Agressividades

 
Agressividade : Um Sintoma Revelador em Sala de  Aula

O Significado  da emoção :

Emoção significa o estado de ser movido. Externamente, revela-se no riso ou na lágrima e internamente inclui três qualidades de experiência:

      -          o sentimento : alegria, tristeza, raiva, medo
-         
o impulso : em direção a uma ação
-         
a consciência  ou percepção: (intelectual) que  leva a pessoa a conhecer o que é ou do que é que produz os impulsos e sentimentos.

O desenvolvimento das emoções durante a infância e a meninice é entrelaçado com outros aspectos do desenvolvimento. Nos primeiros anos da infância, a manifestação de emoções por parte da criança é mais natural podemos dizer mais verdadeiros, o controle da manifestação das emoções  é feito através do desenvolvimento (capacidade de compreensão, autoconhecimento,  das interações sociais  e da educação).
Desde cedo a criança aprende a ocultar sentimentos e controlar emoções ouvindo “não chore”.
É natural a criança gritar quando ferida, soluçar quando está triste, chorar quando está sozinha, gritar quando está com medo, esganiçar-se quando está com raiva.
As crianças diferem não apenas na sua maneira de reagir a embaraços provocados pelos outros, mas também a tornarem-se irritadas em consequências de atividades próprias.
Existem formas diretas e indiretas de manifestar os sentimentos. Por exemplo o riso debochado ou a recusa de falar pode ser uma manifestação de cólera.
Amor e ódio são as principais emoções que constroem as relações humanas.
De todas as tendências humanas, a agressividade é escondida, disfarçada, atribuída a agentes externos e quando se manifesta é sempre uma tarefa difícil identificar suas origens.
A agressão é o “passo em direção” ao objeto do  apetite (algo que me dará satisfação) ou da hostilidade.
Quando há uma iniciativa, haverá uma preparação para esse movimento em direção a algo que desejo, por exemplo meu organismo sente fome e realizo uma ação para realizar meu desejo, quando sou impedida de realizar essa satisfação perderei a confiança, por não ter atingido meu objetivo e o  movimento para próximas iniciativas enfraquecerá.
Agressividade é a tendência ou conjunto de tendências que se atualizam em comportamentos reais visando prejudicar o outro, destruí-lo, constrangê-lo, humilhá-lo, podendo se manifestar de diferentes formas, mas que envolve uma ação, uma atitude passiva ou ativa.
A aniquilação, destruição, a iniciativa e a raiva são manifestações de agressividade essenciais para o crescimento no contato do organismo com o meio. Podem ser considerados como respostas defensivas à dor, à invasão ao perigo. Por outro lado a dominação, o sadomasoquismo o suicídio são manifestações  de agressões introjetadas.
Podemos considerar a destruição uma função da alimentação, onde por exemplo, todo o organismo em contato com o meio cresce incorporando, digerindo e assimilando substâncias novas  e isto exige destruição da forma já existente e para obter os  elementos assimiláveis dentro de um campo,  se o que foi introjetado anteriormente não for destruído ou digerido, ocorre em lugar da assimilação a introjeção.

O introjeto tem dois caminhos:

      -          Ou é algo estranho e dolorido que será  devolvido para o meio (como o vomito)
-         
Ou ficará reprimido

