MICROSCOPIA DE BULBO

MICROSCOPIA DE BULBO

 

 INTRODUÇÃO

 

O bulbo, também chamado medula oblonga ou ainda bulbo caudal, é a parte menor e mais caudal do tronco encefálico.

 Existem muitas diferenças entre a estrutura interna do bulbo e a estrutura interna da medula espinhal, embora alguns autores como Ângelo Machado e Martin considerem ambos pertencentes ao Sistema Nervoso Segmentar. Na transição da medula espinhal para o bulbo, a distribuição da substância cinzenta e branca passa por considerável rearranjo. Isto ocorre devido a inúmeros fatores, como a decussação das pirâmides, o aparecimento de núcleos próprios do bulbo, a decussação dos lemniscos e a abertura do IV ventrículo.

 Para compreendermos a função, importância e localização de cada uma dessas estruturas, bem como de tantas outras que compõem essa porção inicial do tronco encefálico, propomos um estudo que divide o bulbo raquidiano em três porções, partindo de seu limite caudal com a medula e seguindo em direção rostral. Assim temos o bulbo caudal, o bulbo médio e o bulbo rostral. Cortes transversais feitos nestas três porções evidenciam as estruturas mais importantes a serem estudadas. (figuras 7, 9 e 11)

  

BULBO CAUDAL (figuras 7 e 8)

 

A organização da porção caudal do bulbo é muito semelhante à da medula. A região que corresponde à coluna anterior da medula, torna-se mais atenuada. A coluna posterior é substituída pela parte mais caudal do núcleo sensorial do trigêmeo (núcleo do tracto espinhal do nervo trigêmeo). Chegam a este núcleo fibras aferentes somáticas gerais que trazem a sensibilidade geral (temperatura, dor, pressão, tato e propriocepção) de quase toda a cabeça pelos nervos trigêmeo (V par), facial (VII par), glossofaríngeo (IX par) e vago (X par). É bom ressaltar que as fibras que aí chegam através dos nervos encefálicos VII, IX e X trazem apenas a sensibilidade geral do pavilhão auditivo e conduto auditivo externo. Na região posterior, observamos ainda os fascículos grácil e cuneiforme e a porção inicial dos núcleos desses fascículos. É interessante lembrar que ambos (os fascículos grácil e o cuneiforme) conduzem impulsos relacionados com a propriocepção consciente, tato epicrítico, sensibilidade vibratória e estereognosia; o grácil conduz impulsos provenientes dos membros inferiores e da metade inferior do tronco e o cuneiforme, dos membros superiores e da metade superior do tronco. Eles são compostos de fibras cujos corpos neuronais encontram-se nos gânglios sensitivos da raiz dorsal da medula e que ascendem ipsilateralmente pelo cordão posterior da medula para fazer sinapse nos núcleos grácil e cuneiforme com neurônios sensitivos de segunda ordem.

Na região anterolateral verificamos o tracto espino-cerebelar anterior (que conduz impulsos relacionados com a propriocepção inconsciente e com os níveis de atividade do tracto córtico-espinhal) e o tracto espino-cerebelar posterior (que conduz impulsos apenas relacionados com a propriocepção inconsciente). Ambos penetram no cerebelo pelo pedúnculo cerebelar inferior, que utiliza essas informações para o da motricidade somática.

No bulbo ventral, a maioria das fibras das pirâmides decussam e ,em seguida, cursam lateral, dorsal e caudalmente para formar o tracto córtico-espinhal lateral. O tracto córtico-espinhal ou tracto piramidal é constituído por fibras originadas em diversas áreas do córtex cerebral (principalmente das áreas motoras) que passam no bulbo em trânsito para fazer sinapses com os neurônios motores inferiores da coluna anterior da medula. Cerca de 15 % (segundo Burt) ou 10 a 25% das fibras (segundo Ângelo Machado) deste tracto não decussa, continuando pelo funículo ventral da medula como tracto córtico-espinhal ventral. Duas outras vias motoras descendentes, originadas no mesencéfalo, passam pelo bulbo: os tractos rubro-espinhal e tecto-espinhal. Estes dois, juntamente com os tractos vestíbulo-espinhal e retículo-espinhal constituem as vias extra-piramidais. Além disso, há as fibras córtico-nucleares que descem pelo tronco encefálico na companhia do córtico-espinhal, mas que "se soltam" dele para inervar os núcleos motores dos nervos encefálicos. No caso do bulbo, essas fibras terminam nos núcleos ambíguo e do hipoglosso.

