os professores, precisam desse tipo de treinamento.

A formação para o ensino secundário dá ênfase a determinadas matérias e métodos, mas quase sempre negligencia a psicologia das crianças para as quais se leciona. Quanto maior o entusiasmo de um professor por sua especialidade, observa Piaget, menor tende a ser seu interesse pelos estudantes. Uma vez compreendidos os processos formativos envolvidos na aquisição do conhecimento, eles podem correlacionar-se com as áreas especiais de interesse do professor, contribuindo para que lecione de maneira mais eficaz. Assim, o matemático deveria interessar-se em saber como as crianças desenvolvem a idéia do número ou da geometria; o professor de química tem muito a aprender observando como as crianças lidam com o problema da combinação de elementos químicos no experimento de Inhelder e Piaget com os quatro frascos. Essa compreensão dos processos mentais de seus alunos é, acredita Piaget, tão importante para o professor quanto é para o professor de jardim de infância a compreensão do significado simbólico da atividade lúdica ou, para o professor primário, a da moral de cooperação cujo surgimento observa em sua turma.

Voltamo-nos agora da formação de professores para a situação das escolas, Piaget era totalmente a favor dos "novos métodos de educação", em contraposição à abordagem tradicional. Referia-se com freqüência à "escola ativa", em contraste com aquela em que as crianças experimentam uma "passividade cognitiva". Basicamente, o que ele quer dizer com "método ativo" é que as crianças devem ter a liberdade de explorar, perguntar e descobrir por si mesmas, seja nos níveis sensório-motores e simbólicos, em se tratando de crianças pequenas, seja com base na ação ou pensamento internalizado, em se tratando do nível operacional. As crianças precisam conversar entre si, pois é assim que aprendem. O professor não está ali para dar aulas e demonstrações, e sim para observar, indagar e levantar contradições, como fazia Piaget em seus experimentos, a fim de levar as crianças a pensarem e descobrirem novas soluções, novas estruturas de raciocínio.

Ele acreditava firmemente que as crianças precisam desempenhar um papel mais ativo em sua própria educação, pois aquilo de que mais precisam não é a aprendizagem de fatos, mas sim um modo de atuação independente. Muito do que ensinamos às crianças hoje será obsoleto na época em que elas se formarem, porém o insight crítico e as idéias criativas sempre são necessárias. Disse Piaget em certa ocasião: O objetivo principal da educação é criar homens capazes de realizar coisas novas, e não simplesmente repetir o que fizeram as gerações anteriores – homens que sejam criativos, inventivos e descobridores. O segundo objetivo da educação é formar mentes críticas, que possam avaliar, e não apenas aceitar tudo que lhes seja oferecido. O grande perigo de hoje são os slogans, as opiniões coletivas e as tendências prontas de pensamento. Temos de ser capazes de resistir a eles individualmente, de criticá-los e de distinguir o que está provado e o que não está. Assim, precisamos de alunos ativos, que aprendam a descobrir por si mesmos, em parte através de sua própria atividade espontânea e, em parte, através do material que organizamos para eles; de alunos que cedo aprendam a discriminar entre o que é verificável e o que consiste simplesmente na primeira idéia que lhes vem. (Ripple e Rockcastle, Piaget Rediscovered, p.5.)

Segundo Piaget, é num cenário, onde a curiosidade inata da criança e seu desejo de aprender são canalizados, que se dá a verdadeira educação. As funções essenciais da inteligência consistem em compreender e inventar; em outras palavras, construir estruturas, estruturando a realidade. O fato de estar interessada em seus próprios experimentos não significa que eles não envolvam esforço; ao contrário, a criança se dispõe a trabalhar mais em um projeto que seja seu, como sabem todos os que já observaram as crianças. Esse tipo de ensino exige maior esforço também por parte do professor: os métodos ativos são muito mais difíceis de empregar do que nossos métodos receptivos atuais, admitiu Piaget. O professor deve ser capaz de acompanhar um número muito maior de atividades do que se ficasse de pé frente à turma, ensinando a todos a mesma lição. Tem que elaborar um volume considerável de cuidadoso planejamento prévio e manter registros meticulosos do progresso de cada criança em cada uma das áreas de habilidade. Precisa ser mais criativo, mais experiente e mais bem treinado, possuindo profundo conhecimento do desenvolvimento emocional e intelectual das crianças. A desalentadora dificuldade da pedagogia, como aliás também da medicina e muitos outros ramos do conhecimento que se valem a um tempo da arte e da ciência, está no fato de que os melhores métodos são também os mais difíceis. Piaget tem uma visão sombria de muitas das modernas técnicas auxiliares de ensino. Acredita que muitos educadores, com um conhecimento psicológico insuficiente tendem a confundir "métodos ativos" com "métodos intuitivos".

