Título: Pelo amor de Harry
Autor: Magalud
Presenteada: Lilibeth
Categoria: Slash
Gênero: Drama, romance, angst, h/c, AU
Classificação: R
Personagens ou Casais: Harry Potter, Remus Lupin, Severus Snape
Resumo: Ele nunca deveria ter sido deixado na porta daquela gente.
Spoilers /Timeline: Começa antes dos livros
Disclaimer: O mundo de Harry Potter, seus personagens e paisagens são de propriedade de J.K. Rowling, Warner Bros., suas editoras e afiliadas. Nenhum lucro foi auferido pela criação dessa história, nem qualquer tipo de má-fé intencionada de qualquer maneira contra a autora ou os atores e atrizes que tão maravilhosamente deram vida a esses intrigantes personagens.
Data: 17/12
Tamanho: 22,000 palavras
Alertas: Harry é criança, mas não é chan
Agradecimentos: Fernanda, que me emprestou seus talentos para betar isso. Cris olhou primeiro.
Nota 1: Fic escrita para o Amigo Oculto de Natal do PSF de 2006
Nota 2: Todos os títulos capítulos foram tirados de "A Passion Play", de Jethro Tull

 


 

 

Capítulo 1 – O cordão de prata

 

Nunca houve uma criança que não gostasse de pipoca. Por isso, todas eram só sorrisos para o homem alto e magro que todos os dias encostava seu carrinho no parquinho, oferecendo pipoca salgada com manteiga extra ou sem manteiga, com amendoim, com queijo, com molho de bacon. E as doces eram coloridas, com calda de chocolate, morango, baunilha e uva.

 

Ele não sorria muito, mas tratava todos os seus clientes com distinção e cortesia. Mães que vinham com seus filhos ganhavam sorrisos, e pais recebiam comentários sobre a última rodada do campeonato de críquete e de futebol. Ele aprendera tudo sobre o mundo Muggle, inclusive esportes.

 

A primeira semana foi completamente infrutífera. Ele não só não vira seu alvo, como havia sido interrogado pelo policial Muggle, a quem mostrara suas licenças e permissões para trabalhar naquele local. Fora advertido que deveria vender apenas pipocas e castanhas, pois esse era o limite do alvará de seu carrinho. O homem assentiu, e usou um feitiço não-verbal para diminuir as desconfianças do policial. A última coisa que queria era chamar a atenção ou ser confundido com um pedófilo enrustido.

 

Na segunda semana, tivera mais sorte. O alvo aparecera, e o homem movera o carrinho. Atraíra apenas o primo gordo, que vinha choramingando, exigindo, reclamando quando a mãe muito magra e ossuda dissera que ele só podia comer um saco de cada vez. Ao olhar o garoto, o pipoqueiro intimamente discordou, achando que o balofo poderia engolir o carrinho inteiro, literalmente, com rodas e tudo.

 

Timidamente, o menino franzino, de óculos e roupas muito maiores do que deveria estar usando aproximou-se. O homem entregou o saco de pipocas jumbo max com extra tudo ao bolo fofo e indagou:

 

– Não vai levar um saco para o seu pequenino, Madame?

 

Os olhos verdes do garoto brilharam atrás dos óculos. A mulher, porém, ergueu um lábio, em desgosto:

 

– Comprar pipoca para isso?

 

O menino abaixou a cabeça, desapontado. O homem controlou-se para dizer:

 

– Ora, não vai querer que todos no parque vejam os dois saírem descontentes, não é?

 

A mulher olhou em volta, reparando nas outras pessoas, e, relutantemente, concordou:

 

– Bem... Talvez um saco pequeno. O menor que tiver. Salgada, sem nada de manteiga, sabores, nada!

 

O homem encolheu os ombros e obedeceu. Ao entregar o saco para o garoto, ele piscou um olho e sorriu:

 

– Aqui está, rapazinho.

 

O menino sorriu timidamente, como se fosse cúmplice de um crime. O homem manteve o sorriso, mas por dentro fervia de ódio. Isso não era jeito de se tratar o filho de Lily e James Potter. Ele iria dar um jeito nisso...

 

 

Logo o homem percebeu que tinha realmente ganhado um cúmplice. Sempre que podia, Harry Potter vinha ao parquinho. O homem então se aproximava. O primeiro dia foi tímido.

 

– Olá, amiguinho. O que vai ser hoje?

 

– Nada, obrigado.

 

– Está sem fome?

 

– Não é isso, eu... não quero, obrigado.

 

– Olhe, não conte para ninguém, mas eu vou lhe dar um. Não precisa pagar.

 

Os olhinhos verdes brilharam de alegria. O homem sentiu seu coração apertar.

 

– Mesmo?

 

Ele rapidamente preparou um saco tamanho médio. E colocou uma quantidade generosa de manteiga.

 

– Você gosta assim?

 

– Obrigado, senhor.

 

– Pode me chamar de Sunshine.

 

O garoto achou divertido:

 

– Sunshine?

 

O homem apontou para o carrinho, que tinha um desenho de um sol bem amarelo com letras vermelhas:

 

– É o que diz aqui. Meu nome é outro, mas pode me chamar de Sr. Sunshine.

 

– Meu nome é Harry.

 

– Prazer, Harry. E sempre que quiser pipoca, é só pedir.

 

Foi assim que aconteceu. O Sr. Sunshine recolhia o carrinho de pipocas no entardecer, e sem qualquer coincidência, ele passava por Privet Drive para ir para casa. Seu pescoço comprido se esticava para ver o que acontecia no número 4 todas as noites.

 

Às vezes Sunshine ouvia alguns gritos, e tentava se controlar. Ele tinha tudo planejado. Só mais um tempo.

 

O tempo chegou no aniversário de Harry.

 

Os sinais vieram no dia anterior. Harry apareceu no parque à tarde tentando esconder o rosto, e ele teve que se segurar para não explodir. Atendeu algumas crianças e esperou o menino tomar a iniciativa de se aproximar. Então o saudou alegremente, como sempre:

 

– Olá, Harry! Gostaria de experimentar o novo sabor? Pipoca de laranja!

 

– Não, obrigado, Sr. Sunshine.

 

– Boa pedida. São horríveis! Você está bem, Harry?

