CAPÍTULO 2

 

CAPÍTULO 2

GEOGRAFIA E GLOBALIZAÇÃO:

O CAPITALISMO E A EVOLUÇÃO DOS CONHECIMENTOS GEOGRÁFICOS

 

 2.1.1.   INTRODUÇÃO

Discorreremos neste capítulo sobre os principais aspectos da evolução do pensamento geográfico do período que vai do século XV até os dias atuais. Nosso objetivo é tentar relacionar o desenvolvimento deste saber com o avanço do processo de globalização. Para tanto selecionamos algumas obras referentes à história do pensamento geográfico de autores que pertencem à chamada geografia crítica, próximos à teoria marxiana ou  trabalhos que trazem informações importantes tendo em vista nosso objetivo básico.

 

Esclarecemos,  que tendo em vista o propósito geral do nosso trabalho,  não pretendemos abarcar todos os detalhes da etapa citada e nem mesmo temos a pretensão de esgotar completamente as questões. Trata-se de um relato extremamente sucinto considerando os nossos propósitos.

 

De início, trataremos resumidamente da história do conhecimento geográfico dos primórdios dos tempos modernos até aproximadamente o século XVIII; em seguida, abordaremos  a fase posterior, aproximadamente do final do século XVIII  até o início do século XIX,  na qual se notabilizaram os institucionalizadores desta ciência; logo após, estudaremos  o período de consolidação e de difusão do conhecimento geográfico, denominado período clássico - convencionaremos, sumariamente, que este período teria transcorrido de 1901 a 1946; e,  finalmente, abordaremos o período moderno, transcorrido  após a Segunda Guerra Mundial (ANDRADE,1992, 63).

 

Abordaremos, a seguir, conforme foi proposto,  a evolução dos conhecimentos geográficos nos tempos modernos.

 

2.1. 2.  O CONHECIMENTO GEOGRÁFICO NOS TEMPOS MODERNOS

A  enorme expansão do espaço conhecido, o conhecimento da conformação terrestre e o repúdio a um leque de idéias e mitos sobre a superfície da Terra revelaram-se revolucionários para o saber geográfico na Idade Moderna (ANDRADE, 1992, 43).

 

A dilatação do território conhecido refletiu-se primeio sobre a cartografia, que sofreu transformações e aperfeiçoamentos. Os conceitos de latitude e longitude, sem precisão nos mapas da Antiguidade e da Era Medieval, comumente utilizados, ganharam correções,  e um novo continente, a América, neles foi desenhado. Por um longo período perdurou o debate se a Terra  seria composta de três ou quatro partes. Ou seja, se ela seria formada por três ou quatro continentes. Os novos caminhos marítimos, descobertos no século XVI,  autorizavam a certeza de que havia um quarto continente, entre  o oceanos Atlântico e Pacífico. Anos depois, já no século XVII, as viagens exploratórias de Dampier e de Tasman confirmaram a existência do então previsto quarto continente, a Austrália. Além disso, supunha-se a existência de mais uma massa continental, a Antártida, ao sul. No entanto,  esta apenas se tornaria mais conhecida no século XX, principalmente após o Ano Geofísico Internacional, realizado em 1958.

 

Considerando os mapas que renovaram a cartografia, mencionaremos o mapa de Martim Behaim, cosmógrafo de Nüremberg, que depois de instalado em Lisboa, construiu o famoso globo, abarcando o leste da Ásia, que leva o seu nome (SODRÉ, 1986, 21); e de Gerhard Mercator, considerado o pai da cartografia moderna, mapa que mostrou-se revolucionário, baseado nos princípios da projeção e não na geometria plana como toda a cartografia que o antetecedeu, apesar de que nele os paralelos e meridianos dispostos em linha reta, quando representam a superfície terrestre, aumentam as terras situadas em altas latitudes e tormam menores as terras próximas ao equador. Mercator reafirmou e consolidou o paradigma do Renascimento ao introduzir na linguagem cartográfica a idéia de projeção, deslocando de uma vez por todas o lugar do sujeito observador (SANTOS, 1997, 128).

Em se tratando de cosmografia, a obra de Sebastião Munster, particularmente a “Cosmografia”,   teve grande destaque (SODRÉ, 1986, 21).

 

A importância estratégica do conhecimento científico para o alcance dos objetivos comerciais e políticos dos reis era evidente. Deste modo, os soberanos de Espanha fundaram, em 1503,  a Casa de Contratação de Sevilha, reformulada posteriormente em autêntica escola de pilotos. Nela estudava-se as bases técnicas da navegação, as informações sobre os mares, as costas, e desenvolvia-se os conhecimentos relativos à astronomia, à náutica e à meteorologia.

 

Do século XV ao século XVIII ocorreram aperfeiçoamentos nos conhecimentos a respeito do magnetismo terrestre, discriminado-se a diferença entre o pólo magnético e o geográfico, fazendo-se com mais precisão, a medida das longitudes, com a correção dos mapas antigos. Foram melhor pesquisadas as correntes marinhas, de significativa importância para a navegação entre os continentes. Assim como a magnitude e o direcionamento dos ventos, principalmente os alísios. Os navios, em pleno mar tropical, tinham necessidade dos ventos alísios para a impulsão e precisavam de evitar as calmarias equatoriais, pois nelas poderiam permanecer estacionários durante meses, praticamente imóveis. Estes saberes originários da geografia ou ligados a ciências atualmente consideradas afins da geografia, contribuiriam para que, na Idade Moderna, no século XVII, aparecessem estudos julgados precursores da geografia enquanto ciência.

 

No século XVIII, em relação à configuração terrestre, foi demonstrado a forma dilatada na região  do equador e o achatamento nos polos. Em outras palavras, constatou-se que a Terra era redonda, mas não exatamente esférica, em decorrência do próprio movimento de rotação, desvendado por Galileu. Para a verificação destas características realizaram-se expedições à região polar (Lapônia) dirigidas por Maupertuis e Clairaut, em 1736, e às regiões equatoriais (Peru) sob o comando de Bouger e De la Condamine. Esta última com a responsabilidade de medir o arco do meridiano. Ficou estabelecido, assim, o maior comprimento do grau do meridiano na região polar do que na região equatorial, constatando-se que o geóide é exatamente achatado nos pólos e dilatado no equador.

 

A grande evolução da astronomia, nesta época, repercutiu diretamente sobre o conhecimento geográfico: a descoberta da lei da gravitação universal por Isaac Newton, a proposição do sistema solar heliocêntrico, por Nicolau Copérnico (colocando um ponto final na crença da Terra como centro do sistema planetário), o descobrimento da forma da órbita dos planetas em seu movimento de translação, por Kepler, e, finalmente, as grandes descobertas de Galileu. Este deslocou radicalmente a posição do sujeito e abriu espaço, posteriormente, tanto para o advento do empirismo mais tacanho quanto para o idealismo transcendental, tanto para o mecanicismo de Newton quanto para o relativismo de Einstein, tanto para o descritivismo da cartografia quanto para o romantismo de Ratzel (SANTOS[1], 1997, 218).

 

Amadureceram, desta forma, as condições para a consolidação das diversas áreas de saber no conhecimento científico e para o aparecimento das diversas ciências, com relativa autonomia (ANDRADE, 1992, 44).

 

2.1.3.  OS PRECURSSORES DA GEOGRAFIA

Quando se inicia o século XVII, os conhecimentos geográficos espalhados e relacionados às diversas disciplinas correlatas à geografia,  existiam em grande número e demonstravam relativa profundidade.

 

Copérnico, na astronomia, redesenha o sistema planetário, propondo o sistema heliocêntrico, posicionando o Sol como centro do universo e assumindo que os satélites giravam em torno dos planetas. Confrontava assim, o antigo sistema geocêntrico de Ptolomeu, referendado pela Igreja e pelo mundo oficial, no qual a Terra era o centro do universo. Kepler,  posteriormente,  tornaria mais preciso o sistema de Copérnico, demonstrando que os planetas não percorreriam órbitas circulares, mas elípticas, acontecendo em cada translação um instante no qual os planetas estariam mais próximos do Sol, o periélio, e outro no qual estariam mais distantes, o afélio.

 

A estrutura da Terra e a formação das rochas passaram a ser objeto de grande preocupação por parte dos geólogos. A atividade vulcânica e outras manifestações catastróficas contribuiram para o desenvolvimento da noção de que a Terra era portadora de um incomensurável calor interno que dissolvia as rochas mais resistentes, expulsando-as por meio dos vulcões, em correntes de lava e nuvens de cinza. Estas concepções estimularam também a elaboração de teorias sobre o papel dos fenômenos internos na configuração do relevo terrestre. Leibnitz realizou o esforço de explicar que as rochas sedimentares, por terem sido obra de deposição pelas águas ou pela atividade eólica, se apresentavam dispostas em camadas. Outros estudiosos se empenhavam na identificação de fósseis nas rochas sedimentares, com a intenção de fazer descobertas paleontológicas e também determinar a idade da Terra.

 

Montesquieu, o célebre humanista francês, considerou que os climas tinham grande influência sobre as idéias e a vida prática dos homens, antecipando, desta maneira, o determinismo geográfico de Ratzel.

 

Isaac Newton, o então incontestado físico inglês, desenvolveu o princípio da lei da gravitação universal,  apresentando a solução para o enigmático problema que preocupava a ciência: o motivo pelo qual os seres não se descolavam da superfície terrestre.

 

Para o conhecimento geográfico, no entanto, o personagem principal foi o de um médico holandês, Bernardo Varenius, que na primeira metade do século XVII, compôs uma obra, que apesar de inacabada,  revelou-se importantíssima: a “Geografia Geral”. Neste livro, que será um dos fundamentos das teorias de Newton (MORAES, 1990, 33), Varenius discorreu sobre a denominada geografia matemática, que aborda a Terra como astro e busca conhecer as relações existentes entre ela e os outros corpos celestes; em seguinda, trabalhando questões referentes à geografia física, tentou explicar o desenho do relevo, as bacias fluviais e as condições do clima nas suas interconexões, chegando à atuação da sociedade e dos homens na construção do espaço. Nesta terceira seção de sua obra, Varenius apresentou um tratamento mais genérico, menos profundo, tendo em vista a sua morte prematura. De um modo geral,

ele não se restringiu à descrição da superfície terrestre, fundamentado apenas na observação e nos dados do momento, mas buscou a explicação da origem dos fenômenos e das formas que desenham a Terra; por isso,  o interesse de Isaac Newton pelo seu livro, a ponto de reimprimi-lo em 1762. O inequívoco mérito de Varenius reside na operação que uniu, na sua obra, a geografia geral, de natureza matemática, à geografia descritiva, de natureza humanística, literária, em um todo coerente, e, sobretudo, o propósito tanto de descrever quanto o de interpretar as formas e fenômenos observados, apontando relações causais. Revelou-se um precursor de Kant, que por mais de duas décadas foi professor de geografia física na Universidade de Kroeninsberg, e do próprio Humboldt, considerado o patriarca da geografia científica. O legado de Varenius exige mais divulgação e debate pelos que  fazem a ciência geográfica nos dias atuais e o que ele deixou é suficiente para mensurar a sua extraordinária relevância (SODRÉ, 1986, 23).

 

2.1.4.  O CAPITALISMO E O DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA  GEOGRÁFICA

O  desenvolvimento do capitalismo, nos séculos XVIII e XIX, condicionou a aceleração do desenvolvimento  das ciências em geral e, especificamente, o da geografia. A partir do século XV, o capitalismo comercial impulsionaria a grande expansão das navegações e, em decorrência, o da descoberta dos novos continentes e ilhas, ampliando a atividade comercial entre os povos que viviam em situações “naturais”, nas mais diversas organizações de sociedade. O continente Europeu, portador da civilização que apresentava o maior dinamismo, detinha o maior domínio da tecnologia e alargou a sua hegemonia econômica e política para toda a superfície terrestre, ou, no mínimo, para as regiões do litoral, de fácil penetração aos seus navios. A classe dos burgueses, capitalizada por meio do comércio, assumiu notabilidade, produzindo em maior magnitude e intensificando o contato como outros povos. De posse do dinheiro, exercendo o controle dos meios de transporte e das atividades comerciais, ela foi reduzindo o espaço da nobreza (proprietária fundiária e possuidora de cargos e honrarias),  levando-a a permanecer em plano secundário. Os próprios soberanos e a nobreza de maior prestígio passaram por um processo de emburguesamento, desenvolvento atividades ligadas ao comércio.

 

A riqueza da burguesia e o seu ascendente poderio no governo e na administração impulsionaram o desenvolvimento das técnicas e das pesquisas, objetivando uma maior e  mais eficaz exploração da natureza. Pressionando pelo controle dos meios de produção, ela realizou a sua revolução política e aniquilou o secular regime monárquico da França, sucedendo-se após a citada revolução política uma autêntica revolução na cultura e na esfera  administrativa. A ideologia da Revolução Francesa foi exportada para outros países da Europa, principalmente sob o Império de Napoleão, e, apesar desses regimes monárquicos perdurarem, acabaram, de alguma forma,  transigindo e incorporando diretrizes que possibilitaram, e muitas vezes,  foram um estímulo para o pleno desenvolvimento da sociedade burguesa.

 

Desde a Revolução Gloriosa, realizada em 1688,  na Inglaterra, a burguesia abocanhava progressivamente parcelas do poder e promovia uma política inteiramente necessária aos seus interesses de classe: a  de enfraquecimento sistemático dos poderes reais. Explica-se assim, dentre outras razões, o fato da Revolução Industrial ter-se iniciado na Inglaterra, no século XVIII, se alastrado pelo território francês na primeira metado do século XIX, e logo após pela Europa central e ocidendal, a partir dos meados do século XX.

 

Uma extraordinária revolução de ordem cultural e técnica foi produzida pela inusitada importância política da burguesia. Durante a segunda metade do século XVIII, as ciências da natureza, como a física, a química, a biologia, a botânica, a zoologia, a astronomia, evoluíram com reflexos no campo da geografia.  A influência da Igreja e a reverencia às idéias tradicionais ocasionaram embates entre a ciência e a religião, mas as concepções e os princípios finalistas e teleológicos começaram a perder vigor. A Filosofia das Luzes foi sendo paulatinamente substituída pelo racionalismo burguês. A filosofia debateu problemas e crenças e assentou os fundamentos das novas ciências, as sociais, que tiveram desenvolvimento no século XIX. O final do século XVIII, pode ser admitido como o término da longa etapa inicial, preliminar, preparatória da geografia, em outras palavras, a sua chamada pré-história (SODRÉ, 1986, 23).

 

Esta ciência, foi amplamente influenciada pelo pensamento de Kant, embora este a concebesse como  uma disciplina do âmbito da razão prática e admitisse, em decorrência, que ela era, semelhante à história, um ciência descritiva, assumindo-se, desta maneira o caráter corológico, enquanto a história era cronológica. Aceitava também a dicotomia entre geografia física e a humana, tendo em vista que em suas aulas demonstrava que a geografia elaborava o sumário ordenado da natureza, desmembrando-se em duas partes, a primeira, geral, abarcando a Terra, as águas, o ar, os continentes, e a segunda, particular, abordando os produtos da terra, em outras palavras, o homem, os animais, os vegetais e os minerais. Na sua concepção havia na geografia cinco abordagens: a matemática, preocupada com a análise da forma, dos movimentos, das dimensões e da localização terrestre no sistema planetário; a da geografia moral, abarcando os hábitos e costumes regionais; a da geografia política, que se dedicava ao estudo dos estados;  a da geografia mercantil, que enfocava as atividades comerciais; e a da geografia teológica, que pesquisava as manifestações religiosas.

 

Leibnitz e Herder  também se preocuparam com questões geográficas, e Paul Claval, apud Andrade (1992, ANDRADE, 47), defende que o último teria influenciado de forma mais significativa a Humboldt e Ritter do que o próprio Kant. Herder, de certa maneira apresentou-se como um determinista; considerando as discrepâncias das condições naturais nas várias regiões da superfície terrestre, propunha que cada povo cumpria o seu destino e erguia a sua civilização, conforme a relação com o meio físico. No relacionamento entre o homem e natureza, os homens individuamente não faziam história, e sim, o povo, os agrupamentos unidos por uma comunhão étnica, cultural, religiosa, etc. O grupo, ou o povo, e não meramente o indivíduo é que seriam os impulsionadores das modos de ocupação territorial.

 

O saber a respeito dos novos mundos, recentemente descobertos,  impressionou a classe dominante da Europa, que buscava razões para a diversidade presente entre as áreas e países, deslumbrando-se com as diferenças culturais encontradas. Este fascínio provocou a elaboração de inúmeras obras, estimulou, posteriormente, a constituição de sociedades científicas e exploratórias, alavancou a organização de expedições militares e o aparecimento de tendências que procuravam explicações para aquelas diferenças. Os povos da Europa, superiores do ponto de vista econômico, político, e principalmente, da tecnologia militar, disseminaram diante dos povos que confrontavam, a noção de sua superioridade racial, concebida como uma decorrência da ação do clima. O preconceito racial europeu de então,  fortaleceu-se, alcançou os dias atuais, ganhando notoriedade, por exemplo, por meio do Conde de Gobineau, e a concepção da influência exacerbada do clima sobre os povos resultaria no determinismo geográfico. Hobbes e Rousseau, pensadores políticos, elaboraram perspectivas contraditórias sobre os povos considerados selvagens. O primeiro defendeu que o selvagem era, principalmente, de índole malévola, que a sociedade se constituiu sob a dominação dos fortes sobre os fracos e que a criação do Estado, o chamado Leviatã, teria que ser forte e estabelecer o seu poderio por meio da imposição das suas normas e interesses sobre os fracos. O segundo, com idéias diametralmente opostas, preconizava que o selvagem era de caráter benigno, cândido, e que por meio de um pacto entre os homens, denominado contrato social, foi gestado o Estado, afirmando o descrédito no direito divino dos reis e dando visibilidade ao princípio de que os homens devem escolher a forma de governo que lhes convém. Destas concepções brotaram os princípios fundamentais para o constituição do Estado moderno.

 

Montesquieu propôs  modalidades de governo fundadas na democracia, com a clássica separação de poderes, entretanto, ao discorrer sobre os fenômenos geográficos, reconhecia a representativa ação da natureza sobre o pensamento e ação do homem.

 

Simultâneamente aos filósofos e cientistas políticos que refletiam sobre o relacionamento entre a natureza e o homem organizado socialmente, sobre as manifestações do estado, do governo e das religiões, dentre outros temas, os comerciantes e administradores organizavam o universo de recursos a disposição e possíveis de exploração e compunham a sua contabilidade para maximizar os lucros. Desta forma, originou-se a estatística, a geografia política e a economia, primordialmente concebidas tanto como autênticos catálogos de estados e cidades quanto como a distribuição da produção.

 

O século XIX trouxe no seu bojo os fundamentos de uma grande revolução econômica e cultural que fortaleceria a hegemonia da burguesia e do modo de produção capitalista por todos os continentes.

 

Em termos ideológico-culturais, ocorreu a consolidação da chamada razão instrumental. Esta possibilitava o domínio sobre a natureza, ocasionando sua exploração em proporções inéditas, a supremacia da técnica, a supervalorização das ciências, com o propósito do desvelamento de leis universais, a partir das concepções de Newton, e, sobretudo, a fé generalizada no  progresso inintenrrupto. A humanidade, fazendo uso dos instrumentos que criara, exerceria o poder absoluto sobre a natureza, forçando-a a produzir inteiramente de acordo com esses interesses. A idealização do papel histórico  da Europa se firmou concomitantemente  a expansão de sua civilização por toda a Terra,  em um processo de exploração  e submissão dos povos considerados selvagens e bárbaros. Dentre outros inúmeros exemplos, segundo Andrade,  em pleno século XX,  na década de 1930, a Itália explicaria a invasão do território etíope e sua transformação em colônia, sob a alegação que promoveria a civilização, ocultando os interesses de rapina que, de fato, orientavam a sua política. Os mesmos argumentos que os povos colonizadores haviam imposto, no século anterior, para justificar a guerra e o domínio sobre os povos asiáticos e africanos (ANDRADE, 1992, 49).

 

2.1.5.  A CIÊNCIA DO SÉCULO XIX E O SURGIMENTO DA GEOGRAFIA MODERNA

As bases econômicas, políticas e culturais do princípio do século proporcionaram os norteamentos teóricos e científicos que transportariam o pensamento do século XIX em direção ao positivismo, elaborado por Auguste Comte. A obsessão pelo controle da natureza resultou no crescimento das ciências da observação e da experimentação, do domínio da chamada razão prática, segundo a expressão de Kant. Os cientistas, por esta época,  buscavam o acúmulo de conhecimentos empíricos e o desenvolvimento das conseqüentes teorizações (ANDRADE, 1992, 49).

 

Os governos dos países mais engajados na expansão colonialista, tais como Inglaterra, França, a Prússia e, depois de 1871, a Alemanha, a Rússia, dentre outros, instigaram o aparecimento das sociedades geográficas que patrocinavam viagens científicas ao interior dos continentes africano, asiático e americano do sul. O objetivo principal era a busca de recursos que pudessem ser objeto de exploração. No Brasil, no início do século XIX, foram inúmeros os cientistas da Europa que viajaram pelo nosso território, escrevendo obras sobre a natureza nativa e suas formas de exploração, a situação de vida do povo, incentivando, desta maneira, o desenvolvimento da antropologia cultural, ciência vizinha da geografia humana. Além disso, em 1838  havia sido fundado o Instituto Brasileiro de História e Geografia, correlato às sociedades geográficas da época (CAPEL, 1982, 174).

 

O périplo realizado por um dos mais importantes cientistas do século XIX, o inglês Charles Darwin, com o objetivo de pesquisar a fauna e flora nos diversos continentes, resultou em um livro célebre, “A origem das espécies”. Assim teve início o evolucionismo que influenciou de forma decisiva inúmeros cientistas e pensadores. Haekel, seguidor de Darwin, ao estudar as relações entre o homem e o meio inauguraria o emprego da palavra “ecologia”, e Herbert Spencer levaria para as ciências sociais as concepções darwinistas. O evolucionismo redundaria no organicismo, que estabelecia uma relação  analógica entre os organismos e a sociedade, e também levaria à convicção no progresso sem fim e no aprimoramento do homem, sendo que esta concepção seria comum tanto aos positivistas quanto aos anarquistas da segunda metade do século XIX.

 

A transplantação do princípio da seleção natural, demonstrado por Darwin, para as ciências sociais, funcionou como justificativa para a supremacia dos vencedores da luta no interior e entre as sociedades capitalistas. Justificava no nível individual, a desigualdade social, as diferenças de renda, e, no nível geral, autorizava o predomínio dos estados mais fortes, julgados mais capazes, sobre os mais fracos, os dominados e explorados. Ou seja, justificava ao mesmo tempo, as desigualdades da sociedade, internamente, e a política colonialista externamente. Os fundadores da geografia não permaneceram alheios a estas idéias.

 

No século XIX, a flagrante injustiça da sociedade capitalista serviu de estímulo para que alguns pensadores elaborassem  teorias  contrapostas aos axiomas justificadores do capitalismo em expansão. Esta crítica inicialmente foi realizada pelos denominados socialistas utópicos. Em seguida, entraram em cena os pensadores materialistas, que fundamentados na observação, no estudo do desenvolvimento das estruturas sociais, contestaram estas estruturas e deram início a criação de um método forjado a partir da dialética. A superação da sociedade capitalista estava posta em questão. A filosofia dialética procurava se opor à filosofia positivista. As concepções hegelianas, reinterpretadas por Karl Marx e Friedrich Engels, buscavam explicitar as contradições internas da sociedade numa perspectiva totalizadora. Estes autores além de aplicar o método histórico no estudo da formação do capitalismo e na sucessão dos modos de produção na Europa Ocidental, preocuparam-se com a questão da natureza. Marx, por exemplo, dissertou em sua tese de doutorado sobre as “Diferença entre a filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro”, e Engels, ao abordar a sociedade e a natureza,  considerava  relevante o relacionamento entre o homem e o meio, procurando demonstrar suas reações recíprocas. Na “Dialética da Natureza”, estudou as “transformações dialéticas provocadas na natureza virgem, pela ação do homem, explicando como ela, ao se reconstituir, não o fazia de forma semelhante à primitiva, mas apresentando novas características” (ANDRADE, 1992, 51).

 

O pensamento de Marx e Engels, contraposto à ideologia dominante na sociedade, não obteve repercussão sobre os geógrafos do século XIX. Estes, na sua maioria, permaneceram inteiramente identificados com o poder constituído de seus países. Além disso, Élisée Reclus e Pietr Kropotkin, geógrafos anarquistas, romperam com os partidários de Marx no seio da Primeira Internacional. Apesar do ideário contestador, ambos permaneceram circunscritos às diretrizes metodológicas positivistas.

 

 

2.1.6.  A CONTRIBUIÇÃO DE HUMBOLDT E DE RITTER

Constitui opinião quase unânime que Alexandre von Humboldt e Karl Ritter são os fundadores da geografia moderna. Contemporâneos, mantiveram relações estreitas com as classes dominantes do seu país. Viveram de maneira muito diferente, e no entanto, o pensamento de ambos desaguou na direção dos mesmos princípios.

 

Humboldt, nobre prussiano, se empenhou nos estudos das ciências da natureza, principalmente a botânica. Sua curiosidade  fez com que viajasse pelas terra da Europa, da Ásia Central e Setentrional e da América Latina. Percorreu latitudes de climas frios, temperados, tropicais e equatoriais. Observador minucioso, compilou imensa quantidade de dados, que sistematizou nas suas obras. Sua formação de naturalista não impediu o florescimento de sua incomparável curiosidade pelas coisas do homem e da sociedade. Considerava que os fenômenos sociais vinculavam-se estreitamente às condições naturais. Depois de correr o mundo, retornou para a Europa e fixou-se em Paris, incentivando a formação de sociedades e reuniões científicas, cooperando desta maneira para a ampliação do saber a respeito da superfície da Terra. Em Berlim, já na idade madura, tornou-se professor, e além disso,  conselheiro do rei da Prússia, dando mostras de preocupação com o desenrolar da unificação alemã (ANDRADE, 1992, 52).

