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ATÉ AMANHÃ ...


Rubem Braga


OS MILIONÁRIOS

Não conheço esse rapaz do Recife chamado Felipe Tiago Gomes, que meteu na cabeça a idéia de que é preciso democratizar o ensino no Brasil. E que escolheu como tarefa sua e de seus companheiros fundar ginásios gratuitos, e já pôs a funcionar cinco - no Amazonas, em Pernambuco, Parahyba, Paraná e Estado do Rio.

Essa "Campanha Nacional dos Educandários Gratuitos" propõe-se a fundar, em todo o país, 68 ginásios. Sua ambição inicial é proporcionar a um maior número de pessoas os quatro primeiros anos do curso secundário, ainda não pode pensar no que fazer quando chegar o momento de seus estudantes se encontrarem na encruzilhada entre o clássico e o científico. Os próximos Estados a serem beneficiados são o Espírito Santo e a Parahyba, com dois ginásios cada um. Minha bela Cachoeiro de Itapemirim, contará o mês que vem, com seu ginásio noturno, que virá abrir novas perspectivas aos jovens trabalhadores beneficiados pela campanha de educação primária do Estado e do Município a que a professora Zilma Coelho Pinto, fundando 25 cursos, deu um impulso tão belo e generoso.

Há, nas camadas pobres de nossa população - e ainda outro dia citei um exemplo disto - uma verdadeira sede de aprender. As razões, principais serão, certamente de ordem econômica. São também elas as que merecem, em primeiro lugar, atenção, em um país que está em uma fase de desenvolvimento econômico em que precisa contar com um número cada vez maior de trabalhadores de certo nível cultural.

Os homens "práticos" ou "realistas" que ainda nos pregam as vantagens do analfabetismo popular são flores murchas do "espírito" de uma sociedade que já não existe. Seus paradoxos fáceis ou cínicos perdem qualquer valor diante desse irresistível impulso das novas gerações para escalar níveis melhores de vida cultural. Em alguns anos o Brasil já realizou bons começos de uma grande obra de ensino profissional, principalmente no campo da indústria e do comércio. Esse bando de padres que foi invernar na Universidade rural, para aprender alguma coisa que possa ensinar aos seus fiéis da roça mostra como é sensível, sob a pressão de fatores econômicos e sociais, a necessidade do progresso educacional.

Há, na Câmara o pedido de crédito de 5 milhões e 300 mil cruzeiros para ajudar, no próximo ano, a Campanha Nacional de Educandários Gratuitos. Muitos parlamentares talvez nunca tenham ouvido falar desse movimento. Pois procurem conhecê-lo.

É evidente que cabe ao Estado, incapaz de realizar por si próprio a obra enorme de educação que se faz necessária, ajudar concretamente, com as reservas e precauções indispensáveis, mas de maneira positiva, os movimentos desse tipo.

Esses movimentos mostram que ainda há, neste país, muito impulso generoso que não recue diante da espantosa mediocridade moral de tantos setores da nossa vida pública. Há gente querendo tocar essa joça para frente. Gente que sonha e mete os peitos, e se chateia horrivelmente, e chateia todo mundo - e realiza. É gente pobre como esse Felipe do Recife e aquela Zilma de Cachoeiro. Gente pobre, milionária de humanidade.



Texto publicado no jornal Diário da Noite - Recife/PE. - 13/07/1949.

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