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UMA VISÃO DA EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL NOS CURSOS DE GRADUAÇÃO

 

FORMAÇÃO ACADÊMICA X EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL

 

A VIEW OF ANIMAL EXPERIMENTATION IN GRADUATION COURSES

 

Autores:

Herilckmans Belnis Tonhá Moreira – UniCEUB; Magda Verçosa Carvalho Branco – UniCEUB e Antônio Marcos da Conceição – UniCEUB

Co-autores:

Ana Amélia Lindoso Baumann – UniCEUB; Fernanda Tavares Pacheco - UniCEUB; Geison Isidro Marinho – UniCEUB; Karine Rodrigues de Mattos – UniCEUB; Letícia Maria Tosto Cuoco – UniCEUB e Patrícia de Carvalho Bernardo – UniCEUB

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA D O LEITOR:

Herilckmans Belnis Tonhá Moreira

SQN 115 Bloco C Apt º 501

Brasília – DF

70772-030

herilckmans055547@ceub.br

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA COM O EDITOR:

SEPN 707/907 Campus do UniCEUB – Bloco IV Subsolo

LABOCIEN

PABX: (061) 3401656

labocien@ceub.br

Agradecemos o apoio financeiro, bem como a estrutura, fornecidos pelo Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, mais especificamente pelos Laboratórios Polivalentes do UniCEUB – LABOCIEN e pelo Diretor da Faculdade de Ciências da Saúde, Dr. Abib Ani Cury. Agradecemos, ainda, a ajuda, advinda de dicas, sugestões, apoio moral e colaborações dos colegas e amigos: Marília Jácome, Daniel Lousada e Télio Luiz Pacheco. Não podemos deixar de mencionar a importante guinada fornecida pela Coordenadora do Curso de Psicologia, Maria Cristina Loyola dos Santos, quem nos fez colocar em prática nossas idéias e iniciar o projeto. Com muito apreço lembramos daquela que colaborou na aplicação dos questionários, Laila Silva Gonçalves e de alguém especial, que fez parte de nossa equipe no início, mas teve que deixá-la por motivos particulares, Lázara Denize. Por fim, agradecemos a colaboração essencial das Instituições que permitiram a coleta de dados, cujos nomes não serão revelados por implicações éticas.

 

RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi investigar a visão de professores, técnicos de laboratório e alunos, que têm ou tiveram contato com a experimentação animal, a respeito da utilidade da mesma nos cursos de graduação das Instituições de Ensino Superior do Distrito Federal. Este estudo é parte integrante do Projeto Documentário, que vem sendo desenvolvido no Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, visando incentivar a disseminação do desenvolvimento científico e do pensamento crítico, baseados na utilização adequada da experimentação animal relevante. Os resultados revelaram uma não integração nas opiniões de professores, técnicos e alunos, bem como, mostraram que os alunos parecem estar de acordo com a experimentação animal, porém, continuam apresentando opiniões de senso comum. Por fim, entende-se que há uma necessidade de maior divulgação do conhecimento científico a respeito da experimentação animal nos cursos de graduação, para auxiliar na formação do pensamento científico-crítico daqueles que têm contato com a mesma.

Palavras-chave: experimentação, animal, pesquisa, graduação, ciências.

 

ABSTRACT

This research aimed at investigating the perspectives of Professors, laboratory staff and students, that have or have had any contact with animalexperimenting, about its usefulness on undergraduating courses of Distrito Federal. This study is part of a "Projeto Documentário", that has been developed at Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Its isdesigned so as to foster the dissemination of scientific development and critical thinking on the base of an adequate utilization of the relevant animal experimentation. The results revealed a lack ofintegration among the opinions of Professors,laboratory staff and students. It has also shown thatstudents seem to be in accordance with animal experimentation but remain expressing common senses opinions. Finally, it is argued that there is a need for more divulgation of animal experimentation on graduation courses, to help on the formation on critical scientifical thinking of those involved on it.

Introdução

Os seres humanos convivem com os animais inferiores, ou melhor, não-humanos, das mais diversas formas. Eles estão presentes nos apartamentos, como ‘bichinhos de estimação’; no circo, como grandes atrativos; nas comidas saborosas; nos zoológicos e, por fim, nos laboratórios de pesquisa. No entanto, enquanto algumas dessas formas de convivência dos seres humanos com os animais não-humanos são muito bem aceitas socialmente e, até mesmo, legalmente, outras são constantemente contestadas.