 

Karl Ritter, igualmente prussiano, ligado às áreas das ciências humanas, foi filósofo e historiador. Íntimo das classes dominantes, foi preceptor de jovens de famílias ilustres, inclusive em viagens à Itália e à Grécia. Tornou-se um grande professor na Universidade de Berlim, tendo  se dedicado ao estudo minucioso da Ásia Menor (ANDRADE, 1993,12-3).

 

Um aspecto decisivo na obra de Ritter é a profunda influência exercida nesta pelo pedagogo suíço, J. E.  Pestalozzi. Autores defendem que as concepções de Ritter não são nada mais que a aplicação do método de Pestalozzi à geografia. O assunto é polêmico, mas, segundo Capel, nota-se  um fundo de verdade nesta crença. De fato observa-se tal influência desde o uso do conceito de “tipo” até a sua produção cartográfica, que tem sido interpretada em relação à importância que Pestalozzi reservava ao desenho, como forma de visualização intuitiva das unidades geográficas (CAPEL, 1982, 45).

 

Os maiores geógrafos do final do século XIX, como Friedrich Ratzel, Élisée Reclus e Vidal de la Blache foram seus  entusiásticos admiradores e alunos, e, no entanto, Ritter não fez escola (ANDRADE, 1992, 52)

 

As concepções fundamentais de Humboldt  formaram-se da convergência do racionalismo da Ilustração francesa, do século XVIII, do idealismo alemão e da perspectiva positivista. Vem deste legado o projeto de estabelecer leis gerais que explicassem a realidade, fazendo a ligação  do povo, elemento social, ao meio ambiente. Para a descoberta das leis sociais, que eram a sua preocupação,  ele admitia e professava princípios fundamentados da obra de Newton. Sua formação de naturalista buscava abordar a natureza física, para chegar à explicação do desenvolvimento social, embora não se preocupasse com as relações sociais em si, reservadas, pelo pensamento da época,  a outra ciência ainda em formação, a sociologia.

 

Valorizando as técnicas cartográficas, que estavam em um período de grande aperfeiçoamento, Humboldt  elaborou o desenho de linhas que unissem os pontos que apresentassem temperaturas médias idênticas, as isotermas, para delimitar o que chamou de zodíaco isotérmico que deveria apresentar um largura de 35º tendo como centro o paralelo de 40º Norte.

 

Ao comparar a distribuição do relevo, as condições climáticas, e as formações vegetais em diversas latitudes, Humboldt fez a análise das conexões entre estes elementos, determinando causas e efeitos, levando a elaboração do princípio da causalidade, noção muito importante para os geógrafos da primeira metade do século XX (ANDRADE, 1992, 53).

 

Ao contrário de Humboldt, Ritter não foi viajante, nem explorador, mas um leitor voraz e talentoso escritor. Buscou, principalmente, descrever a sociedade, tentando explicitar o desenvolvimento do homem relacionando os conceitos de  povo e de meio natural. Partindo do idealismo de Shelling e do formalismo neoplatônico, aceitava que o todo era formado pela soma das partes e que da soma das partículas locais chegar-se-ia ao estabelecimento de leis gerais, pertinentes à toda superfície terrestre. Nisto se ancorava o princípio da geografia geral ou da analogia, empregado em sua extensa obra. Na tentativa de determinar leis gerais que dessem conta dos fenômenos humanos , encontrou obstáculos, tendo em vista que as leis sociais não apresentavam a uniformidade das leis físico-naturais. Na atualidade, este tema ainda embaraça a atuação dos especialistas das ciências sociais, fazendo com que inúmeras linhas teóricas resvalem para o organicismo (ANDRADE, 1992, 53).

 

A obra destes dois estudiosos deve ser considerada no contexto da sociedade alemã, tendo em vista a o desenvolvimento da dominação capitalista e do processo de unificação daquele país. A questão que orientava o desenvolvimento intelectual alemão no século XIX, concentrava-se no problema da unidade nacional. Este problema já se encontrava posto no início do século, e no seu transcorrer, sucederam-se diversas desdobramentos. Estava colocada a questão do espaço nacional no centro das atenções da sociedade alemã. A definição da indentidade, a demarcação da “área” dos alemães, ou seja,  tudo que justificasse o projeto de unificação exigia a discussão do espaço nacional. Na sociedade alemã, portanto, encontravam-se poderosos estímulos para a pesquisa e o debate dos temas geográficos. Por analogia, se a sociologia, segundo Engels, floresceu de forma autônoma em território francês, país ímpar no que se refere ao desenvolvimento das lutas de classe que sempre chegaram à decisão final, a geografia enquanto ciência autônoma, teve tudo para brotar na Alemanha, onde o problema do espaço ou do território localizava-se exatamente no centro dos problemas da sociedade. As teorizações de Humboldt e Ritter, elaboradas basicamente entre 1800 e 1840, inscrevem-se no campo do referendo científico às primeiras propostas de efetivação da unificação alemã. A receptividade experimentada pelos dois autores, comprovada no respeito e nas posições acadêmicas por eles usufruídas, demonstra a repercussão dos temas por eles abordados. Ou seja, o florescimento da sistematização da geografia, exatamente na Alemanha, aconteceu tendo em vista as condições específicas do desenvolvimento das relações capitalistas nesse país. No qual estava colocada o problema do espaço (e em decorrência o temário próprio da geografia) no centro da discussão política. Esta relevância provinha da fragmentação nacional vivida pelo povo alemão e do perfil retardatário de sua unificação. O debate geográfico no século XIX continuou,  recebeu a influência e, por sua vez,  influenciou esse processo de unificação, tendo sido obra, principalmente, dos dois pensadores alemães estudados. Além disso, todos os estudos geográficos posteriores vão se reportar às obras de ambos, tanto para contestá-las quanto para confirmá-las. Apesar das diferenças, os pontos concordantes vão representar para a geografia posterior os alicerces de uma geografia única. Deste modo, os dois geógrafos inauguraram uma perspectiva de continuidade no pensamento geográfico e estabeleceram a sua respeitabilidade acadêmica. No entanto, não formaram escola, deixaram uma  herança mais geral, que será recuperada pela Geografia Clássica. (MORAES, 1992, 50).

 

2.1.7.  A GEOGRAFIA DO PODER DE RATZEL

Friedrich Ratzel, também alemão e exatamente prussiano, ganhou notoriedade por ter concedido maior importância ao homem no seu pensamento geográfico. Tendo presenciado o processo que unificou a Alemanha, impulsionado pela Prússia, elaborou uma perspectiva geográfica inteiramente alinhada aos projetos de expansão do novo império. Ligado às ciênciais naturais, principalmente aos estudos antropológicos,  com formação em farmácia e zoologia, descreveu o homem como uma espécie animal e não como um ser histórico que vive em sociedade. Promoveu a extensão das idéias de Darwin para a explicação da evolução dos fenômenos sociais. Por meio da luta entre as espécies, com a vitória das mais capazes na sua adaptação à natureza, ocorreria a evolução. Este raciocínio também foi aplicado no estudo sobre os povos, sendo escolhidos para a sobrevivência os mais aptos para a adaptação e o controle do meio natural. Eis a justificativa para supremacia dos povos da Europa, identificados como civilizados e progressistas, diante dos povos considerados selvagens e bárbaros, pertencentes a civilizações retrógradas.

 

Estas noções induziram aos geógrafos ingleses e norte-americanos, principalmente, a proclamar o determinismo geográfico, pois para eles o homem era um mero produto do meio. Os norte-americanos careciam de justificativas para a pretensa supremacia  anglo-saxônica em relação as nações indígenas autóctones e os hispano-americanos do México e do Caribe, e, sobretudo, para a sua política de expansão. Os ingleses, beneficiários do maior império colonial existente, buscavam justificar o controle britânico sobre as mais diversas nações do globo.

 

Tendo como base estes conceitos darwinistas, Ratzel formulou as leis gerais que explicavam o relacionamento entre o homem e a natureza, mostrando que as diferenças entre os povos e culturas eram resultado destas relações no decorrer da história. No que se refere ao Estado, admitiu que este é a sociedade estruturada controlando um território. Assim,  o domínio do território define o Estado, a sua importância sendo estabelecida em decorrência da situação e  grandeza da extensão subjugada. São extremamente importantes, na sua elaboração política os conceitos de espaço e de posição. A evolução, retrocesso ou estagnação de um Estado são resultantes de sua capacidade de expansão, ou de contração. Ou seja, ampliação ou diminuição do território submetido. Eis a justificativa para as guerras de anexação e controle dos povos fracos pelos fortes. Um conceito estratégico seria o de “espaço vital”, utilizado pelo estado maior alemão nos meados do século XX, que significa a relação entre a população de um Estado e a capacidade de uso do seu espaço territorial. Moreira conseguiu sintetizar muito bem as concatenações do raciocínio ratzeliano:

 

“...os homens agrupam-se em Sociedade, a Sociedade é o Estado, o Estado é um organismo. A Sociedade e o Estado são o fruto orgânico do determinismo do meio. O Estado é um organismo em parte humano e em parte terrestre. É a forma concreta que adquire em cada canto a relação homem-meio, poder-se-ia dizer. A própria síntese. O Estado é assim porque possui uma relação necessária com a natureza: do espaço é que retira sua existência e desenvolvimento. Os Estados necessitam de espaço, como as espécies. A subsistência, energia, vitalidade e o crescimento dos Estados têm por motor a busca e conquista de novos espaços. Troquemos ‘Estado’ por ‘imperialismo’ e entenderemos Ratzel”. (MOREIRA, 1992, 33).

     

 

O pensamento de Ratzel repercutiu amplamente e conduziu ao seu discípulo, o sueco Kjellen, a utilizar a palavra “geopolítica”, que seria o elo de ligação  entre os conhecimentos dos geógrafos e os  propósitos dos generais. Em outras palavras, seria a operacionalização militar do saber geográfico, campo de estudos de grande aceitação nos dias de hoje. Mas, segundo Andrade,  seria bom fazer uma ressalva, se prospera uma geopolítica do poder, da dominação,  instrumentalizada pelas ditaduras, pelos conquistadores, pelas classes dominantes de um modo geral, pode-se também vislumbrar, ainda em construção, uma geopolítica dos povos, instrumento útil nas revoltas e guerras de libertação (ANDRADE, 1992, 55).

 

A obra de Ratzel só pode ser compreendida na conjuntura de uma Alemanha recém-unificada e que se encontrava desprovida de colônias num contexto em que a França, a Inglaterra, a Rússia e os Estados Unidos já haviam promovido a partilha do mundo. Ele prognosticou que, no decorrer do tempo, os impérios britânico e francês acabariam se desmembrando, tendo em vista a sua descontínia distribuição por áreas as mais diversas, associando povos de etnias e  culturas diferentes; e, ao contrário, imaginou a consolidação dos impérios russo e norte-americano, a julgar pela continentalidade, pelo aspecto contínuo e predominância quantitativa, econômica e cultural de um povo sobre os outros. Ratzel julgava que a sorte da Alemanha, localizada no coração da Europa, deveria estar no próprio continente europeu, expandindo-se para o leste e o sul, e, logo após,  para o oeste, onde a derrocada do império de Napoleão III poderia ser interpretada como sinal de decadência. A Alsácia e a Lorena, ricas em minério de ferro e de carvão,  já haviam sido conquistas pelo império alemão em detrimento da França. O expancionismo germânico fora da Europa contentar-se-ia com territórios menos importantes da África (Tanganica, Namíbia, Togo, Camerum) e alguns arquipélagos da Oceania. As indagações de Capel, servem de complemento ao que já foi visto:

 

 

“Fronteiras, domínio do Estado, expansão, proclamação do Estado acima das classes sociais, Estados fortes e Estados fracos, estabilidade da instituição política...poderá alguém por em dúvida que seriam estas precisamente a idéias que preocupavam, quando Ratzel escrevia, a burguesia industrial alemã, no momento em que a Alemanha havia se unificado, tendo alcançado  limites no confronto com outros poderosos vizinhos e em que se lança à expansão colonial fora da Europa, referendada pelo Congresso de Berlim? Restará alguma dúvida da relação entre as idéias científicas e a organização social? Poder-se-á negar que as vezes os cientistas sob um projeto que pretende ser objetivo não fazem mais  que contribuir para a justificação ideológica da classe dominante considerando de fato os problemas que interessam a esta e da forma que a ela interessa?” (CAPEL[2], 1983, 293).

 

A obra de Ratzel, apesar das críticas que provocou, influenciou sobremaneira a evolução da geografia. A própria geografia francesa constituiu-se com uma reação ao pensamento deste autor. Seu valor manifestou-se no propósito de colocar no centro do debate geográfico  os assuntos político-econômicos e o homem; mesmo que numa perspectiva naturalizante, e para justificar interesses adversários do humanismo (MORAES, 1981, 60).

 

2.1.8.  A GEOGRAFIA LIBERTÁRIA DE RECLUS E KROPOTKIN

A contribuição ao conhecimento geográfico de Élisée Reclus e Pietr Kropotkin é muito diferente daquela que anteriormente abordamos. Os primeiros se alinharam com as classes dominantes, conquistaram postos acadêmicos e serviram a soberanos e presidentes, os dois últimos contestaram a estrutura de poder, desqualificaram a existência do Estado, professaram idéias radicais de mudança social e saíram em defesa da classe trabalhadora. Positivistas, adversários de Marx na militância política, incorporaram, todavia, algumas categorias marxistas e anunciaram um caminho libertário tanto para a sociedade quanto para a geografia. Oriundos de classes sociais distintas, combateram pelas mesmas idéias e cooperaram em trabalhos de natureza política e científica.

 

Reclus, francês, vindo de família modesta, filho de pastor protestante, era destinado ao sacerdócio. O estudo da obra dos socialistas utópicos fizeram-no republicano e ateu. Conspirou para impedir o golpe de Luís Bonaparte, em 1851, e atuou na Comuna de Paris, em 1871, fato que o levou sair da França pela primeira vez, para fugir à prisão, viajando para a Irlanda, Estados Unidos e a Colômbia. Posteriormente sofreu o exílio, radicando-se na Suíça. As suas obras mais famosas, “A Terra”, em dois volumes, editada em 1869, a “Nova geografia universal”, que veio a público de 1875 a 1892, em dezenove volumes, e o “Homem e a terra”, publicada de 1905 a 1908, em seis volumes, foram frutos de minuciosa pesquisa bibliográfica realizada durante inúmeras viagens. Cuidadoso e valorizando o pormenor, ressaltava as descrições e as ilustrações cartográficas, o que o tornava acessível a um grande público. Diversamente dos seus contemporâneos, não segmentava a geografia entre física e humana, mas estudava em detalhes fenômenos físicos, apontando suas conexões com a ação antrópica, bem como as modificações realizadas pelo homem no meio natural para o seu melhor uso. A pesquisa do meio natural era uma tarefa que facilitava a compreensão do progresso da humanidade. Eis porque escreveu primeiro uma “Geografia Universal” na qual estabelecia um corte horizontal da superfície terrestre, com suas fronteiras políticas, sociais e culturais, e logo após, no livro “O homem e a terra” , efetuava um corte vertical, em profundidade, estudando a ação humana da pré-história até a época em que ele viveu. Não provocou conflitos com sociólogos e antropólogos, como vários geógrafos do seu tempo, pois não se preocupava em delimitar a geografia, assumindo uma visão científica totalizante.

 

A geografia, segundo Reclus,  deveria analisar os fenômenos baseada nas idéias de que a sociedade está subdividida em classes sociais, em decorrência das modalidades de apropriação dos meios de produção; que esta diferenciação de classes engendra a luta entre as classes dominantes que não ousam perder a hegemonia e a propriedade das riquezas; e finalmente, que existe uma propensão ao aprimoramento do indivíduo e à melhoria da sociedade diante do aperfeiçoamento inexorável do homem. Tal inferência era proveniente da sua fé arraigada no progresso, do seu cientificismo, ou seja, da concepção de que a atividade científica era a única portadora de soluções para os problemas, sendo capaz de promover a evolução social da humanidade.

 

Na ciência geográfica de Reclus as suas próprias concepções político-sociais estão sempre subjacentes, mesmo quando sob auto-censura, por razões editoriais, ou por motivos de sobrevivência. Estudando a supremacia britânica sobre a Índia demonstra como se realiza o processo de dominação efetivo, e abordando a ação européia na China, descreve uma dominação diversa, onde continua onipresente a exploração do dominador sobre o dominado (ANDRADE, 1992, 58).

 

Os assuntos em pauta no seu tempo, alguns ainda dramaticamente presentes, foram estudados nos seus livros numa perspectiva muito diferente da usual entre os seus contemporâneos. Tais como a questão colonial, a qual nunca promoveu a justificação; o da destruição da natureza exacerbada com a expansão capitalista global; a urbanização e industrialização aceleradas com suas seqüelas: problemas de saneamento básico, de transporte,  de abastecimento, de superpopulação,  do controle exercido pelos países do Norte sobre os países do Sul, classificados atualmente como subdesenvolvidos, dentre outros temas. Sob o seu ponto de vista, explicitou-se que já no final do século XIX,  em termos proporcionais em relação à população do globo, seria insignificante o contigente de povos ainda na fase da economia natural. Pois o capitalismo de forma desigual e combinada, já invadira todos os quadrantes da Terra. Embora Reclus se autodenominasse e fosse um comunista libertário, não conseguiu se livrar do eurocentrismo. Ele criticava a implantação de colônias de exploração, mas referendava o estabelecimento de colônias de povoamento em áreas com baixa densidade demográfica.

Atualmente com o florescimento de uma perspectiva crítica nas universidades, constata-se um ressurgimento do interesse pela obra de Reclus, que tem levado ao estudo dos seus princípios teóricos e a publicação em antologias dos seus escritos considerados mais atuais. (MOREIRA, 1992, 36).

 

Pietr Kropotkin, de ascendência nobre, da casa de Rurik, mais antiga que a dos Romanov, era filho de latifundiário. Pela sua estirpe, estava predestinado a seguir carreira militar, integrando os batalhões de elite que protegiam o Tzar. Freqüentou a corte e foi matriculado em escola preparatória de oficiais. O prazer da leitura e o interesse pela natureza fizeram  com que se integrasse ao Corpo de Cossacos do Amur, viajando ao Extremo Oriente. Oficial do Exército Russo, documentou-se sobre a região e trabalhou em levantamentos topográficos e geográficos no Sougari, nas montanhas do Grande Khingan, no Salan oriental e no Olekma-Vitim. Cruzou a Manchúria, em missão secreta, para fortalecer a influência do Império Russo no Extremo Oriente.

 

Egresso da Sibéria, onde corrigiu inúmeras cartas, sobre localização de montanhas e rios, inclusive fazendo a correção de mapas de Humboldt, renunciou à carreira no exército, dedicando-se a trabalhos científicos e a tomar parte em conspirações. Viajou à Finlândia e realizou  pesquisas científicas sobre a região setentrional, de clima glacial, pertencente ao Império Russo. Estudou glaciologia e previu a existência  no mar Ártico do arquipélago, denominado posteriormente Ilhas de Francisco José,  descoberto em seguida pelos geógrafos da Alemanha. Angariou notoriedade e integrou, por muitos anos, como secretário, a Sociedade Geográfica Russa, e pela relevância de suas pesquisas geográficas foi agraciado com a Medalha de Ouro.

 

Kropotkin por meio de viagens e expedições científicas acabou por conhecer as dificuldades da vida dos camponeses e sensibilizou-se com as precárias condições de existência destes que não tinham a  posse das terras, em contraposição à abundância e conforto daqueles que as possuíam. Esta desigualdade social intensificou sua militância revolucionária que resultou no seu aprisionamento na fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. Dalí fugiu espetacularmente para o exterior, onde permaneceu exilado por mais de quatro décadas, retornando apenas depois da Revolução de 1917, que não recebeu o seu apoio, pois previu que ela fortaleceria o papel do Estado, o qual ele queria  abolir. Apesar disso, gozou de prestígio e homenagens até a sua morte, em 1921.

 

Ele era um apaixonado pela contemplação da natureza e acreditava no poder absoluto da ciência. Cientificista, portanto, aceitava que as ciências da natureza e as sociais tivessem a missão de descobrir as  leis gerais  que regulassem os fenômenos e para ele a geografia era uma ciência da natureza. Permaneceu positivista e discordou que as leis dialéticas, professadas por Marx e Engels, pudessem fornecer um auxílio positivo ao progresso das ciências. Dava relevância ao processo educativo e ao papel que nele a geografia poderia assumir.

 

Kropotikin, conforme já vimos,  considerava a geografia uma ciência natural e entendia que ela era composta de quatro campos. O primeiro abarcaria as leis que regem a distribuição das terras e das águas sobre a superfície terrestre e as transformações que se realizam em tal distribuição; o segundo buscaria as leis explicativas da formações orográfica, hidrográfica, geomorfológica e da atuação das condições meteorológicas sobre o relevo e encarava os acidentes como partes de processos dinâmicos resultantes de interação; o terceiro estudaria a configuração e as causas da distribuição da fauna e flora sobre a superfície terrestre; o quarto, finalmente, abrangeria o estudo da distribuição dos homens pela superfície da Terra.

 

Admirador dos métodos de Pestalozzi, criticou o ensino de um modo geral, e o de geografia, especificamente, por ser este muito teórico, afeito a nomenclaturas e por não despertar a curiosidade dos alunos. Defendia que os mestres deveriam ensinar com o auxílio da literatura de viagens, mostrando a diversidade cultural dos povos com o objetivo de estimular intelectualmente  os jovens. Recomendava os trabalhos de campo, pois julgava que pela observação das características da paisagem haveria uma melhor compreensão da natureza, e assim, se tornaria mais aprazível a utilização dos livros didáticos, que muitas vezes, traziam informações que não poderiam ser diretamente percebidas.

 

Em sua opinião  não existia a neutralidade tanto na ciência quanto no ensino. Defendia que a geografia, cúmplice da antropologia, deveria contribuir para um maior entendimento entre os povos, eliminando fronteiras, promovendo a fraternidade, a paz, e a compreensão entre nações. Acreditava no desaparecimento do Estado e combatia  pela formação da juventude para a vida em liberdade, acessível a todos os homens, sem diferenças de classe, sem dominadores e dominados e governada por organizações dos trabalhadores.

 

Estes dois anarquistas-geógrafos, Reclus e Kropotkin, mesmo permanecendo positivistas, sofreram certa influência da dialética e empregaram categorias, como por exemplo,  classe social, nos seus estudos geográficos. Fizeram propaganda da doutrina anarquista em livros e artigos específicos, simultaneamente à composição das obras de caráter científico. As premissas filosóficas e políticas atuantes na propaganda manifestaram-se também na atividade científica. O  estudo das formas de ocupação do espaço pela sociedade, por exemplo,  fundamentava-se nas ídéias que davam sentido às suas vidas. De forma idêntica, mas em sentido contrário,  os geógrafos conservadores pensavam o espaço geográfico, consciente ou inconscientemente de acordo com as predisposições e  interesses  das classes dominantes.

 

Reclus tornou-se professor da Universidade Livre de Bruxelas, tardiamente, aos 64 anos e Kropotkin não aceitou lecionar na Universidade de Cambridge, pois a obtenção do cargo estava condicionada à abdicação da militância política. Nos dias atuais nota-se

 

“uma espécie de recuperação da obra dos dois grandes geógrafos, provocando a difusão e a discussão das mesmas. Observa-se assim que a neutralidade da Geografia, tão defendida pela escola clássica, é um mito, e que hoje à Geografia do Poder se vem contrapondo, embora de forma descontínua, uma Geografia do Povo” (ANDRADE, 1992, 62).

 

 

2.1.9.  AS CARACTERÍSTICAS DA GEOGRAFIA CLÁSSICA

No início deste trabalho, após o estudo da evolução dos conhecimentos geográficos nos primórdios dos tempos modernos,  abordamos o  período  no qual se notabilizaram os institucionalizadores desta ciência. A seguir trataremos do segundo período, de consolidação e de difusão do conhecimento geográfico, denominado período clássico, que iria de 1901 a 1946. O desenvolvimento da ciência desenrola-se de modo contínuo, apesar deste processo não ser linear e demarcar-se em etapas, que às vezes, parecem ser simultâneas. No caso da geografia, isto se faz mais presente ainda, sendo que na fase que  vamos estudar torna-se difícil uma delimitação precisa dos fatos. Posto que no princípio do século XX, estudiosos que tornaram-se respeitados ainda no século XIX, envoltos na atmosfera intelectual daquela época, continuaram suas obras, e vários dos proeminentes geógrafos clássicos iniciaram seus trabalhos ainda no século XIX,  de forma análoga aos grandes geógrafos da primeira metade  do século XX que continuaram a escrever livros importantes já no pós-guerra. Ou seja, as fronteiras entre estes períodos mostram-se relativas.

 

O que contrastou esta etapa da anterior, grosso modo, foi a decadência do finalismo positivista e evolucionista e a tentativa de descobrir leis, válidas universalmente, que dessem conta das diferenciações da superfície terrestre. A geografia, incapaz de extender as leis físicas ao processo de produção do espaço pelos homens, restringiu-se aos fenômenos da natureza, ou limitou-se aos estudos corológicos, de análise de paisagens e de caracterização  de formas de relacionamento entre o homem e o meio em áreas singulares, estudos estes isentos da preocupação de generalizar os seus resultados para todo o globo. A respeitabilidade da geografia regional ascendeu em prejuízo da geografia sistemática ou geral.