 

Ele se escondeu mais ainda. – Sim, claro.

 

– Toma uma salgada. – O homem passou um pacotinho a Harry e piscou um olho. – Só depois de comer uma bem salgadinha é que a gente consegue apreciar o gosto de uma pipoca doce.

 

O menino sorriu e comeu sua pipoca em paz. O olho roxo incomodou o pipoqueiro mais do que deveria.

 

Capítulo 2 – Mostre-me um homem bom

 

No dia seguinte, no aniversário de Harry, o garoto não apareceu no parque. Isso, em si, não era surpresa: não era todo dia que ele podia sair.

 

O carrinho de pipocas fez seu trajeto por Privet Drive quando o sol se punha, mas o pipoqueiro resolveu chegar o mais perto possível, passando bem devagar em frente à casa. Os agapantos floridos soltavam um aroma tão suave que poucos perceberiam. Por um instante, ele não percebeu os outros cheiros da casa.

 

Sangue.

 

Instintivamente, sem pensar, ele invadiu a casa. O homem volumoso chutava o garoto no chão. Apesar de encolhido, o menino não reagia. A tia e o rapaz balofo observavam, com desgosto, mas não impediam o agressor.

 

Ele imediatamente sacou a varinha e afastou o agressor, provocando gritos nos outros dois. O balofão foi parar num canto da sala, e o pipoqueiro foi ver o estado de Harry.

 

– Seu... seu... anormal!... Como ousa invadir minha casa?

 

– Seu vagabundo! – gritou a mulher. – Você é um pipoqueiro!

 

O homem tentava avaliar os ferimentos de Harry. O olho piorara, e ele parecia respirar com dificuldade. Havia grande quantidade de sangue em seu rosto, e, mesmo inconsciente, o garoto parecia franzir o rosto de dor.

 

– Eu quero a caixa de primeiros-socorros, uma bolsa de gelo, um cobertor bem grosso e uma bolsa grande com as coisas dele.

 

Ninguém se mexeu. O homem gordo se ergueu, decidido:

 

– Eu vou chamar a polícia.

 

O homem ergueu-se e pediu:

 

– Faça isso, Sr. Dursley. Vamos ver quem vai preso. Enquanto isso, Sra. Dursley, pode me arrumar o que eu pedi?

 

– O que vai fazer?

 

– Tentar estancar o sangramento, primeiro. Rápido! AGORA!

 

A mulher deu um pulo, e ele trabalhou o mais rápido que pôde, pelo menos para estancar o sangramento feio no ombro. Harry também tinha o pulso inchado e parecia muito pálido, mais do que antes.

 

Habilmente, o pipoqueiro conseguiu deter o fluxo de sangue, mas seu próprio coração parecia sangrar ao ouvir a respiração irregular do garoto, entrecortada por gemidos. Com cuidado, ajeitou o corpinho frágil nos cobertores.

 

– O que está fazendo? – guinchou o Sr. Dursley.

 

– Estou levando Harry daqui para ser atendido por um médico. Ele não vai mais voltar.

 

– Isso é rapto!

 

– O senhor o quer de volta?

 

– Bom... não, mas...

 

– Se preferir, eu o deixo aqui. Mas só depois de chamar um oficial da Proteção à Infância e um policial da Delegacia de Menores.

 

– Está me ameaçando?

 

– Não é ameaça – rosnou o ex-pipoqueiro. – É um fato da vida ao qual o senhor faria bem em aceitar. E agora eu quero também que o senhor me chame um táxi e uma soma não inferior a oitocentas libras para cuidar das despesas médicas do menino.

 

– Isso é um absurdo! Um roubo! Está me assaltando!

 

– Pode chamar de extorsão, se quiser. Eu chamo isso de evitar ter que chamar a polícia e responder a um assistente social o nome das pessoas que deixaram Harry nesse estado, ou dar o seu endereço, para que elas venham com a polícia ao seu bairro tão aprazível levá-lo preso diante de todos os seus vizinhos.

 

Três minutos mais tarde, o já ex-pipoqueiro estava na rua, carteira recheada com mais de mil libras, carregando sua carga preciosa nos braços e embarcando no táxi, pedindo:

 

– O senhor conhece algum hotel baratinho perto do Hospital de Kingston?

 

Ele conhecia. Ficava na periferia, na verdade, não perto do hospital, mas o motorista conhecia um médico que morava ali perto.

 

O homem da recepção do pequeno hotel olhou desconfiado para o homem que entrou carregando uma criança doente, mas deixou as desconfianças de lado ao ver o desespero genuíno no rosto da pessoa. Só quis saber quanto tempo esperava ficar, e o ex-pipoqueiro respondeu que dependia do médico.

 

Durante um tempo que pareceu horas, ele ajeitou Harry na cama. O menino tremeu, o rosto suado fazendo o cabelo grudar. Ele parecia ainda mais franzino e magrinho, deitado sozinho na cama, os cobertores quase o engolindo.

 

– Não... Não...

 

– Harry?

 

– Desculpe, tio Vernon... – O menino tentava se encolher. – Não faço mais... Por favor, pare...

 

– Está tudo bem agora, Harry. Por favor, abra os olhos.

 

– Não, tio Vernon, por favor!

 

Lupin queria abraçar o menino, mas ficou com medo de reabrir o ferimento. Apenas acariciou seu rosto e o cabelo, dizendo palavras doces até que o menino se aquietou novamente.

 

– Sr. Lupin?

 

– Sim? O senhor é o médico?

 

– Ambroise Paret. O que houve com o paciente?

 

– Podia vê-lo, doutor?

 

O médico se aproximou da cama e franziu o cenho. Ele olhou para o menino e pediu:

 

– Por favor, poderia deixar o quarto?

 

– Não vou sair.

 

– Estamos perdendo tempo precioso. Se não sair, não posso ajudar o menino.

 

A contragosto, Lupin deixou o quarto e foi para o corredor estreito. Durante meia hora, ele andou de um lado para o outro. Finalmente, o médico o deixou entrar.

 

Harry dormia, ou parecia, ao menos. A respiração era mais regular, o rosto parecia menos atribulado do que antes.

 

– O senhor é da família?

 

– Sim – mentiu. – Não... Na verdade, eu sou o padrinho.

