Minha Vida...

E o Kung Fu

Por: Santos, Valdemir Soares dos 


Meu nome é Valdemir Soares dos Santos.
Comecei a gostar de artes marciais desde muito cedo. Aos 8 anos eu via meu tio Deda fazendo alguns pulos , alguns golpes de capoeira e eu comecei a imita-lo, mas não levava muito jeito pra coisa .
Comecei a gostar mais ainda quando vindo da escola vi um homem fazendo uns movimentos estranhos no meio do mato, parei pra olhar e ele parou os movimentos.
Outro dia o vi novamente, mas desta vez havia mais pessoas com ele, fazendo os mesmos movimentos que ele, mas ele parecia não estar ensinando nada.
Meio acanhado pedi para ele me ensinar também, mas ele me disse que não ensinava nada, apenas fazia os movimentos e quem quisesse era só acompanha-lo. Ele dizia que não era nosso mestre, mas quando fazíamos algo errado ele nos dava um castigo, flexão de braço, andar uma certa distancia em patinho, sempre um castigo quase insuperável.
O que mais me deixava feliz era o desafio que era o dia a dia dos treinos, eu não me lembro de ter tido um dia igual ao outro. Confesso que não gostava de tudo que fazia, gostava apenas da física, acrobacias, subir nas árvores, andar nas cordas, o que eu não gostava era de fazer katis, pois ainda não havia descoberto as maravilhas que existiam naqueles movimentos.
Só 2 anos depois, em 1974, eu fui entender o que era e para que servia tudo o que vinha fazendo, entendi o que era o Kung Fu, sua historia, sua origem e seus estilos.
Não é fácil saber a verdade sobre tudo no Kung Fu, cada pessoa conta uma história, mas todas têm o mesmo sentido.
Eu não me interessava em saber nada disso, queria apenas treinar e praticar os estilos que havia aprendido.
Comecei pelo estilo Shee (serpente), um estilo de base forte e estrutura flexível muito eficiente. Depois o estilo Hu (tigre), muito forte e de uma rapidez incrível. Também aprendi o estilo Loong (dragão), onde para aprender esse estilo o discípulo tem que ter o corpo realmente como uma pedra, rígido e intocável. O estilo Niú (touro), que para muitos não existe, pois o conhecem como cabeça de dragão, este estilo tem a característica de atacar muito e a defesa é muito forte, como se fosse um ataque.
Aprendi também muitos outros estilos como Louva-a-Deus, Águia, Macaco, Bêbado, Fei Roc Pay (garça branca).
Cada um desses estilos tem sua própria historia, mas eu aprendi todas numa só história, a do Kung Fu, o Kung Fu Wing Chun Shuam, e com um só mestre, mestre Yang, que nos ensinava sempre com muita filosofia.

"Aprender. Treinar. Praticar. Apregar"