 

Em plena fase de expansão do capitalismo industrial e da premência de dados empíricos sobre o espaço produtivo, os geógrafos clássicos realizaram estudos corológicos, analisando parcelas específicas da superfície da Terra. Acreditavam que o conhecimento das partes levaria ao conhecimento do todo. Conduziram a geografia a se transformar em uma ciência idiográfica e descritiva, por meio do método indutivo, que vai do particular ao geral. Os geógrafos alemães, nos estudos regionais, descreviam e analisavam a paisagem nos seus aspectos naturais, enquanto os franceses consideravam a geografia um ciência de síntese, na qual eram consideradas tanto as características físicas quanto as transformações produzidas pelo homem. O positivismo transmutou-se em funcionalismo que contaminaria todas as ciências sociais da época. Os estudos regionais foram considerados os estudos geográficos por excelência pois neles se estudava ao mesmo tempo os fenômenos físicos e os humanos. A mera justaposição de dados naturais e sociais era vista como procedimento que revelasse a complexidade do real. A particularidade da formação do geógrafo condicionava a natureza do seu trabalho. Uma formação com ênfase na área física ou nas ciências humanas,  resultaria em trabalhos onde predominassem os aspectos naturais ou sociais, respectivamente. A ação do meio natural foi tão supervalorizada que durante muito tempo as regiões geográficas foram denominadas de regiões naturais, e se acreditava que as condições naturais determinavam os limites destas, sendo que a ação antrópica se restringiria a dividi-las em zonas. André Chollay, em 1941, promoveu um avanço ao propor as regiões como o resultado da ação dos fenômenos físicos, biológicos e humanos. A perspectiva regional separou a geografia geral ou sistemática da geografia regional, desmantelando, no âmbito do saber e da metodologia da época, a união entre o regional e o geral. Esta desestruturação promoveu uma crescente especialização, criando áreas de pesquisa isoladas, a meio caminho entre a geografia física e biológica, bem como da geografia humana. Campos verdadeiramente autônomos se consolidaram em relação a geografia física: a geomorfologia, a climatologia, a hidrologia, a fitogeografia, a zoogeografia, etc. e em relação à geografia humana: a geografia da população,  a geografia agrária,   a geografia da indústria,  a geografia da circulação e dos transportes,  a geografia econômica,  a geografia política,   a geografia social, etc. Esta fragmentação colocou em perigo a própria existência da ciência geográfica, criando incertezas mesmo em geógrafos conceituados. Este estilhaçamento foi fruto das condições da época e consolidou o empobrecimento da discussão epistemológica e metodológica no seio da ciência geográfica (MOREIRA, 1992, 37).

 

O enfoque regional necessitava de uma visão mais abrangente das áreas sob investigação para melhor apreendê-las, o que direcionou o geógrafo a buscar a explicitação da realidade enquanto totalidade. Aprofundaram-se as pesquisas sobre as condições naturais e os estudos das formas das organizações humanas. Estava colocada a urgência de colher em outras ciências, chamadas auxiliares, o saber imprescindível para o desvendamento  e interpretação  da paisagem e da região. Eis a origem do enciclopedismo atribuído aos geógrafos, das discordâncias entre si, das disputas de fronteira entre a geografia e outras ciências, e da celeuma entre geógrafos e cientistas sociais, de outras especializações, tais como Émile Durkheim. Esforços foram empreendidos para esclarecer as conexões entre as ciências, mostrando a convergência das mesmas, apesar das  abordagens diferentes, para um mesmo assunto ou objeto de estudo. No âmbito do positivismo, em parte renegado, combatido, mas persistindo como referência para o conhecimento científico, não havia espaço para a existência de uma ciência social única. Admitia-se um conjunto determinado de ciências com seus respectivos objetos de investigação exatamente definidos. A ciência geográfica para muitos geógrafos, inclusive Vidal de La Blache, era classificada como uma ciência natural. Este, historiador de formação, a aceitava como uma ciência dos lugares e não do homem. Muito tempo tepois é que a geografia assumiu o seu lugar entre as ciências sociais, fato de grande significação epistemológica, pois possibilita-a compreender e explicar o contínuo processo de produção e reprodução do espaço social; caso contrário abordaria apenas os resultados deste trabalho. Ao tentar cumprir a tarefa de estudar a sociedade, as relações que condicionam o  espaço produzido e explicar a materialização da sociedade sobre este espaço, a geografia se posiciona estrategicamente no centro dos acontecimentos da atualidade.

 

A Geografia Clássica prosperou porque, apesar da sua debilidade,  atendia, de uma forma ou de outra,  à demanda das classes dominantes no seu projeto de exploração da natureza e dos homens. Como cada país fosse constituído por especificidades, para melhor serví-los a Geografia Clássica subdividiu-se nas chamadas escolas nacionais ou até regionais. Entraram em cena, desta maneira, as escolas alemã, francesa, britânica, soviética, americana, etc. Elas convergiam seus estudos na direção dos interesses dos seus respectivos países e buscavam soluções, diretrizes e justificativas para os mesmos. Na Alemanha legitimariam a conquista do espaço vital; na França e na Grã-Bretanha forneceram conhecimentos estratégicos aos seus impérios coloniais; nos Estados Unidos e na Rússia  justificaram e auxiliaram na consolidação do domínio de áreas habitadas por outros povos. As escolas, como foi visto, estavam imbuídas de nacionalismo patriótico e inteiramente compromissadas com a política dos governos a que serviam (ANDRADE, 1992, 67).

 

Considerando os objetivos deste trabalho, abordaremos para efeito de exemplificação, apenas as características que julgamos essenciais das escolas francesa e alemã, e principalmente o relacionamento entre elas.

 

 

 

2.1.10.   AS ESCOLAS ALEMÃ E FRANCESA

Na Alemanha viveram os dois proeminentes geógrafos, considerados de forma quase unânime, como os fundadores da geografia moderna, Humboldt e Ritter, além de  Ratzel, de inequívoca importância. Neste país a geografia também se institucionalizou primeiro. Levando-se tudo isto em conta, além das características específicas do seu desenvolvimento, mencionadas anteriormente,  é compreensível que em território alemão tenha ocorrido o aprofundamento dos estudos geográficos, que nele tenham surgido os destacados geógrafos do período clássico e que as concepções germânicas tenham se espalhado para outros lugares, até mesmo pelos Estados Unidos.

 

No período clássico verificaram-se inúmeras tendências na geografia alemã, tais como o estudo das paisagens, onde se valorizava mais o natural que o social; os estudos de interesse político, em obras de geografia e também de geopolítica, destacando-se Haushofen, que legitimou o expansionismo alemão; na área econômica, sob perspectiva naturalista, os estudos de geografia tropical além de outros estudos de geografia econômica; os estudos de teoria da localização, destacando-se, na década de 1930, Walter Christaller, com sua teoria do lugares centrais. O debate sobre sua obra nas décadas de 1960 e 1970 ocasionou o nascimento da geografia quantitativa e a valorização dos métodos matemático-estatísticos, significando um retorno ao positivismo e fortalecendo a escola neopositivista moderna (ANDRADE, 1992,69).

 

Paul Vidal de La Blache, primeiro geógrafo francês a assumir uma cátedra universitária de geografia, foi o personagem principal da escola francesa, constituída na primeira metade do século XX. Quando a França foi derrotada pela Alemanha em 1871, muitos explicaram o fato tendo em vista a alegada superioridade do ensino alemão sobre o ensino francês. Afirmava-se que a guerra havia sido ganha pelo mestre-escola alemão. A França derrotada, arcando com uma catastrófica dívida de guerra, sofrendo a perda da Alsácia e parte da Lorena, buscou uma recuperação. O Governo Republicano que sucedeu ao II Império, dentre outras medidas,   promoveu a reorganização do ensino e as disciplinas da geografia e da história ganharam destaque no nível secundário (ANDRADE, 1992, 69).

 

A derrota na guerra contra a Alemanha tornava imperativo para a classe dominante francesa pensar o espaço, de construir uma geografia que desautorizasse as concepções alemãs e, paralelamente,  fundamentasse a expansão do capitalismo francês.

 

Se a geografia de Ratzel referendava a política imperialista do Estado alemão, era urgente para a França a necessidade de contestá-la. A geografia francesa foi engendrada por esta urgência. Vidal de La Blache, em interlocução com o pensamento de Ratzel, foi o catalizador deste processo, que resultou no deslocamento do centro da discussão geográfica da Alemanha em direção à França. Ratzel só pode ser entendido no contexto histórico alemão, a geografia de Vidal de La Blache, por sua vez, torna-se compreensível quando vista no âmbito da Terceira República, em relação à disputa com a Alemanha, e levando-se em conta as especificidades históricas francesas.

 

Ratzel e La Blache, por meio da produção científica, foram veículos dos propósitos das classes dominantes de seus respectivos países. Muitas das peculiaridades destas produções foram condicionadas pelas diferenças do desenvolvimento capitalista em solo francês e alemão. A perspectiva de Ratzel expressava o autoritarismo presente na sociedade alemã; ao privilegiar o Estado nos seus estudos apenas dava relevância ao elemento social hegemônico atuante na própria realidade local. A ótica de La Blache, mais liberal, de acordo com a evolução  francesa, provinha da noção abstrata de homem do liberalismo. Desta discrepância partiram as críticas de La Blache à obra de Ratzel e o que tornou possível a execução  da tarefa intelectual destinada à geografia pelas classes dominante francesas.

 

A clara politização do pensamento de Ratzel foi criticada por La Blache. Ou seja, referia-se ao fato das colocações ratzelianas abordarem explicitamente os temas políticos. Reprovou a conexão direta entre o pensamento geográfico e a tomada de posição política efetiva, sob a alegação do caráter neutro da atividade científica. Assim, confrontou-se com a propaganda do expansionismo alemão impressa na obra de Ratzel. Esta suposta defesa da neutralidade da ciência no entanto não foi obstáculo para que a geografia vidaliana promovesse  a justificação ideológica dos interesses da França. Apenas o fez de forma oblíqua, ao contrário de Ratzel. A idealização da autonomia da ciência e uma falsa despolitização da geografia são legados importantes da escola francesa. Esta camuflagem do contéudo político da atividade científica era proveniente do retrocesso do pensamento burguês, que após a tomada do poder, encontrava-se receoso da ocorrência de mudanças na sociedade que poderiam ser estimuladas pelo desenvolvimento das ciências do homem. La Blache promove a aparente separação entre o conhecimento e a sociedade, negando o compromisso deste com a prática dos homens, e portanto, encobrindo o seu caráter ideológico. O conceito de espaço vital de Ratzel foi combatido com tenacidade, e por meio desta disputa, enfrentava-se o expansionismo germânico propriamente dito. No entanto, se La Blache desqualificou a geopolítica foi para elaborar algo mais condizente com os interesses da França: uma especialização denominada geografia colonial.

 

La Blache contestou o lugar subalterno que era relegado ao homem na obra ratzeliana. Valorizou a história, a liberdade,  enaltecendo a criatividade da ação humana, que não seria apenas uma resposta à natureza. Esta concepção constitui a melhor herança de La Blache à geografia, apesar deste autor não ter se afastado totalmente da visão naturalista. Uma  declaração de sua autoria diz que a geografia seria uma ciência dos lugares, não dos homens. Assim, o objeto de análise seria apenas o resultado da práxis humana na paisagem, e não o processo propriamente.

 

La Blache contestou a idéia da determinação da história pelas condições naturais. Defendeu uma perspectica relativista no que se refere às relações entre o homem e a natureza, afirmando que tudo que é relacionado ao homem seria mediado pela contingência. Este ponto de vista, referendado pelos seus discípulos, tornou a geografia francesa impossibilitada de qualquer generalização. Ao criticar o determinismo naturalista de Ratzel, a concepção de La Blache ofuscou a existência de qualquer outra determinação.

 

Partindo das idéias anteriormente relatadas, engendradas pela sua interlocução conflituosa com Ratzel, La Blache desenvolveu  o cerne do pensamento geográfico da escola francesa (MORAES, 1981, 67).

 

Muito próximo do poder de Estado, La Blache disseminou os princípios que orientaram, grosso modo,  a geografia na França, empurrando para a obscuridade a obra de Reclus, até então popular. A Geografia de Estado, oficializada nos meios acadêmicos e ligada aos setores conservadores ocupava o seu espaço. Principalmente numa época em que se consolidara o Império Colonial Francês.

 

La Blache deu relevância aos trabalhos de campo, valorizou a intuição e não se preocupava com teorizações globalizadoras. Opôs o regional ao geral, orientando seus alunos a realizar pesquisas sobre áreas restritas, levando em consideração os  aspectos físicos justapostos aos aspectos humanos e econômicos. Estimulou tanto os estudos regionais, que seus discípulos entendiam geografia como um sinônimo daqueles. A pretendida integração entre o físico e o humano, de fato se limitava a uma superposição.

 

O conceito de gênero de vida seria entendido como um complexo integrado de ações que, perenizadas pelo força do hábito, mostrariam a adaptação, ou seja, as reações dos seres humanos diante dos obstáculos do meio geográfico. Este conceito assemelha-se à noção de cultura, e por outro lado, conduziria a uma perspectiva rural, desprovida de dinamismo, enquanto nas ciências sociais, de um modo geral,  assumia relevância a categoria de classe social. La Blache enfatizou o estudo das comunicações para que se percebesse a relação entre os gêneros de vida e as regiões, principalmente rurais, e as aglomerações urbanas que se desenvolviam e chamavam atenção.

 

A proposta lablacheana coesionou e conferiu homogeneidade aos geógrafos franceses, apesar de algumas divergências, dominou por décadas a França e foi exportada para o exterior, sobretudo Grâ-Bretanha, chegando inclusive ao Brasil. Após a Segunda Grande Guerra sofreu adaptações na medida em que o geógrafo foi chamado a contribuir para a reconstrução, o planejamento, e foi obrigado a dar mais valor ao papel da indústria e da cidade na construção e reestruturação espacial (ANDRADE, 1992, 74)

 

2.1.11. O LEGADO  DA GEOGRAFIA CLÁSSICA

De um modo geral, podemos afirmar que a Geografia Clássica legou um arcabouço científico constituído, um conjunto de saberes organizados, com homogeneidade intrínseca e inequívoca continuidade nas discussões. Deixou conceitos, que apesar de controversos, caracterizaram uma área comum de pesquisa, consolidando a independência de uma disciplina. Nesta trajetória,  independente de como o interpretou, construiu um temário que permaneceu como a sua melhor contribuição. Sua façanha foi a apresentação de problemas válidos, a formulação de perguntas legítimas, mesmo que os equacionamentos e respostas apresentados possam ser considerados completos equívocos.

 

A Geografia Clássica, apesar dos procedimentos metologógicos utilizados, também reuniu um valioso conjunto de dados empíricos e de mapas, resultado de uma observação minuciosa de áreas específicas. Esta compilação não pode ser menosprezada, pois pode subsidiar pesquisas posteriores, comprovando a utilidade das técnicas de descrição e de representação. E, por fim, a Geografia Clássica construiu conceitos, tais como território, ambiente, região, habitat, área, dentre outros, que exigem ser repensados (MORAES, 1981, 92).

 

 

 

2.1.12.  A CRISE DA GEOGRAFIA CLÁSSICA

A Segunda Guerra Mundial destruiu as atividades econômicas, arrasou um grande número de cidades e colocou abaixo antigos valores na maior parte da Europa. Face à necessidade de reconstrução, urgia estruturar o planejamento, sob as diretrizes políticas do Estado burguês. Abriram-se novas oportunidades de trabalho para os cientistas sociais que eram convocados a diagnosticar e planificar tendo em vista metas e prazos determinados. Este desafio, repercutiu nos geógrafos envolvidos, provocando a revisão dos conceitos científicos e abrindo o debate sobre o futuro da ciência geográfica.

 

Em meados da década de 1950 começou a aflorar a crise da Geografia Clássica, que depois se precipitou e ganhou vulto nos anos seguintes. Na década de 1960 a crise já era um fato consumado,  e após os anos 80,  o obituário do pensamento geográfico clássico já estava pronto. Os seus vestígios que ainda teimavam em existir foram considerados como anacronismos. Estava aberto um período de constestações, debates e alternativas para a ciência geográfica. O tempo da relativa homogeneidade no seio da Geografia Clássica havia se esgotado e novas perspectivas metodológicas pediam passagem. A crise foi necessária, pois permitiu exorcizar o passado da geografia que teve sempre “um peso maior do que as expectativas criadas” (SANTOS, 1978, 85).

 

Tentaremos, a seguir,  alencar os motivos principais da decorrada da Geografia Clássica. Em primeiro lugar, os fundamentos econômicos e sociais que possibilitaram o seu nascimento haviam ruído. A realidade mudou deixando para trás  a todos que foram incapazes de acompanhá-la, inclusive a geografia. Superada a fase da concorrência entre as empresas médias, havia chegado a hora dos trustes, dos monopólios, do grande capital. A revolução tecnológica, um divisor de águas formidável, demarcava o limite entre as duas eras. A crise  de 1929 aposentou o liberalismo econômico e exigiu a intervenção estatal, abalando a livre iniciativa e a propalada auto-regulação do mercado. Defendia-se a ingerência do Estado na administração e planejamento da realidade econômica, além do claro propósito de autorizá-la na organização territorial. A urgência do planejamento ordenava que as ciências sociais se travestissem em técnicas. A Geografia Clássica, ferramenta inútil,  foi relegada ao passado.

 

Em segundo lugar, a cidade, o campo e suas relações recíprocas foram abaladas com o impacto do crescimento dos níveis de urbanização  e pela industrialização e mecanização das áreas rurais. Definhavam as comunidadas inteiramente isoladas e se interconectavam cada vez mais os lugarejos, as cidades, as  metrópoles, as megacidades e as megalópoles. O lugar, por si só,  não tinha mais explicação e o que ele fosse, talvez tivesse sido definido, em outro lugar, do outro lado do mundo.  O capitalismo das empresas multinacionais, o capitalismo dos transportes e das comunicações intercontinentais, enfim, o capitalismo mundializado  estavam transformando  o espaço, em espaço geográfico globalizado. A aldeia global estava sendo antevista e as técnicas descritivas, de representação e  de pesquisa da  Geografia Clássica não mais a enchergavam. O Globo estava tornando-se único, ao mesmo tempo múltiplo,  e muito mais complicado. O espaço escrito pela economia global pedia uma nova linguagem, uma nova metodologia, pedia, enfim, uma nova geografia. Um salto foi tentado: o que ia direto das técnicas de pesquisa de campo do século passado  para o sensoreamento remoto, as imagens de satélite e os dados informatizados. Eis o vislumbre de uma Nova Geografia que acabou se revelando, apesar do aparato, tão antiga quanto a Geografia Clássica.

 

Em terceiro lugar, o positivismo clássico, fundamento da geografia, exposto ao novo mundo, revelou-se igualmente defasado. Este método, criticado internamente por seus defensores, passara por reformulações, ignoradas pela geografia, e tentara obter uma recuperação. O desenvolvimento científico e a reflexão filosófica tolheram suas pretensões, considerando-as ingênuas. A intrínseca complexidade dos novos fenômenos e a sofisticação do novo instrumental de pesquisa só confirmaram a sua crise, que do outro lado do espelho,  também seria a crise da geografia.

 

Finalmente, o declíno do pensamento geográfico clássico pode ser atribuído à fragilidade interna. Ou seja, a existência no cerne da disciplina de deficiências de formulação, lacunas lógicas e imprecisões. O movimento de renovação da geografia  ressaltou tais problemas em detrimento de um debate mais profundo que melhor esquadrinhasse a natureza da crise, os motivos anteriores e os inconfessáveis vínculos sociais da geografia. De qualquer forma estas questões internas irresolvidas também deram sua contribuição para a queda da Geografia Clássica.

 

O pensamento geográfico clássico foi responsabilizado e duramente criticado, pela persistência do problema da “indefinição do objeto de estudo” (MORAES, 1981, 96). Esta carência que acompanha a disciplina desde o seu nascimento, municiava o ataque de outros ramos científicos contra a legitimidade da geografia.

 

Outra falta apontada contra o pensamento geográfico clássico foi a incapacidade deste de elaborar leis gerais. Estas, quando formuladas, revelavam-se insuficientes, mecanicistas, arbitrariamente deterministas ou existiam em detrimento  da unidade da disciplina. De qualquer forma, aquela geografia, supostamente de síntese,  que tinha pretensões de abarcar tanto os fenômenos humanos quanto os da natureza, acabava por se limitar ao estudo de áreas individualizadas. A inexistência de generalização ocupava o centro da crise da Geografia Clássica, segundo os seus detratores. A indefinição do objeto de estudo e a inexistência de generalização imbricavam-se nas dicotomias próprias desta ciência: geografia física e geografia humana, geografia regional e geografia geral, geografia sintética e geografia tópica. Quando se resolvia, ou se pensava resolver, um dos dilemas, descobria-se que outro permanecia sem solução.

 

O descontentamento com a Geografia Clássica tornou-se unâmime, mas a amplitude das críticas, não. Vários estudiosos vão se deter nas razões formais, outros irão além, procurando as causas efetivas nas estruturas sociais e no papel ideológico desta disciplina. Desta forma, no movimento de constestação, ocorrerá uma diversidade de perspectivas filosóficas, metodológicas e políticas, muitas delas excludentes.

 

2.1.13. A PROCURA DE NOVAS TRILHAS

Dentre as várias influências teóricas que forçavam a renovação do discurso geográfico, segundo Amorim Filho, tiveram destaque a teoria geral dos sistemas, o estruturalismo, as bases teóricas da cibernética, a teoria dos conjuntos, a teoria dos jogos e as bases teóricas da comunicação (AMORIM FILHO, 1985,13). Na gênese da teoria geral dos sistemas estaria o positivismo organicista e na origem do estruturalismo, um revisionismo marxista de dimensões antropológicas, segundo Andrade (ANDRADE, 1992, 105). Observava-se o crescimento do prestígio das formulações matemáticas e estatísticas  e das metodologias quantitativistas que promoviam a abstração e teorização do conhecimento geográfico. Os procedimentos dedutivos entram em evidência em prejuízo da tradicional perspectiva  indutiva da geografia.

 

O debate que se seguiu demonstrou a falácia da neutralidade científica. Algumas tendências de renovação da geografia ao pretenderem que esta disciplina se mantivesse intelectualmente distante das opções políticas e ideológicas, acabaram por servir, de uma forma ou de outra, aos desígnios do capital. A matemática, a estatística, as técnicas, enfim, não conseguiram  escapar da ideologia. É o que veremos, a seguir, em relação às principais correntes teórico-metodológicas que sucederam a Geografia Clássica.

 

2.1.14.  AS GEOGRAFIAS QUANTITATIVA, SISTÊMICA E DA PERCEPÇÃO

No campo das concepções que não aprofundaram as críticas ao papel conservador da geografia, mas de uma forma ou de outra, o reforçaram, destacaram-se as chamadas Geografia Quantitativa, Geografia Sistêmica e a Geografia da Percepção.

 

Já não era suficiente para a lógica capitalista a simples coleta de dados e a justificação do seu desenvolvimento. A expansão dos negócios exigia uma ciência que  oferecesse  alternativas de localização  e monitoramento da alocação de recursos em todos os quadrantes do globo. A Geografia Quantitativa veio para cumprir esta tarefa e se alastrou com desenvoltura, seguindo a  mundialização do capital. Seu nascimento nos Estados Unidos apresenta uma ligação direta com a supremacia global do capitalismo americano. Seu aspecto cosmopolita, ao contrário das escolas nacionais, acompanha o crescimento da importância das empresas multinacionais. Para os defensores da Geografia Quantitativa os fenômenos sobre os quais a disciplina se debruçava poderiam ser  traduzidos integralmente pelos métodos matemáticos. Todo  o universo da geografia poderia ser reduzido a números e apreendido na forma de cálculos. A estatística e a computação poderiam explicar a paisagen. A descrição desta cede lugar à sua matematização. As formas individualizadas são substituídas pela tipologia, tudo sob o manto asséptico da matemática estatística. A descrição subjetiva é suplantada pelo rigor do discurso matemático. A técnica torna-se visão de mundo. Resumindo tudo, o positivismo lógico assume o lugar do positivismo clássico. Vejamos como Santos contextualiza a situação:

 

“Havia, já então, os instrumentos indispensáveis para dar ao novo enfoque as condições de factibilidade. Tais condições instrumentais eram, para começar, um resultado dos progressos obtidos pelas ciências exatas, tanto por causa das necessidades da própria guerra, como em resposta às exigências de uma nova organização da economia, tornada possível após o término da guerra. Além disso, e influindo muito mais que as condições instrumentais, as necessidades do novo período da história do capitalismo internacional iam exigir que as ciências do homem se adaptassem e se acomodassem.” (SANTOS, 1978, 74).

 

 

 

De fato, a linguagem matemática que desembarca na geografia,  pelos anos sessenta, depois de já ter contaminado outras ciências sociais, revela-se inteiramente contemporânea às transações internacionais. A necessidade de contabilizar  um monumental e crescente universo  de trocas  impulsionará a matemática. Esta, integrada ao desenvolvimento da tecnologia, sobretudo à informática, permitirá que o capitalismo exerça sobre a natureza e os povos um controle jamais visto. E a Geografia Quantitativa, exatamente, contribuirá para a total realização desta tarefa.

 

A Geografia Sistêmica, que é complementar à anteriormente citada, defende o emprego de modelos de representação ao estudo dos fenômenos geográficos. Considera-se um aperfeiçoamento em relação à Quantitativa, pois se diz portadora de um nível de generalização mais amplo. Segundo Moraes, “Os modelos seriam representações das estruturas fundamentais da organização do espaço, assim as articulações tidas como constantes em todos os casos singulares.” (MORAES, 1981,104). Estes modelos desempenham nas pesquisas o papel de hipóteses lógicas a priori, sendo compostos de dados permanentes, ou fatores, e de elementos agregados, ou variáveis. O cientista deve se ater às especificações do modelo, tentando incorporar neste os dados da realidade estudada, introduzindo as variáveis que expressem as particularidades da mesma. Os dados constantes e os variáveis, entrelaçados em programas específicos de computação resultarão em padrões e tendências. Este modelos seriam construções teóricas com um grande nível de abrangência, de validade universal. Os modelos fundamentam-se na crença de que os fenômenos são articulados como sistemas. Ou seja, relações de elementos estruturados por fluxos. Os modelos buscariam exprimir a estrutura dos sistemas, sendo que a sua variedade seria consoante com a própria diversidade do real. A utilização dos modelos possibilitaria a seleção dos elementos de estudo e o  entrelaçamento destes segundo critérios do cientista. O aprofundamento da pesquisa poderia prosseguir com a introdução de outras variáveis. Assim,  o sistema poderia se tornar cada vez mais complexo. Santos, em seu importante livro,  argumenta que conceber o espaço como um sistema não seria suficiente. Pois,  seria preciso definir anteriormente, o que seria um sistema. Tendo em vista que a definição clássica que afirmaria que “um sistema seria um conjunto de elementos e de relações entre esses elementos e entre seus respectivos atributos”, não seria uma definição que possibilitasse a análise espacial (SANTOS, 1978, 60). Posto que os elementos em suas relações recíprocas teriam que ser considerados em sua conexão com a totalidade.  O conhecimento efetivo de um espaço não está presente em suas relações, mas nos processos, e a análise de sistemas minimiza este fato. Talvez porque tenha sido criada especificamente para interagir com modelos matemáticos. A aplicação mecânica dos modelos é resultante da transformação dos conceitos em categorias congeladas, que  imobilizadas, paralizam a história e retroagem a ciência. “A partir do momento em que se esquece tudo isto e se aplica modelo congelado, para explicar uma realidade em movimento, trata-se de uma violência metodológica pura e simples, cuja aplicação não pode conduzir à realidade científica e sim ao erro.” (SANTOS, 1978, 60).