 

– E ele mora com o senhor?

 

– Não, com os *tios*. – Ele não notou que estava rosnando, mas suavizou para garantir: – Mas não daqui para frente.

 

– Foram eles que o deixaram nesse estado?

 

– Sim. Eu... não sabia de nada disso.

 

O médico, um homem de seus cinqüenta e muitos anos, ainda o analisava e tentava ver se ele falava a verdade, ele podia ver. Lupin aproveitou para indagar:

 

– Como ele está, doutor?

 

– Agora ele está estável. Mas ele está desidratado e desnutrido. Eu não recomendaria removê-lo agora, embora ele precise de um hospital e exames minuciosos, incluindo radiografias para ver se quebrou alguma costela. Fez um bom curativo de emergência, mas vai precisar trocar isso. Tem uma farmácia a quatro quadras daqui. Preciso de alguns equipamentos e medicamentos. Não trouxe tudo comigo.

 

Lupin hesitou. Não queria deixar Harry sozinho. Mas não tinha saída. O médico precisava trabalhar.

 

Em meia hora, ele estava de volta, e o médico tinha colocado mais travesseiros em volta de Harry. Ele improvisou uma linha intravenosa com os materiais que Lupin trouxera da rua, e deixou o menino bem coberto.

 

– O antibiótico vai combater a infecção, mas ele precisa mais desses nutrientes no soro parenteral. Não deixe de atender à linha de IV e trocar o soro. Se ele não se fortalecer, o antibiótico poderá até prejudicá-lo. O complexo de vitaminas e hidratantes deve estabilizar os eletrólitos dele. Sabe fazer isso?

 

– Melhor do que imagina. Sou técnico em enfermagem.

 

– Excelente. Por isso o curativo era tão bom.

 

– Ele vai ficar bom, doutor?

 

– Ele não vai precisar ir a um hospital se tomar grandes cuidados. Quando ele acordar, procure dar refeições quentes e substanciosas. Sopas com carne, por exemplo. As pílulas de vitaminas vão ajudar. Os curativos precisam ser trocados, e a febre tem que ficar sob controle. Crianças pequenas têm uma resistência inacreditável. Ele tem quantos anos? Quatro?

 

– Seis. – Lupin quase soluçou. – Hoje é seu aniversário.

 

– Ele é pequeno para a idade que tem. – O médico suspirou. – Fez bem em tirá-lo dos tios. Pretende chamar as autoridades?

 

– Depois que Harry ficar bom, talvez. Quanto tempo ele precisa ficar aqui?

 

– Depende da resposta dele. Posso voltar daqui a dois dias. – Ele entregou um papel. – Meu cartão com meus telefones. Ligue se precisar. Se ele piorar, ligue imediatamente.

 

– Doutor, eu só posso pagar essa consulta. Aliás – Ele tirou uma quantia do bolso, em notas amassadas –, eis aqui.

 

– Não vou cobrar o retorno. Só cuide de seu menino, Sr. Lupin.

 

Capítulo 3 – Tempo de acordar

 

O primeiro diálogo foi meio tenso. O menino acordou, atordoado.

 

– Sr. Sunshine?

 

– Olá, Harry. Como se sente?

 

– Com sono.

 

– Quer beber um pouco de água? Não, não se mexa. Eu pego para você.

 

O menino o encarava, os olhos verdes arregalados.

 

– Onde estamos?

 

– Num hotel. Eu tirei você da casa de seus tios. Você está doente, por isso não pode se mexer muito. Se quiser voltar a dormir, pode dormir. Está com fome?

 

Lupin pôde ver a hesitação nos olhos do menino.

 

– Sim, mas... eu não sei se vou conseguir.

 

– Bobagem. Olhe, vou colocar uma sopa de galinha numa xícara. Você pode beber como se fosse chá. Que tal?

 

Harry simplesmente assentiu e indagou, baixinho:

 

– O senhor está cuidando de mim?

 

– Sim, Harry. Você está doente, por isso estou cuidando de você.

 

– Não precisa fazer isso. Minha tia diz que eu posso sarar sozinho.

 

– Isso não é verdade, Harry. Muita coisa que seus tios lhe diziam não era verdade. Mas você nunca mais vai voltar para lá.

 

– Não?

 

– Não. Eu não vou deixar. E você pode me chamar pelo meu nome: Remus Lupin.

 

– Remus? Eu nunca ouvi ninguém com esse nome.

 

– Pode me chamar de John, se quiser. É meu segundo nome.

 

– E você só é o Sr. Sunshine quando pega seu carrinho?

 

– Não vou mais ser Sr. Sunshine, Harry. Agora eu vou cuidar de você. Vou levar você para minha casa e vou adotar você. Sei que você teve um pai e uma mãe, mas agora você vai ser meu. Se você quiser, claro.

 

O menino estava abismado:

 

– Você quer... eu?

 

– Nada me faria mais feliz, Harry.

 

Ele ficou calado, e Lupin lhe deu a sopa. Só depois ele falou, tristonho:

 

– Mas eu sou uma "berração". Sou anormal. Minha tia vive me chamando disso.

 

– Harry, isso é outra coisa que não é verdade. Precisamos conversar. Você é um bruxo, Harry. Como seus pais eram. Você pode fazer magia, e é isso que mais irrita seus tios.

 

– Um bruxo?

 

– Um bruxo, sim. E eles devem ter mentido sobre a morte de seus pais.

 

– Como assim? Eles não morreram no acidente de carro?

 

– Não, Harry. James e Lily foram mortos por um bruxo muito mau. Eles lutavam contra esse bruxo mau, mas foram traídos. Foi ele quem lhe deu essa cicatriz. Mas não se preocupe com isso agora. Podemos conversar mais depois.

 

Lupin notou que Harry mal conseguia acreditar no que ele dizia.

 

– Você conheceu meu pai?

 

– Sim, estudei no mesmo colégio que seu pai e sua mãe. Éramos bons amigos. Visitei vocês quando você era um bebezinho. Você era uma criança linda, Harry, e eu sempre gostei muito de você. Por isso agora quero adotar você legalmente, para cuidar de você como seu pai e sua mãe gostariam que você fosse cuidado. Se você quiser, claro.

