do
canhenho de notas do Mago
(fragmento)
abdul
affi

marta chegou mais cedo - hoje
apenas um carro negro dispara na sua direcção
e
atravessa o coração
da cidade.
nada de novo, portanto.
cabe ao homem criar condições que lhe permitam a sobrevivência
numa
sociedade em constante progresso.
pensou ela.
mas o seu pensamento não obteve resposta. estava só.
então pensou
e
repensou.
pensou muitas coisas
repensou muitas mais
e
explorou todos os recursos.
nada.
absolutamente nada. então imaginou-se
e
viu-se
sentiu-se
percebeu-se
ela era de facto a deusa primitiva, a criadora do universo
a unidade.
então choveu um pouco
e
os pássaros repousaram
-uma pausa.
uma pausa não demasiado longa, mas uma pausa.
e
é aqui que nos apercebemos de maria.
maria não é marta
e
logicamente marta não será
maria.
maria é a clandestina que marta,
victor
e
agator conhecem bem.
e
maria.
que se mantém clandestina para
ser mais giro.
de vez em quando muda de estatuto ontológico
e
tudo fica mais claro, mais bonito
e
depois, volta a ficar mais escuro.
clandestino.
dificilmente se percebe se é apenas
para evitar o enjoar - é inevitável aqui
a novela marítima.
por fim inicia-se a homenagem ao celebrado
filme
e
marta diz:
- percebe?
e
victor que estava ausente da cena diz:
- não senhor!...
e
pronto.
postas as coisas nos seus lugares, marta
corre na direcção da doca seca com
maria atrás das saias.
o paquete soltou as amarras
e
as duas acenam com a mão esquerda
para agator.
agator vê-se lá em
cima
na ponte
fuma um delicioso PURO enquanto
medita (o pensamento tem essas propriedades corporais)
e
ao pensamento vem a imagem do sorriso
enigmático de uma gioconda.
- quando for grande quero ser papa!
disse
e
surgiu (nele) um ponto de interrogação
- que merda!... para quê ser papa?
e
gritou forte, lá de cima. do barco.
maria e marta, cá em baixo, ouviram:
-para quê ser papa?...
nas suas cabeças germinou ao mesmo
tempo
a construção de um coro
- resposta.
um coro - resposta - revólver.
e
dispararam:
- para teres vestidos compridos
cheios de rendas
- para teres uma guarda Suíça
de saltos altos
- para teres muitos anéis
nos dedos
então o navio lançou toneladas
de fumo branco para o céu
e
anjos
pálidos
e
belos
fizeram-se ouvir
maria virou as costas aos acontecimentos
e abraçou definitivamente a clandestinidade
marta, porém, suicidou-se.
ali.
no cais.
agator, desejoso de ser papa,
perdeu-se nas ruas de São Francisco.
e
resta-nos victor.
victor não estava presente. na
cena, claro.
estava em casa
pesquisando os seus papéis amarelecidos
pelo tempo.
lia:
- o homem aplica sistematicamente
aquela capacidade criadora que lhe é
própria
com vista a adequar as suas condições
de vida a tarefas simples...
e
questionava-se:
- porquê, não complicadas?
não respondeu
e
não se questionou mais.
apenas pensou:
- se o ambiente e a comunicação
são factores
decisórios no que toca ao desenvolvimento
da capacidade criadora, também
a vertente que
concerne à liberdade é importante.
muito.
e
depois
só muito depois
resolveu sair
fez-se transportar por ruas
por estradas
por avenidas
por viadutos
todo este acto contribuiu para uma melhor
compreensão da realidade envolvente
e
o seu cérebro programou novas formas
de construção
de grelhas de leitura simbólica
bem colocado na paisagem
bem enquadrado no espectáculo
quotidiano
tomou o lugar de espectador
e
ouviu:
- as operações não
estão isentas de perigo
temos que agir!...
sempre!
é extremamente desaconselhável
fazer destas palavras um passatempo
uma experiência...
ninguém se diverte impunemente com
os mistérios aqui revelados! nunca!...
quando sair, vá para casa e pense...
isto é sério.
muito sério...
não ceda ao desejo de convencer
os outros de que o que viu
é
de facto
um espectáculo...
nada disso!...
mais tarde
mas muito mais tarde
verificará que os efeitos mais surpreendentes
aqui revelados
nunca serão suficientes como prova.
pelo menos
para as pessoas pouco experientes nestas
coisas...
também não vamos mostrar
prodígios para que
acredite na seriedade destas palavras
nada disso
seria indigno da nossa parte!...
a tradição sempre recomendou
o silêncio...
o verdadeiro homem está acima de
todas as fraquezas
e
muitas vezes
oculto por muros artificiais...
agora
consciente do peso das palavras
victor compreende que o mundo...
pronto
tudo termina de forma a facilitar um outro
início.
+
+
=
O Mago/Artista não compartilha do "Espectáculo".
Não transforma apetites em tabu.
Defende o alcance do êxtase como "objecto"
primordial...
A Arte transporta-nos à alegria, à
festa... não compartilha da ideia redutora que limita os estados
de êxtase a meras situações místicas.
Tudo é permitido.
A Arte é caótica
O ritual, recria o mito...
O Mago participa no pacto. Constrói
a "Torre Gelada":...
" - A Anarquia e a Poesia são uma obra
de séculos e irrompe espontaneamente ou não irrompe!
- A METACIÊNCIA pretende entre outras
coisas dar ao Homem o Centro do Universo de que ele anda arredado, por
outras palavras: fazer com que o Homem possua no cérebro, na Mão,
todos os raios da Esfera deste Universo como formas de propulsar para outro,.
Este movimento ou corrente de ideias e acção é um
movimento de Poetas absolutamente em posição àqueles
que são apenas <<fixadores do real>> - mesmo dum real já
conquistado (como é todo o real).
- O Poeta Metacientista sabe que para se alcançar
esta posição só é possível por um exercício
iniciático (nós e o Surrealismo por exemplo).
- Para a Metaciência o Egipto é
a Praia e a ATLANTIDA o objecto desejado!
Eis meu Caro Mário Henrique estas
frases retiradas dos meus apontamentos teóricos que guardo na minha
Torre Gelada ou Laboratório Mágico ou ainda Aquário
Azul (depende do acto...)..."
(carta de António Maria Lisboa
a Mário Henrique Leiria - in Poesia de António Maria Lisboa,
Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1977)
|