Sempre da melhor forma, pois não existe mau aluno, e sim mau professor.
E eu comecei a amar o Kung Fu por cauas de suas filosofias que são muito pouco apregadas nas academias em todo o mundo.
Meu mestre dizia que para cada situação existe uma filosofia a ser dita. Dizia também que todo problema vem acompanhado por uma solução. Por isso é que eu digo,nada como ter nossa própria mente como nosso mestre, pois ela só te engana se você quiser.
Não podemos acreditar em todo mundo que fala sobre Kung Fu, pois eu já cheguei a ver mestre que não sabia nem o que era Kung Fu, sabia apenas ensinar o que aprendeu, como formas, chutes, defesa e ataque, mas não sabia o sentido dos movimentos, o que era e para que servia. Mas eu não os critico, pois não se deve criticar algo errado, e sim ensinar o certo.
A verdade é que poucos sabem dizer o que realmente é o Kung Fu.
Por exemplo, muitos professores já me criticaram pelo modo como ensino artes marciais, mas eu jamais iria ensinar uma coisa que irá fazer mau ao aluno, pelo contrario, se eu aprender alguma coisa e sentir que é errado, eu jamais irei ensinar a alguém.
O que sei sobre o Kung Fu é que à muitos anos atrás, 600 DC, um indiano chamado Tamo Budhidhar foi até a China para visitar o imperador, numa época em que o imperador estava nos templos traduzindo os pergaminhos budistas para o chinês para que o povo chinês entendesse melhor a religião, era intenção do imperador que o povo fosse unificado.
Tamo procurou um templo mais próximo para encontrar os monges. Era um templo muito antigo construído numa floresta.
Para construírem o templo organizaram um mutirão e plantaram muitas árvores frutíferas e pés de bambu ao redor do templo. O templo foi chamado de Templo Shaolin, que significa Floresta Nova.
O templo Shaolin ficou mundialmente conhecido por ser muito cobiçado por guardar grandes riquezas, e ser freqüentado por grandes sábios.
Nesta época os monges do templo eram pessoas muito fracas por ficarem muito tempo meditando e não ligarem para o corpo. As habilidades os consumiam e eles não faziam física para cuidar do corpo.
Foi quando Tamo quis se unir aos monges, mas ele não foi aceito. Foi então que Tamo começou a meditar por muitos dias até que os monges reconheceram que ele era muito espiritual e o aceitaram.
Tamo então viu que eles não tinham a capacidade de meditar como pedia o budismo. Começou então a ensinar exercícios físicos baseados nos animais que eles já treinavam.
É óbvio que isso não quer dizer que a parir daí surgiram as artes marciais, pois já existiam há muito tempo.
Mas dentro dos templos a arte marcial ia contra os princípios budistas de não violência, os monges que praticavam a arte Shaolin, como era chamado o Kung Fu, nunca a usavam como ataque nem como defesa, pois a defesa dos monges também era um forte ataque, por isso os monges quando eram atacados apenas se esquivavam sem deixar que o adversário o tocasse.
Obviamente mais tarde esse conceito foi mudado, pois o imperador e seus lideres tinham medo da arte marcial, e mandaram caçar e matar os monges, destruindo também seus templos.
Muitos monges conseguiram fugir e foram ensinar em outros lugares, em outros templos, então foram surgindo novos templos, com novos conceitos, os monges passaram a ser budistas e taoístas.
Treinavam vários estilos, com variadas armas, como Pudao, Kwan Tao, etc.
Infelizmente a guerra entre nacionalistas e comunistas foi destruindo os templos, pois eram neutros na guerra, e sendo neutros eram considerados inimigos pelos dois lados, e a partir daí os monges começaram a usar o Kung Fu pa se defenderem. Muitos templos destruídos foram usados como base para quartéis na época.
Por isso hoje em dia é muito difícil saber a verdadeira historia do Kung Fu, pois muitos pergaminhos se perderam, e o governo chinês julgava ilegal a arte marcial.
O mais famoso templo da época era o templo de Honan, localizado em Loyang, no sul de Beijing, onde hoje moram os monges do mais alto nível do Kung Fu.
São tantos os estilos ensinados hoje em dia, e a verdadeira história do Kung Fu ninguém sabe ao certo, pois as informações dadas aos historiadores vêm do governo chinês, que era contra o Kung Fu, portanto distorcem as informações. As informações mais confiáveis foram dadas por monges que fugiram dos templos atacados durante a guerra na revolução dos Boxers, em 1901.
Os templos destruídos pelas guerras foram reerguidos nos anos 70 e 80, e alguns deles, como o Fukien e Wutang, são ocupados hoje em dia por estudiosos, médicos e naturalistas que estudam os ursos Pandas.
Nesses templos também são ensinados alguns estilos de Kung Fu, qualificados como estilo do Sul, See (serpente), Loong (dragão), Ton Long (louva a Deus) e outros, só não é do meu conhecimento quem são os mestres que ensinam tais estilos.
O estilo que eu ensino, e considero como o mais eficiente, é o Wing Chun, que foi trazido dos templos por uma monja chamada Mui. Muitos dizem que Wing Chun era seu sobrenome.
Muitos mestres não acreditam nessa história, pois dizem que nos templos não existiam mulheres. Dizem que o Wing Chun vem do templo de Honan, e também do Fukien.
Eu não conheço a árvore genealógica desse Kung Fu. Sei que muita coisa foi modificada, acda professor ensina de um jeito e acha que esse é o jeito certo.
Hoje em dia as federações, infelizmente, adotaram um sistema único, e quem ensinar diferente está errado. 90% daqueles que fazem parte das federações esquecem de muita coisa boa que aprenderam por causa do sistema adotado pelas federações.
O dia que me convidaram para fazer parte de uma federação foi em um torneio de Choringi Kempo em São Paulo, 1981. Disseram que eu teria que esquecer tudo que aprendi e ensinar somente o sistema deles, eu apenas ri e sai.
Fiquei pensando nos interesses de uma proposta dessas, apenas pensam no dinheiro e na unificação de seu próprio estilo.
Jamais devemos esquecer o que sabemos, e sim acrescentar novos conhecimentos ao que já sabemos.