 

A Geografia da Percepção, de um modo geral, dentre outros temas,  tenta compreender como o indivíduo percebe o espaço ao seu redor, como responde às características do meio,  como se processa este conhecimento, e como tudo isso se espelha na atuação sobre o espaço. Os seus defensores trabalham a questão da valorização subjetiva do território, a apreensão do espaço cotidiano e os padrões de comportamento em relação ao meio. A psicologia social, principalmente a behaviorista,  fornece um dos  seus  fundamentos teóricos.  Os estudos realizados tratam do comportamento do indivíduo nas cidades, em relação às áreas de lazer; a atuação das formas espaciais na produtividade do trabalho; a interação da sociedade com o meio natural, materializadas nos parques; a reação diante de novas técnicas agrícolas em comunidades específicas; as modalidades de representação espacial em comunidades indígenas (MORAES, 1981,106).

 

A Geografia da Percepção, que não tem unidade interna, apesar das expressivas divergências, tem se expandido. Assumindo uma perspectiva de valorização do indivíduo, e muitas vezes, não o inserindo em um contexto social mais abrangente, acaba por menosprezar alguns condicionantes  do comportamento individual. Além disso, revela-se conservadora, ao supervalorizar a subjetividade. Fortalece, assim, a noção de que a apreensão do real se refere exclusivamente ao sujeito e não mais ao objeto; dissemina a crença de que o comportamento seria impermeável às determinações sociais, como se as atitudes individuais somadas representassem a totalidade da práxis social; e, finalmente, torna obscura a atuação da ideologia sobre o comportamento do indivíduo. Portanto, verifica-se que  esta corrente encaminha-se para a aceitação da ordem vigente. Mas, segundo Capel, a Geografia da Percepção, ao colocar em pauta a subjetividade, teve o mérito de tornar claro as insuficiências dos modelos teóricos desenvolvidos pela Geografia Quantitativa, a respeito da localização espacial. Além do mérito de, a seu modo, ter aberto o caminho paras as chamadas Geografias Radicais ou Críticas (CAPEL,1983,422-3).

 

2.1.15.  A GEOGRAFIA ECOLÓGICA

A degradação ambiental  tornou-se também  um sério objeto de preocupação dos geógrafos. Muitos superaram as pesquisas específicas sobre geomorfologia, climatologia, hidrologia, etc., para assumir um enfoque mais amplo sobre o meio ambiente. Ou ainda, ao prosseguirem os estudos em suas áreas, o fizeram levando em consideração a reação da natureza quando submetida à ação antrópica. O geógrafo francês, Jean Tricart, reformulador da geomorfologia, sob inspiração da dialética, escreveu um livro no qual apresenta a visão global de uma geografia ecológica, além de Paskoff, depois de muito tempo pesquisando na Tunísia áreas desérticas, ou em processo de desertificação, elaborou uma obra geográfica sobre o tema. A preocupação ecológica é mais intensa entre aqueles que estudam os desertos ou regiões semi-áridas, tendo em vista o crescimentos destas, muito vezes provocado pelo uso irracional da terra. A Geografia Ecológica também se preocupa com a devastação das florestas equatoriais em decorrência da exploração de produtos nativos, a implantação de projetos agropecuários,  o cultivo de culturas temporárias e pela atuação das frentes pioneiras, processos que, de forma isolada ou  somados, colocam em risco a integridade da fauna e flora originais.

 

No âmbito da Geografia Ecológica não existe unidade de pensamento sobre as soluções alternativas frente a destruição do meio ambiente. O que a unifica é a defesa da preservação da natureza, o combate ao desenvolvimentismo e ao economicismo. Sob muitos aspectos ela encontra-se mais próxima dos denominados geógrafos críticos, sob outros, ela se liga aos defensores da Geografia da Percepção (ANDRADE, 1992, 121).

 

2.1.16.  AS GEOGRAFIAS CRÍTICAS

A partir da década de 1950  uma série de abalos sociais e econômicos vão repercutir profundamente nas ciências do homem. Ou seja,  o fim da Guerra Fria, trazendo uma política de coexistência pacífica, amenizou a tensão ideológica entre as superpotências e possibilitou a existência do pensamento marxista no mundo ocidental; as transformações econômicas, sociais e políticas nos países do Sul; a perda de legitimidade da supremacia ocidental,  inclusive com o processo de independência dos países coloniais; o Movimento dos Países não Alinhados (Bandung, 1955), onde se reivindicou uma participação maior destes na agenda internacional; a Conferência Mundial de Comércio (Bruxelas, 1964), na qual ganharam visibilidade muitos problemas sociais e econômicos do chamado subdesenvolvimento, impactando a economia e outras ciências sociais. O denominado subdesenvolvimento foi estudado sob outro ângulo, agora tendo em vista as conseqüências do domínio do capital e as relações necessárias entre atraso econômico, dependência e mercado global. Acontecimentos históricos como  a Revolução Comunista na China, o Movimento pela Paz, a independência de países na África, com a implantação de regimes que se prentendiam socialistas e a Revolução Cubana reorganizaram o mapa do mundo e aprofundaram a crise de hegemonia européia e norte-americana.

 

A crise explodiu nos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Os protestos em massa revelaram um  descrédito crescente nas qualidades do chamado american way of life. Uma nova perspectiva permitiu que as ciências sociais enfocassem  os problemas da dependência econômica e tecnológica, da hegemonia das potências do ocidente e do desenvolvimento capitalista periférico. Os novos problemas exigiram das ciências sociais respostas inéditas, que só poderiam ser formuladas sob uma nova visão ideológica. Nos anos 60 manifestou-se uma grande insatisfação no conjunto das ciência sociais. O neopositivismo foi avaliado como anacrônico e incapaz de apreender o movimento do real. A fenomenologia e o existencialismo foram valorizados no intuito de tornar relevante a dimensão subjetiva e as experiências pessoais. A geografia não permaneceu alheia a esta atmosfera e, assim, revigorou-se, parcialmente o legado historicista da disciplina (FERREIRA & SIMÕES, 1992, 92).

 

De forma simultânea às transformações globais, internamente fez-se necessário outras respostas. Em oposição ao capitalismo e às péssimas condições de vida e de trabalho, ocorreram, inúmeras rebeliões de massa nas cidades. As instituições governamentais com o propósito de levantar informações a fim de controlá-las, convocaram os serviços das diversas  ciências sociais que foram estimuladas a contribuir na solução destes problemas. Além disso tudo,  agigantou-se a consciência  do processo de destruição ambiental do planeta e floresceram os movimentos ecologistas. A Razão  que veio à luz em decorrência da revolução científica do século XVII começou dar sinais de enfraquecimento. Os cientistas questionaram o lugar da ciência, as implicações do uso da tecnologia e os fundamentos éticos de ambas. Os princípios do positivismo clássico e do positivismo lógico foram abalados e a ciência começou  perder a aura de única forma de saber legítimo. A racionalidade científica e os valores deveriam ser harmônicos, posto que se defendeu que a ciência deveria buscar resultados com relevância social.

 

O meio acadêmico norte-americano, por volta de 1965, afastou-se do neopositivismo, rejeitou a ilusão da neutralidade científica e a ideologia tecnocrática, condenou o uso irracional da ciência e o seu autoritarismo, bem como a cooptação ao sistema social por meio da escola. As  chamadas reformas revolucionárias estavam na ordem do dia.  A partir do final dos anos 50 e na década seguinte proliferaram em todas as áreas científicas as correntes críticas, que se autodenominaram como radicais. Sendo que a economia e a sociologia foram as primeiras disciplinas que enveredaram por esta direção.

 

Deste modo, seguiram este caminho, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, as demais ciências, tais como a antropologia, a ciência política, o urbanismo, a psicologia e o direito. O propósito da maioria dos cientistas foi a interlocução com a teoria marxista, visando a elaboração de  explicações alternativas às concepções tradicionais. Desta forma,  estava se consumando o divórcio com o pensamento neopolitivista (CAPEL, 1983,407).

 

A Escola de Frankfurt, declaradamente antipositivista, ao desenvolver a chamada Teoria Crítica, consolidou o radicalismo nas ciências sociais. O seu projeto principal foi o estabelecimento de uma base única para o conjunto das ciências do homem, unindo teoria e prática, a partir do marxismo.

 

A década de 1960 foi repleta destas mudanças de atitude. Vários filósofos e cientistas sociais rejeitaram as teorias fundamentadas nos parâmetros das ciências da natureza. Ou seja, recusaram a extensão destes princípios às ciências do homem. Semelhante a todas as ciências sociais, a geografia também foi influenciada por estas transformações.

 

A Geografia Crítica, forjada a partir desta época,  não possui unidade de concepção e não constitui uma escola. Encontraram-se  neste campo aqueles geógrafos que  tomaram conhecimento das graves contradições da sociedade e perceberam, por sua vez,  que toda ciência de uma forma ou de outra, está profundamente comprometida  com  a perpetuação  ou com a mudança do status quo. A neutralidade da ciência seria uma ilusão, uma maneira de ocultar os verdadeiros vínculos políticos e sociais. Compreenderam,  ainda, que não bastavam as críticas epidérmicas feitas aos problemas da sociedade, e que o prioritário seria ir ao cerne destes, ou seja, ir às suas  raízes. Eis a explicação porque se autodenominaram radicais,isto é, na análise dos fenômentos sociais tentam buscar suas causas profundas, não obscurecem os seus compromissos ideológicos,  e nem mesmo tentam se esconder sob a alegada neutralidade científica.

 

Neste campo nota-se três subdivisões: a corrente integrada por geógrafos não-marxistas, mas compromissados com mudanças sociais; a dos geógrafos de filiação anarquista, defensores de uma transformação libertária,  ligados ao pensamento original de Reclus e Kropotikin. E, finalmente, os geógrafos de formação marxista. Observa-se neste último grupo aqueles que reconhecem Marx como um filósofo e buscam aplicar seu pensamento na análise das situações em estudo. Preocupam-se com a questão da totalidade, ressaltam as características das formações  econômico-sociais e dos modos de produção, sem esquecer, no entanto,  que não pode haver transplantação mecânica de determinados conceitos tendo em vista as épocas e locais diferentes. Outros, ao contrário, assumem o marxismo como uma doutrina e aplicam sem mediação alguma, para todos os continentes,  as categorias de Marx no estudo dos fenômenos contemporâneos. Traduzem a filosofia de Marx sob uma ótica neopositivista, negando o seu caráter dialético. Por isso, cada vez mais se aprofunda a distância entre os chamados marxistas ortodoxos e os heterodoxos (ANDRADE, 1992, 123).

 

A influência do marxismo sobre o pensamento geográfico nos Estado Unidos manifestou-se quando um grupo de geógrafos adeptos da Geografia Quantitativa compreendeu a ineficácia de suas técnicas e o real significado da responsabilidade assumida com o desenvolvimento do sistema capitalista. Descobriram que as pesquisas que indicavam a localização ideal para a implantação das indústrias, as formas mais adequadas de organização do espaço no campo e na cidade, não eram simplesmente de ordem técnica e tinham conseqüências sociais maléficas, ao contrário do que pensavam anteriormente. Pois estas conseqüências estavam diretamente relacionadas à própria lógica de acumulação do capital. Este radicalismo, então incorporado,  fez com William Bunge, por exemplo,   perdesse os seus postos de trabalho em Detroit e em Toronto, forçando-o a transformar-se em motorista de taxi; David Harvey, por sua vez, renegou os seus antigos companheiros da Geografia Quantitativa e ocupando importantes cargos acadêmicos, produzindo em inglês, com fácil penetração na mídia, fez avançar a geografia sob inspiração marxista. Harvey, que era positivista em 1969, caminhou rapidamente em direção ao marxismo, revisando seus pontos de vista anteriores, e logo após, tornou-se, enfaticamente, marxista. Desenvolveu-se, então, sob a influência do marxismo nos Estados Unidos três movimentos simultâneos e convergentes: o das expedições geográficas, o da publicação da revista “Antipode” e o da fundação da União dos Geógrafos Socialistas.

 

As expedições geográficas foram idealizadas por Bunge em Detroit, onde atuava no ensino universitário e morava nas proximidades do bairro negro de Fitzgerald. Bunge demonstrou interesse pelos problemas desta localidade e começou a investigá-la e estabelecer contato com sua população. Constatou  que alí a qualidade de vida era muito baixa e que as demandas dos seus moradores não eram consideradas pelos geógrafos e urbanistas nos levantamentos realizados para os departametos do governo. Concluiu que deveria haver uma inversão de prioridades tendo em vista as reivindicações das populações que iriam ser atingidas. Organizou grupos de professores e alunos de geografia que se deslocavam até o bairro, reuniam com seus habitantes, na sua maioria de baixa renda, e levantavam suas necessidades, as suas reivindicações e também os resultados das intervenções oficiais anteriores. A partir deste trabalho, Bunge, organizou cursos livres de grande aceitação entre universitários e populares. Elaborou uma obra a respeito do bairro e sobre a experiência realizada, provocando reações conservadoras que culminaram na sua demissão da universidade e na proibição dos seus cursos. Não havia interesse, por parte destes meios acadêmicos de uma maior aproximação com o povo e nem mesmo haveria a possibilidade se admitir nos seus quadros alguém que não fosse comprometido com a situação vigente. Bunge transferiu-se para a Universidade de Toronto onde seus métodos tiveram continuidade. Suas concepções marxistas mostraram-se incompatíveis à burocracia dirigente do ensino superior do Canadá, e novamente desempregado no meio universitário,  transformou-se em motorista de taxi, militando no movimento sindical, teria afirmado que a nova profissão seria ideal para um geógrafo, pois como taxista, conheceria melhor a cidade na qual vivia e lutava.

 

A revista “Antipode” veio à luz a partir de 1969 com o propósito de divulgar os trabalhos e as expedições geográficas de Bunge. Representava  uma perspectiva crítica radical, inteiramente contraposta tanto à Geografia Clássica quanto à Geografia quantitativa. Alcançou sucesso e estimulou os seus editores, não só pela questão do retorno financeiro, mas,  principalmente por ser uma porta aberta aos novos geógrafos. A maioria de seus colaboradores havia sido dos quadros da Geografia Quantitativa. Depois de 1974, consolidaram-se a busca de um direcionamento filosófico e ideológico e o desejo de ampliar as pesquisas para o mundo subdesenvolvido, no qual as injustiças sociais e os prejuízos do domínio capitalista eram mais visíveis. A mudança da linha editorial, agora declaradamente marxista, provocou uma diminuição da sua influência nos meis acadêmicos, dominados pela reacionária Associação dos Geógrafos Americanos. “Antipode” teria quatro funcões básicas: ser um canal de comunicação e idéias; desempenhar um papel didático;  abrir  espaço para a crítica e ser um instrumento de divulgação de trabalhos de investigação teórica e prática inovadores. Dentre os assuntos recorrentes destacam-se os problemas de desenvolvimento e seu interesse geográfico, a economia política urbana, os problemas ecológicos, a habitação, a planificação, os problemas pedagógicos etc. As Universidades de Clark, de Vancouver e de Londres, são o pólos de difusão das suas propostas.

 

A União dos Geógrafos Socialistas, fundada em 1974, é uma associação que não tem perfil político-militante e nem mesmo profissional. Abriga nos seus quadros os interessados pela geografia e pela mudança da sociedade. Desenvolve trabalhos organizativos objetivando uma transformação revolucionária na sociedade e a elaboração de uma teoria geográfica compatível com estes propósitos. Edita uma revista, integra movimentos políticos e reivindicatórios locais e regionais, realiza congressos e mantém centros organizativos em Boston e Baltimore nos Estados Unidos e Montreal, Toronto e Vancouver no Canadá. Divulga as sua concepções procurando renovar o conhecimento geográfico, apresentar alternativas aos profissionais e contribuir para a reforma da sociedade.

 

Como foi visto, a chamada Geografia Crítica ou  Radical nos Estados Unidos foi impulsionada principalmente por dois líderes, David Harvey e William Bunge. Em suas obras mais recentes abordam o estudo das interações entre o capital e a organização espacial, dando continuidade aos postulados marxistas (ANDRADE, 1992, 125).

 

A Geografia Crítica no continente europeu fundamenta-se em autores do século XIX, tais como, Marx, Engels, Kautsky, Lênin, Reclus e Kroptkin; autores menosprezados tanto pelos geógrafos clássicos quanto pelos que vieram da Geografia Quantitativa.

 

Depois da Segunda Guerra Mundial, quando teve início o processo de reconstrução da Europa, verificou-se interesse entre os geógrafos pelo marxismo. Nesta época, muitos geógrafos franceses, integraram-se ao partido comunista francês, que havia se destacado na resistência à ocupação nazista. Estes geógrafos buscaram fundamentos para a ciência geográfica no materilismo histórico, tentando conciliar os princípios do possiblismo com a dialética hegelliana-marxista. Yves Lacoste constestou a Geografia Clássica e  demonstrou o grande abismo existente entre dois tipos de geografia:  a dos professores, ministrada nas escolas  secundárias e nas universidades e um seu sucedâneo, a chamada geografia-espetáculo, presente na mídia;   e a dos generais e administradores.

 

Os acontencimentos na Hungria, em 1956, precipitaran a saída de muitos geógrafos do Partido Comunista Francês, ocasionando um certo afastamento do marxismo nos meios acadêmicos. Restaram vínculos com alguns intelectuais, tais como os  filósofos, Althusser e Lefebvre;   o urbanista Castels e o economista Charles Bethleim. Apesar disso,  a terminologia marxista e os fundamentos da dialética permaneceram em trabalhos de inúmeros geógrafos franceses.

 

Yves Lacoste, criador da revista “Herodote” (1976),  liderou a ala mais influente. Nesta publicação foram abordados temais contemporâneios,  tais como,  a crise da geografia face às novas tendências; a relação entre a dialética de Hegel e a geografia; o legado de Reclus; a questão da ideologia; os problemas da paisagem e do trabalho no campo; as questões do imperialismo; os problema urbanos, como o das metrópoles; o problema da Argélia; o problema da estratégia e da ideologia; o problema da história da geografia; os problemas climáticos e ambientais, dentre outros assuntos. Depois de algum tempo o termo  geopolítica foi reabilitado por Lacoste, que  passou a defender a participação dos geógrafos na ação política e a construir uma geopolítica dos povos que contribuísse para a libertação nacional no plano externo e a libertação interna no plano da sociedade.

 

Além da “Herodote”,  a revista “Espaces/Temps”, assumiu uma perspectiva amigável em relação ao marxismo. A questão ecológica é examinada sob uma ótica bastante radical, com escritos de geógrafos conceituados e de jovens que buscam alternativas.

 

Seguindo os passos da Geografia Crítica desenvolve-se o que recebeu o nome de Geografia Política. Deste modo, Influenciado por Lacoste, na França, vem sendo editado o “L’État du Monde”, no qual se estuda os problemas políticos no que se referem ao espaço produzido, apresentando uma visão panorâmica da conjuntura mundial.

 

Segundo Capel, apesar de ter se originado da Geografia da Percepção, haveria ainda uma Geografia Humanista, alinhada com as Geografias Críticas. De filiação antipositivista, rejeita as características objetivas,  mecanicistas, determinísticas da Geografia Quantitativa e faz a defesa de uma proposta na qual os significados, os valores,  os objetivos e metas da práxis humana sejam mais valorizados. O seu objetivo prioritário é mostrar que há discrepâncias entre as condições do meio e a percepção que o indivíduo e a coletividade têm deste meio. Estas percepções visualizadas nos mapas mentais, não coincidem com a representação da cartografia e atuam nas escolhas sobre a organização espacial. Esta concepção de geografia, ao levar em consideração a subjetividade, a cultura e a sociedade, tenta apresentar uma estruturação do espaço mais adequada a cada comunidade (CAPEL, 1983, 443).

 

A Geografia Crítica, pelo que foi visto, é um espaço muito amplo no qual coabitam propostas diversificadas, apesar de possuírem objetivos e princípios comuns. A coesão desta reside na atitude de oposição a um mundo estruturado social e espacialmente de forma contraditória e injusta. O conhecimento geográfico é concebido como instrumento estratégico no enfretamento à ordem reinante. É uma concordância de objetivos fundamentada pela posição de classe, pela perspectiva da ciência enquanto momento de ação, pela plena convicção da natureza política do discurso geográfico. Em síntese: a unidade da Geografia Crítica  é uma unidade de natureza ética e os seus objetivos comuns diversificam-se em muitos fundamentos metodológicos e epistemológicos. Tais como estruturalistas, existencialistas, analíticos, marxistas de inúmeros matizes, ecléticos, e outros. São resgatados  para a fundamentação das propostas vários autores, como por exemplo, Adorno, Foucault, Mao Tse-Tung, Lefor, Godelier, Barthes, Lênin, Sartre, etc.

 

Esta multiplicidade de pontos de vista acaba resultando positiva, pois estimula a discussão, faz eclodir polêmicas necessárias e alavanca as elaborações. Novos conceitos explicativos podem surgir neste ambiente permeado pela crítica e isento de dogmatismos e fossilizações. Novas trilhas são tentadas,  esquemas consagrados são problematizados, inéditas equações são experimentadas. A Geografia Crítica, promessa  inconclusa, tem muito o que fazer e o que mostrar. O seu limite é o futuro.

 

A Geografia Crítica é uma manifestação no campo da ciência dos conflitos ideológicos que se degladiam na sociedade de nossa época. Os geógrafos críticos, nas suas mais variadas posições, optaram por um caminho que vai em direção à transformação  da sociedade. Procuram uma geografia nova que possa contribuir, no interesse da maioria, na construção de um novo espaço geográfico.

 

2.1.17.  UM PARÊNTESE: A GEOGRAFIA-ESPETÁCULO

Abordaremos, a seguir, a questão da existência de uma “geografia-espetáculo”, a partir das concepções de Lacoste, anteriormente citadas, pois o assunto revela íntima conexão com o objetivo principal do nosso trabalho.

 

Acreditamos que o conceito possa ser melhor compreendido se levarmos em conta, em primeiro lugar,  as transformações tecnológicas ocorridas na sociedade contemporânea. Principalmente no que se refere às conseqüências verificadas no campo da comunicação de massa. Não podemos esquecer que estas mudanças ocasionaram uma alteração no papel ideológico desempenhado  pela escola em relação à sociedade. Muitos estudiosos constataram que uma parcela considerável dos objetivos e dos papéis tradicionais da instituição  escolar foram transferidos principalmente para a TV, exacerbando a crise do ensino e intensificando o debate de sua eficiência e função nas sociedades de massa atuais. A partir do século XIX e até meados do século XX, a escola foi a principal instituição encarregada de formar e transmitir os  princípios éticos, atitudes e conhecimentos fundamentais para a socialização das populações urbanas. Esta situação se alterou com a crescente influência da mídia e particularmente da TV, que se manifesta conectada a interesses ideológicos e econômicos dos grandes grupos financeiros, associados a parcelas da elite política. (NAPOLITANO, 1999, 18).

 

Lacoste considera que a partir do final do século XIX existiriam duas geografias: a primeira, de origem antiga, a chamada geografia dos Estados-maiores, que seria um conjunto de representações cartográficas e de conhecimentos diversificados sobre o espaço. Este conhecimento heterogêneo é reconhecido como de importância estratégica pelas minorias que estão no poder e o empregam com o propósito de nele se manter. A segunda seria a denominada geografia dos professores, que surgiu no século XIX e teria se tornado uma discurso ideológico no qual uma das funções inconscientes seria a de ocultar a importância estratégica do conhecimento sobre o espaço. A grande diferença entre as duas seria a de que alunos e professores não teriam a mínima idéia da utilidade dos conhecimentos  fornecidos pela análise geográfica, ao contrário daqueles que comandam, tais como generais e  executivos de alto escalão, que saberiam exatamente da sua utilidade. Mas, segundo Lacoste, a geografia dos professores não seria o único “pára-vento” ideológico que permitiria escamotear que o saber a respeito do espaço seria um poderoso instrumento de dominação:

 

“...a geografia também se tornou espetáculo: a representação das paisagens é hoje uma inesgotável fonte de inspiração e não somente para os pintores e sim para um grande número de pessoas. Ela invade os filmes, as revistas, os cartazes, quer se trate de procuras estéticas ou de publicidade. Nunca se comprou tantos cartões postais, nem se ‘tiraram’ tantas fotografias de paisagens como durante essas férias em que ‘se fez’, com guias nas mãos, a Bretanha, a Espanha ou...o Afganistão.”  Grifo nosso.(LACOSTE, 1985, 34).

O turismo assumiria uma função ideológica e transformaria a geografia em uma mercadoria de consumo de massa. Uma enorme quantidade de pessoas buscaria avidamente a fruição estética de paisagens, dentro de um repertório mais ou menos estereotipado. O mapa, representação do espaço, que apenas uma minoria saberia ler e traduzir como instrumento de poder, seria substituído no imaginário coletivo pela fotografia da paisagem.

 

O problema não seria simplesmente a contemplação desta ou daquela paisagem, mas a fotografia e o cinema, e poderíamos acrescentar a televião, reproduziriam sem trégua certas imagens-estereótipos, que seriam como mensagens, como discursos emudecidos, de difícil decodificação, como silogismos, que por serem subrepticiamente transmitidos, não deixariam de ser menos autoritários. A contaminação da atmosfera social pelas imagens-mensagens geográficas,  disseminadas, veiculadas pelos meios de comunicação de massa, seria um fato historicamente recente, que nos tornaria passivos, em atitude de contemplação estética, e que afastaria para mais distante a incômoda verdade de que alguns podem esquadrinhar o espaço de acordo com certos métodos, e que a partir daí estariam em condições de estabelecer estratégias para iludir o adversário, e assim, derrotá-lo.