"Quanto mais aprendemos a respeito da verdadeira natureza dos animais não-humanos, especialmente aqueles que apresentam cérebro complexo e um comportamento social correspondentemente complexo, maiores as questões éticas levantadas com respeito à sua utilização a serviço do homem – seja nas diversões, seja como "bichinhos de estimação", ou como alimento, ou em laboratórios de pesquisa, ou em quaisquer outros usos, aos quais os submetamos. Essa preocupação torna-se mais aguda quando o uso em questão leva a um sofrimento físico ou mental intenso – o que é quase sempre um fato no que diz respeito à vivissecção."(Goodall, 1934/1991:255)

Quem poderia dizer ao certo a distinção, por exemplo, entre aceitar que um cachorro tenha hora marcada para fazer suas necessidades fisiológicas, convivendo em um cubículo de quatro paredes, sem entrar em contato com outros de sua espécie, e a utilização de um macaco para testar uma vacina que possa erradicar uma doença que vem matando milhares de pessoas? Enquanto o primeiro exemplo reflete a "humanização" de um cachorro, o segundo reflete a intenção de se utilizar da condição não-humana daquele animal em prol da humanidade. É um questionamento intrigante e que, cada vez mais, parece exigir uma resposta.

Na verdade a resposta para esta pergunta não parece difícil quando se sabe que o cachorro, mesmo não estando em seu ambiente natural, não demonstra estar sofrendo, pulando de alegria quando vê seu dono, e que o macaco sofre de dor e/ou está vivendo em condições inadequadas. Parece que o mérito da aceitação ou não de uma situação ou de outra não está na convivência com o animal, mas sim nos cuidados que se deve ter com o mesmo.

A forma como os valores sociais são transmitidos para os indivíduos, também, parece exercer influência na opinião dos mesmos em relação à convivência com os animais não-humanos. Pode ser este o motivo da experimentação animal ser, hoje em dia, tão questionada. Um exemplo disso é que, no âmbito das Instituições de Ensino Superior, parece não haver uma preocupação com o fornecimento de informações a respeito da interação entre a experimentação animal e a evolução das ciências biológicas àqueles que deparam-se com a mesma num curso de graduação, gerando uma carência de argumentos plausíveis nos questionamentos dos alunos.

Numa perspectiva histórica, pode-se dizer que a racionalidade humana têm influenciado diretamente a relação entre homem e ambiente, fazendo com que o mesmo procure não só adaptação ao meio, mas, também, desvendar os fenômenos da natureza. Talvez seja esta curiosidade a responsável pela constante evolução da humanidade. Contudo, este processo evolutivo gera novas necessidades, e para a satisfação das mesmas, muitas vezes, o homem precisa arcar com as conseqüências dos males que pode estar causando ao meio e a outras espécies. A experimentação animal é um exemplo claro deste conflito: necessidade X responsabilidade, já que encontrar a cura para doenças, fazer um transplante ou procurar entender um fenômeno fisiológico, tornaram-se necessidades fundamentais, ocupando o mesmo espaço que a própria necessidade de comida e água. Mesmo sabendo que a morte é um destino certo para todos os organismos vivos, combatê-la tornou-se a meta principal da humanidade.

No início da civilização utilizavam-se seres humanos, geralmente escravos e condenados, para realizar essa busca, por meio de dissecções e necropsias. Devido a interferências religiosas, em primeiro lugar, e legais, os pesquisadores foram levados a adotar a utilização de animais para desvendar os fenômenos biológicos. No entanto, alguns dos cuidados que hoje são fundamentais na pesquisa com animais, neste tempo não eram observados:

"Os cientistas (cartesianos) espancaram cães com perfeita indiferença e fizeram pouco daqueles que sentiram pena das criaturas, como se elas não sentissem dor. Disseram que os animais eram relógios; que os gritos que emitiam quando surrados eram apenas o barulho de uma pequena mola que tinha sido tocada, mas que o corpo todo não tinha sentimentos. Pregaram, em tábuas, pelas patas, os pobres animais, para dissecá-los e ver a circulação do sangue, que era, então, tema de grande controvérsia."

(comentário de contemporâneo desconhecido de Descartes, séc. XVII, in Masson e Maccarthy, 1998:43-44)

Não se pode dizer que a intenção destes cientistas era a de provocar sofrimento, afinal, viviam num tempo em que se acreditava que as emoções e sentimentos eram propriedades da alma e, portanto, exclusivamente humanas.

Segundo Goldim e Raymundo (1997), a primeira pesquisa científica com utilização sistemática de animais talvez tenha sido realizada por William Harvey, publicada em 1683, "Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in animalibus", onde foram apresentados os resultados de experimentos sobre a fisiologia da circulação realizado em mais de 80 diferentes espécies animais.