A destruição, a aniquilação e a iniciativa são componentes da agressividade que estão permeados pela raiva.  O obstáculo é considerado  como algo a ser destruído e é atacado com ardor prazeroso.  Existe o apetite de destruição, um ataque hostil .
A frustração  também pode conduz à hostilidade,  a raiva se inflama contra o frustrador.
A raiva muita vezes persiste mesmo não estando  mais a nossa frente o obstáculo frustrador (continuamos com raiva mesmo que a pessoa tenha morrido ou não esteja mais perto de nós)  mas por ainda fazer  parte de nós mesmos e não podermos  transformá-lo em nada,  em algo que ainda precisamos, esse movimento gerará impotência.
A psicanálise reconhece que a agressividade atua desde o início do desenvolvimento do indivíduo como  pulsão agressiva ou pulsão de morte que projeta o individuo a lutar pela vida.
Pulsão é energia que pode ser direcionada para o ambiente ou para o próprio indivíduo.
A pulsão de morte visa a redução completa das tensões isto é tendem para  reduzí-las. 
O instinto de morte é inerente ao homem, a  finalidade de toda vida é a morte.
A pulsão de morte contrapondo-se a pulsão de vida, ou de auto-conservação.
A pulsão de vida é também denominada pulsão sexual  regida pelo princípio do prazer, busca da união, ligação e   desagregação.
Uma parte dessa pulsão é posta diretamente a serviço da função sexual, pulsão de dominação, vontade e poder e quando voltadas para o exterior  o alvo da pulsão de agressão é a destruição do objeto.
O dualismo instintivo: pulsão de vida / pulsão de morte buscam sempre um caminho mais curto para a descarga pulsional.
Desta forma podemos pensar na agressividade como inerente a espécie humana sendo um  fator da filogênese (espécie) a história do homem, civilizações foram construídas com luta e destruição. Destruir para construir, novos valores, novos princípios, derrubar o velho e erguer novas formas.
A história da humanidade é marcada por grandes ações violentas, necessárias para conquista, domínio, exploração, revoluções sociais, luta pelo poder.
Toda  civilização é a modificação do ambiente natural, que passa por uma destruição, para que se construa algo, por exemplo  devastar uma floresta para construir mesas e objetos, ou matar  animais para  servir de alimento.

O homem não sobreviveria se não fosse naturalmente destrutivo e agressivo e se esse poder não fosse usado de forma positiva.
Em termos darwinianos, para a evolução interessa aquele que é capaz de sobreviver e de deixar descendentes e  nesse caminho a evolução seguir,  a violência desta forma tem um papel preponderante.
A violência no processo de humanização da natureza nada mais é do que a forma  pela qual o homem lhe impõe uma lei a ela estranha, uma lei humana, forçando ou violentando sua legalidade natural. A sociedade é violação constante da natureza.
Violência é um atributo humano, implica no uso da força na natureza as forças atuam, mas não se usam só o homem usa força, sendo sujeito e objeto dessa ação, utiliza violência para transformar ou remover obstáculos.
A violência é então alteração ou destruição de uma ordem física, de uma estrutura material, as ações violentas tem objetivo de conquistar alguns privilégio.
Mas o que caracteriza a violência não é a força em si, mas o uso humano da força em si,  para alterar ou quebrar uma resistência física.
Violência desta forma é ambivalente sendo  necessária para mudança porém desumaniza, por ser coerção, impedindo a liberdade, o diálogo, a  compreensão  de direitos.A violência é inevitável quando diz respeito a sobrevivência e a criança é vista como violenta ou agressiva quando está simplesmente manifestando raiva ou quando é incapaz de comunicar seus verdadeiros sentimentos de forma diferente daquela que está utilizando é como se estivesse fazendo a única coisa que sabe, no sentido de prosseguir sua batalha de viver.
A manifestação da raiva é vista como anti-social, porém as crianças desde cedo assistem a raiva em forma de violência na TV, cinema, na mídia, no autoritarismo, no mundo. Agressividade faz parte dos dotes do Animal Homem  além da guerra, rapina e brincadeiras hostis, calúnias invejosas, brigas domésticas, disputas esportivas, rivalidades econômicas, a agressão esta solta no mundo.
É vista como uma ação hostil sobre o meio,  como   força que leva o indivíduo a agir para buscar um estado de equilíbrio,  possibilita-o a adaptar-se às condições de uma vida em grupo, realizar-se,  auto-afirmar-se.
Todos os nossos sentimentos envolvem o uso da energia física expressa através das funções musculares e corporais e se não manifestarmos a nossa raiva de algum modo direto, ela se manifestará de alguma outra  maneira que geralmente é prejudicial a nós mesmos.
Entrar em contato com a raiva, tomar conhecimento do que nós deixa com raiva, esse é o primeiro passo para ajudar as crianças a se sentirem fortes  e inteiras em vez de fugiram e evitarem  temerosamente esse sentimento ou mesmo descarregarem esse sentimento de forma indireta.
Mas por outro lado a criança que manifesta sua agressividade é rotulada como extremamente irriquieta, que age impulsivamente às vezes sem motivo, procura atingir outras crianças, fala alto, desobediente provocativa, dominadora. Os adultos nào gostam desse comportamento e frequentemente os aborrece e são chamadas de crianças agressivas, rebeldes, difíceis, desobedientes, sendo rótulos resultantes de julgamentos que podem ficar estigmatizados no vida da criança.
Esses atos que são vistos como anti-sociais   podem incluir comportamentos hostis, intrusivos, destrutivos relacionados a sentimentos de abandono, rejeição, insegurança, ansiedade, mágoa, senso de identidade confuso. 