 

O garoto se emocionou e tentou abraçar Lupin, mas não pôde por causa do IV. Lupin beijou-lhe o topo da cabeça e indicou:

 

– Acho que você quer, sim. Mas já vou avisando que não sou rico como seus tios. Não passaremos fome, mas vamos viver simplesmente, está bem?

 

– Tá bom. Você me quer, mesmo?

 

– Mais do que tudo, Harry. Esperei cinco anos para conseguir isso. Se eu não quisesse você, não teria feito isso, não acha?

 

– Obrigado.

 

– Deixe de pensar nisso, tá bom? Agora descanse. O médico falou que você precisa se recuperar.

 

– Médico? – Harry parecia ainda mais admirado. – Você chamou um médico? Minha tia dizia que não podia chamar um médico para mim, mas Dudley sempre tinha.

 

– Eu não quis usar magia. Acho que não devemos chamar a atenção. Embora a adoção seja legal, muita gente pode tentar tirar você de mim.

 

– Tirar?

 

– É. Eu tenho uma doença, Harry. Muita gente acha que isso é ruim. Mas você não deve se preocupar. Descanse agora.

 

Remus ajeitou as cobertas em volta do menino e beijou-lhe a testa, que pareceu mais fresca. Harry fechou os olhos, sentindo-se aliviado. Alguém cuidava dele.

 

 

Dois dias mais tarde, Harry estava bem melhor. Ele se sentava na cama, e sempre queria ouvir Remus contar histórias sobre seus pais. Também fazia muitas perguntas sobre magia e bruxaria.

 

Remus podia sentir o quanto o garoto precisava de atenção, mas também de reafirmação. Ele estava tão machucado que não tinha vontade, nunca escolhia o que queria comer, esperava ser repreendido. Assustava-se facilmente. Por isso, deu um pulo quando alguém bateu à porta, e era o médico.

 

– Olá, doutor.

 

– Sr. Lupin, como está? – O médico olhou para a cama. – Oh, vejo que o paciente está acordado.

 

– Harry, este é o Dr. Paret. Ele está cuidando de você.

 

– Como se sente, rapaz?

 

– Bem – disse o garoto, tímido.

 

– Muito bem, veremos isso de perto. Sr. Lupin, por favor, pode nos deixar a sós?

 

– Não! – gritou Harry. – Não!

 

– Harry, tenha calma. – Lupin tentou acalmá-lo. – O doutor só vai examinar você.

 

– Não vá embora!

 

– Eu não vou embora. Vou só ficar lá fora.

 

– Não pode ficar aqui dentro? – Harry parecia à beira de lágrimas, tremendo. – Por favor?

 

O médico sentiu o desconforto do menino e cedeu:

 

– Ele pode ficar ali, então. Mas eu vou fazer perguntas, Harry, e preciso que você me dê respostas como se o Sr. Lupin não estivesse aqui, está bem?

 

– Está bem.

 

O exame foi tenso, embora o Dr. Paret tentasse brincar com Harry, sorrindo e procurando deixar o garoto mais relaxado. Mas Harry sempre olhava para Lupin, nervoso. Qualquer um podia ver que ele se sentia testado, como se fosse levar uma bronca.

 

– Muito bem – sorriu o médico. – Você foi um ótimo paciente, Harry. Tão bom que podemos tirar essa intravenosa do seu braço. Não vai mais precisar disso.

 

– Mesmo?

 

– Isso mesmo. Mas vai ter que me prometer beber muita água e tomar seus remédios direitinho. Amanhã você vai ficar em casa, mas depois de amanhã já poderá sair para brincar, mas com cuidado. Nada de subir em árvores ou andar de bicicleta na próxima semana.

 

– Eu não tenho bicicleta... – murmurou Harry, envergonhado.

 

– Oh, mas você vai poder brincar em outras coisas.

 

– Quando poderemos ir para casa, doutor?

 

– Acho que amanhã já podem ir. É uma viagem longa?

 

– Não muito. Duas horas de viagem.

 

– Então não haverá problema. – Ele se ergueu. – Bom, foi um prazer conhecê-los. Cuide-se bem, Harry.

 

Lupin tirou algumas notas do bolso:

 

– Doutor, eu insisto em pagar ao menos uma parte de sua consulta.

 

– Guarde seu dinheiro, Sr. Lupin. Cuide bem de seu garoto.

 

Eles se cumprimentaram, e, assim que o médico saiu, Lupin pôs-se a cuidar do jantar. As coisas começavam a melhorar, pensou.

 

O lobisomem não sabia, claro, que as coisas estavam longe de melhorar.

 

Capítulo 4 – Havia um silêncio na estrada

 

– Desde quando?

 

– Arabella não soube me dizer – respondeu Albus Dumbledore, preocupado. – Provavelmente poucos dias, mas é difícil saber. Se realmente foi usado um Obliviate... Precisamos descobrir quem é o responsável pelo sumiço do pequeno Harry.

 

– Eu não acho que tenham sido Comensais. Se fosse um ataque, eles não deixariam ninguém vivo.

 

– Sim, infelizmente concordo com você. Mas fico imaginando quem poderia ter raptado Harry de seu lar. Temos que descobrir o quanto antes. Antes que o Ministério fique sabendo.

 

– Deduzo, então, ser essa minha tarefa?

 

– Exato, meu caro. Só você pode me ajudar nisso.

 

– Farei o que puder, diretor.

 

 

 

Harry mal podia acreditar na virada em sua vida. Ele só não acreditava muito na história de Remus sobre bruxaria, porque ele não fazia nenhuma mágica. Mas o resto todo era, aos olhos de Harry, pura magia.

 

Remus levou-o até um apartamento pequeno, numa cidade chamada Kingswood. Ficava bem longe de Londres, pelo que Harry descobriu. Era de lá que Remus vinha todos os dias com o carrinho de pipoca, e ele usava mágica, explicou.

 

Harry não se preocupava com isso. Ele tinha um quarto só para ele, e roupas só dele. Bom, não eram novas, mas elas serviam em Harry muito bem, inclusive os sapatos! No quarto dele, havia uma cama com um colchão muito melhor do que aquele do armário dos Dursleys. E ele tinha cobertas quentinhas também. Bom, ainda era verão, mas ele sabia que não passaria frio ali.

