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O PROFESSOR E O BRASIL


Sebastião Garcia


No primeiro de maio passado, fez 76 anos que nasceu felipe Tiago Gomes, criador da Campanha nacional de Escolas da Comunidade. Era um paraibano tão simples e humilde que nunca lhe passou pela cabeça as dimensões reais da força e importância que a sua obra adquiriu ao longo dos 54 anos de existência. Nem tinha noção do significado de seu próprio nome, a lembrar dois apóstolos de Cristo. Desprendido de vaidades e de sonhos, viveu intensamente a realidade do dia-a-dia das mais de duas mil escolas que criou através da CNEC.

Mas por dever de cidadania aqui estamos a lhe fazer justiça. A história que não for contada para as futuras gerações morre com seus construtores. Felipe Tiago Gomes morreu em 21 de setembro de 1996 e a realidade de sua obra exige a organização de sólidas fontes de pesquisa e estudo para subsidiar todos os interessados na história da educação brasileira, onde se inserem obrigatoriamente Felipe Tiago Gomes e Campanha Nacional de Escolas da Comunidade.

Somos uma comunidade construída por mais de 350 mil alunos, desde o Pré ao 3º Grau. Contam-se por 8100 os dirigentes das unidades locais; os estaduais e nacionais somam outros 481 componentes. Portanto, já temos uma cifra considerável de 358.581 cidadãos diretamente envolvidos com as atividades educativo-comunitária da CNEC. Não estão computados os sócios beneméritos e colaboradores, que somente uma coleta de dados em cada uma das 850 escolas indicará.

Existem ainda os incontáveis voluntários - aqueles que trabalham informalmente, em qualquer dia e hora, que participam de reuniões, ajudam na construção do prédio ou na reforma do mobiliário, dedicadas mães que realizam a limpeza e conservação das instalações.

Também devemos adicionar, com certeza, os 700 mil pais dos alunos - obrigatoriamente sócios contribuintes - elevando para 1.058.581 participantes. Mas temos de somar igualmente os professores (19.000) e funcionários (10.000), chegando ao elevado contigente de 1.087.581 comunitaristas. Imaginem que se calculam em 15 milhões os alunos que já passaram pelas escolas da CNEC. Eis que a instituição se transformou numa das maiores geradoras de empregos do Brasil: 29.000 diretos, ou 116.000 indiretos. O grupo Ermírio de Morais gera 42.000 empregos. Essa comunidade de cenecistas (os que praticam ou simpatizam com a filosofia da CNEC) eqüivale à população de alguns Estados da Federação juntos.

Todavia, quem se importa com isso? O professor Felipe conheceu todas as agruras dos seus colegas brasileiros - sem respeito, sem salário digno e sem reconhecimento. Sofreu de tudo na constante busca de apoio oficial para sua obra educacional. Morreu trabalhando sem nunca Ter gozado férias. Viagem ao exterior? Ah, quem pensar nisso não o conheceu mesmo! Visitou o Brasil de ponta a ponta, instalou pessoalmente todas as escolas que criou. No meio cenecista é chamado de "plantador de escolas".

Riquezas pessoais? Zero! Nunca pensou em ser dono de uma casa ou automóvel. Seu plano sempre foi muito superior ao alcance dos comuns. Ser lembrado e reconhecido? Muito difícil, porque era um simples professor, matuto do interior, cuja preocupação maior era o Brasil.

Sebastião Garcia
Professor, ex-aluno
e ex-secretário-geral da CNEC.



Texto publicado na revista CNEC em Revista - Brasília/DF - Setembro/1997.

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