A agressividade envolve fatores :

Ao considerarmos a agressividade  devemos nos remeter a influência de três fatores inter-rerlacionados :

·        
constitucionais -  instintos agressivos
bagagem hereditário -pré-disposição : da espécie fator filogenético e ontogenético
·        
químico/ orgânico- testosterona
·        
ambientais - família / sociedade  – condições sócio-econômica

Pesquisas revelam que comparando crianças de nível sócio-econômico inferior são  em média mais francamente agressivas e tem mais probabilidade de se tornarem delinquentes.  A diferença maior está no comportamento manifesto da hostilidade, que  em camadas inferiores as formas  de manifestação parecem mais violentos. (armar, estiletes, vidro, quebradeira) .
Assim como,  a agressividade    manifesta estar mais presente no   sexo masculino  ser   devido  à nívéis  mais  altos de testosterona, (substância  desencadeadora dos  atos agressivios)   e no organismo  feminino  com  uma produção menor terá menos  interferência em seus atos. 

Desenvolvimento e  a Manifestação da Agressividade :

O choro do recém nascido não tem o tom de um lamento, mas é carregado de fúria, esta é a primeira situação de angústia vivida pelo homem  e impulsionado por essa amargura da separação o bebê começará a entender sua própria individualidade. Esse processo será vivenciado e repetido inúmeras vezes, através de dolorosas separações.
O bebê só sabe que existe o bom e o mal (segundo M. Klein- seio bom e seio mal) Quando a mãe sacia sua  necessidade  isto é bom  e tem ora que por mais que se esgoele a mãe não virá, causando-lhe frustração, será então preciso aprender a lidar com isso, com a ausência da mãe e a  frustração.
Aos poucos  aprende que  mãe boa e ruim são a mesma pessoa e precisa lidar com esse conflito, oscilando entre docilidade e fúria.
Segundo  Winnicott, o bebê ao morder os seios da mãe  (muitos chegam a tirar sangue) tem o impulso para  destruí-lo enquanto está sendo  amamentados e até acreditam que o fazem, morderá  o seio quando estiver excitado e não quando frustrado. O bebê pode machucar e sentir um impulso para isso mas também existe  a tendência para inibição dos impulsos agressivos, protegendo o que ama. Nesse momento de vida o único objetivo do bebê é a satisfação, a paz do corpo e de espírito.
O paradoxo amar/destruir e proteger, acompanha a criança na 1ª infância, ora chamando a mãe (e outros) de chata e bruxa, ora chamando-a para brincar dizendo que a adora.