 

Desta maneira, a geografia-espetáculo e a geografia escolar, apesar de suas peculiaridades, levariam aos mesmos resultados. Ou seja, esconderiam a noção de que o conhecimento geográfico poderia ser um poder, que certas representações do espaço poderiam tornar possíveis determinadas ações e  viabilizar certos interesses políticos; difundiriam a noção de que a geografia prescindiria de qualquer raciocínio, sobretudo de um raciocínio estratégico articulado tendo em vista as regras de um jogo político.

 

Debord, por sua vez, trabalharia com um conceito muito mais amplo, mas  inteiramente correlato ao conceito de Lacoste. A geografia-espetáculo seria apenas um aspecto de um fenômeno muito mais abrangente: a total especularização da sociedade. Tudo se transformaria na sociedade contemporânea em espetáculo. Todo o fundamento das sociedades nas quais imperam as modernas condições de produção apresentar-se-ia como um monumental acúmulo de espetáculos. Tudo que estivesse vivo teria se transformado em representação.

 

O espetáculo seria simultâneamente a própria sociedade, uma parcela da sociedade e um instrumento de unificação.  Enquanto parcela da sociedade ele seria o  núcleo que concentraria todo o olhar e toda a consciência. Em decorrência de ser este núcleo separado, ele seria o ponto de fuga de uma perspectiva ilusória e da falsa consciência. A unificação empreendida por ele seria na verdade o discurso oficial da separação generalizada. Ele não seria tão somente um repertório de imagens, mas uma relação social entre pessoas, conectada por imagens. Tendo em vista sua constituição total, o espetáculo seria ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. O espetáculo corresponderia a uma construção objetiva da alienação e a expansão econômica seria, principalmente, a expansão desta produção industrial específica. O que ganharia vulto com a economia que move por si mesma só poderia ser a alienação recôndida em seu núcleo de origem:

 

“O homem separado de seu produto produz, cada vez mais e com mais força, todos os detalhes de seu mundo. Assim, vê-se cada vez mais separado de seu mundo. Quanto mais sua vida se torna seu produto, tanto mais ele se separa da vida. O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem.” Grifo nosso. (DEBORD, 1997,25).

 

 

Em Debord a simples geografia-espetáculo se agiganta e se generaliza a tal ponto que se transmuta em sociedade-espetáculo. O mais conceituado geógrafo brasileiro, por sua vez, citando Debray , afirma que este,  ao propor uma nova disciplina, a “midiologia”,  teria dito que se tivesse que estabelecer uma relação com outra disciplina esta seria exatamente a geografia. A alegação sustentar-se-ia no fato de “que a mídia, antes de ser comunicação é espaço. A percepção do espaço está ligada à velocidade das pessoas, das coisas e das mensagens.” (SANTOS, 1994, 178 ). Ou seja, Debray apresenta simultâneamente a preocupação com a mídia e com o espaço, e com o trabalho dos midiólogos e dos geográfos:

 

“O espaço é mídia nos dois sentidos. Ele é linguagem e também é o meio onde a vida é tornada possível. A percepção pela sociedade e pelo indivíduo do que é esse espaço, depende da forma de sua historicização e esta resulta em grande parte dos progressos nos transportes e nas comunicações, na construção do tempo social.”  Grifo nosso. (SANTOS,1994, 41).

 

 

Aparentemente as noções de geografia-espetáculo e sociedade-espetáculo estariam convergindo para o conceito elaborado por Santos de meio técnico-científico Informacional. O meio de sobrevivência da humanidade, o seu entorno, não seria mais o que, num passado recente, algumas ciências sociais denominaram de meio técnico. Segundo Santos, o meio técnico-científico-informacional seria um meio geográfico onde o território incluiria necessariamente ciência, tecnologia e informação. Deve ser ressaltado, como vimos,  o elemento informação na constituição deste novo meio técnico:

 

“A ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de todas as formas de utilização e funcionamento do espaço, da mesma forma que participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais). É a cientificização e a tecnicização da paisagem. É, também a informatização, ou, antes, a informacionalização do espaço. A informação tanto está presente nas coisas como é necessária à ação realizada sobre essas coisas.”  Grifo nosso. (SANTOS, 1994, 51).

 

 

Os conceitos em pauta, principalmente o de espetáculo, elaborado por Debord,  mereceriam um estudo mais aprofundado. Mas  o que já  temos, tendo em vista o objetivo desta parte do trabalho, nos parece suficiente. Sob o nosso ponto de vista atual, tais conceitos seriam correlatos, apresentariam  um caráter de complementaridade e poderiam contribuir para o desvendamento do nosso contemporâneo espaço geográfico, este grandioso espaço geográfico espetáculo, este espetacular espaço geográfico globalizado.

 

 

2.1.18.  CONCLUSÃO

Finalizaremos esta parte do nosso trabalho ressaltando alguns tópicos, que para nós se tornaram mais claros, após o estudo da evolução do conhecimento geográfico. Trata-se das relações entre a produção científica e a ideologia.

 

Considerando a evolução dos conhecimentos geográficos relacionada ao estudo do desenvolvimento do capitalismo, podemos concluir  que não existiria a ciência pura de um lado, e a ideologia de outro. Verificamos que haveria diversificadas perspectivas científicas e que estas estariam imbricadas, de um modo geral, a diferentes perspectivas ideológicas de classe. No entanto, cumpre ressaltar, também, a existência da autonomia relativa da esfera científica, a especificidade desta atividade, a determinada continuidade intrínseca entre as obras de determinados autores,  em um contínuo processo não linear de superação crítica, portanto, repleto de rupturas e cortes. 

 

Tendo em vista  o que foi exposto, constatamos que não foi possível referendar duas concepções opostas que seriam, na verdade, segundo nosso atual ponto de vista, dois equívocos metodológicos.

 

A primeira poderíamos chamar de “reducionismo sociológico”, o qual se empenharia na redução unilateral da ciência à classe social, ao ponto de vista de classe. Para nós não foi suficiente definir apenas o caráter de classe de um autor para determinar o conteúdo científico de sua produção. Verificamos que há uma especificidade do conhecimento científico que não pode ser restringida ao embate das posições de classes diferentes. Existiria um valor científico intrínseco que faz com que diversos autores aprendessem com a produção científica de outros e construiriam suas teorias a partir das descobertas anteriores em um processo não linear de superação crítica.

 

A segunda concepção, diametralmente contrária à anterior, e que também não foi possível constatar no nosso estudo,  e que estaria relacionada principalmente à concepção positivista,  seria a de acreditar que a producão científica não teria nenhuma relação com a ideologia, ou com a luta de classes. Nesta perspectiva equivocada,  a história da ciência passaria a ser completamente independente, isolada da história da luta de classes (LÖWY,1985,104).

 

Ao contrário, verificamos que as profundas alterações que se realizam na evolução do pensamento corresponderiam aos movimentos ideológicos consoantes aos processos de transição de determinados modos de produção em direção a outros, e também às mudanças significativas no interior de um mesmo modo de produção,  que no âmbito filosófico e científico, seriam expressões das transformações realizadas ao nível econômico e político. O desenvolvimento das estruturas econômicos-sociais impulsionaria  modificações na chamada superestrutura cultural e na maneira de traduzir o processo de relações entre a sociedade e a natureza (PEREIRA, 1993, 61).

 

Foi possível, assim, após o estudo, a nossa concordância com os teóricos da Escola de Frankfurt, por exemplo,  que ao abordarem o estatuto das ciências sociais,  teriam enfatizado sempre que os cientistas sociais seriam parte do objeto sob investigação e que, por isso, a percepção da realidade social seria contaminada pelas categorias sociais. Teriam colocado  em pauta, desta maneira, a questão da ideologia dos cientistas, e teriam procurado demonstrar que o pesquisador seria influenciado por seus próprios valores na análise dos fenômenos sociais (CAPEL, 1983, 413).

 

Portanto, sob o nosso ponto de vista, o conhecimento científico,  e, conseqüentemente, o conhecimento geográfico estariam inapelavelmente imbricados com as chamadas estruturas sociais que funcionariam como  “infra-estruturas”  às formações sociais. As manifestações culturais, nas diversas áreas do conhecimento, não seriam imóveis, nem estreitas e limitadas. Estariam, na verdade,  em constante movimento, e mostrar-se-iam comprometidas com a ação concreta e as modalidades de pensamento originárias das estruturas que dominariam a sociedade.

 

Concluimos, deste modo, que apesar da inequívoca particularidade do seu desenvolvimento, a geografia como ciência e como práxis estaria profundamente relacionada e dependente das relações sociais, e, simultâneamente, verificamos que o pensamento geográfico não seria isolado, mas estaria em conexão com o pensamento das demais ciências, tanto sociais, como naturais.

 

Ressaltamos deste modo, para finalizar,  o caráter ideológico que desde o início teria se  manifestado na geografia institucionalizada, que teria  se materializado muito mais enquanto “uma ideologia do que um filosofia e isso não se deu apenas na Alemanha mas um pouco pelo mundo todo” (SANTOS, 1996,13).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GEOGRAFIA E ESPAÇO GEOGRÁFICO GLOBALIZADO

 

 

2.2.1. INTRODUÇÃO

No desenvolvimento histórico das ciências sociais, a sociedade, objeto de estudo sobre o qual elas se voltam, sempre passou por significativas transformações. Estas transformações, por sua vez, acabaram por influenciar as definições e delimitações do próprio conceito de sociedade enquanto objeto de estudo.

 

O fenômeno da globalização apresenta-se como um extraordinário desafio tanto às ciências sociais quanto às ideologias e utopias. No alvorecer do século XXI, as ciências sociais encontram-se diante de questões inéditas, inesperadas, sobre as quais ainda não refletiram, ou não se interessaram de forma suficiente. Sob determinados ângulos, os problemas contemporâneos abordados pelas ciências sociais aparentam transbordar o poder de explicação dos conceitos estabelecidos:

 

 

O objeto das ciências sociais já não é apenas a sociedade nacional, ou o indivíduo situado nesta sociedade. Nem são apenas os atores sociais, relações, processos e estruturas inerentes aos modos de ser, organizar-se e modificar-se da sociedade nacional. No século XX, e em escala cada vez mais acentuada no largo de seu curso, o objeto das ciências sociais modificou-se substancialmente, em termos qualitativos, além de quantitativos. O que é nacional é também elo ou expressão de articulações globais: moeda, capital, trabalho, tecnologia, divisão do trabalho, empresa, corporação, conglomerado, mercado, complementaridade, multilateralidade, economias de escala, trocas desiguais, protecionismo, isolacionismo, estatismo, dependência, interdependência, imperialismo. O indivíduo, ator, identidade, grupo social, classe social, etnia, minoria, movimento social, partido político, corrente de opinião pública, poder estatal, todas essas dimensões da realidade não mais se esgotam no âmbito da sociedade nacional.”(IANNI,1999, 169).

 

 

Constata-se, além disso, que as ciências sociais estão sendo estimuladas a pensar e a repensar os novos tempos e a interpretar e a reinterpretar as realidades que já haviam sido objeto de interpretação e explicação. A historiografia, a geografia, a demografia, a sociologia, a economia política, a ciência política, a antropologia, a lingüística e outras ciências sociais deparam-se com realidades que se universalizaram em escala crescente e em ritmo vertiginoso. Ou seja, transformou-se de forma notável o objeto de estudo das ciências sociais. O indivíduo e a sociedade, que foram ponto de partida destas, inicialmente submersos no espaço da nação, atualmente podem ser localizados em algum lugar da sociedade global, teleguiados também pelos mecanismos dessa sociedade. Desta maneira, a ciência fundamentada na reflexão sobre a sociedade nacional aparenta não ser capaz de compreender as características e os desdobramentos da nova sociedade global.

 

A geografia, conforme já visto, particularmente no final do século XIX e no decorrer do século XX, também sofreu o impacto dos principais aspectos da chamada globalização sobre os seus fundamentos teóricos e metodológicos.

 

Verifica-se, na atualidade, que a importância do espaço ganha relevo. A globalização da sociedade e das atividades econômicas produz a mundialização do espaço geográfico, trazendo no seu bojo novos significados. Cresce, hoje, de forma decisiva, a importância do espaço, considerando que a Natureza se transmuta, em seu conjunto numa forma produtiva. No momento em que todos os lugares sofrem a ação, direta ou indireta, dos interesses do processo produtivo, criam-se, simultaneamente, projetos específicos, e estruturas hierárquicas no que se refere à apropriação do espaço pelos agentes que concorrem entre si, de forma ativa ou passiva. Daí a emergência de uma nova organização das funções entre as diferentes subdivisões de território. Cada ponto no mapa assume importância de forma efetiva ou potencial. Esta importância será condicionada pelas especificidades anteriores ou incorporadas de acordo com intervenções determinadas. Tendo em vista que a produção se torna mundial, as possibilidades de cada lugar se destacam e se diferenciam em âmbito mundial. A crescente mundialização capitalista e o fortalecimento das empresas transnacionais, leva a uma tendência de se fixar na esfera mundial, e não mais na esfera nacional, os custos de produção e a um nivelamento das taxas de lucros em decorrência da mobilidade internacional do capital (Mandel apud Santos, 1994,28), por outro lado, a busca pelos lugares mais lucrativos seria um procedimento constante.

 

Estas são algumas das razões que fazem com que as diferenciações geográficas assumam importância estratégica fundamental, segundo Lacoste (LACOSTE, 1997, 73). Atualmente, o local adequado para a construção de um estabelecimento pode ser decidido à distância, e, desta maneira, as realidades locais encontram-se submetidas a pressões de ordem mundial. Como este acontecimento é generalizado, pode-se afirmar que no atual período histórico verifica-se a afirmação do “caráter geográfico da sociedade”. A humanidade alcança um saber analítico e de síntese de toda a Natureza e desenvolve um poder de uso universal e global das coisas que a circundam:

 

 

 

A partir do momento em que a natureza se define de nova maneira e suas relações com o homem se renovam, torna-se necessária uma renovação das disciplinas que a estudam. Para a geografia, trata-se de novas perspectivas e de uma capacidade nova de trabalhar com leis universais”. (SANTOS, 1994, 29).

 

 

 

O processo de internacionalização das atividades econômicas possibilitou a entrada em cena das cidades mundiais, autênticos nós estratégicos nas redes múltiplas que fornecem sustentação às realidades sociais do nosso planeta. De fato, é o espaço como um todo que se tornou mundial, e não existem mais lugares que se pretendam completamente isolados:

 

 

Para os geógrafos, profissionalmente preocupados com o espaço do homem, a nova situação é apaixonante. De um lado, seu campo de interesse se amplia, pois o espaço dito geográfico se torna, mais do que nunca, elemento fundamental da aventura humana. De outro, a mundialização do espaço cria as condições – até aqui insuficientes – para estabelecer um corpo conceitual, um sistema de referências e uma epistemologia, recurso de trabalho que sempre faltou a essa disciplina e por isso estreitou seu campo de estudo ao longo deste século.

A garantia de universalidade é um trunfo, visto assegurar a possibilidade de melhor compreender cada fração do espaço mundial em função do espaço global e permitir, assim, o reconhecimento e a interpretação das intervenções sobrevindas, enquanto se realiza uma ciência crítica. Isso não era possível antes de o Planeta tornar-se realmente mundializado, vale dizer, antes de ele ser o objeto, em cada um, de seus pontos, da ação de variáveis cuja dimensão é planetária ”. (SANTOS, 1994, 36)

 

 

 

 

Segundo Ianni, tendo em vista o conceito de globalismo, principalmente as teorias sistêmica, weberiana e marxiana permitiriam apreender esta realidade global em níveis micro, macro e meta. Estas formulações teriam o status de metateorias. Auxiliariam a pensar o que é local, nacional, regional e mundial, seja desmembrando cada um desses aspectos, seja coesionando-os em universos cada vez maiores. Agregariam informações e constatações, ou interações, processos e estruturas, em suas repercussões sociais, econômicas, políticas e culturais. Seriam metateorias, na acepção de serem amplas, interdisciplinares e permitirem captar os fenômenos sociais em toda sua complexidade, apesar de não precisarem ser vistas como explicações totais e acabadas do fenômeno da globalização. As teorias sistêmica, weberiana e marxiana

 

 

Podem ser vistas como códigos por meio dos quais se torna possível delimitar e apreender uma realidade que parece nova e ainda pouco conhecida. Simultaneamente, na medida em que se desenvolvem as interpretações, compreendendo aspectos muito particulares ou mais abrangentes, elas colaboram na constituição do globalismo como objeto de reflexão e ação, ou da teoria e prática. A partir da categoria ‘globalismo’, torna-se possível elaborar e mobilizar recursos intelectuais, de maneira a delimitar e aprender as configurações e os movimentos da realidade, em níveis local, nacional, regional e mundial, buscando compreender e explicar como essa realidade se forma e transforma, cada vez mais subsumida histórica e logicamente pelo globalismo”. (IANNI, 2001,210).

 

 

 

 

Nosso ponto de partida metodológico, tanto para definir a ciência geográfica quanto para analisar o fenômeno da globalização caminha na direção do estabelecimento de uma interlocução privilegiada com a teoria marxiana.

 

Evidentemente esta teoria não é unitária e coesa, e são muitos os perpetuadores mais fecundos do pensamento de Marx. Estes contribuem para a leitura das diferentes características da transnacionalização, mundialização ou globalização do capitalismo, enquanto modo de produção e “processo civilizatório”. Suas obras sobre colonialismo, imperialismo, capitalismo tardio, internacionalização do capital, revoluções nacionais, revoluções sociais e guerras regionais e mundiais pavimentam a estrada que podem conduzir a apreensão do fenômeno da globalização em toda sua riqueza.

 

No processo de interlocução com a teoria marxiana evitaremos qualquer postura meramente doutrinária. Este método não pode ser considerado como definitivamente pronto e acabado, não devendo ser uma prisão que nos impeça de examinar a realidade sob outros ângulos. O compromisso do professor e pesquisador deve ser prioritariamente com o real. Se a realidade estudada não corresponde aos nossos pressupostos teórico-metodológicos, estes devem passar por reformulação. Sob este prisma, a atitude cientificamente recomendável é a da permanente revisão dos postulados. Ou seja, o método deve estabelecer relação entre a epistemologia de uma ciência específica e a produção historicamente acumulada, mostrando a natureza social da atividade científica. (MORAES & COSTA, 1987, 30).

 

2.2.2.  A GEOGRAFIA EM INTERLOCUÇÃO COM A TEORIA MARXIANA: UMA OPÇÃO DE MÉTODO.

Na busca do autêntico espaço geográfico, encontra-se a pesquisa sobre o cerne da geografia. No âmbito da teoria marxiana  há diversas formulações sobre este tema crucial. A principal preocupação dos geógrafos circunscritos a esta abordagem é a de superar o que é meramente visível, o que é simples aparência em direção à construção do estatuto científico da geografia. Isto quer dizer que tem havido um grande esforço na definição do seu objeto de estudo, considerando que não há ciência sem objeto, sendo que muitos consideram o espaço social, o espaço produzido como sendo o objeto da geografia. E, além disso, este espaço qualificado como social ou como espaço produzido é, na maioria das vezes, pensado como movimento, processo.

 

Dentre as formulações que seguem este caminho julgamos particularmente instigantes as da professora Lenira Rique da Silva (SILVA, 1991). Assim, sob uma ótica natural, o espaço é antes de tudo um lugar, uma parcela do globo conhecida por um nome com especificidades próprias, congregando diversos atributos indispensáveis para a vida dos homens. Partindo desta base temos diversos fatores, como o povoamento, as formas de vida da população, suas práticas produtivas, sua sociabilidade, dentre outros. Nesta visão nos restringimos meramente aos fenômenos, às formas. Mas isto é superficial, e é necessário ultrapassar a descrição simplória.

 

A determinação da natureza necessita ser compreendida em suas relações com a determinação histórica.  Esta última considerada como a responsável pelas mudanças da sociedade e da sua ligação contraditória com a natureza. O homem é simultaneamente um ser natural e histórico e a natureza é também demarcada pela sociedade. Ou seja, o espaço geográfico não é elemento abstrato, mas é um espaço relacionado à história feita pelos homens, portanto, um espaço histórico e socialmente produzido, estreitamente vinculado às transformações da sociedade sob determinados “modos de produção”. Tendo em vista a categoria “modos de produção”, compreende-se a história da humanidade imbricada com as relações sociais, relações de produção contraditórias, porque não são realizadas pelos indivíduos,

 

“ (...) mas pelo homem genérico, pela sociedade de classes, que se negam e, ao mesmo tempo, confrontam-se no decorrer de sua existência, na busca da superação das suas contradições, até atingi-las momentaneamente. A partir de então, novas contradições passam a ser produzidas em novas sociedades, dentro de um processo que é infinito, inacabado e em cuja essência está a luta. Esse é o devir dialético da existência humana, onde, seja qual for o momento da história, está presente a luta”. (SILVA, 1991, 16).

 

Desta forma, o espaço do capital na geografia é materializado pelas relações dialéticas entre os atores diretos e indiretos do processo de produção e o meio natural. No interior da natureza reside o próprio homem, enquanto ser cuja essência é subtraída no processo de produção capitalista do espaço, reduzido a uma mercadoria, isto é, a força de trabalho.

 

No processo de produção reside umas das contradições básicas da relação de produção capitalista. Aquele que produz é o homem enquanto ser genérico, que realiza trabalho. No entanto, neste processo ele se anula, tendo em vista que o trabalhador não mantém o produto do seu trabalho, não se identifica com que é produzido e o fruto da sua própria produção mostra-se estranho. O ator indireto assume-se como o ator real, e o ator direto é subjugado.

 

A esssência do espaço geográfico está contida no processo de produção, tanto no espaço urbano quanto no rural, seja capitalista ou não-capitalista (este não deixa de estar, evidentemente, submerso em um entorno capitalista). A produção capitalista do espaço geográfico materializa-se no trabalho reificado, corporificado em tudo que é produzido para o consumo produtivo ou para o consumo direto.

 

Sob esta ótica, a geografia que se pretende crítica deve analisar o espaço enquanto a  unidade contraditória da geografia que, não obstante,  carrega no seu interior uma síntese; síntese que corresponde “às múltiplas determinações do real”. Apesar de ser fundamental o conceito de lugar, deve-se ressaltar que o  mesmo não pode ser explicado por si mesmo. Este é configurado por inúmeras conexões, por vários elementos, os principais sendo, inclusive, invisíveis. Ou seja:

 

“o espaço é produzido pelas relações sociais subordinadas ao modo de produção que sustenta a sociedade – sua infra-estrutura econômica, a partir da qual se erguem as superestruturas ideológicas, políticas, jurídicas, culturais, etc”. (SILVA, 1991,19).

 

 

Apreender o espaço geográfico nesta perspectiva marxiana, é tentar capturá-lo na sua essência, enquanto totalidade, com sua riqueza de conflitos, contradições e mediações; tudo isso interconectado numa dinâmica sem fim. O espaço geográfico como objeto de pesquisa, nesta perpectiva dialética, deve ser entendido como totalidade, não devendo existir a ênfase do que é abordado no início ou no final. Isto é:

 

 

“O raciocínio dialético é a antítese do raciocínio formal; a lógica formal corresponde a só um momento da lógica dialética. Enquanto na lógica formal se raciocina em linha reta, como se o raciocínio pudesse se representado geometricamente por um segmento retilínio, na dialética se caminha em todas as direções, como se a realidade tivesse a forma geométrica de círculos que se justapõem em espiral. Assim sendo, só formalmente se toma um fato, um dado, para iniciar um trabalho científico, o qual pode estar em qualquer ponto dessa espiral imaginária. Esse fato ao mesmo tempo que está determinando o outro, pode ser determinado por ele. É o movimento dialético da natureza orgânica e inorgânica do homem com a natureza física e socializada”. (SILVA, 1991, 20).

 

 

 

O começo e o fim são ubíquos; um pode ser o outro, e simultaneamente a sua negação. No fim de uma pesquisa encontra-se também o embrião de um novo estudo científico. Não deve existir conclusões categóricas, mas sobretudo, levantamento de novas questões, novas interrogações que alavanquem a produção científica, que, na verdade, é interminável.

 

Desta maneira deve ser entendida a pesquisa sobre o espaço geográfico. Qualquer estudo refere-se a um minúsculo instante desse incomensurável espaço. O espaço na geografia, repetimos,  necessita ser pensado enquando totalidade. Esta é configurada de momentos, de abrangências mais amplas, que se conectam com a totalidade global. Os momentos da totalidade mostram a dinâmica dialética da natureza e da sociedade e suas determinações temporais e espaciais. Estes instantes são portadores de especificidades segundo a história e o lugar e se corporificam na paisagem de forma diversa de acordo com as determinações de ordem geral e particular da sociedade.

 

Conclui-se, então, que não existe um espaço único na ciência geográfica. Não obstante, o elo comum entre os espaços é o fato de que todos estão subjugados ao mesmo modo de produção. A exploração econômica, o monopólio privado da terra, as relações sociais de produção marcadas pela divisão social do trabalho, tudo isso é universal;

 

Necessita-se enfatizar as características culturais dos povos de cada lugar, suas histórias, as particularidades da evolução dos seus modos de produção, e consoante tudo isso, apreender as formações sociais com suas especificidades materializadas em determinado momento do espaço nas suas paisagens.

 

Os espaço geográfico, enfim,  seria uma síntese portadora de diversidade, condicionada ao fator lugar, repleta de todas as contradições vinculadas às relações reificadas entre os homens, às relações entre os homens e a natureza e às relações depredadoras entre as classes hegemônicas e o meio natural.

 

A geografia sob esta perspectiva marxiana, junto com outras ciências sociais, na nossa opinião, estaria preparada para  abordar, sem pretender esgotá-lo, este complexo fenômeno chamado de globalização. Deste modo, a geografia estaria preparada para - transcendendo as óbvias aparências da globalização - tentar atingir o cerne do seu significado.

 

 

2.2.3.  A GLOBALIZAÇÃO SOB UMA PERSPECTIVA CRÍTICA E RADICAL

Tendo em vista o que foi dito, tentaremos compreender o fenômeno da globalização por meio das contribuições de diversos estudiosos, destacando-se, dentre eles, alguns geógrafos, sociólogos, historiadores e economistas que podem ser considerados de filiação marxiana.