Assim, o emprego de material áudio-visual, como filmes e televisão, é considerado produtor de "processos figurados", e não de verdadeiros processos operacionais. Com isso, Piaget quer dizer que eles produzem percepções ou imagens mentais que não passam de uma representação do que foi visto, em vez de uma compreensão realmente flexível, reversível e estável. Trata-se do mesmo tipo de abordagem de aprendizagem mecânica que Piaget critica nos minicomputadores e máquinas de instrução programada.

As "máquinas de ensinar" de Skinner, diz ele, são um grande sucesso, se sucesso significa meramente a reprodução verbal da resposta desejada. Aqueles que se preocupam sentimental e naturalmente, sentiram-se entristecidos pelo fato de os professores poderem ser substituídos por máquinas. A meu ver, ... essas máquinas prestaram ao menos um grande serviço a todos nós, que consistiu em demonstrar, sem qualquer sombra de dúvida, o caráter mecânico da função do educador como concebido pelos métodos tradicionais de ensino: se o ideal desses métodos é meramente evocar a repetição correta do que foi corretamente transmitido, desnecessário dizer que a máquina pode preencher corretamente essas condições. Ao discutir as reformas necessárias à educação, Piaget defende com veemência a abolição das provas. Considera-as prejudiciais pois polarizam em torno da busca de resultados efêmeros e em grande parte artificiais a maioria das atividades que deveriam concentrar-se na formação da inteligência e de bons métodos de trabalho. Acredita que as notas obtidas nas provas são variáveis, relativamente arbitrárias e carentes de significação concreta. As boas notas nos exames dependem da memória, e de um tipo de memória que tem pouco lugar na vida real; de fato, trata-se de um "artifício mental".

Claro está que ele considera os métodos atuais de "saturação na véspera da prova" uma perda de tempo. A única prova genuína , diz ele, seria aquela em que o candidato fosse livre para utilizar seus livros, anotações, etc. e realizasse certo volume de trabalho, que seria meramente uma continuação do que vinha fazendo na sala de aula. Numa época em que o mundo inteiro clama por meios mais eficazes de educar as crianças, as escolas tradicionais continuam a sufocar a inteligência e a criatividade de nossos jovens, que engenhosamente descobrem formas de rebelar-se contra as exigências de uma obediência sem sentido. As escolas em que os novos métodos vêm sendo tentados quase sempre se vêm atacadas pelos pais, que não compreendem os "métodos ativos" e que os descartam como "modismos", ao mesmo tempo em que reclamam um retorno "às matérias básicas". Piaget declarou expressamente não (querer) dizer que o melhor método educacional consiste em deixar as crianças fazerem o que bem entendem. O que ele de fato quer dizer, é que, quando a criança se interessa pelo que faz, é capaz de empreender esforços até o limite de sua resistência física. Apenas quando as crianças se empenham em sua própria aprendizagem, apenas então tomará forma a verdadeira disciplina – a disciplina que as próprias crianças desejam e aprovam.

Esta, portanto, é a mensagem de Piaget. O futuro da educação está em tirar proveito do desejo inato da própria criança de reinventar o mundo a seu modo. Como escreveu Piaget, "compreender é descobrir, ou reconstruir através do redescobrimento, e tais condições (os métodos ativos) deverão ser satisfeitas, caso, no futuro, se deseje formar indivíduos capazes de produção e criatividade, e não simplesmente de repetição".




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