Charles Darwin (in Mayr, 1999) demonstra um novo posicionamento sobre o processo de evolução, a Seleção Natural, a qual permite a pressuposição de um vínculo entre as diferentes espécies e a extrapolação de dados obtidos em pesquisas com animais para os seres humanos. Em 1905 iniciaram-se os estudos com transplantes e, até os dias atuais, a experimentação animal tem se mostrado de fundamental importância para o desenvolvimento científico, tornando-se, muitas vezes, a única forma de expansão de conhecimento a respeito de temas relacionados às ciências biológicas.

Também foi Darwin (in Garcia, 2000) quem demonstrou que os animais têm emoções, as quais se manifestam por meio de certas expressões. Este fato permitiu uma nova visão destes seres, até então, considerados como insensíveis ao sofrimento por não possuírem alma. A simples possibilidade de generalização dos conhecimentos obtidos em animais passa a não ser suficiente para justificar todo e qualquer experimento, afinal, nem todos os conhecimentos gerados em modelos animais são plenamente transponíveis ao ser humano. Surgem questões a respeito do bem estar dos animais, da necessidade das pesquisas, etc.

As condições inadequadas de cuidados com os animais, ou seja, a não observância de fatores éticos, legais, morais e/ou metodológicos, impedem uma boa aceitação da mesma em diversos setores de nossa sociedade, gerando conflitos entre pesquisadores, instituições protetoras dos animais e outros órgãos. Green Peace é apenas um exemplo das várias Organizações Não Governamentais Internacionais (ONG’s) que lutam pelos direitos da natureza. Dentre a ampla gama de reivindicações em prol da mesma, estas organizações criticam e questionam a vivissecção de animais em experimentos científicos; o que tem incentivado a criação de novas ONG’s que combatem, única e exclusivamente, a utilização da experimentação animal.

A disseminação dos conhecimentos a respeito da importância e relevância desse objeto de pesquisa fundamental para a evolução de ciências como, por exemplo, a Psicologia, Farmacologia, Medicina, Veterinária, Biologia, Fisioterapia, Odontologia e, consequentemente, da humanidade, passa, então, a encontrar diversas barreiras. Isso torna difícil sua aceitação por parte daqueles que se deparam com a mesma num curso de graduação.

Numa pesquisa recentemente realizada na Grã-Bretanha, Mulkeen e Carter (2000) revelaram que 64% das pessoas entrevistadas por eles descreveram-se como querendo saber mais sobre experimentação animal antes de formar uma opinião firme. Este fato revela que a falta de informação a respeito deste tema é um dos fatores que interfere na opinião dos indivíduos e acredita-se que, no âmbito acadêmico, essa carência de informação pode surtir efeito na opinião de alunos que entram em contato com o uso de animais em experimentos.

Foi a partir de questionamentos a respeito da utilização da experimentação animal num curso de graduação, especificamente o curso de Psicologia, que os autores desta pesquisa resolveram investigar quais eram os argumentos que sustentavam as opiniões das pessoas que têm convivido com a esse objeto de pesquisa no contexto acadêmico.

MÉTODO

Foi realizado uma pesquisa de opinião em Instituições de Ensino Superior (IES) pública e privadas do Distrito Federal. A análise dos dados do presente estudo aconteceu no Centro Universitário de Brasília – UniCEUB.

AMOSTRA

Participaram do estudo 186 sujeitos que utilizam ou utilizavam a experimentação animal nos cursos de graduação. Do total, 155 eram alunos de graduação dos cursos de: Psicologia, 77 (49,6%); Fisioterapia, 11 (7,09%); Odontologia, 15 (9,67%); Biologia, 20 (12,90%); Medicina, 12 (7,74%); Medicina Veterinária, 10 (6,45%); Nutrição, 5 (3,21%) e Enfermagem, 5 (3,21%). Destes alunos, 103 (66,45%) pertenciam a IES privadas e 52 (33,54%) a IES Pública. Dentre o total, 20 sujeitos eram professores, sendo que, 9(45%) ministram aulas no curso de Psicologia, 1 (5%) no curso de Medicina Veterinária, 4 (20%) no curso de Biologia, 3 (15%) no curso de Fisioterapia, 1 (5%) no curso de Odontologia e 2 (10%) no curso de Medicina. Quanto às Instituições de origem, 7 (35%) lecionam em IES pública e 13 (65%) em IES privada. Finalmente, 11 técnicos de biotérios foram pesquisados, sendo 4 (36,36%) de IES pública e 7 (63,63%) de IES privadas.