 

Ele podia comer todas as refeições, e até podia comer *entre* as refeições, se quisesse. Não havia luxo, mas não faltava nada. Remus explicou que ele tinha trabalhado muito e economizado bastante dinheiro durante cinco anos só para adotá-lo. Harry ficou ainda mais emocionado.

 

Algumas coisas eram bem diferentes. Remus tinha que explicar que Harry não precisava lavar, nem limpar, nem cozinhar para pagar sua estadia. O menino achava aquilo estranho, mas entendia que os Dursleys tinham tratado muito mal dele.

 

Enquanto Harry convalescia, ele conhecia o bairro onde morava. Remus o matriculou na escola ali pertinho de casa e o levou ao posto de saúde. Harry estava maravilhado ao ver como todos o tratavam bem. Ajudava o fato de Remus o apresentar como um filho querido, não como um fardo, como Tia Petúnia fazia.

 

Com tudo o que acontecera, Remus explicou a Harry que perdera o emprego de pipoqueiro e agora teria que arrumar outro modo de sustentar os dois. Harry disse que comeria menos dali para frente, pois já estava quase bom. Remus o abraçou, emocionado. Harry também se emocionou.

 

A chegada de uma criança ao prédio trouxe curiosidade à vizinha do andar de baixo, Sra. Reesespoon, uma viúva solitária muito religiosa que vivia da pensão de seu falecido marido, veterano de duas guerras. Harry logo se afeiçoou a ela, o que espantou Remus. Mas foi muito propício: ela também gostava de crianças e ofereceu-se para cuidar de Harry sempre que Remus precisasse.

 

O lobisomem ainda não encontrara um emprego, mas a verdade é que ele estava curtindo demais o tempo com Harry. Depois que o menino entrasse no ritmo de aulas, ele teria que agüentar a separação. Harry estava muito apegado a ele. Remus podia sentir o medo de Harry em ser abandonado.

 

Remus notava que Harry estava rapidamente se adaptando à vida nova, e o menino parecia florescer, sentindo-se amado. Sua mágica crescia rapidamente, e ele parecia ter grande talento em "ler" as pessoas. Era como uma empatia. Instintivamente, o garoto sabia identificar quem era mal-intencionado.

 

Eles só estavam na casa nova há duas semanas, quando Remus pediu a Harry que ficasse na casa da Sra. Reesespoon enquanto ele ia resolver alguns assuntos de "gente grande". Embora a contragosto, pois detestava ficar longe de Remus, o menino obedeceu e descobriu, com alegria, que a vizinha tinha fascinação por periquitos. Os dois ficaram grandes amigos, e se divertiram muito naquele dia.

 

– Harry, olhe só quem chegou.

 

– Remus! – O menino se atirou a ele. – Você voltou.

 

– Claro que sim, Harry. Você se comportou bem? Não deu trabalho à Sra. Reesespoon?

 

– Não, ele foi um ótimo garoto. O senhor tem uma jóia de menino, Sr. Lupin.

 

– Na verdade, Sra. Reesespoon, eu gostaria de saber se a senhora estará disponível na semana que vem para Harry passar a noite aqui.

 

– Claro, com prazer. Mas aconteceu alguma coisa?

 

– É uma doença que tenho. Uma vez por mês preciso me internar numa instituição para receber um tratamento preventivo.

 

– Oh, minha nossa. Posso ajudar em alguma coisa? Claro que Harry pode ficar aqui. Vou mobilizar meu grupo de oração. Vamos fazer uma reza especial por sua doença.

 

– É muita bondade sua. Agora vamos, Harry. Pegue suas coisas, e vamos deixar a Sra. Reesespoon descansar.

 

O menino despediu-se da vizinha e dos periquitos, e Remus levou-o para casa, indagando:

 

– Está com fome? Hoje vamos comemorar.

 

– Comemorar? É aniversário?

 

– Não, o meu já passou. Mas temos uma coisa muito mais importante para comemorar. Vamos até aquele local de hambúrgueres. Como é mesmo o nome, MacRonald’s?

 

– McDonald’s! – Harry riu-se, mas espantou-se: – Vamos mesmo para lá?

 

– Sim, e você vai poder pedir o que quiser.

 

– Mas McDonald’s é caro.

 

– Isso não importa. Quero que você só peça coisas bem gostosas e não se preocupe com isso. Hoje vamos comemorar.

 

– O que vamos comemorar?

 

Remus tirou um papel de uma pasta surrada e mostrou-o:

 

– Temos que comemorar esse papel que eu fui buscar. Ele garante que agora você é meu, e ninguém vai poder tirar você de mim, Harry.

 

O menino franziu o cenho:

 

– Eu sou... seu?

 

– Você agora é meu filho, Harry. Legalmente. Foi adotado. Isso é muito melhor do que um aniversário, não acha?

 

– E eu vou ter que te chamar de pai?

 

– Oh, bem, você pode me chamar como quiser, Harry. Eu sei que não sou seu pai de verdade.

 

Harry se jogou nos braços dele:

 

– Eu queria que fosse meu pai de verdade. Estou muito feliz, Papai Remus.

 

Remus apertou-o, mesmo que agora eles não precisassem mais se esconder ou viver tão longe para não serem procurados. Tudo o que ele mais queria era abraçar o garotinho que conquistara seu coração, levá-lo para comer um supersanduíche e comemorar essa vitória. Ninguém mais poderia tirá-lo dele.

 

Ou será que poderiam?

 

Capítulo 5 – Um anjinho doce caiu

 

– Eu os interroguei, diretor.

 

Os olhos de Dumbledore brilhavam. Ele sabia que seu emissário não falharia.

 

– E o que descobriu?

 

– Que eles são o pior tipo de Muggles que eu já vi, e eu já vi alguns. Insistiam que não se lembravam de coisa alguma e sequer sabiam quem poderia ser Harry Potter. Mas eu os convenci a falar.

 

– O que houve com Harry?

 

– Ele foi levado. Os Muggles o espancaram severamente, mas um homem o levou, dizendo que ele nunca mais voltaria àquele lugar. O Sr. Dursley lamentava mais as mil libras que o homem tinha levado do que a perda do sobrinho. Consegui investigar na região e descobri que um hotel perto de Kingston recebeu um homem e uma criança muito doente durante três dias. Um médico acompanhou o menino, que aparentava uns quatro anos. Após três dias, eles deixaram o hotel, e o menino saiu andando. Não havia resíduo de magia. Não soube de mais nada depois disso.