 

Acompanhando a reflexão crítica e radical, sobre a globalização, elaborada por Giovanni Alves, que não pretende ser simplesmente uma apologia e tampouco mera contestação do fenômeno, reafirmaremos a legitimidade analítica deste. Assim, o reconheceremos enquanto fenômeno histórico-social e ideológico pertinente a atual fase do processo de evolução do capitalismo mundial.

 

Enquanto “totalidade concreta”, fruto da evolução da civilização ocidental, não pode ser abordado exclusivamente apenas como uma expansão do mercado mundial, ou restringido simplesmente ao “imperialismo”. A globalização é muito mais complexa, configurando-se em novas realidades sociais, culturais, políticas, éticas e tecnológicas específicas, comandadas, essencialmente,  pelo intrincado “processo civilizatório” do capital. Ou seja, a globalização não pode ser delimitada apenas pelas esferas econômica, política ou tecnológica, sendo necessário apreendê-la, numa perspectiva dialético-materialista, em todas as suas dimensões. Deste modo, segundo Alves, deve ser salientado três aspectos inseparáveis que constituem esta “totalidade concreta sócio-histórica, completa e integral”. Isto é, a globalização considerada como ideologia, como mundialização do capital e, por fim, como “processo civilizatório”.  Cumpre dar relevância ao caráter contraditório do fenômeno:

 

As dimensões da globalização são contraditórias entre si, tendo em vista que, como iremos salientar, a ideologia (e a política) da globalização tende a ‘ocultar’ – e legitimar - a lógica desigual e excludente da mundialização do capital e a mundialização do capital tende a impulsionar, em si, o processo civilizatório humano-genérico, isto é, desenvolvimento das forças produtivas humanas, que são limitadas – ou obstaculizadas - pelo próprio conteúdo da mundialização (ser a mundialização do capital).Qualquer leitura (ou análise) da  globalização que não procure apreender o sentido dialético – e portanto, contraditório, do processo de mundialização do capital, tende a ser unilateral, não sendo capaz de ver a globalização tanto como algo progressivo, quanto regressivo, tanto como processo civilizatório, quanto como avanço da barbárie; tanto como a constituição de um ‘globo’ na mesma medida em que tende a contribuir para a sedimentação de particularismos locais e regionais.” (ALVES, 2000, par.11-2).

 

2.2.4.  A IDEOLOGIA DA GLOBALIZAÇÃO

Sob a perspectiva abrangente acima exposta, abordaremos, seguindo os passos de Giovanni Alves e Carlos M. Vilas, a faceta ideológica do fenômeno da globalização. Em primeiro lugar ressaltamos que o conceito de ideologia não deve ser compreendido exclusivamente como “falsa consciência”. A ideologia da globalização só ganha credibilidade pelo fato de ser correspondente ao novo patamar da ordem capitalista mundial, por se sustentar em transformações da estrutura econômica do sistema capitalista global, operadas pelas grandes empresas e governos. A globalização, para além das ideologias, enquanto mundialização do capital, apresenta existência e características próprias.

Desta maneira, a idéia  de  globalização há muito pertence ao cotidiano  da maioria das  pessoas. Apesar de se referir a um fenômeno de grande  complexidade cujo entendimento está ainda nos seus primórdios, parece prevalecer a perspectiva de que a globalização é um acontencimento irreversível, que submete os Estados e povos e os deixa  sem nenhuma margem de manobra. 

A globalização tem sido vista como um afastamento do imobilismo referente ao  passado e simultaneamente como uma significativa diminuição das opções públicas. Algumas medidas são criticáveis ou aconselháveis, outras são inevitáveis e tanto umas quanto outras são interpretadas e ditadas pelas necessidades da globalização.

Este pensamento, até então repleto de convicções deterministas, fundamenta-se em um pequeno leque  de enunciados simplórios de autoproclamada evidência, expressos por Vilas apud Giovanni Alves, sendo que os mesmos vêm a seguir:

 

 

“1) A globalização é um fenômeno novo; 2) Trata-se de um processo homogêneo; 3) É, do mesmo modo, um processo homogeneizador: graças à globalização, todos seremos, antes ou depois, iguais e, em particular, os latino-americanos serão iguais em desenvolvimento, cultura e bem-estar aos nossos vizinhos do Norte e da Europa; 4) A globalização conduz ao progresso e ao bem-estar universal; 5) A globalização da economia conduz à globalização da democracia; 6) A globalização conduz à desaparição progressiva do Estado, ou ao menos uma perda de importância do mesmo”. (VILAS apud ALVES, 2000, par.4).

 

 

 

Grosso modo, estes enunciados configuram o cerne do que pode-se denominar de ideologia da globalização. Examinemos, de forma sucinta, cada um destes enunciados.

I) A globalização é algo novo. A perspectiva de que a globalização seja algo novo atesta ignorância sobre a história econômica, particularmente a história econômica do capitalismo. Ao contrário do que se pensa, a globalização desdobra-se  num desenvolvimento de vários séculos que teve origem no continente  europeu a partir dos séculos XV e XVI, como manifestação especificamente dinâmica do capitalismo e como resultado de seu caráter eminentemene expansionista. O fato de que algumas economias e mercados pré-capitalistas terem revelado expressivas evidências de dinamismo na atividades comerciais possibilitou que se levantasse a hipótese de um início muito anterior, do que é normalmente aceito, dos processos de globalização.

Não há dúvida, contudo, que os aperfeiçoamentos tecnológicos em algumas localidades da Europa (técnicas de navegação e de orientação, dentre outros) e suas conseqüências no comércio, possibilitaram à globalização do capital um salto de amplitude até então inédita, que permitiria sua abrangência por todos os quadrantes do globo. Como vimos, a descoberta do continente americano e sua anexação à Europa, alargando as fronteira econômicas em direção ao Atlântico, significou um marco histórico de grande importância. Trata-se, assim, de um fenômeno que se desenvolve, no mínimo, há quinhentos anos.

A globalização é um fenômeno relacionado de forma estreita ao percurso do capitalismo enquanto modo de produção necessariamente expansionista, no que se refere a territórios, povos, recursos naturais, modos de vida e culturas.

A trajetória expansiva do capitalismo na Europa, no século XVI, em consonância à nova mentalidade da época, forçou a abertura de fronteiras inéditas no intuito de ampliar a acumulação de capital nas metrópoles.

O fortalecimento da atividade científica e sua contribuição decisiva ao processo de produção impulsionou a busca de novas fontes de matérias-primas e de artigos de luxo, bem como o domínio político em terras cujos povos foram anexados nesta primeira etapa da globalização por meio do jugo colonial e da repressão às suas culturas. Numa característica relação assimétrica, suas riquezas e existências tornaram-se bens econômicos, políticos e culturais eurocêntricos. Sendo que a Europa, cada vez mais, torna-se dependente dos recursos das regiões coloniais. A Primeira Revolução Industrial, no final do século XVIII, trouxe um novo dinamisno a este processo; a extração em grande escala de minérios, a exploração crescente de florestas e a ampliação da produção de  alimentos  tornaram-se o núcleo do capitalismo na Europa.

No final do século XIX, a Segunda Revolução Industrial (que traz no seu bojo o aperfeiçoamento dos meios de transporte terrestre e marítimo, o uso da energia elétrica, o desenvolvimento industrial acelerado, a disseminação das técnicas de conservação dos alimentos, dentre outros) provoca a imigração em massa da  população européia rumo à América e à Oceania. Os movimentos do capital e das atividades comerciais foram acompanhados pelas correntes migratórias.

Deve-se ressaltar que a chamada globalização do consumo atual teve sua origem no século XVI, com a chegada nas terras européias de uma grande variedade de produtos oriundos das colônias: café, cacau, batatas, tomates, bananas, arroz, cana-de-açúcar,etc.

A globalização deve ser analizada considerando a notável mobilidade do capital e seu caráter expansionista. Sendo que este abarca as características locais numa perspectiva mundial. Os tempos de refluxo das inversões internacionais não deixam de ser também tempos de expansão do capital sobre os espaços nacionais, que acabam preparando novos impulsos de natureza global. O período que vai de 1930 a 1970, caracterizada como uma época de “nacionalização” do capitalismo caracterizou-se igualmente como uma era de grande desenvolvimento das forças produtivas e da transformação de grande variedade de recursos naturais, segmentos da população e espaços geográficos em simplesmente mercadorias.

II) A globalização é um processo homogêneo ? Sob o ponto de vista de um longo período histórico, a globalização manifesta-se de forma claramente desigual. Os períodos de aumento vertiginoso da expansão capitalista, quanto aos fluxos internacionais de comércio e finanças, sucedem-se etapas de relativa calmaria e significativa concentração nos âmbiltos nacionais, que por sua vez, são ultrapassados por novos tempos de aceleração.

Atualmente percebe-se um período de aceleração da globalização antecedido por uma etapa que perdurou por mais de cinqüenta anos de relativa estabilização “nacional”. Esta, por sua vez, precedida por um período (1870 – 1914/20) de aceleração inédita.

Em resumo, a aceleração dos dias atuais da globalização ocorre pelo excesso de liquidez da economia internacional a partir da crise do petróleo da década de1970 e pela aplicação às atividades econômico-financeiras dos aperfeiçoamentos técno-informáticos provenientes da Guerra do Vietnã. Desta maneira, a globalização é portadora de desdobramentos desiguais em seus diversos níveis ou dimensões. Em sua performance atual, manifesta-se com um maior desenvolvimento no aspecto financeiro do que nos aspectos produtivo e comercial. Estima-se que montante anual de todas as movimentações financeiras no globo é entre 12 e 15 vezes superior que o valor da produção anual de bens e serviços não financeiros, e por volta de 60 ou 70 vezes superior que o valor de todas as exportações do mundo. (ALVES, 2000, par.7).

A hipertrofia do setor financeiro da economia mundial estabelece uma distinção significativa em relação às características precedentes do capitalismo. As movimentações financeiras abandonam o papel de coadjuvantes para se transformarem na força motriz do sistema. Ou seja, após a globalização comercial e da globalização produtiva estamos vivendo os tempos da globalização financeira, o terceiro nível do fenômeno.

A globalização das finanças acrescenta à economia grande volatilidade, intensificada pelo perfil de curto prazo predominante nas ondas de inversão financeira. Assim, nota-se uma nítida diferença entre os investimentos financeiros atuais e aqueles do período 1870-1920. Vale lembrar que o predomínio das finanças é capitaneado por um leque de novos investidores. Tais como fundos mútuos, companhias seguradoras, fundos de pensão, “fundos contigente”, investidores individuais, que arregimentam novos produtos financeiros: swaps, derivativos,etc.

A conseqüência da volatilidade é o caráter especulativo da economia mundial, considerada por muitos uma autêntica “economia de cassino”. O colapso das divisas européias em setembro de 1992; o craque do México de dezembro de 1994 e seus desdobramentos (“efeito tequila”) por alguns países Latino-americanos; a quebra da firma britânica Baring em 1995; a crise das moedas asiáticas no verão de 1997, demonstram a instabilidade das atividades econômicas diante das movimentações financeiras globais.

Entretanto, o valor do comércio no mundo representa somente um terço do valor da produção mundial total. O que significa que dois terços do produto se restringem aos mercados nacionais e não a um propagandeado mercado globalizado, apesar do empenho e da apologia ao crescimento das exportações. Cumpre destacar que a famosa abertura externa das economias é menor nas economias capitalistas centrais do que nas periféricas.

Pode-se afirmar que é completamente errônea a concepção de que os mercados nacionais não tenham importância para o desenvolvimento e o que realmente conta é o mercado globalizado.

Vale lembrar que um terço e dois quintos do comércio global representam relações tipo matriz/filial ou subsidiária, ou filial/subdisiária de corporação transnacional. Ou seja, referem-se a transações internas e se caracterizam por preços de transferências referentes às ações dos atores do mercado.

A globalização funciona de maneira diversa para os diversos sujeitos envolvidos. Trata-se da globalização do capital e não da globalização da força de trabalho. Vide as legislações protecionistas, de caráter racista, xenófabo, dos mercados de trabalho dos países capitalistas centrais.

O capital financeiro é de fato internacional, mas a classe trabalhadora não possui uma idêntica liberdade de deslocamento para buscar melhores condições de remuneração. A ilegalidade da situação de muitos trabalhadores representa uma fonte de renda para os negócios, tendo em vista que isto possibilita que esta mão-de-obra seja contratada em condições desfavoráveis.Talvez, assim, se explique a onda de xenofobia no mundo desenvolvido.

Sob o aspecto geo-econômico, os Estados Unidos, a União Européia e o Japão, com todo o universo de tensões, pressões e acordos mútuos, comandam o processo de globalização. As conferências do “Grupo dos Sete” significam o fórum evidente que coordena e direciona os movimentos do mercado mundial. O fato de que os fluxos econômicos no mundo concentram-se nas áreas citadas, fortalece a hipótese de uma divisão regional baseadas em três blocos: Estados Unidos no hemisfério Ocidental, Alemanha e a UE no velho continente, e Japão (e talvez a China) na Ásia/Pacífico.

As movimentações comerciais e financeiras no interior de cada um desses pólos são muito maiores do que entre eles. Ou seja, isto é o que caracteriza uma área econômica ou bloco. Portanto, mais que uma propagandeada globalização enquanto transação universal equitativa em valor e intensidade, nota-se a configuração de grandes espaços econômicos regionais, com a hegemonia de um de seus membros. A dicotomia regional/global seria uma mediação entre a economia nacional específica e a economia mundial.

III) A globalização conduz à homogeneização da economia mundial, superando com o tempo as diferenças entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, e entre países e regiões ricas e pobres ?

A globalização possibilita aos países pobres a entrada de forma inexorável no chamado "primeiro mundo" ? Esta é uma crença falaciosa propagandeada de maneira a mais  entusiástica possível quanto mais empobrecido e “atrasado” é uma região. 

A leitura da globalização como um fenômeno que homogeniza as esferas econômicas, sociais e políticas, e a fé no poder da globalização de resolver as deficiências de natureza econômica e técnica globais não tem embasamento na realidade, mesmo numa visão de longo prazo. Esta advertência, segundo Alves, já foi feita por diversos economistas, desde a década de 1940, e foi retomada, reformulada e adaptada, por outro grande número de estudiosos, aos desdobramentos futuros da economia mundial.

Grosso modo, e apesar das inúmeras diferenças de abordagem, nestes trabalhos há concordância  em reconhecer como conseqüência da expansão do capitalismo mundial o surgimento de diferenciações cada vez maiores entre as regiões do planeta com os respectivos patamares desiguais de desenvolvimento.

As disparidades entre os níveis de educação, técnicos, de qualidade de vida, dentre outros, explicam as graves e crescentes diferenças, e atestam as características da globalização como processo de intensificação das desigualdades entre países.

O mais preocupante é que os mais exaltados ideólogos da globalização são obrigados a reconhecer que a assimetria na distribuição de recursos, valores, transações e benefícios deverá se perpetuar ainda no futuro próximo.

Após verificar que os países capitalistas centrais obtêem da progressiva integração do comércio dividendos superiores aos dos países periféricos, o Banco Mundial estima um aumento mínimo da participação dos países pobres nas transações globais.

Em contradição com as idéiais neomalthusianas que atribuem o retardo dos países pobres às taxas absurdamente elevadas de crescimento populacional, constata-se que as diferenças destas taxas e as de desenvolvimento, entre países ricos e pobres,  são acentuadamente menores do que as taxas de crescimento do produto.

O PIB per capita, em 1980, nas regiões de alto patamar de desenvolvimento era aproximadamente 33 vezes superior às regiões de baixo nível de desenvolvimento. Em 1994 passou a ser 62 vezes superior, portanto, com um crescimento da desigualdade de 91%.

As regiões mais desenvolvidas continuaram, com menos intensidade, a se diferenciarem das de nível intermediário de desenvolvimento. Simultaneamente, há quase quarenta anos, verifica-se uma diferenciação no âmbito dos países pobres, entre os mais pobres (“de ingresso baixo”), e os de desenvolvimento intermediário. Processo alavancado pelo desenvolvimento de certas economias do sudeste da Ásia.

No último período vieram somar a estas economias intermediárias alguns países da América Latina, tais como Brasil, México, Argentina e Chile, e outros do Leste Europeu.

Vale lembrar que persite ainda um verdadeiro e crescente abismo entre estes países pobres e os países capitalistas centrais, não havendo um horizonte de diminuição das desigualdades como um todo.

No decorrer do últimos anos a distância entre os países desenvolvidos e o restante do mundo aumentou 85%. A continuidade e recrudescimento deste desnível é conseqüência da exploração internacional de caráter imperialista ou neocolonial. Ou seja, exploração predatória dos recursos naturais e degradação ambiental; protecionismo nos países desenvolvidos, diante das exportaçõe de produtos primários dos países pobres; estabelecimento de termos assimétricos de intercâmbio comercial; guerras localizadas contra Estados considerados insurbodinados.

Constata-se, assim, que globalização não diminui as desigualdades, nem mesmo as contradições constituintes de parcela significativa da existência social nacional e global.  Inversamente, fornece-lhes um novo impulso, elevando-as em outros patamares, com outros significados, não representando, portanto, nunca um processo histórico social de homogeneização.

Do ponto de vista político, a arena mundial também é contraditória com a concepção de uma globalização homogeneizadora. A ONU, por exemplo, encontra-se em crise, subjugada pelo interesses geopolícos, principalmente dos Estados Unidos. Sem dúvida esta crise pode ser atribuída às transformações ocorridas nas relações de poder de âmbito mundial, pós-Guerra Fria. Entretanto o governo americano teve poder de impor, principalmente ao Conselho de Segurança, as suas demandas que buscam cacifar este país enquanto força hegemônica global, em situação semelhante a experimentada pelo Império Britânico desde as Guerras de Napoleão até a Primeira Guerra Mundial.

De um modo geral, a crença numa presumida homogeneização resultado da globalização remete-se aos aspectos simbólicos do fenômeno. Em outras palavras, a globalização como “hibridização”, como o surgimento de formas inéditas de interação global entre culturas. Vale ressaltar mais uma vez a assimetria dos fatos. Alguns sujeitos se posicionam como produtores e o restante como simples platéias, de acordo com as suas respectivas classes e diferenciações no interior de cada  país. Para os cidadãos da atualidade a característica de um possível inserção na chamada cultura global varia segundo as suas particulares condiçõs sócio-econômica e de sexo e a situação econômica global do país de origem. Constata-se que a esperança no potencial homogeneizador da globalização não tem justificativa  no desenrolar real do processo. Ou seja, a intensificação das desigualdades entre regiões e países é característica intrínseca do processo, na falta de agentes que intervenham em sentido contrário.

IV) A globalização é a chave do progresso e do bem-estar, promovendo o acesso dos grupos menos favorecidos a crescentes níveis de bem-estar e qualidade de vida?

Mais uma vez o que se verifica é a continuidade e agravamento dos desníveis sócio-econômicos e educacionais nos países periféricos. Tais como ampliação do contigente daqueles que vivem abaixo da chamada linha da pobreza, índices altíssimos de desemprego e subemprego, precarização crescente das moradias, etc. Grosso modo, constata-se o aprofundamento das diferenças de toda a espécie entre as diversas camadas da população inseridas nos setores dinâmicos da economia e aqueles setores que permanecem excluídos de tudo.

 

O aumento dos níveis de pobreza na região, ou ainda os empecilhos para diminuí-la são condicionados por causas referentes  às características principais do processo de globalização. Pode-se destacar as seguintes:

 

— Modificações na relação emprego/produto.  Anteriormente a performance destes dois fatores mantinha natureza positiva. Em caso de crescimento do produto, o emprego também crescia, em caso contrário o emprego acompanhava a queda do produto. Sendo que o reaquecimento da produção impulsionava o emprego. Atualmente a situação mudou. Nos períodos recessivos o emprego cai mais drasticamente que o produto; e quanto este se reanima, o emprego não sofre alteração, e se há alguma é de forma precária.

— Políticas governamentais que estimulam a flexibilização do trabalho. Ou seja, a perda das garantias institucionais dos direitos trabalhistas, fruto de lutas políticas e sindicais históricas. Ocorre uma paulatina substituição do direito ao trabalho pelo direito civil ou comercial, ocasionando o desamparo legal dos trabalhadores. A injustiça social é institucionalizada pelo tratamento formalmente igual dispensado a indivíduos que ocupam lugares sócio-econômicos absurdamente desiguais. Constata-se uma declarada resistência estatal contra as entidades sindicais dos trabalhadores, e inversamente, uma benevolência que inclui subsídios, reduções de tarifas obrigatórias e correlatos às organizações patronais.

Perda do poder de compra dos salários reais. O trabalho torna-se incapaz de prover uma existência digna e ascender em direção a uma qualidade de vida superior. Como instrumento renovado a serviço da racionalidade do capital, no que tange ao rebaixamento dos custos da mão-de-obra, comprova-se a eficácia dos métodos de flexibilização globais dos mercados de trabalho.

— Agravamento da exclusão social, na proporção em que a população submetida à pobreza cresce mais rapidamente que a população total. A atrofia do setor informal intensifica a precariedade do já empobrecidos, considerados supérfluos para o funcionamento do sistema capitalista atual. Se no passado havia a possibilidade destes contingentes serem considerados como um exército industrial de reserva, atualmente limitam-se a ser considerados prescindíveis, pois não se verifica mais a simbiose existente no passado entre o setor informal e o formal, ou entre o setor “arcaico” e o “moderno”.

  As privatizações e as políticas de desregulamentação que deterioram os níveis de emprego e das condições de trabalho. As privatizações provocam a suspensão ou cobrança de serviços sociais anteriormente gratuitos. Relacionado ao que foi dito, a diminuição das verbas orçamentárias destinadas à educação, saúde, previdência social, dentre outras.

  A vertiginosa depredação dos recursos naturais em benefício das grandes empresas nacionais e transnacionais. Esta deterioração ambiental, sob as vistas grossas dos Estados e estimulada por eles, provoca diretamente a pauperização de significativos contingentes populacionais do campo, com o enfraquecimento dos solos, o envenenamento ou o definhamento dos lençóis freáticos, a destruição de florestas, etc.

V) A globalização econômica alavanca a globalização democrática? Este é um equívoco baseado na crença de que o período atual vivido pelos países do Leste Europeu constitui-se como uma “transição à democracia”. Provavelmente o processo realmente deve estar acontecendo em alguns países, e eleições devem estar se institucionalizando em muitos.

Mas o fato de existir processo eleitoral não significa que haja de fato democracia. A participação democrática plena pressupõe inclusão, ao contrário da pobreza que implica exclusão. A cidadania exige sujeitos autônomos, em situação de igualdade, com elevada auto-estima e senso de responsabilidade. A exclusão social é marcada por baixa alta-estima, insegurança frente ao desemprego ou subemprego, temor aos desmandos policiais ou ainda impotência diante das catástrofes que assolam as áreas precarizadas: inundações, violência, crime organizado, etc. O comprometimento do indivíduo limita-se ao círculo familiar e vizinhos, e o direito à informação inexiste, limitando a liberdade de escolher alternativas. A cidadania transforma-se em clientelismo. A fragilidade das condições de vida faz com que a segurança seja erguida como valor máximo e as intervenções messiânicas de um deus ex máquina são esperadas na resolução dos próprios problemas. A “ruptura do pacto social” direciona os excluídos para o estabelecimento de relações diretas com os que detêm o poder, na esperança de resolução dos seus problemas básicos. O resultado é o florecimento do caudilhismo, a troca do voto por favores imediatos, enfim, a perda da importância do direito de votar. E isto não está circunscrito aos setores mais pobres da população. Verifica-se ainda nos mais elevados extratos de riqueza, prestígio e poder. A troca de apoio político pela obtenção de ganhos econômicos; o uso da influência corporativa para forçar a tomada de determinadas decisões; a ameaça de fuga de capitais, etc.

VI) A globalização provoca a gradativa saída de cena do Estado nacional ou, pelo menos, uma diminuição da relevância deste? Esta crença demonstra a semelhança entre a ideologia da globalização e o neoliberalismo.

Grosso modo, esta idéia pode ser resumida nos seguinte termos: o desenvolvimento mundial dos mercados ocorre simultaneamente ao encolhimento dos Estados-Nações; as atividades econômicas, culturais e de consumo se desterritorializam, e por causa disso, acabam minando a autoridade estatal. Mas a concepção do progressivo desaparecimento do Estado não é nova. O anarquismo e o socialismo a abordaram,  evidentemente sob prismas diversos. O neoliberalismo e a ideologia do globalismo a retomam apesar das óbvias constestações à mesma, as quais veremos a seguir, segundo Vilas apud  Alves.

  Os diversos territórios dos Estados e a demarcação dos limites e frontreiras continua importante no mundo globalizado. Persiste a distinção nacional/territorial no que se refere à força de trabalho, às condições de salário e emprego, bem como aos benefícios às corporações globais, prosseguindo a intervenção política dos Estados em todos estes casos.

Continua destacada a diferenciação territorial dos Estados e a permanência das fronteiras estatais para a delimitação no âmbito nacional de preços  específicos relativos às mercadorias de circulação transnacional diminuta: tarifas nacionais, preços na indústria de construção, dentre outros. Além disso, os recursos políticos e militares  dos Estados permanecem enquanto meios estratégicos para a consolidação e extensão dos mercados econômicos e comerciais.

 O componente estatal dos mercados globais contemporâneos é o maior de todos os tempos. A fragmentação da ex-União Soviética e o desmembramento na região balcânica multiplicou aceleradamente, a partir de 1990, a quantidade de Estados-nações, e também a descentralização do poderio militar nuclear. No decurso dos anos 1990 o número de instituições internacionais, tais como a ONU, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional se avolumou numa velocidade comparável aos dos anos 1960, durante a independência dos países africanos e asiáticos.

É fora de dúvida que o grupo de instituições “supra-estatais” cresceu significativamente na última metade do século XX; junta-se a ele uma variedade cada vez maior de entidades não governamentais de alcance global que contribuem para aumentar a complexidade do cenário político do mundo.

Fala-se, além disso, do advento de uma “classe capitalista transnacional” composta pelos executivos das empresas transnacionais, as burocracias estatais globais, os políticos e a intelectualidade vinculada ao capitalismo global, e os setores consumistas privilegiados.