ANÁLISE DE DADOS

A análise do conteúdo foi realizada por meio da elaboração de 9 categorias formuladas a partir das respostas dos questionários, assim distribuídas:

  1. O uso da experimentação animal contribui para o desenvolvimento do conhecimento científico e do senso crítico;
  2. Desnecessária, não contribui para o desenvolvimento da ciência;
  3. Necessária/Importante, desde que submetidos a um comitê de ética;
  4. Inútil;
  5. Permite a realização de pesquisa comparada/verificação da continuidade entre as espécies;
  6. A experimentação animal implica em menos problemas éticos do que a experimentação com humanos;
  7. Visualização prática da teoria;
  8. O conhecimento obtido através da experimentação animal não abrange totalmente a dinâmica das relações humanas e
  9. Não responderam.

Vale ressaltar que as respostas de um único sujeito pode ter sido incluída em mais de uma categoria, dependendo dos argumentos apresentados pelo mesmo.

INSTRUMENTO E PROCEDIMENTO

Utilizou-se um questionário de pergunta aberta diferenciado para cada categoria de sujeitos de acordo com a função dos mesmos nas IES, dividido em três etapas. A primeira etapa constou de um parágrafo de apresentação dos pesquisadores e da pesquisa e solicitação da colaboração dos sujeitos. A segunda etapa compreendeu a especificação da categoria dos sujeitos, onde constava se o mesmo era professor, aluno ou técnico, o curso no qual lecionava – no caso de professor – ou no qual estudava – no caso de aluno – ou o nome do laboratório onde trabalhava – no caso de técnico – e o nome da IES a que pertencia. A terceira etapa apresentou a pergunta propriamente dita, distribuída de acordo com a categoria (tabela 1). É importante ressaltar que não foi solicitada a identificação dos sujeitos para que fosse resguardado o anonimato dos mesmos.

Tabela 1. Distribuição das perguntas conforme a representatividade da categoria dos sujeitos

CATEGORIA

PERGUNTA

Aluno

"Na sua opinião, qual o papel da experimentação animal para o seu curso de graduação?"

Professor

"Na sua opinião, qual o papel da experimentação animal para o seu trabalho de educador em cursos de graduação?"

Técnico

"Na sua opinião, qual o papel da experimentação animal para os cursos de graduação aos quais você presta serviços?"

O primeiro passo após a elaboração do questionário foi o levantamento das IES do Distrito Federal e entorno e dos cursos por elas oferecidos que utilizavam a experimentação animal. Após esse processo foi realizado o levantamento dos nomes dos coordenadores destes cursos e enviada aos mesmos uma carta de apresentação e esclarecimento do projeto, a fim de obter-se autorização para coleta de dados.

A etapa seguinte constituiu-se na convocação de voluntários, alunos do curso de Psicologia do Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Estes alunos foram devidamente treinados, pela professora responsável pelo projeto, para a aplicação do questionário. Seguiu-se, então, a aplicação dos questionários nas IES, efetuada no próprio ambiente de trabalho dos professores e técnicos e durante as aulas, para os alunos. Não foi estabelecido um tempo determinado para que os sujeitos respondessem ao questionário.

Vale ressaltar que os pesquisadores procuraram, por meio da técnica utilizada, permitir a liberdade de expressão das opiniões particulares dos sujeitos, eliminando ao máximo a indução para opiniões polarizadas contra ou a favor da experimentação animal.

RESULTADOS

Na figura 1 são apresentadas as porcentagens das respostas dos alunos distribuídas por categorias.

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Na figura 2 são apresentadas as porcentagens das respostas dos professores -distribuídas por categorias.

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Na figura 3 são apresentadas as porcentagens das respostas dos técnicos distribuídas por categorias.

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Seguem-se alguns exemplos de respostas de alunos:

É muito importante na análise experimental e fisiológica. Ou você emprestaria a sua mãe para estudarmos?

Verificar a continuidade existente entre as espécies.

Bastante significativa em alguns aspectos, pois existem várias situações que dá para produzir no animal o que acontece com o ser humano.

Importante.

Já que estamos no ano 2000, com inúmeras experiências com animais realizadas e com documentação adequada. Parece-me que repeti-las (em vez de assistir a documentação existente) é, no mínimo, um desperdício de vida animal. Mesmo porque, nestas situações de ensino e aprendizagem específicas não estamos contribuindo em nada para o pretenso "desenvolvimento (ou progresso) da ciência", chavão esse sempre presente no discurso dos defensores da experimentação animal.