 

– Acha que foi obra de um Muggle?

 

– Dificilmente, diretor.

 

– Mas está cada vez mais difícil de acreditar que quem o levou tenha alguma intenção de maltratar o garoto. A menos por enquanto.

 

– Eu não confiaria nisso. Pode-se tratar de uma estratégia de longo prazo, para ganhar a confiança do garoto e revertê-lo para seus próprios propósitos.

 

– Está falando de Comensais da Morte?

 

– Precisamente. Mas não consegui confirmar essa expectativa.

 

– Precisamos encontrar o menino, meu amigo, o quanto antes. Há muito em jogo, como sabe. Cornelius ainda não sabe, mas algo desta magnitude não ficará muito tempo em segredo.

 

– Eu farei isso, diretor. E quem pegou o garoto vai pagar pelo que fez.

 

– Desenvolvendo sentimentos por Harry, Severus? Pensei que você odiasse o filho de James Potter.

 

O mestre de Poções de Hogwarts não se alterou, mas seus olhos negros brilhavam de uma maneira que só Albus Dumbledore podia entender:

 

– O garoto é muito pequeno para ser tratado desse modo, diretor. Se o seu raptor tem intenções ruins a respeito dele, o menino pode se desviar por caminhos errados.

 

– Interessante que você tenha mudado de opinião, Severus. Isso me deixa feliz. Não posso deixar de admitir.

 

– Isso não significa que eu subitamente esteja me derretendo pelo pestinha.

 

– Claro, claro, Severus. – O diretor de Hogwarts sorriu, passando-lhe uma xícara de chá. – Longe de mim insinuar tal coisa.

 

O jovem mestre de Poções tomou a xícara e lançou um olhar penetrante ao diretor. O velho mago pôde sentir a intensidade do olhar de Severus. Silenciosamente, ele temeu por quem atravessasse o caminho do mestre de Poções.

 

 

Em toda a sua vida adulta, aquela era a primeira vez que Remus não se preocupava com dinheiro. Não tanto pela "contribuição" que ele forçara de Vernon Dursley, mas de suas próprias economias. Ele sabia que as reservas estavam se acabando, e que logo ele precisaria de um emprego fixo, mas não podia se arrepender de ter tirado aquelas semanas para cuidar de Harry.

 

Afinal, Harry era um bom garoto, mas ele ainda surpreendia Remus em tantas coisas. Algumas faziam o lobisomem sentir o coração diminuído.

 

Quando Remus comprou uma poltrona grande no brechó, uma para ele se sentar com Harry ao colo para lerem livrinhos juntos, a reação do menino foi de pânico. Ele ficou de olhos arregalados, tremendo, esforçando-se para não chorar. Mas ele chorou quando Remus tentou sentá-lo na poltrona.

 

– O que foi, Harry?

 

– É veludo.

 

– Sim, é veludo.

 

– Não posso sentar em veludo.

 

– Você tem alergia? Bom, podemos trocar...

 

– Não. Não é "agerlia". Veludo é caro. Eu sou sujo. Eu vou sujar a poltrona, e aí você vai ficar bravo comigo.

 

– Harry, você não vai sujar a poltrona. Você não é sujo.

 

– Tia Petúnia diz que veludo não é para alguém como eu.

 

Remus respirou fundo e, com muito carinho, colocou o menino entre os braços.

 

– Sua tia fala muita bobagem. Que bom que ela não está aqui. Agora venha, vamos ver como é confortável a poltrona de contar historinha.

 

O menino relutou, relutou. Remus tinha o coração partido cada vez que notava que Harry não tinha esperança de ter coisas boas, de querer coisas boas para si, como se não merecesse. Ele também se sentia um pouco culpado por não ter dinheiro capaz de dar tudo o que queria para o menino. Harry merecia muito, muito mais do que Remus tinha condição de dar. Mas ele era amado.

 

No geral, porém, a vida era boa. Após anos economizando até tostões, fazendo qualquer tipo de serviço que pagasse bem, legal ou não, para dar uma vida mais decente a Harry, Remus até se sentia um pouco irresponsável por não procurar emprego tão cedo. Mas em breve Harry iria para a escola, e aí Remus poderia procurar com mais calma. Harry estava muito apegado a ele. Remus sabia que o garoto tinha medo de ser rejeitado e ficar sozinho de novo.

 

Remus jamais faria isso. Seu plano de adotar Harry tinha sido concebido logo após os eventos da noite de Halloween em Godric's Hollow. Quando Dumbledore mandara Harry para a casa dos Dursleys, Remus desconfiara que aquilo não seria bom para o garoto. Ele se lembrava de Petúnia e sabia que ela odiava Lily. Mais do que isso: sabia que Petúnia podia ser má. Afinal, tinha tentado fazer uma malvadeza com Severus Snape, e só tinha sido detida pelo próprio Severus, que não costumava deixar passar em branco esse tipo de coisa. Como tinha tido uma infância difícil e uma passagem por Hogwarts marcada por Marauders encrenqueiros, Severus odiava abuso. Remus também.

 

Daí sua idéia de adotar Harry. Para conseguir seu intento, tinha se voltado para o mundo Muggle. Trabalhara feito um cão, economizara como se sua vida dependesse disso. Conhecendo James e Lily, sabia que provavelmente eles tinham deixado algum tipo de cofre em Gringotts para Harry, mas ele não ousava se aproximar daquele dinheiro. Era de Harry e serviria para sustentá-lo em Hogwarts.

 

Até a hora do menino entrar para a escola de magia, Remus o sustentaria e proveria o menino. Pois era o que pais faziam pelos filhos. Ele o criaria como seu, longe das maldades de Petúnia. Ao posar de pipoqueiro e ver como Harry era tratado, ele tivera a certeza de que a coisa era ainda pior do que imaginara. Harry era magrinho e franzino, e o filho de Petúnia era uma baleia-mirim. Ele odiava pensar o que uma criança tão pequena tinha passado.