Na Infância – para Freud, as crianças são completamente egoísta, sentem sua necessidade intensamente e lutam de maneira impiedosa para satisfazê-las, especialmente contra os rivais, contra outras crianças acima de tudo, contra seus irmãos e irmãs, mas nem por isso chamamos uma criança de má, dizemos que ela é “levada”.
Para Winiccott, quando a criança  brinca de empilhar e derrubar blocos de madeira a agressividade  está sendo revelada nessa ação de construir e destruir. Nesse contexto ela pode ser destrutiva sem que se sinta desesperada.  Para poder  controlar as forças internas, força de amor e força de ódio, o indivíduo tem de fazer algo para salvar-se e uma das coisas que faz é colocar para fora o seu íntimo, dramatizar exteriormente o mundo interno, representar ele próprio o papel destrutivo e provocar seu controle por uma autoridade externa, a fantasia dramatizada é uma forma de controle sem sufocação séria  dos instintos.
A criança na 1 ª infância é extremamente egocentrada, seu desejo é de ter só para  si o amor da mãe e gozar os prazeres de ser o centro das atenções é  essa caracteristica que despertará  o sentimento absolutamente natural de hostilidade entre os irmãos, principalmente de filhos mais velhos com relação aos irmãos mais novos, até mesmo a ponto de realmente desejar a morte do rival ou mesmo do coleguinha mais forte.
A primeira experiência da criança no que se refere à competição, geralmente sobrevêm no próprio lar. Pode ser rival de um ou de ambos os pais, exigindo a afeição e atenção de um ou de ambos e em relação aos outros irmãos poderá haver rivalidade. Esse significado de morte para as crianças tem o significado de “ir embora” e não importa o modo como essa ausência é provocada (se por viagem, demissão, separação, morte) “eu vou te matar” dito pela criança corresponde a uma ameaça fatal. Fruto da rivalidade, disputa, competição, desejo de eliminar o inimigo.
Rotular a criança de violenta pode tornar-se perigoso, é necessário antes de tudo descobrir porque está usando tais atitudes.

@  para chamar atenção – para si
@ para contrariar o adulto – como forma de puní--lo
@ por um comportamento reacional –

Deve-se perceber que todo ato infantil pertence a um contexto que deve ser entendido.
Por volta dos dois anos as crianças são sociáveis em relação a outras crianças, apesar de ficarem juntas as atividades são paralelas com intercâmbios ocasionais, as crianças costumam ser mais cooperadoras e amistosas que competidoras e hostis.
Quanto mais trava contatos,  maiores são as suas probabilidades de entrar em atrito com os outros. É  no brincar que a criança torna-se capaz de experimentar tudo que se encontra em sua íntima realidade psíquica pessoal, haverá agressividade como amor  e isso será a base do sentimento de identidade que está em desenvolvimento.
À medida que se torna mais capaz de tomar parte ativa em realizações sociais complexas, a criança torna-se mais consciente das realizações sociais  e de sua própria condição, em comparação com os outros.
Entre as crianças de dois a  quatro anos  nota-se conflitos de curta duração envolvendo gritos, choro, agressões  e ataques físicos, sendo que em crianças mais velhas nota-se que os meninos são mais fisicamente agressivos que as meninas.
A medida que crescem  inclinam-se a empregar a língua como arma forma que se mantém com mais frequência na vida adulta e seus conflitos tendem a durar mais tempo.
Com o aumento da sociabilidade a criança vai exercitando  a independência se afirmando  como pessoa, defendendo seus interesses e direitos  tais como os concebe.

Na pré-adolescência : (7 e 12 anos)

Nesse período a tendência de desenvolvimento é voltada para o comportamento do grupo. Alguns comportamentos podem revelar as facilidades ou dificuldades que sentem ao entrar nessa nova fase. A escola não é mais a maternal, onde os cuidados e atenções eram mais próximos, agora são maiores as exigências e algumas apegam-se ainda aos pais chorando e armando cenas outras entram com avidez ansiando pela escola, algumas manifestam livremente suas emoções, enquanto outras as mantém escondidas. Essas  emoções também são sentidas pelos pais que embora satisfeitos por verem seus filhos cresceram sentem um aperto na garganta ao vê-lo deixar a casa em seu primeiro dia de escola.