Seguem-se alguns exemplos de respostas de professores:

O uso criterioso, legítimo e legal de animais de experimentação nas atividades de ensino-aprendizagem nos cursos médicos e biomédicos nos parece essencial no que tange à compreensão de processos biológicos e fisiológicos subjacentes ao entendimento do que ocorre com os seres vivos. O uso de simulações computadorizadas não permite o aprofundamento e as sensações biológicas (especialmente de variabilidade biológica) inerente aos animais. Deve ser salientado que conforme normas legais, nacionais e internacionais, os animais são tratados com o devido respeito e todas as sessões experimentais são feitas sob anestesia. O uso de animais nos permite, dentro dos limites ético-legais, fazer testes que não podemos fazer em seres humanos. Sendo assim, consideramos essencial o uso do animal no ensino da graduação, respeitando os limites éticos.

Habilitar o aluno para a investigação clínica, através de modelos que permitam a anatomia e fisiologia comparada.

Seguem-se alguns exemplos de respostas de técnicos:

Na minha opinião pesquisar os livros e trabalhar com próteses e vídeos é mais que suficiente.

A experimentação dá idéia da forma pragmática de como os sujeitos se comportariam em seu universo natural.

DISCUSSÃO

Os dados apresentados indicam uma tendência dos alunos a favor da experimentação animal, justificada pelos mesmos como um importante meio de realização da pesquisa comparada e verificação da continuidade das espécies, em concordância com Darwin (in Mayr, 1999).

A necessidade de um comitê de ética que regulamente o uso da experimentação animal foi mencionado como um fator relevante na opinião dos alunos, bem como dos técnicos, revelando a preocupação com as condições adequadas de cuidados na utilização de animais num contexto experimental.

Observou-se, também, uma discrepância entre opiniões de alunos e professores no que concerne à experimentação animal apenas como uma metodologia de ensino, sinalizando a necessidade de uma maior integração das informações entre os mesmos. Isso revela que pode não estar havendo uma preocupação com o desenvolvimento do pensamento científico e senso crítico a respeito da experimentação animal, preocupação esta que foi enfatizada nas respostas dos professores.

Em relação às respostas dos técnicos observou-se um certo equilíbrio de opiniões. De um lado verificou-se uma tendência em acreditar que a experimentação animal é desnecessária e inútil, de outro que é necessária e importante, desde que submetida a um comitê de ética.

Verifica-se que existe uma falta de integração das informações entre professores e técnicos, que são os gerenciadores dos serviços prestados aos usuários da experimentação animal no contexto acadêmico. Um dos fatores que pode estar contribuindo para essas opiniões diversas é o fato de, por atuarem como cuidadores destes animais, os técnicos poderem estar estabelecendo uma relação de afetividade tal com os mesmos, que fica difícil aceitar a utilização destes em um experimento. A recíproca pode ser verdadeira, ou seja, por não concordarem com a experimentação animal, os técnicos negligenciariam os cuidados adequados.

Os resultados indicaram também uma tendência dos sujeitos de se posicionarem a favor ou contra a experimentação animal, apesar desta polarização não ter sido solicitada no instrumento. No entanto os argumentos apresentados não foram fundamentados, revelando que a temática em questão ainda é intrigante e que muitas especulações a respeito da mesma deverão ser suscitadas. Este fato corrobora os dados de Mulkeen e Carter (2000) retratando que a demanda por informação sobre este tema ainda é grande.

É necessário que as Instituições de Ensino Superior reflitam, discutam e criem instrumentos adequados para a formação de profissionais cônscios e capazes de opinar respaldados por um conhecimento científico. Pois, estes serão os futuros formadores de opinião.

BIBLIOGRAFIA

DARWIN, C. (2000). A expressão das emoções nos homens e nos animais. (A. L. Garcia, Trad.) São Paulo: Companhia das Letras.

GOLDIM, J. R. & RAYMUNDO, M. M. (1997). Princípios Gerais da Pesquisa com Animais. Porto Alegre: HCPA, retirado em dezembro de 1999. http://www.ufrgs.br/HCPA/gppg/animprin.htm

GOODALL, J. (1991). Uma janela para a vida: 30 anos com os chimpanzés da Tanzânia. (A., Goodall, Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. ( Trabalho original publicado em 1934)

MASSON, J. M. & MCCARTHY, S . (1998). Quando os elefantes choram: A vida emocional dos animais. São Paulo: Ed. Geração Editorial.

MAYR, E. (1999). O desenvolvimento do pensamento biológico: diversidade, evolução e herança. (Martinazzo, I., Trad.) Brasília: Editora Universidade de Brasília.

MULKEEN, D. & CARTER, S. (1999). Attitudes Towards Experimentation on Live Animals. Londres: New Scientist, retirado em outubro de 2000. http://www.mori.com/polls/1999/ns990308.htm

 

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