Ocorrem transformações importantes no relacionamento e nos atritos entre Estado e Mercado. A relação entre Estado e Mercado sempre apresentou uma grande diversidade, e a natureza,  sentido,  abrangência, limites, instrumentos e metas desta relação são determinados pelas forças que alavancam a uns e outros.

A partir das Grandes Navegações o globo viu desfilar sucessivamente o estatismo mercantilista, o liberalismo dos “burgueses consquistadores”, o intervencionismo imperialista do final do século XIX, o livre-cambismo dos anos 1920, o intervencionismo keynesiano e social-democrata, e, finalmente, o retorno às virtudes do mercado através do neoliberalismo. Nos dias atuais o que acontece não é a extinção do Estado, mas uma nova articulação deste com o mercado e suas forças, e um reconfiguração de suas tarefas relativas ao capital.

O cerne do problema não é o desaparecimento do Estado nacional, submerso no âmbito mercantil global, mas sim, que espécie de relacionamento está se desenhando entre o Estado e as instituições supra-estatais e o mercados globalizados.

— Continuam públicos e notórios os favores e serviços que o Estado presta ao capital. Isto é, conferir segurança à propriedade capitalista, produzir economias externas para a acumulação privada, referendar a sociedade estruturada pela hegemonia do capital, por meio da educação, meios de informação e similares.

O Estado na atualidade transforma as formas, abrangências e tipos de relacionamento com o Mercado para fortalecer o redesenho das economias regionais, a sua crescente abertura externa,  no sentido de integrá-las aos movimentos globais do capital. Ou seja, o Estado atua no interesse dos setores mais vinculados aos movimentos da globalização para consolidar o lugar destes no mercado e impulsionar seus respectivos projetos, visões e metas.

— A globalização das forças, dos interesses e dos capitais é fruto dos mercados e também conseqüência da atuação do Estado. O período contemporâneo da mundialização financeira exige uma reconfiguração no propósito da atuação estatal. Esta reconfiguração ocorre em relação a determinados personagens e objetivos. Modifica-e a referência social e política da atuação do Estado, permitindo-se alterações nos tipos de intervenção estatal. A crise da dívida externa, no princípio dos anos 1980, na América Latina e Caribe,  e a forma em que foi negociada, estão na base desta reconfiguração: o Estado assumiu a responsabilidade pela dívida externa privada das empresas e a transformou em dívida pública. As subseqüêntes contrações de empréstimos externos aumentou a subserviência dos Estados nacionais diante dos mercados financeiros, credores desta dívida.

Neste novo quadro, fortaleceu-se o poder decisório e a importância política das instituições estatais mais próximas destes mercados. Ou seja, Bancos Centrais, ministérios ou secretarias de finanças, etc. por sua vez, diminui-se o status dos ministérios ou secretarias do trabalho e da indústria e entidades estatais ligadas ao bem-estar e à previdência social, dentre outros.

 — Pode-se, então, falar na diminuição da iniciativa do Estado nas atividades econômicas? Com certeza, constata-se um decréscimo da participação do Estado na economia. Entretanto, cumpre analisar mais detidamente o fenômemo. Esta diminuição é mais acentuada nas economias periféricas, nas quais o Estado possui grande capacidade de intervençao direta e indireta, até mesmo a “propriedade de ativos”. A  chamada diminuição do Estado não resulta em retrocesso no seu papel legitimador da hegemonia de atores específicos.

No desenvolvimento do sistema capitalista repete-se um fato de tempos em tempos: cada vez que as atividades econômicas entram crise, por conta da especulação anárquica dos mercados,  é a intervenção dos Estados-nações que possibilita os meios para encontrar a solução. Isto é o que aconteceu nos anos de 1929, 1987 e 1994, para ficar em datas mais ou menos recentes. Grosso modo, sempre que a economia se encontra num momento de transição, tendo em vista as modalidades de acumulação dominantes, a virada para a modalidade seguinte torna-se factível pela atuação estatal, direcionada pelos interesses das novas forças econômicas, para que estas quebrem com o auxílio dos recursos do Estado a ordem anterior e assumam a hegemonia no mercado.

 — A Argentina como paradigma da nova modalidade de intervenção do Estado na economia. A nação platina é na atualidade um dos exemplos mais dramáticos da nova modalidade de intervenção estatal nas atividades econômicas e da política de integração à globalização financeira.

Por meio das privatizações, o Estado, atabalhoadamente, desvinculou-se das empresas de bens e serviços que havia construído, ou que por motivos vários tivesse sido proprietário. Formalmente o Estado diminuiu e simultaneamente este realiza intervenções no mercado cambial, fixando em lei a paridade do Peso em relação ao Dolar, o que determina quais setores da economia sobreviverão às pressões da economia globalizada e quais setores sucumbirão inexoravelmente. Por fim, o Estado sob a tutela das grandes corporações, atua no mercado de trabalho destruindo as leis que protegiam a classe trabalhadora.

 — O principal é que o cerne político do Estado, isto é,  a coação, encontra-se a serviço da lógica do capital globalizado, e não se trata apenas da realização estatal de políticas específicas. Além disso, a reconfiguração das funções do Estado possibilita a constituição de blocos econômicos como a União Européia, o Nafta e o Mercosul, dentre outros. Tais espaços de circulação transnacional do capital não existiriam sem a atuação do Estado, que intervém no interesse das grandes corporações em detrimento dos trabalhadores da cidade e do campo, das camadas médias, dos consumidores, etc.

Nesta época na qual o capitalismo alcança horizontes de circulaçâo inéditos e no momento em que a especulação financeira desestrutura mercados e países, é nesta época que se faz notar o “Grupo dos Sete” com suas determinações e regulamentações para os mercados transnacionais e as inversões globais do capital.

Ao contrário da ideologia da extinção paulatina do Estado-nação, o G-7 não congrega empresários, executivos de transnacionais e mega-investidores. O G-7 reúne chefes de Estado e de governo  e a alta burocracia estatal dos países capitalistas mais industrializados do planeta. Ou seja, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Grâ-Bretanha, França, Canadá e Itália. Nos fóruns do G-7 são delineadas medidas, mudanças e projeções que influenciam a estratégia dos especuladores financeiros, e que direcionam o movimento dos capitais. Simplificando um pouco, pode-se afirmar que G-7 é “instância inter-estatal de governo colegiado dos mercados globalizados”.

Conclui-se, assim, que os Estados e a política não são desprezíveis nestes tempos de globalização, levando-se em conta o perpétuo interesse e os capitais invertidos pelas elites globalizadas na contínua apropriação política da máquina estatal.

Constata-se que ideologia da globalização é uma ideologia retrógrada que obscurece os fatos para impossibilitar o desejo  de  superá-los. Semelhante a todo pensamento conservador, seleciona arbitrariamente a realidade conforme as necessidades do poder, subserviente a sua manutenção e predomínio. Pretende ser exatamente como um inexorável desdobramento do real, e como obra intrínseca do desenvolvimento tecnológico, oculta o fato de que é efetivamente resultado de determinados projetos, com metas e demandas específicas.

A ditadura do mercado e do lucro pecuniário são privilegiados acima de qualquer outro valor, enaltecidos como a materialização da razão e do progresso. Isto apresenta-se como modernidade, e inclusive "pós-modernidade"; de fato, trata-se de um retorno às formas mais perversas e degradantes dos primórdios do capitalismo. A proclamação desta ideologia vem relacionada normalmente por referências metafóricas à iminência da entrada no terceiro milênio.  Esta alegoria cumpre o papel de semear a confusão junto aos cidadãos incautos; a angústia de se deixar escapar a chance de penetrar no portal histórico da globalização, ou seja,  por outro reino de mil anos,  é extremamente forte. inclusive por que não haverá, neste futuro luminoso,  dentre os contemporâneos, nenhuma testemunha para comprovar a exatidão destas professias. Mas não é preciso esperar tanto tempo. Os enunciados desta ideologia conservadora não estão referendados pela história e tampouco pela análise da atualidade; contrapostos aos fatos, em sua maioria, mostram-se pálidos,  quando não enfraquecidos, perdendo qualquer relevância. Ou seja, limitam-se a equívocos.

 

 2.2.5.  A GLOBALIZAÇÃO COMO MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITAL

A teoria marxiana, no que se refere à origem e ao desenvolvimento do modo de produção capitalista, o considera também como um “processo civilizatório” de natureza transnacional. Desde o seu princípio, as relações, os processos e as estruturas que o configuram desdobram-se em escala mundial. A chamada acumulação primitiva, que abrange as grandes navegações, os novos descobrimentos, as guerras de conquista, o mercantilismo, a pirataria, o comércio de escravos, as muitas formas de trabalho forçado, constitui-se num fenômeno que se alastra em âmbito global, se bem que concentrado em algumas metrópoles e colônias. Em decorrência do desenvolvimento do capitalismo, intensificam-se e universalizam-se as forças produtivas e as relações de produção, abarcando o capital, a tecnologia, a força de trabalho, a divisão do trabalho social, o mercado, o planejamento, a violência, o direito, as instituições jurídico-políticas, as ideologias e outras manifestações e mediações da vida social. Estas forças produtivas e relações de produção consolidam-se tanto nos processos de concentração do capital, ou seja, reinversão permanente de ganhos, lucros ou mais-valias, quanto na centralização do capital, ou seja, incorporação de outros capitais e iniciativas. A concentração e a centralização constituem a base do colonialismo e do imperialismo, o qual se materializa em monopólios, trustes, cartéis, multinacionais e transnacionais, em um processo de desenvolvimento desigual e combinado, que acaba por impor a todo o globo o sistema capitalista (IANNI, 2001, 207).

 

A partir do início do século XVI, e cada vez mais nos seguintes, e ganhando muito mais velocidade no século XX por meio das tecnologias eletrônicas, em seu percurso o capitalismo continuamente espalha-se pelo mundo inteiro.

 

 

Muitos estudiosos ressaltaram a importância no âmbito da teoria marxiana, no que se refere à compreensão do desenvolvimento capitalista, das concepções presentes no célebre Manifesto Comunista. Dentre eles, chamamos a atenção para: Octavio Ianni (IANNI, 2001,208), Giovanni Alves (ALVES, 2000,) Paulo Balanco (BALANCO, 2000) e Aldo Romero (ROMERO, 2002).

 

Mesmo que se reconheça certa precariedade na obra citada, enquanto documento analítico, pois os seus autores pretendiam, principalmente, dar publicidade a idéias programáticas incentivadoras da organização  política operária, pode-se reconhecer neste documento um valor ímpar: ele conseguiu vislumbrar o capitalismo como modo de produção que abarcaria toda a humanidade em seu desenvolvimento:

 

“Pela exploração do mercado mundial, a burguesia tornou cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. Para grande pesar dos reacionários, retirou da indústria sua base nacional. As antigas indústrias nacionais foram aniquiladas e ainda continuam a ser nos dias de hoje. São suplantadas por novas indústrias cuja introdução se torna uma questão de vida ou morte para todas as nações civilizadas: essas indústrias não empregam mais matérias-primas locais, mas matérias-primas provenientes das mais longínquas regiões, e seus produtos acabados não são mais consumidos somente in loco, mas em todas as partes do mundo, ao mesmo tempo. As antigas necessidades, antes satisfeitas pelos produtos locais, dão lugar a novas necessidades que exigem, para sua satisfação, produtos dos países e dos climas mais remotos. A auto-suficiência e o isolamento regional e nacional de outrora deram lugar a um intercâmbio generalizado, a uma interdependência geral entre as nações. Isso vale tanto para as produções materiais quanto para as intelectuais. Os produtos intelectuais de cada nação tornam-se um bem comum. O espírito nacional tacanho e limitado torna-se cada dia mais inviável, e da soma das literaturas nacionais e regionais cria-se uma literatura mundial.”(MARX & ENGELS, 2002, 29-30).

 

 

 

A teoria marxiana baseia-se na evidência de que a sociedade é fundamentalmente dinâmica, complexa e contraditória, envolvendo relações, processos e estruturas de dominação política e apropriação econômica, produzindo no seu bojo movimentos de integração e fragmentação. Sucede que a mesma realidade social que fabrica identidades e diversidades fabrica desigualdades e contradições. Deste modo a teoria marxiana apreende não apenas o movimento, a transformação, a mudança, mas principalmente a ruptura e revolução. Em âmbito local, nacional, regional ou mundial, os fenômenos sociais estão sempre em movimento, permeados por contradições, abarcando indivíduos, famílias, grupos, classes, setores de classes, etnias, religiões, línguas e outras fatores determinantes da sociedade. Toda esta complexidade intrínseca à globalização pode representar um incomensurável caleidoscópio de forças e lutas sociais, surpreendente, pouco conhecido e clamando por interpretação; com inúmeras facetas conhecidas ou supostamente conhecidas, mas que assumiram, inesperadamente, outra significação (IANNI, 2001, 209).

 

O célebre Manifesto pode nos fornecer pistas para o entendimento dos primórdios da expansão capitalista. A partir de agora nos apoiaremos no rico diálogo estabelecido entre o sociólogo brasileiro Giovanni Alves e o pensamento de Robert Brenner, István Mészáros, David Harvey e, particularmente, François Chesnais, economista francês de extração marxiana, para a apreensão dos desdobramentos caleidoscópicos deste novo patamar do capitalismo mundial.

 

Verifica-se por meio de dados econômicos gerais dos anos de 1990 que as atividades econômicas permanecem ainda numa longa depressão intercalada por períodos de desaceleração, recessão e crescimento não-sustentado das economias capitalistas. Tendo em vista esta situação é que Chesnais, segundo Alves, estabelece a conclusão de que a economia do globo alcançou um novo regime de acumulação do capital, que provocou significativas modificações no funcionamento do capitalismo. Chesnais batiza esta nova fase de “regime de acumulação predominantemente financeira”, que constitui a “mundialização do capital”. Esta etapa, segundo Chesnais, representa muito mais do que um mero período a mais no desenvolvimento de internacionalização do capital iniciado há cem anos. (ALVES, 2001, 51).

 

Segundo Chesnais, apud Alves, as características mais acentuadas do capitalismo na década de 1990, que configuram o “novo regime de acumulação predominantemente financeira”, conhecido como mundialização do capital são: taxas de crescimento do PIB insignificantes, mesmo em países capitalistas desenvolvidos, como por exemplo, o Japão; deflação; instabilidade conjuntural, caracterizada por contínuos abalos monetários e financeiros; elevados níveis de desemprego estrutural; exclusão de vastas regiões no que se refere ao intercâmbio comercial; concorrência crescente e conflituosa entre Estados Unidos, Europa Ocidental e o Japão.

 

As atividades econômicas capitalistas em todo o mundo aparentam estar no bojo de uma etapa depressiva de longa duração. E de acordo com Chesnais, exclusivamente por meio de choques externos poderia se libertar desta situação. Entende-se, por choques externos, por exemplo, a deflagração de guerras.

 

As medidas internas ao capitalismo, principalmente nos países centrais, objetivam menos ao processo de acumulação representada por investimentos que gerassem nova capacidade produtiva do que a “salvação/manutenção das posições adquiridas” – cujo aspecto financeiro de caráter rentista as expressam de forma cabal.

 

O que caracteriza o novo regime de acumulação capitalista, portanto, é o seu caráter rentista e parasitário. Ou seja, encontra-se de forma crescente subjugado às demandas específicas das novas modalidades de centralização do capital na forma dinheiro, principalmente o chamados fundos mútuos de investimento e os fundos de pensão. O poderio deste capital na forma dinheiro é mantido por instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, e também pelos Estados mais ricos do globo, seja qual for o custo.

 

Quanto à gênese política e estrutural da mundialização capitalista, pode-se afirmar que é fundamental que se leve em conta simultaneamente os aspectos políticos e econômicos para que se apreenda a essência deste fenômeno. De fato, uma acumulação principalmente rentista, é proveniente de alterações qualitativas nas relações de poder entre capital e trabalho, bem como entre o capital e o Estado, em sua versão denominada de Estado de Bem-Estar Social.

 

O fato histórico que demarca a mundialização do capital é a recessão dos anos de 1974 e 1975, o advento desta “longa crise rastejante”. Desde então, o capital buscou, das mais diversas maneiras, quebrar as resistências sociais, as leis e regulamentações no interior das quais se considerava factível aprisioná-lo, na esperança de poder domesticá-lo. O capital obteve sucesso, se bem que de forma diferenciada, de acordo com cada país.

 

Os elementos principais que contribuíram para a nova estratégia do capital a partir da década de 1970 foram:

 

I)                    A força própria do capital acumulado devido ao longo período dos chamados “trinta anos gloriosos”.

II)                  Os aperfeiçoamentos tecnológicos que as grande empresas transnacionais aplicaram no seus próprios interesses, com o objetivo de alterar as relações entre os trabalhadores assalariados e os sindicatos, e também, com o intuito de vencer a concorrência diante das empresas japonesas.

III)                Uma sustentação básica promovida pelos próprios Estados capitalistas, por meio de políticas de liberalização, desregulamentação e privatizações.

 

Donde se conclui que os “trinta anos gloriosos” – a etapa fordista – contribuíram para a crença social-democrata na possibilidade de domesticação do capital no nível das formas de regulamentação nacionais. Os novos avanços do capital na produção e na política, desde a crise capitalista da década de 1970, forneceram os ingredientes que ajudaram a diluir a ilusão da social-democracia clássica.

 

Considerando o nível da objetividade intrínseca ao desenvolvimento da acumulação capitalista os “trinta anos gloriosos” fortaleceram o capital industrial e financeiro em decorrência da extensa fase de crescimento, no interior da qual se desenvolveram as novas tecnologias relacionadas à Terceira Revolução Tecnológica (não exclusivamente isso, mas fundamentalmente o mercado financeiro).

 

Por meio da chamada “revolução conservadora”, ou seja, por intermédio das políticas neoliberais, da liberalização, desregulamentação e da privatização, com o enaltecimento do “mercado”, é que o triunfo do capital mostrar-se-ia pleno. A ascensão de Thatcher, no Reino Unido, e Reagan, nos Estados Unidos, proporcionaram uma importância histórico-concreta ao declínio da ilusão social-democrata e ao fortalecimento da posição do capital industrial e financeiro, conquistada na “idade de ouro” do capitalismo global.

Desde então acontecem transformações de qualidade nas relações de poder entre o capital e o trabalho, bem como entre o capital e o Estado, em sua modalidade de “Estado de Bem-Estar Social”. Surge uma inédita orientação ao movimento de internacionalização do capital, com este readquirindo plena liberdade de movimentos e, fundamentalmente, liberdade para atuar em todo o globo, liberdade que não possuía desde 1914.

A partir deste patamar é que a ideologia da globalização, implícita nas políticas neoliberais, é colocada como norteadora da estratégia capitalista e como solução para a crise dos anos de 1974 e 1975. Simultaneamente desenvolve-se o mito da técnica, que enaltece a tecnologia utilizada pelas empresas transnacionais, por meio do novo complexo de reestruturação da produção, no sentido de alterar suas relações com a classe trabalhadora e os sindicatos.

Deste modo, o “complexo de reestruturação produtiva”, e, fundamentalmente, as políticas neoliberais, que se disseminam a partir da década de 1980, possuíam não só a clara intenção de aniquilar as organizações sindicais, bem como as demais instituições e relações sociais que dificultassem a lógica da valorização do capital, implantadas a partir do primeiro governo de Roosevelt, nos EUA e da vitória sobre Hitler, na Europa Ocidental.

Na transição da década de 1970 para a década seguinte, no interior da ofensiva do capital no setor produtivo (a “reestruturação produtiva”) e da ofensiva do capital na esfera política (o neoliberalismo) é que acontece o ponto de partida para a mundialização do capital.

Sob determinado ponto de vista, as lideranças políticas e sindicais de esquerda da Europa Ocidental e nos Estados Unidos (Sociais-democratas e comunistas) abriram espaço para o fortalecimento dos neoconservadores, por terem limitado o "potencial verdadeiramente democrático, e, por isso, anti-capitalista, dos grandes movimentos sociais – operários e estudantis – que demarcaram a década de 1968-1978 na Europa, assim como nos Estados Unidos." (Chesnais apud Alves,1999, par.29).

De fato, os neoconservadores se aproveitaram do refluxo dos movimentos sociais na passagem da década de 1970 para a seguinte. Cumpre destacar neste raciocínio a interação entre o aspecto econômico e o político, para percebermos a formação do novo patamar da acumulação capitalista chamado de “mundialização do capital”.

A vitória do “mercado” não existiria sem as reiteradas medidas políticas de órgãos governamentais dos Estados capitalistas centrais (principalmente aquelas vindas dos membros do G7). Ou seja, a íntima articulação entre o político e o econômico possibilitou o aparecimento dos mecanismos e formas dominantes desse regime.

No que tange às operações industriais e financeiras o que se conhece como mundialização do capital fundamenta-se não na mundialização das trocas – trocas de mercadorias e serviços – as quais nas décadas de 1980 e 1990 cresceram muito lentamente, menos do que o crescimento dos anos de 1960 e 1974, mas, sobretudo, pela mundialização das operações do capital, nas modalidades industrial e financeira. De fato, o que apresentaram crescimento nas décadas de 1980 e 1990 foram os investimentos diretos e os rendimentos de capital, não se levando em consideração os investimentos de portfólio realizados no mercado financeiro.

Assim, estas operações mundializadas do capital (industrial e financeiro) é que constituem o exato sentido da chamada “globalização”, ou seja, a mundialização do capital.

Estima-se que as corporações transnacionais, tais como matrizes, filiais, ou empresas em regime de subcontratação) englobam dois terços do comércio mundial de bens e serviços. Em torno de 40% do intercâmbio internacional caracteriza-se como sendo “intragrupo”.

A “globalização” alterou as condições de interdependência econômica entre os países. Na década de 1990, percebe-se a relevância dos “investimentos externos diretos” (IED), mais do que as trocas. Inversamente a estas, o IED acaba moldando as estruturas dominantes na produção e no comércio de bens e serviços. Assim, é o destaque assumido pelo IED com suas características específicas que espalha no mundo inteiro um padrão global de inovações produtivas (ou seja, o toyotismo), com poder de configurar um padrão único à estrutura produtiva e de comércio capitalistas nos quatro quadrantes do globo.

Além do mais, a reprodução geográfica do IED é acompanhada pela globalização dos bancos e outras instituições financeiras, o que facilita as fusões e aquisições transnacionais. Desta maneira, o capital bancário e financeiro transnacionais seguem e alavancam as atividades do capital industrial transnacional.

A partir da década de 1990, a interdependência econômica entre os países, além da expansão dos IED, ocorre, em primeiro lugar, em decorrência do constante crescimento dos fluxos de trocas “intrafirmas”, também devido ao aumento de novos tipos de acordos inter-empresas no que se refere à transferência mundial de tecnologias (não se limitando à concessão de franquias e do comércio de patentes), o que possibilita que firmas e certos países capitalistas tenham acesso a conhecimentos tecnológicos de ponta, e, finalmente, por causa do aparecimento de inéditos tipos de empresas multinacionais estruturadas em “rede”.

Desta maneira, a “globalização” – ou a mundialização do capital – é acima de tudo a “globalização do capital” e não somente a “globalização das trocas”. Em função disso, não se pode limitar de forma simplista, o novo período de internacionalização do capital a uma mera continuidade do processo de ocidentalização do globo, que teve início no século XV.

No seu início a internacionalização do capital aparece enquanto “globalização das trocas”, do simples comércio de mercadorias, comandando do Ocidente para o Oriente. É a configuração de um mercado mundial que alguns consideram como a “globalização” propriamente dita. Mas, a “globalização” ou, a mundialização do capital, vai constituir o novo período de internacionalização capitalista. Isto é, a globalização dos investimentos e da produção. E ao se dizer “mundialização do capital”, entende-se não só o capital produtivo aplicado na indústria e serviços, mas também o “capital concentrado que se valoriza conservando a forma-dinheiro” (ALVES, 1999, par.38).

Assim, a mundialização capitalista demonstra que nos encontramos frente a uma “globalização de uma massa de dinheiro que se valoriza”, tanto o dinheiro que se valoriza por meio da produção de mercadorias, quanto o dinheiro que se valoriza mantendo a forma dinheiro, ou seja, o dinheiro dos mercados financeiros.

O processo da transmutação do dinheiro em capital, isto é,  D-M-D’, ou D-D’, condiciona as estruturas produtivas e comerciais de bens e serviços (o que resulta em globalização das relações sociais, políticas e culturais). Sob o domínio da mundialização do capital materializa-se completamente a idéia presente no Manifesto de 1848, segundo a qual no decorrer de sua história o capital constrói um mundo à sua imagem e semelhança.

A seguir relacionaremos as principais características da mundialização do capital.

I)                    a mundialização do capital é demarcada pelo poder ascendente do capital-dinheiro muitíssimo concentrado, que ganha vulto principalmente entre os anos de 1985 e 1995. Segundo Chesnais, apud Alves, o termo capital-dinheiro, enfatiza o capital industrial, mas sobretudo o capital financeiro, isto é, aquele capital que obtêm valorização mantendo a forma-dinheiro. Na atualidade o mercado financeiro é globalizado e apresenta diversidade de características e de instrumentos. O fundamental resume-se no enfoque que se pretende utilizar na análise deste fenômeno.

II)                  Constata-se a predominância do investimento e da produção em relação à troca.

III)                Intensifica-se a centralização financeira e a concentração industrial do capital nas órbitas nacional e internacional (tais como os bancos e os grupos que possuem fundos mútuos e fundos de pensão).

IV)              Verifica-se um crescente entrelaçamento entre os capitais nacionais e nota-se a constituição por meio das inversões internacionais cruzadas e das fusões e aquisições interfronteiras, dos oligopólios transnacionais numa variedade de ramos industriais e de serviços.

Em relação às mudanças de qualidade no ciclo único do capital existem três modos de existência deste que foram explicitados por Marx, segundo Alves. Ou seja, o capital que produz valor e mais-valia (capital invertido na indústria em sentido lato); o capital-mercadoria, isto é, o capital comercial (atualmente, a grande distribuição concentrada); o capital-dinheiro que se valoriza por meio de empréstimos e aplicações.