No início dessa fase as atividades de grupo são pouco organizadas, não existindo uma coesão e uma liderança, necessitam ainda de um adulto para direcionar e ajudar na organização das atividades grupais.
Desejam ser aceitas e reconhecidas pelo grupo e desta forma muitas tornam-se tímidas e embaraçadas em relação aos atos que antes eram perfeitamente espontâneos, temem serem avaliadas como ridículas e perderem o prestígio.
Outras são capazes de fazerem de tudo para serem notadas e aceitas, por meio de palhaçadas, exibições ou até mau comportamento.

As vezes um comportamento desconcertante para os adultos pode ter sido motivado pelo desejo de agradar os companheiros ou conquistar suas atenções.
Quanto aos seus sentimentos, quando repelida ou ridicularizada pelos companheiros, podem ir desde a dor e o desespero até a cólera extrema.

Um aspecto importante de desenvolvimento social da criança é sua crescente percepção ou consciência dos sentimentos, humores e intenções dos outros. A consciência dos outros pode ser notada quando a criança conclui que um companheiro está se divertindo ou pouco à vontade mostrando-se  sensível aos humores dos outros, muito embora não possa ser capaz de definir isso através de palavras.
Desenvolver  essa capacidade para colocar-se na situação das outras pessoas e identificar-se com pessoas e objetos externos é possível quanto mais autêntica a comunhão da criança consigo mesma, no sentido de ter liberdade para sentir sinais de cólera, medo, alegria, tristeza, estima e aversão que nascem dela, mais sensível será às sutis mensagens dos outros e isso envolve autoconsciência e a consciência dos outros.
As lutas francas e alterações geralmente entram em declínio quando podem  compreender e aceitar as regras e códigos implícitos nos relacionamentos isso não significa que haja um declínio da combatividade, mas aprendem técnicas para evitar ou repelir as pessoas que possam ser ameaçadoras.
Tirar um sarro, insultar, colocar apelidos  são atitudes muito presentes  nessa fase, recursos para disciplinar e ferir umas as outra, sinal de pressão emocional mais sério que a luta franca.
Na luta franca a criança age sob impulso do momento: alguém a aborreceu, ela reage e assim se encerra o episódio. Aquele que trocida, entre outras possibilidades, poderá estar manifestando,  que algo ocorrido no passado,  não tenho sido satisfatoriamente  resolvido internamente.

Formas de Agressividade:

A agressividade tem dois significados podendo  ser um sinal de força, tanto quanto de fraqueza.
Sinal de força quando mobilizada em situação de defesa (própria ou de pessoas que amamos) demonstrando ser uma fonte de energia do indivíduo.
Sinal de  fraqueza quando   direta ou indiretamente é uma reação à frustração,  quando  desviada, não sendo dirigida contra a verdadeira fonte da dificuldade.

-          heteragressividade normal: necessária para o indivíduo adaptar-se ao meio, podendo surgir em graus elevados por influência do meio, que exercendo ações inadequadas incumbe-se de transformar heteragressividade normal em reacional. – levando ao impedimento do ajustamento social, gerando hostilidade que se volta contra o meio.

-          heteragressividade reacional: são reações à influências vindas do ambiente,   que o organismo sente como negativas, gerando :

       - Comportamento Imitativo - hábito de bater

       - Comportamento Defensivo: formas disfarçadas – maneira mais passiva, não estudar,      não se pentear, não comer, não evacuar (como se batem-se nos pais)

       - Comportamento Impulsivo: explosões

A força agressiva  pode estar voltada para o meio ou dirigida contra o próprio indivíduo, auto-agressividade – quadros de masoquismo

Manifestação de Agressividade:

1. Voltada contra  o meio:

Poderá transformar-se em hostilidade  sinais denunciadores de uma perturbação afetiva, sintoma revelador de que a criança não está evoluindo naturalmente ou não está recebendo o que requer seu tipo constitucional, ou sua forma afetiva de ser.
Através de manifestações como,  chorar, gritar, atirar objetos, bater no outro, xingar, ameaçar, recusar a obedecer, fugir.