"Shoringi Kempo com o mestre Tamura"

Este estilo foi trazido da China para o Japão por um monge budista chamado Isobe, e em japonês significa Formas de Shaolin, e para o Brasil chegou nos anos 60, com o mestre Tamura (da ultima vez que fiquei sabendo dele, ele estava internado em um hospital em Poços de Caldas, MG).
Meu mestre foi Emanoel Raldão Alves, com quem me formei em 1985, depois de 5 anos de pratica.
Treinei Wing Chun com um aluno do mestre Marco Nattali, Luiz César de Araxá, MG, Mas aprendi apenas algumas bases, pois ele sabia pouco. Os estilos eram Fei Roc Pay, She Chuan e um kati de bastão.
Fiz ABPACO com o mestre Antonio Bernardo da Silva, médico acupuntista profissional em massagem e criador ad ABPACO (Associação Brasileira dos Profissionais de Artes e Ciências do Oriente). Pratiquei essa arte durante 4 anos e me formei com ele num corso de 9 horas. Eu precisava do diploma para fazer massagens, kirô e aplicações em áreas de reflexo, e primeiros socorros.
Fiz capoeira na Senzala em Santos durante 6 meses, que me sérvio como experiência.
Fiz também Karate Shumbu Kan, em Campinas, com o mestre Michima, estilo Chotocam, cheguei até fixa marrom. Foi uma experiência muito lucrativa, conheci muitas pessoas de índole forte, muito conhecedor do karate.
Tive pequenas experiências com Tay Jutsu, Jiu Jitsu, Judô, karate Samurai e Boxe Chinês. Mas o que mais me interessava eu não encontrava, que era um mestre que pudesse dar continuidade no Wing Chun.
Conheci o Osvaldo José Golla, mas o Kung Fu dele era de criação própria.
Conheci o mestre Hermes Martins da Shaolin do Norte, estilo Ton Long (louva a Deus), mas não me formei por motivo de caráter.
O ultimo que conheci foi o mestre Nilo Nakao, do estilo Nan Chuan Tzu. Fiz com ele o curso d arbitragem pela federação Paulista e aprendi Nan Chuan, algumas bases e um kati Hu Chao Tao Lu (formas do punho do tigre). Mas também foi pro pouco tempo.
Resolvi então deixar que o tempo siga o curso natural e quem sabe um dia eu encontre um mestre que me apóie em tudo que sei e me ensine um pouco mais.
Por enquanto vou criando meu próprio sistema, ensinando meus alunos, tornando-os professores bem formados e informados.
É lógico que eu não vou querer fazer como os Sil Luns (Shaolin em cantonês), onde só existem 4 faixas, branca (iniciantes), preta (avançados), dourada (professores) e vermelha (mestres). Acima disso tem os Grãos Mestres, que eram títulos dados aos mestres mais velhos. Eles eram peritos em disciplina e organização, e toda arte marcial era dada ao monge pela sua dedicação e disciplina.
Hoje em dia as coisas são diferentes, as maiorias dos mestres só pensam em dinheiro, se ao menos ensinassem o Kung Fu como ele realmente é valeria a pena.Acho que é por isso que alguns mestres dizem que eu sou bobo ao ensinar arte marcial, eu deveria cobrar mais dos meus alunos. Mas eu penso diferente, é claro que não dou aulas de graça, mas não exploro nenhum de meus alunos.
Só penso em montar de agora em diante um sistema TASG de Kung Fu.
TASG é o nome ad minha academia, que quer dizer Tigre, Águia, Serpente e Graça. Quero monta-la com a ajuda de alunos graduados.
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