Esses três modos de existência do capital podem ser apreendidos não como momentos de um ciclo único, condicionados à lógica de valorização do capital produtivo, mas sobretudo, segundo Marx, enquanto  elementos de uma totalidade, ou seja, enquanto diferenciações dentro de uma unidade.

Segundo Alves, a diferença de enfoque entre Chesnais e Michalet a respeito do capital como unidade diferenciada auxilia a compreensão do conceito de “mundialização do capital” (Charles Albert Michalet, com sua obra “O Capitalismo Mundial”, de 1976, foi um dos economista marxistas franceses que mais influenciou Chesnais).

Chesnais afirma que Michalet acreditava que os três ciclos orbitavam ao redor do ciclo do capital produtivo, que constituiria o núcleo central da mundialização do capital. Segundo Michalet, a internacionalização do ciclo do capital, percebido enquanto ciclo único, comporia os ciclos do capital mercantil e capital monetário “como momentos subordinados da ascenção do capital produtivo”. O mérito de Michalet, segundo Chesnais, teria sido o de conceber a internacionalização do capital nos seus três aspectos mais significativos: “o intercâmbio comercial, os investimentos produtivos no exterior e os fluxos de capital monetário, ou capital financeiro”. Sendo que a transformação da economia internacional em economia mundial sucede quando o capital produtivo apresenta-se como elemento integrante da mundialização do capital.

Partindo da dinâmica do capital produtivo é que se deve analisar as relações mútuas estabelecidas entre os três tipos fundamentais de internacionalização. A dinâmica do capital produtivo comanda a criação de valor e riqueza. A produção e circulação (ou produção e comercialização) manifestam-se imbricadas e, assim, em decorrência, a produção e o comércio exterior. A análise torna-se mais clara quando se diferencia a esfera da produção da esfera da circulação, e quando é ressaltado entre elas uma “hierarquia epistemológica isenta de ambigüidades.”

Sob outro ângulo, ao estudar o poderio cada vez mais forte do capital financeiro, Chesnais defende a concepção de um declínio de um ciclo unificado de valorização sob a hegemonia do capital industrial. Chesnais abraça uma outra abordagem contida no pensamento de Michalet. Isto é, além do modelo da internacionalização do ciclo do capital, concebido como único, fazendo parte dos ciclos de capital mercantil e capital monetário como momentos subordinados no seio da preponderância do capital produtivo, existiria um outro modelo: a internacionalização de cada um dos três ciclos, analisados isoladamente, e cada um deles apresentando características próprias. Chesnais enfatiza a independência do capital mercantil e do capital monetário, que se fortalecem de forma autônoma diante do capital industrial. Restando a este nenhuma alternativa: ou intensifica a interconexão com o capital monetário, ou curva-se à lógica deste.

Deste modo, a hegemonia do capital industrial no bojo do ciclo unificado de valorização, de acordo com Chesnais, é contestada pelo capital comercial, bem como, e principalmente, pelo capital financeiro (segundo Alves, Chesnais, em seu livro de 1994, “a mundialização do capital”, a preponderância do capital financeiro ainda não está claramente exposta, considerando o modo de exposição daquela obra).

Ou seja, o capital comercial, em suas modalidades de maior concentração, incorporou um grande poder de se posicionar como rival direto do capital industrial, tanto pela apropriação de tarefas que eram de responsabilidade deste último, quanto pela aquisição de parcelas da mais-valia, por meio do controle eficaz a jusante da cadeia de valorização, ou seja, o acesso ao mercado. No que se refere ao capital dinheiro, é mais evidente o fato. Ocorre o advento de uma situação na qual é a dinâmica específica desta fração do capital que demarca a totalidade das operações capitalistas atuais. Desta maneira, acontece o fortalecimento da autonomia do capital-dinheiro diante o capital industrial, sendo que as fronteiras entre ambos são determinadas exclusivamente pela viabilidade e pelos prazos próprios de “um regime de acumulação rentista”.

Alem disso, o regime de acumulação mundializado não se caracteriza apenas pelo lugar ocupado pelas grandes indústrias, mas sobretudo pela posição das gigantescas instituições financeiras bancárias, e também não-bancárias. As empresas capitalistas de ponta tornam a ser, semelhante ao período entre as duas guerras, aquelas que manifestam uma opção preferencial pela liquidez na valorização de seus capitais. Isto é, que promovem a valorização dos seus capitais mantendo a sua forma de capital-dinheiro.

Chesnais emprega o termo “capital financeiro” com acepção diversa daquela utilizada por Hilferding, na sua obra “capital financeiro”, de 1910 (Rudolf Hilferding, economista social-democrata do início do século XX, tornou-se célebre ao pesquisar a interconexão entre os bancos e a indústria. Chesnais se apropria e amplifica com novas significações o conceito de “capital financeiro” (segundo Alves, a única forma de capital que não foi objeto de estudo de Marx, apesar da suas importantes observações sobre o “capital-dinheiro” e o “capital-monetário”).

A modalidade de capital financeiro predominante sob a mundialização do capital não se resume na integração entre o capital de financiamento, de posse dos bancos, com o capital industrial, das empresas transnacionais. Sendo que as instituições financeiras que centralizam volumes significativos de capital-dinheiro, e que expandiram quantitativa e qualitativamente, desde a década de 1980 são relacionadas a seguir: grandes fundos de pensão por capitalização e fundos de aposentadoria de origem anglo-saxõnica e japonesa; os grandes fundos de aplicação coletiva privados e de gestão de carteiras de títulos (os Fundos Mútuos de Investimento); os grupos de seguros, principalmente os invertidos na "indústria" de pensões privadas e de aposentadorias complementares; os gigantescos bancos multinacionais, mesmo que tenham perdido status no ranking  mundial do capital.

O que caracteriza particularmente a mundialização do capital é a hegemonia do capital financeiro como elemento autônomo frente ao capital industrial. As instituições financeiras não-bancárias citadas anteriormente controlam quantidades extraordinárias de capital-dinheiro, que em comparação com a performance dos grandes bancos, parecem pequenas. Estes novos agentes financeiros com características novas (inexistentes na época de Hilferding), são os que mais se beneficiam com a mundialização financeira. Estas instituições financeiras não perderam o interesse na indústria. Uma parcela considerável de seus imensos ativos financeiros realiza-se em pacotes de ações. Estes são relativamente importantes para comandar a política econômica e as opções de investimentos dos grupos industriais relacionados.

É a chamada “corporate governance”, ou seja, o também denominado “governo dos acionistas”. Estas instituições financeiras não-bancárias são as que na maioria das vezes direcionam as decisões de investimento e as características da exploração da massa assalariada. Os grandes agentes financeiros das instituições financeiras não-bancárias (Fundos Mútuos de Investimento e Fundos de Pensões, por exemplo) são proprietários, representando uma parcela não desprezível no bojo de seus ativos financeiros, de pacotes de ações de indústrias. Deste modo determinam as estratégias de investimentos e as modalidades de exploração salarial. A chamada re-engenharia industrial, cujo instrumento de trabalho é a “corporate governance”, assume, por exemplo, uma importância decisiva na modificação qualitativa da relação salarial.

Constata-se que a modificação de qualidade das relações entre as partes diferenciadas da “totalidade sistêmica”, que é o capital, provoca transformações na própria constituição destas partes. O capital financeiro aparece como parcela do capital que acaba por influenciar sobremaneira o capital industrial e comercial, ou seja, o universo das operações do capitalismo atual.

Quanto a natureza do capital financeiro, primeiramente é bom destacar que este sobrevive das operações realizadas na esfera financeira, caracterizada por Marx como sendo a qual “temos D-D’, dinheiro produzindo dinheiro, um valor se valorizando, sem nenhum processo (de produção) que sirva de mediação aos dois extremos" (Marx apud Alves, 2002). Nota-se, assim, uma abreviação do ciclo capital-dinheiro ou do capital fictício. Partindo da dinâmica e expansão do capital financeiro aparece e se desenvolve uma fração da burguesia com características fundamentalmente rentistas, na acepção econômica do termo, segundo a qual os ganhos desfrutados são provenientes de transferências oriundos da esfera da produção e troca. Os ganhos rentistas podem ser considerados como ganhos “secundários”, isto é, acontecem como “punção” ou como dedução das categorias centrais de rendimentos (lucro, salário e os rendimentos das camadas “independentes” criadoras de valor, tais como pequenos agricultores e artesãos).

Os mecanismos que possibilitam esta “punção” do capital financeiro sobre o montante da riqueza gerada, ou seja, os mecanismos que viabilizam esta transferência de riqueza do setor produtivo para o mercado financeiro, comandado por frações burguesas rentistas e parasitárias são os seguintes: os títulos da dívida pública; o capital-dinheiro de empréstimo; e as ações.

Os títulos da dívida pública são o alicerce dos mercados financeiros da atualidade. Chesnais citando Marx, afirma que "a acumulação do capital da dívida pública não significa outra coisa, a não ser o desenvolvimento de uma classe de credores do Estado, que são autorizados a recolher para eles certas somas do montante dos impostos”. (Chesnais apud Alves, 1999, par.64).

O capital-dinheiro de empréstimo é aquele que se encontra ao dispor de empresas o qual ocorre como dedução do lucro. Apesar do juro ser apenas uma parte do lucro, ou seja, da mais-valia que o capitalista subtrai ao operário, o juro manifesta-se no momento em que o tamanho dos mercados onde se realizam as obrigações privadas e créditos bancários vão além de certo patamar, acontecendo uma inversão de qualidade, como obra específica do capital, enquanto a coisa primeira; nesta situação, o lucro, inversamente, que assume a forma de lucro da empresa, surge como mero apêndice e complemento que se agrega no decorrer do processo de reprodução. A forma fetichista e a representação fetichista do capital alcançam seu esplendor. A expansão da esfera financeira, com a explosão financeira durante a década de 1980, e as oscilações da década de 1990, propicia um extraordinário crescimento do fetichismo, intrínseco às relações mercantis, mas que ganha relevo alimentado pela importância que os mercados financeiros assumiram na atualidade.

As ações são títulos de propriedade que garantem direitos sobre uma parcela da mais-valia, possibilitando ao seu detentor uma apropriação na forma de dividendos. A ocorrência de múltiplos mercados de títulos industriais (as Bolsas de Valores), possibilitam a compra e venda de títulos a qualquer hora dependendo apenas da sua rentabilidade.

Em relação às origens da financeirização, pode-se dizer que sucedeu uma recomposição crescente de um volume de capitais que buscou valorização na forma financeira tanto como capital-dinheiro de empréstimo, quanto capital para investimento em ações nas Bolsas de Valores devido a alguns fatores.

Em termos estruturais pode-se enfatizar o baixo rendimento dos investimos na indústria, devido aos dilemas do regime de acumulação fordista que direcionou cada vez mais uma grande quantidade de capitais a buscar valorizar-se na forma financeira. Na metade da década de 1960, anteriormente aos choques do petróleo e da recessão dos anos de 1974 e 1975, o mercado de eurodólares ganhava expressão, estimulados pelos lucros não-repatriados, além daqueles não investidos na produção, depositados pelas empresas transnacionais americanas.

Acrescente-se às determinações estruturais provenientes da crise de superprodução capitalista, da perda de lucratividade industrial a partir da metade dos anos de 1960, um elemento político que de maneira crescente, provocou a ascensão do capital financeiro. As transferências que ocorreram a partir do serviço da dívida externa dos países subdesenvolvidos durante a metade da década de 1970 possibilitaram ao FMI e ao Banco Mundial, por exemplo, pressionarem em favor de uma política monetária em benefício dos credores e direcionada para uma liberalização e uma desregulamentação financeiras progressivas. O seu marco sócio-histórico deu-se na “Revolução Conservadora” de Thatcher, no Reino Unido, e Reagan, nos EUA, que contribuiu de maneira decisiva para alavancar a mundialização da capital enquanto um novo regime de acumulação global com hegemonia do capital financeiro.

Entretanto, antes mesmo da chegada ao poder dos governos conservadores nos EUA e Grã-Bretanha, a guinada monetarista, ocorrida no FED, sob a direção de Paul Volcker prenunciaram, de certa maneira, a “Revolução Conservadora”: Chesnais apud Alves, afirma que desse período data a instauração de taxas de juros positivas, acompanhadas transitoriamente por uma taxa de câmbio do dólar muito forte, indispensável à instalação da "mercadorização" ou da "titularização" dos títulos da dívida pública do governo federal, mas também dos estados da Federação e dos municípios”. (ALVES, 1999, par.70).

De qualquer modo, na hora da virada monetarista do FED, os fundos de pensão privados, segundo Chesnais,  que constituem os agentes mais expressivos do regime de finanças do mercado mundializado, iriam além de um patamar no crescimento do volume da poupança que centralizavam, procurando inéditas situações de aplicação financeira que tornassem possíveis a valorização do dinheiro concentrado.

A “titularização” da dívida pública dos governos capitalistas, que procuravam alternativas para financiar seus déficits públicos sem grandes problemas políticos, produziram novos e rentáveis momentos de aplicação dos fundos de pensão privados. Sendo que a explosão da dívida pública dos países da OCDE  não teria ocorrido sem a “mercantilização” ou a “titularização” dos bônus do Tesouro e sua posse pelos investidores, tanto nacionais quanto estrangeiros, como parcela de sua carteira de ativos.

Na metade do anos de 1980 verifica-se uma expansão das instituições financeiras ancorada na transferência para elas de uma parcela importante da renda nacional da quase  totalidade dos países da OCDE (cerca de 20 a 25% dos gastos do orçamentos e cerca de 3 a 5% do PIB segundo cada país).

Numa perspectiva metodológica, o novo período do capitalismo global, a mundialização do capital, deve ser analisada tendo em vista a nova posição do capital financeiro. Mas a preeminência metodológica do capital financeiro no estudo da mundialização do capital não prescinde de considerar a importância fundadora e essencial do capital industrial no desenvolvimento da acumulação capitalista. Em primeiro lugar, devido ao volume de capital-dinheiro que obtêm valorização no âmbito do setor financeiro ter ocorrido em decorrência dos lucros não-reinvestidos oriundos dos êxitos da acumulação da indústria sob o fordismo. E também em conseqüência da acumulação de riqueza no setor industrial que a saturação dos mercados ganha relevância, considerando as características da distribuição de renda no âmbito nacional e internacional, engendrando assim, um estado permanente de superprodução. Desta forma, o volume de capital-dinheiro valorizando-se no interior do setor financeiro advém dos êxitos e fracassos do capital produtivo.

A interconexão das indústrias (o chamado “corporate governance”) com o capital financeiro, nas suas mudanças de organização e operação de valorização do capital, modificou a atuação do capital industrial sob a mundialização do capital.

Deste modo, a grande indústria buscou a valorização do capital no setor das finanças, seja para se contrapor aos procedimentos dos grandes operadores, ou para obter lucros fáceis provenientes das finanças. Posteriormente, no plano organizacional, as corporações capitalistas que atuam no âmbito transnacional, mesmo que sejam chamadas de “empresas” ou “firmas”, na verdade, são “grupos financeiros com características predominantemente industriais”, que se diferenciam progressivamente pelas características seguintes: tamanho; atuação global; formas de organização; poderio financeiro, isto é, pela conquista privilegiada do acesso pleno aos mercados financeiros, seja para nele impor suas determinações sem intermediação, ou para desempenharem o papel de investidores financeiros. O cérebro dos grupos industriais é a chamada sociedade holding. Ou seja, estas “multinacionais de novo estilo”  referem-se a um universo mais amplo de atividades conexas, mas gerenciadas com menor formalidade, cujo objetivo principal seria a de possibilitar o desenvolvimento das estratégias de concorrência globais e das posições do “núcleo” (core organization) no interior da corporação. Esta não atinge suas metas somente por meio do gerenciamento de sua produção interna e de suas transações de forma mais eficaz, ou mesmo pelas suas estratégias tecnológicas de produção e comercialização, mas, sobretudo “pelas naturezas e pela forma das relações estabelecidas com as demais empresas”. Essa mutação na organização das corporações constata a interdependência entre as finanças concentradas e a grande indústria e comprova a evolução de qualidade do grau de financeirização dos grupos que assumem tal forma. A holding possibilita o ingresso dos grandes grupos nas finanças globalizadas. Comprova-se, assim, a relevância no interior do capital produtivo, do poderio do capital rentista. Os grupos industriais tornaram-se de forma crescente grupos financeiros, com características industriais, mas com inserções diversas nos serviços financeiros, destacando-se como operadores nos mercados de trocas. Surgem as “empresas-rede” onde impera a confusão dos limites entre o “lucro” e a “renda” na criação do lucro de exploração dos grupos. A nova modalidade de organização, ou seja, as “empresas-rede”, é apropriado tanto para a proliferação das participações minoritárias quanto para a expansão dos acordos de subcontratação e de cooperação inter-empresas com parcerias de poder industrial diferenciado. Tendo isto em vista, é que Chesnais apud Alves, enfatiza o crescimento das características rentistas dos grupos industriais. Para se apreender o ingresso da lógica da financeirização no setor de capital industrial cumpre sublinhar e esclarecer a diferenciação entre o que pertence à esfera da criação da riqueza e formação de excedente no interior de uma empresa e o que é próprio da esfera da apropriação de valores já criados, de uma “punção” na atividade produtiva e no excedente de uma outra empresa e à intromissão da cadeia de valor desta. A partir da subcontratação industrial, que um determinado tipo de empresa, em decorrência de seu tamanho e de seu poderio de mercado, pode “apropriar-se do excedente criado coletivamente no seio de um conjunto de empresas trabalhando em rede”. Assim, chegamos ao fim da exposição do que seria a mundialização do capital, entendida como um novo regime de acumulação com a predominância da esfera financeira.

 

 

 2.2.6.  A GLOBALIZAÇÃO COMO PROCESSO CIVILIZATÓRIO

Nesta abordagem crítica e radical da globalização, elaborada por Giovanni Alves, este fenômeno contraditório e complexo apresenta-se como uma ideologia que expressa a mundialização do capital, e, simultaneamente constitui-se como um processo civilizatório. Isto é, um produto da história humana, na qual a humanidade, muitas vezes de forma alienada, inventa as possibilidades reais de criação de um novo homem com poder de realizar o ser genérico da espécie.

 

A globalização possibilita tanto o crescimento da alienação universal, da desigualdade e da exclusão sociais, inerentes à lógica sócio-histórica do capital, quanto o vislumbre de possibilidades reais, para além do capital, rumo a realização dos sonhos de emancipação de todos os homens.

 

Na medida em que o capital é contraditório o seu desdobrar sócio-histórico manifesta-se igualmente constituído pela contradição. Isto é, a globalização não pode ser restringida a uma ideologia, ou mesmo a mundialização do capital em seus múltiplos aspectos, seja a mundialização produtiva, comercial e financeira. A globalização revela-se também como “processo civilizatório humano-genérico”, no qual a humanidade torna-se humana na mesma proporção em que também se distancia de sua possibilidade “humano-genérica”, ou seja, refere-se à alienação capitalista inerente ao processo de mundialização do capital.

Na sua faceta ideológica, a globalização apresenta-se como um arcabouço de concepções e práticas políticas tais como o globalismo, o globalitarismo e o neoliberalismo, por exemplo, que mistificam e obscurecem o movimento do capital enquanto “instauração/conservação/extensão/intensificação da desigualdade, exploração e exclusão sócio-histórica”. (ALVES, 2000, par.5). Sendo que esta ideologia materializou-se no interior da mundialização do capital, desde a metade da década de 1979. A ideologia e a política correspondentes à globalização constituem a globalização exatamente como ela é. Como “processo civilizatório humano-genérico”, a globalização manifesta-se como possibilidade para o desenvolvimento da “integração/desintegração, objetivação/subjetivação do gênero humano ‘em-si’ e ‘para-si’”. Sob este ponto de vista, a globalização apresenta-se enquanto civilização com características de cotidiano, de existências, de padrões de consumo e de mentalidades específicos.

 

Quando se fala em “processo civilizatório capitalista”, isto quer dizer um movimento contraditório na medida em que “cria/recria o gênero humano “em-si”, ameaça a própria sobrevivência do gênero humano através da instauração de condições objetivas/subjetivas capazes de desintegra-lo/fragmenta-lo em particularismo étnico-regionais, culturais e e individuais diversos, que negam os próprios avanços do processo civilizatório”. (ALVES, 2000, par.9).

 

Neste sentido, o exacerbado individualismo contemporâneo constitui o aviltamento da individualidade inaugurada pelo próprio processo civilizatório, da qual a modernização é peça chave. O advento da noção de  indivíduo é fruto do desenvolvimento do processo civilizatório provocado pela modernização burguesa no século XVIII. Entretanto, na mesma proporção que inventam o indivíduo social, as relações sociais burguesas o rebaixam e dificultam o seu pleno  florecimento humano-genérico. Trata-se do absurdo da individualidade subjugada pelas leis do mercado, tema de debates de diversos estudiosos e escritores dos tempos modernos. É o paradoxo do indivíduo desprovido de individualidade e com o seu imaginário reprimido e obstaculizado pelo civilização burguesa.

 

Vale lembrar o caso da Ciência e da Tecnologia, por exemplo, que ao proporcionarem a supremacia do homem sobre as forças naturais, provocaram, inversamente, a expansão das forças de destruição do meio ambiente natural e humano, intensificando a crise ecológica e a espoliação/marginalização do trabalho vivo, ou seja, o desemprego, o controle repressivo da força de trabalho e o aumento da exploração econômica.

 

Outro exemplo da natureza contraditória do desenvolvimento do capitalismo intensificado pela mundialização capital é a globalização “partida”, que impõe ao planeta apenas uma alternativa: o avanço da modernização sob as ordens do capital. A decantada globalização consolida um abismo no mundo, numa das bordas os países capitalistas centrais, e nas outra, todos os países, regiões e continentes marginalizados do circuito mundial do capital. Trata-se de um retrocesso sócio-histórico dos resultados do processo civilizatório. O mundo feito à imagem e semelhança da globalização do capital mostra sua face excludente, seletiva e plena de desigualdade. Esta globalização como “processo civilizatório humano-genérico” amplia os horizontes do indivíduo humano-social, e simultaneamente intensifica o individualismo, e obscurece e degrada a individualidade e o imaginário humano-genérico; provoca o afastamento das fronteiras naturais, na proporção em que o espaço e o tempo são revolucionados pelo desenvolvimento das forças produtivas, dos meios de comunicação e transportes, e simultaneamente, destrói a biodiversidade a serviço do lucro, acirra os particularismos,  os separatismos, se apropria do espaço público onde seria possível o florecer de um pensamento humano-genérico das individualidades contemporâneas. 

 

Para se construir uma “outra globalização” é necessário novos instrumentos de luta que sejam globais no plano político e cultural. No entanto, a luta global não pode prescindir das formas organizativas e dos movimentos seja em escala local, regional e nacional. Somente iniciativas “glocais” poderiam conectar a organização, resistência e combate em duas arenas: a global e a local. Cumpre realizar o projeto de uma frente política de associações e movimentos locais-regionais-nacionais com projeção mundial. A realização da globalização como “processo civilizatório humano-genérico” exige a consolidação destes ativismos e instituições “glocais” que acabam por assumir tarefas que ultrapassam as fronteiras nacionais e regionais. Urge dar um novo significado à política e ao espaço público extendendo os seus limites do regional ao transnacional. No entanto, é preciso também dar um salto de qualidade no conteúdo político deste enfrentamento. Ou seja:

 

“Muitas de tais associações globais, criadas no bojo da ‘globalização em-si’, com o avanço da consciência humano-genérica, dos espectros dos indivíduos históricos-mundiais, tendem a não compreender a ‘necessidade radical de atingir a lógica destrutiva do sistema orgânico do capital’, permanecendo, apesar de sua abrangência (e do discurso) global, imersos no particularismo corporativista (pode-se, portanto, ser plenamente ‘corporativismo’, apesar de ser ‘global’)”.(ALVES, 2002, 125).

 

 

O fortalecimento da associação e do pensamento no âmbito mundial instaura a discussão em prol de uma cidadania global. Em decorrência, necessita-se que o próprio conceito seja repensado, tendo em vista a mundialização do capital que alavancou os problemas referentes à cidadania para uma escala transnacional.

Esta cidadania global deve ser vista principalmente como uma articulação combativa por uma  rede de direitos”, e não apenas como “realidade sócio-histórica concreta no interior do sistema orgânico do capital”, considerando que nesta globalização capitalista é ilusória a materialização do sonho de uma cidadania global.

 

Alves compreende a globalização “em-si” como a ideologia e mundialização do capital, onde a humanidade limita-se a ser apêndice dos movimentos próprios deste, nas esferas de produção e reprodução do valor abstrato, ou seja, o dinheiro. É a globalização como algo externo que se sobrepuja a todos e se agiganta como segunda natureza, onde se tornam imperceptíveis a política e a ideologia originárias das lutas de classes. No entanto, mesmo sendo um processo “em-si”, anuncia a possibilidade real de ser um processo “para-si”, “um processo civilizatório humano-genérico”, estimulado inclusive pela estrutura material e técnica desenvolvida pelo capital. O extraordinário desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte é o suporte sócio-histórico contraditório da globalização “para-si”. Esta sendo a tradução da solidariedade, das lutas, do pensamento e do nascimento de uma nova individualidade histórico-mundial, apesar de apresentar-se em um figurino corporativo-particularista. (ALVES, 2000, par.7).

 

 

 



[1] Douglas Santos, em sua interessante tese de doutorado,  traça a evolução da concepção de espaço dos tempos modernos até os dias atuais.

[2] “Fronteras, dominio del estado, expansión, proclamación del estado por encima de las clases sociales, estados dotados y estados débiles, estabilidad de la instituición política... ¿Podrá alguien poner em duda que eran éstas precisamente las ideas que preocupaban, cuando Ratzel escribia, a la burguesia industrial alemana, em el momento en que Alemania se ha reunificado, ha alcanzado unos límites en los que se enfrenta a otros poderosos vecinos y en que se lanza a la expansión colonial extraeuropea, reconocida por el Congreso de Berlín? ¿Quedará alguna duda de la relación entre las ideas científicas y la organización social? ¿Se podrá negar que a veces los científicos bajo um planteamiento que pretende se objetivo no hacen más que contribuir a la justificación idelológica de los intereses de la clase dominante planteando precisamente los problemas que a ésta interesan y de la forma como le interesa?”

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