 

A Sra. Reesespoon tinha sido uma descoberta muito fortuita. A lua cheia passara tranqüila para ele, sabendo que Harry estava sob bons cuidados. Ele gostaria de ter uma solução mais permanente, pois não podia abusar tanto da boa senhora. Harry adorava a velha matrona e sempre dizia: "Ela é boa, Papai Remus".

 

Papai Remus. As palavras soavam como música celestial no seu ouvido. Remus jamais deixaria Harry se esquecer de seus pais biológicos, mas o garoto é que tinha escolhido reconhecê-lo como pai. Eles eram uma família, uma que Harry, carente de amor como era, queria desesperadamente.

 

Remus tinha tantos planos: ele poderia tentar um emprego no hospital local, e Harry poderia ficar numa escolinha de atividades depois das aulas normais, até que ele pudesse apanhá-lo após o trabalho. Harry também poderia tentar freqüentar uma colônia de férias do centro comunitário e assim conhecer mais amiguinhos de sua idade.

 

Mais tarde, Remus teria que apresentar Harry ao mundo mágico. O garoto vivia como um Muggle, e isso não lhe parecia muito certo. Mas, por enquanto, era o mais seguro. Como Muggle, não havia poder algum capaz de tirá-lo de Remus. Já no mundo bruxo, a coisa era diferente. Por isso, ele procurava adiar ao máximo o contato de Harry com tudo que fosse mágico. O mundo bruxo nunca o deixaria ficar com Harry Potter.

 

Dumbledore não permitiria. Assim como não tinha permitido que Remus fosse o fiel do Segredo. Tinha entregado o segredo a Sirius Black, e os acontecimentos provaram quem tinha traído os Potter. Remus fechou os olhos. As palavras de Dumbledore ainda o magoavam: "Não é nada contra você, Remus, meu rapaz. Mas Voldemort tem um poder sobre criaturas da sua espécie. Minha preocupação foi com a segurança da família Potter".

 

Velho manipulador. Ele concordara com Sirius, e Sirius tinha traído James e Lily. Agora eles estavam mortos, traídos pelo garoto de ouro da muy nobre e antiga família Black, o melhor amigo de James.

 

E ele é quem tinha sido suspeito de traição, por causa de "sua espécie." Ele se lembrava dos demais membros da Ordem, todos concordando com Dumbledore.

 

Pouco importava. Harry agora era dele, e não havia nada que Dumbledore pudesse fazer no mundo Muggle, para reverter isso.

 

– Papai Remus, posso dormir com Urso? – Ele mostrou o bichinho de pelúcia usado que eles tinham comprado no Charity Shop do Exército da Salvação.

 

– Claro que sim. Será que Urso vai gostar da historinha dessa noite?

 

– Qual vai ser?

 

– Bom, temos que continuar com Peter Pan e o Capitão Gancho. Os dois estavam duelando, lembra?

 

– É! E o crocodilo queria comer o Capitão Gancho!

 

– Bom, então diga a Urso para ficar pronto, porque daqui a pouco eu vou contar a historinha, tá bom?

 

– Tá! Vamos lá, Urso!

 

Remus sabia o quanto Harry gostava que ele o pusesse para dormir. Depois de anos adormecendo sozinho num armário pequeno e sujo, o garoto mal podia acreditar que alguém efetivamente velava pelo sono dele. O pobrezinho às vezes reclamava de pesadelos, e Remus sabia que os Dursleys só tinham acrescentado mais pesadelos às noites de Harry.

 

Depois que Harry adormeceu, Remus cobriu-o, com sorriso, ajeitando Urso. Depois ele beijou-lhe a testa, apagou a luz e acendeu a da outra sala. Assim, se Harry acordasse no meio da noite, ele não estaria no escuro total.

 

Quando ele foi à sala, guardar alguns brinquedinhos de Harry, ele viu o intruso. Hesitou por um minuto, pois tinha reconhecido quem estava ali.

 

Severus Snape.

 

Antes que ele pudesse reagir, porém, Snape tinha se aproveitado daquele minuto de hesitação. Sacou a varinha e apontou:

 

Petrificus totalus!

 

Capítulo 6 – Meu é o direito de estar errado

 

Foi num reflexo que Severus imobilizou o lobisomem. Ele tinha conseguido rastrear, como um perdigueiro, a localização do garoto através de uma técnica de investigação Muggle: o cadastro na rede de ensino. Embora ensino e saúde sejam responsabilidades dos condados ingleses, eles se reportam ao cadastro nacional de estudantes. E lá estava, tão certo como o sol se levantava, o nome de Harry James Potter, transferido do condado de Surrey para Somerset, matriculado numa escola em Kingswood, perto de Bristol. Severus tinha verificado dois outros Harry James Potter, mas estes estavam na escola secundária, um com mais de 16 anos.

 

Como o cadastro dava poucos dados pessoais, não constava nome do guardião, apenas os dos pais. Mas havia o endereço, e Severus não sabia o que ia encontrar quando chegasse lá.

 

Certamente não esperava Lupin. Dumbledore desconfiara que o lobisomem poderia sucumbir ao seu lado mais negro na época da ascensão do Lord das Trevas, mas nada tinha se comprovado. Em retrospecto, Severus achou até um pouco injusto, à luz da traição de Sirius Black aos Potters.

 

A verdade era que, por menos que admitisse, Severus tinha um ponto fraco em relação a Remus Lupin. Desde a época de escola, ele era atraído pelo lobisomem. Não tinha sido sem razão que, ao armar a brincadeira na Casa dos Gritos, Sirius Black tinha sido capaz de atrair para a cilada uma pessoa desconfiada como Severus tão facilmente.

 

Desde aquela época, Severus tinha ficado dividido sobre Lupin. Temendo uma rejeição, não tinha voltado a investir num relacionamento. Ainda mais com os Marotos a correr com ele em toda e qualquer ocasião. Severus acreditava que o lobisomem jamais pensaria nele desse jeito. Mas era inegável que seu coração perdia um pouco do ritmo toda vez que ele olhava Lupin. Especialmente naquele momento, petrificado, subjugado.

 

– Papai Remus!

 

Severus virou-se, varinha em riste.

 

Por aquilo Severus não tinha esperado.