O Sadismo  é a violência exercida sobre outrem.
Durante a infância são implacáveis as brincadeiras sádicas, chamam a grandalhona de girafa, o gordo de baleia e isso é visto como maldade na ótica adulta.
Nessa época a criança é também muito rígida quanto aos valores morais (bem e mal) reconhecem que as punições devem ser aplicadas frente a um ato que consideram errado. Se tiveram forte influência religiosa a questão de punir, pecar, Deus são seriamente considerados. O sadismo -masoquismo é uma tendência natural do ser humano, que pode se mostrar desde a infância, dependendo também do ambiente.
No sado-masoquismo  manifesta-se o conflito entre dominação-submissão. Um sádico é sempre ao mesmo tempo um masoquista,  tendo um lado passivo e outro ativo. 
As tendências sádicas e masoquistas dizem respeito a pulsões e destinos de pulsões libidinais sendo  que sensação de dor  e outras sensações de desprazer substituem o domínio da excitação sexual, provocando um estado de prazer num nível patológico são consideradas perversões onde há um conflito psíquico com conteúdo  de realização sexual. A criança tem um lado cruel e são ensinadas pela educação a mudar esse comportamento.

2. Reprimida:

Poderá transforma-se em comportamento anti-social, a raiva engolida pode ser transformada em doença psicossomática, de formas  variadas. A criança pode reprimir a raiva com medo de perder o amor do outro ou por vergonha ou medo de ser punida.
A hostilidade  pode vir encoberta também  pela amistosidade, em crianças mais velhas essa pode ser uma atitude deliberada e  um polido disfarce da agressividade.

3. Voltada contra  si :

Todas as formas de auto-punição física (morder-se/ bater a cabeça/ não comer/ não tomar banho/ auto-reprovação/ desvalorização/ jogar-se ao chão/ tendência a meter-se em dificuldades ( forma masoquista)
Masoquismo
– para Freud -  (considerado uma perversão com conotação libidinal)  sendo um  estado em que a pulsão de morte está dirigida para o próprio indivíduo, a agressividade não estaria então voltada para um objeto exterior, existe também o retorno do sadismo sobre a própria pessoa se juntando ao masoquismo. A auto-agressividade num nível elevado pode levar a auto-destruição e num grau elevado ao suicídio.
Quando a  agressão é mantida internamente, há um masoquismo, o que se deseja não é a dor, mas a liberação dos instintos represados.

4. Sublimada :

Que é  revelada nos  trabalhos artísticos ou êxitos pessoais (profissão) – na apreciação de uma produção artística, deve-se avaliar não só o talento mas a luta que há por trás da realização, existe uma expressão da agressividade controlada, agressividade dominada e convertida em atividade sublimada.

Alguns comportamentos sugerem problemas de fundo psiquiátrico ou neurológico e devem ser vistos e reconhecidos com atenção e tratados por especialistas.

-          Hiperatividade:  caracterizada pela falta de atenção e inquietação motora (neurológica)  terá sérias dificuldades de aprendizagem . 

-          Neuroses : resultantes de traumas pessoais, que comprometerão  o mundo interno da criança refletindo em  sua maneira de estar no mundo em suas relações, o que foi  introjetado e  suas  projeções. 

-          Psicoses: distúrbios graves de personalidade, psicoses que geram distúrbios de comportamento (quadros de autismo), manias, depressões 

-          Epilepsia: baixa tolerância a frustração, irritabilidade, sensibilidade a barulho, luz  

-          Deficiência mental : menor capacidade de compreensão de regras, aceitação de limites, capacidade para suportar frustração, impulsividade.

A  Intervenção -  Atitudes dos adultos ante a agressividade das crianças

Costumamos julgar a agressividade ou ausência de agressividade na criança, pelos seus atos.

Quando uma criança lança-se à luta, brigando, arranhando ou explodindo suas intenções não são muito pacíficas, talvez da mesma forma que aquela que desde cedo aprendeu a reprimir a cólera, dissimuladamente. Podemos encontrar enormes diferenças quanto à medida em que as crianças demonstram e manifestam seus impulsos agressivos, geralmente ficamos mais chocados  com atitudes manifestas do que com as contidas.
A manifestação da agressividade enquanto sintoma  é gradual, a criança vai expressando suas necessidades de modos mais sutis, mas os adultos em geral não prestam atenção, só  começam a perceber quando a manifestação parte para comportamentos expressos e considerados como anti-sociais que podem ainda ser  uma tentativa desesperada de restabelecer uma ligação social.

Em situações de grupo a intervenção para interromper os conflitos na maioria dos casos,  os adultos decidem a questão contra as crianças mais agressivas tornando a menos agressiva  vencedora, essa atitude deve ser ponderada por  que talvez nem sempre as menos agressivas são a parte inocente da situação  desencadeadora do  conflito.

Temos que considerar que a criança é fruto de uma relação com o meio, e não só dos fatores genéticos. A criança é fruto de uma relação com os pais, professores, sociedade e não só dos fatores genéticos.
Devemos  perceber  se  a criança está atuando num campo perverso (manifestações de perversidade)  e isso pode ser reconhecido a partir da forma como ela se relaciona com seu meio físico e social, daí a intervenção do adulto, sendo estimulada a exercer e extravasar a agressividade para atividades construtivas. Solicitar que colabore delegando-lhe algumas tarefas, por exemplo.
Durante os  primeiros anos de vida a interferência do adulto em situações de conflito e disputa ajudará  a que  conheça   os meios socialmente aprovados da boa convivência é na escola maternal que isso melhor se desenvolve e esse aprendizado não será conseguido impedindo-as de lutar ou  brigar mas através de situações lúdicas e atividades que envolvam participação dinâmica em jogos e atividades  que  permitam a  expressão e  liberação de  sua agressividade de forma construtiva.
A criança agressiva mostra muito depressa o que está acontecendo com ela,   inibição ou retraição, recusa, também são manifestações de agressividade que devem ser tão considerados quanto comportamentos  que não manifestam  agressividade.
A energia gasta para conter  sentimentos de raiva leva a um comportamento inadequado. Muitas crianças não manifestam seus sentimentos para não aborreceram seus pais mantendo-os reprimidos para não aborrecer ou sobrecarregá-los.   E uma das coisas mais difíceis para as crianças é aprender a ser diretas com seus sentimentos de raiva, os reações, críticas e punições  dos adultos geram nas crianças atitudes   manipulativas, evasivas e indiretas,  isso pode ser desencadeado pelos  comentários e reações dos adultos .

  

   -          possibilitar que a criança fale de seu verdadeiro sentimento de raiva e não desvie esse sentimento para outra situação ou pessoa
   -         
ser confirmada e reconhecida em relação ao seu sentimento 

São  formas de ajudar a criança a reconhecer, expressar e  lidar com seus sentimentos.

Prevenir-  Aproveitamento dessa energia de forma  preventiva – quando se percebe tendências agressivas poderá ser direcionada para atividades/ brincadeiras e jogos:

·         destruir para construir – desde que se tenha um objetivo  para essa  construção  ex. quebrar uma caixinha de madeira e com as peças resultantes obter um novo efeito, que poderá não satisfazer ao adulto mas será muito prazeroso para a criança por sua criação, isso lhe  trará segurança e confiança em sua própria capacidade.