 

Um garoto franzino, de pijamas com estampas infantis, encarava o mestre de Poções com um misto de horror, ódio e espanto. Ele parecia uma miniatura de James Potter. Mas os olhos eram de Lily.

 

E havia uma cicatriz na testa, uma que desfazia quaisquer dúvidas sobre a identidade do garoto.

 

– Não! Papai Remus!

 

De repente, um surto de magia atingiu Severus violentamente, jogando-o para trás, para longe de Lupin. O menino se jogou em cima do corpo petrificado de Lupin, chamando:

 

– Papai Remus! Papai Remus, levanta!

 

Severus tentou se sentar, e viu-se diante de um irado garoto, gritando, entre lágrimas de raiva:

 

– Você machucou meu Papai Remus! Sai daqui!

 

– Tenha calma – Severus tentou conversar. – Ele não é seu pai.

 

– Ele é meu pai! Ele me adotou! E sai de perto de mim!

 

– Harry, eu não vim aqui para machucar você. Vim aqui resgatá-lo.

 

– Não! Eu não vou com você! – O garoto se agarrou ainda mais ao corpo imobilizado. – Papai Remus, acorda! Você deixou meu Papai Remus doente! Eu odeio você!

 

– Ele não está doente, Harry. Ele vai ficar bom. Mas antes eu quero ter certeza de que ele não vai fazer nenhum mal a você.

 

– Ele é meu papai! Ele não me machuca nunca, e ele me adotou porque ele é o melhor papai do mundo!

 

A situação se complicava, e Severus pensou nas opções. Se ele tentasse remover Harry de Lupin, poderia sofrer outro surto de magia bruta do garoto. Ele podia sentir a magia no ar, como eletricidade estática, estalando surdamente.

 

– Muito bem, então podemos entrar em um acordo – ele propôs ao seu pequeno interlocutor. – Eu o libero do feitiço, mas vocês vêm comigo. Os dois.

 

– Para onde?

 

– Falar com uma pessoa. Essa pessoa vai gostar de ver vocês. Está preocupado com você, Harry.

 

– Eu não vou voltar para a casa do tio Vernon!

 

– Não é seu tio, moleque! – irritou-se Severus. – É um grande bruxo. Ele está muito preocupado com você desde que deixou a casa de seus tios. Então? Combinado?

 

– Eu só faço o que o Papai Remus me disser para fazer. – O garoto pequetito o encarou com seriedade. – Você quer fazer mal a ele?

 

– Eu preciso descobrir ainda se ele quer fazer mal a você, Harry. – Ele interrompeu o protesto. – Eu sei que você não acredita nisso, mas quero decidir isso por mim mesmo.

 

Harry continuou encarando Severus de maneira solene. De repente, ele decidiu:

 

– Você não quer mal. Não quer fazer mal para mim.

 

Não era uma pergunta, mas Severus se viu concordando:

 

– Eu jamais faria mal a você, Harry.

 

– Você quer me proteger que nem Papai Remus me protege.

 

– Na verdade, sim.

 

– Por favor, faz Papai Remus ficar bom de novo. Ele tá doente.

 

O apelo do garoto estranhamente fez Severus se sentir desconfortável. Ele tirou a varinha e pediu:

 

– Por favor, afaste-se dele um pouco.

 

O menino obedeceu, e Severus pôde enunciar:

 

Ennervate.

 

Severus viu a aflição do menino enquanto Lupin sentou-se no chão, com uma careta de dor. Ele se agarrou ao lobisomem:

 

– Papai Remus!

 

– Você está bem, Harry? – Lupin o apertou entre os braços. – Você está bem, não é?

 

– Está tudo bem, Papai Remus. O moço não quer fazer mal.

 

Lupin se ergueu, sem soltar Harry, agora encarando Severus:

 

– Severus, que acha que está fazendo?

 

– Em primeiro lugar, vim localizar o pequeno Potter. As notícias que tínhamos era que ele tinha sido arrancado da casa dos tios no meio da noite por um homem hostil e violento.

 

– Mais ou menos como está tentando fazer agora?

 

– O menino já determinou que eu não sou ameaça. Eu, contudo, não tenho a mesma certeza em relação a você, Lupin.

 

– Se eu fosse uma ameaça, teria conseguido adotar legalmente o menino?

 

Severus ergueu uma sobrancelha, e Lupin continuou, sem esconder a satisfação com o sabor de vitória:

 

– Isso mesmo. Harry é meu filho legal. Nem você nem Dumbledore podem encostar nele sem minha permissão.

 

– Muggles não teriam dado a guarda do menino a você. Sem esposa, sem emprego fixo... Isso não pode ser legal.

 

– O papel é legal, posso garantir. Talvez eu tenha convencido um ou dois funcionários a agilizarem o processo, mas ele tem valor legal.

 

Usando Legilimência, Severus descobriu que Lupin estava falando a verdade. Ele era o guardião de Harry Potter. Mais do que isso: Severus pôde captar na mente de Lupin o sentimento de possessividade, de profundo amor pelo menino. Coisa de um pai verdadeiro.

 

Severus apontou um problema:

 

– Isso não vai deter o Prof. Dumbledore.

 

– Droga, Severus! Ele não pode nos deixar em paz?

 

– Pode dizer isso a ele você mesmo.

 

Lupin rosnou:

 

– Eu poderia ter mudado de nome, poderia ter levado Harry para ainda mais longe, fora do país. Mas eu não quero criá-lo num clima de medo. Eu não quero...

 

– Lupin – interrompeu Severus –, não precisa dizer isso a mim. Diga a ele.

 

– Então você não tem nada contra eu criar Harry?

 

– O menino parece se sentir seguro a seu lado. Você está genuinamente preocupado com o garoto. Não parece ter intenção de entregá-lo a... más companhias. Obviamente não compartilha das alianças de seu amigo Black. – Olhou em volta. – Está num local sem luxo, mas com ambiente limpo e adequado a uma criança. Harry é jovem demais e não merece viver sob o microscópio da imprensa.

 

Lupin pareceu surpreso. Severus também estava tentado a erguer uma sobrancelha diante de sua própria atitude. Harry abriu um sorriso:

 

– Ele é amigo, Papai Remus!

 

E isso era mais do que espantoso, para os dois envolvidos.

 

Continua...