As crianças poderão brincar ou realizar trabalhos manuais utilizando massinhas, peças de encaixe, realizar trabalhos com madeira, utilizando martelo, pregos, tintas. Esse material servirá para que construam e criem, a iniciativa deverá ser deles, sem que haja modelos, a interferência de adultos, somente orientação para manuseio do material.
Brincadeiras com bonecas, casinha, arrumação, comidas agradam muito as crianças, principalmente as meninas, essas  brincadeiras não só possibilitam que se identifiquem com pessoas, como exercitando papéis e posturas diferentes, (muitas vezes num exercício de poder: ser pai, mãe, professor – mandar e desmandar) sendo uma expressão agressiva socialmente aceita.

·         jogos esportivos, principalmente  em grupo, além da descarga física, desenvolve respeito, auto-disciplina e cooperação.           

Competição e cooperação em alguns aspectos são opostos, mas oferecem à criança que está crescendo oportunidades de descobrir seus  próprios recursos  e testar as próprias habilidades.

Alguns jogos infantis permitem reações agressivas que o meio aprova, sendo necessário um mediador para que possa servir de orientador e conduzir a dinâmica. Essas atividades poderão ser usadas para direcionar a força da agressividade  podendo expressar socialmente sem hostilizar.
Os jogos e brincadeiras que envolvem cooperação tem a probabilidade de serem mais amenos, amistosos e agradável que uma atmosfera de intensa competição. Num ambiente de cooperação, a criança pode manifestar e apreciar companheirismo, solidariedade, aproximação e espontaneidade. 

A competição afeta a criança em seu contato com o mundo, como filho, enquanto aluno e como indivíduo  membro de uma sociedade competitiva. Os esforços competitivos,  envolvem agressividade e luta para enfrentar desafios que  também tem conotações tanto sadias como doentias.
A criança competidora  caminha para  autodescoberta, esse é um aspecto positivo porém quando a competição, para a criança significa vingança ou rancor em relação a si mesma ou ao outro e lançando  com o fim único de  vingança pode tornar-se doentia, convencendo-se  da importância de superar os outros  e  que esse motivo transcende em todos os seus atos  (entrar para vencer) .

A manifestação da agressividade da criança  costuma provocar a irritação do adulto (pais e professores) todavia  após a manifestação é bom que seja reconhecido o episódio avaliando sob uma ótica mais ampla :

    -         
Que se pode aprender com essa manifestação ?
    -         
Que  poderia ter deflagrado a agressividade?
    -         
O que a situação poderia revelar quanto às expectativas da criança ou do meio ?
    -         
Que estaria  sendo denunciado  ?

Entender   a manifestação da agressividade da criança implica também, em estabelecer normas e condutas que possam servir como referencial de conhecimento de si mesma e do meio em que se vive  a partir daí se autodisciplinar.
Enquanto educadores e pais devemos ter  uma postura coerente, clara e sincera ser firme em nossas colocações, mas não necessariamente rígidos, possibilitar que acordos sejam estabelecidos e um cumpridos, sem chantagem,  incentivar atividades em grupo, esportes, jogos,  tendo em vista a cooperação, acompanhar  e reconhecer sue esforços sem estabelecer comparações,.
Disciplina, respeito, cooperação, participação, compreensão, reconhecimento e amor,    na medida certa, poderá ajudar na formação  e desenvolvimento  humano .  

Se pudermos compreender a agressividade de uma criança teremos  indo longe com a compreensão de nossa própria agressividade e se pudermos conhecer desde cedo o potencial heteragressivo de nossas crianças poderemos ajudá-las a transformar essa energia para algo que possa ser construido, inovador e criado.

Maria de Lourdes Fonseca
psicóloga


Bibliografia

A Criança Agressiva - Ed. Martins Fontes - David Winemam e Fritz Redl
O Tratamento da Criança Agressiva -  idem
O Sadismo da Nossa Infância - Ed. Summus -  Fanny Abramovich
O  Pequeno Tirano -  Ed. Martins Fontes -  Jirina Prekop
O Brincar e a  Realidade  - Ed. Imago - D.W.Winnicott
Privação e Delinquência - Ed. Martins Fontes -  D.W. Winnicott

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