 

BULBO MÉDIO (figuras 9 e 10)

 

Na superfície ventral, as pirâmides bulbares são bastante proeminentes, acima de sua decussação. Na superfície dorsal, as colunas posteriores atingem seu término nos núcleos grácil e cuneiforme que aparecem imediatamente abaixo de seus tractos respectivos. Neste nível, os axônios dos neurônios sensitivos de segunda ordem que compõem estes núcleos, cursam ventral e medialmente, formando as fibras arqueadas internas, decussando na linha média. Em seguida, voltam-se em direção rostral, formando um tracto distinto, o lemnisco medial, que segue pelo bulbo rostral, pela ponte e pelo mesencéfalo, para terminar no núcleo ventral posterior do tálamo. No bulbo, os lemniscos mediais são vistos como um par de tractos de fibras densamente mielinizadas, com orientação vertical, situadas adjacentes à linha média, entre os núcleos olivares inferiores, bastante proeminentes.

 

BULBO ROSTRAL (figuras 11, 12 e13)

 

Na face ventral do bulbo, as pirâmides permanecem conspícuas: Imediatamente dorsal à face medial da pirâmide, fica o lemnisco medial, em cada lado da linha média. Dorsolateral ao lemnisco medial, fica o núcleo olivar inferior, uma grande massa de substância cinzenta, situada no interior da proeminência da oliva. Este núcleo aparece em cortes como uma lâmina de substância cinzenta bastante pregueada e encurvada sobre si mesma com uma abertura principal dirigida medialmente, por onde passam fibras aferentes e eferentes. O núcleo olivar inferior recebe fibras dos córtices motor e sensorial dos hemisférios cerebrais, da medula e do núcleo rubro. Sua principal conexão eferente é com o cerebelo, através das fibras olivo-cerebelares, que cruzam o plano mediano, penetram no cerebelo pelo pedúnculo cerebelar inferior distribuindo-se a todo o córtex desse órgão. Admite-se hoje que este núcleo esteja relacionado com o controle da motricidade somática e a aprendizagem motora. Posteriormente ao núcleo olivar inferior e lateralmente ao lemnisco medial, cursam as fibras sensoriais de segunda ordem, que ascendem para o tálamo, a partir do núcleo do trigêmeo (tracto trigêmico-talâmico) e da medula espinhal (fibras espino-talâmicas, chamadas em seu trajeto pelo tronco encefálico de lemnisco espinhal).

A face dorsal do bulbo rostral faz parte do assoalho do IV ventrículo. Imediatamente abaixo do assoalho ventricular, lateral à linha média, fica o núcleo do hipoglosso (no triângulo do hipoglosso), onde existem neurônios motores que inervam os músculos da língua por meio do nervo hipoglosso (XII par). Lateral ao núcleo do hipoglosso, fica o núcleo dorsal motor do vago, que contém os neurônios pré-ganglionares parassimpáticos, cujos axônios cursam pelo nervo vago (X par). Corresponde à coluna lateral da medula e situa-se no triângulo do vago. A parte mais caudal do assoalho ventricular é chamada de área postrema. Nessa região, a barreira hematoencefálica que restringe a passagem de diversas substâncias do sangue para o encéfalo, está ausente. Essa área é o sítio central da ação de substâncias que provocam o vômito (centro do vômito). Na parte lateral do assoalho do IV ventrículo, ficam localizados os núcleos vestibulares (medial e inferior), que recebem fibras aferentes primárias do nervo vestibular e que será melhor estudado oportunamente. Dorsalmente aos núcleos vestibulares, encontra-se o núcleo do tracto solitário, núcleo sensitivo que recebe fibras dos nervos encefálicos VII, IX e X. Além de sensibilidade geral, o núcleo do tracto solitário relaciona-se com a sensibilidade gustativa. Ventromedial ao núcleo do hipoglosso, próximo à linha média passa o fascículo longitudinal medial, formado por fibras ascendentes e descendentes (fibras de associação que ligam os núcleos motores do tronco encefálico).

A parte dorsolateral do bulbo rostral é dominada pelo pedúnculo cerebelar inferior ou corpo restiforme. Ele é formado por fibras que cursam entre o bulbo e o cerebelo. Destacam-se entre essas fibras, as olivo-cerebelares, as conexões entre os núcleos vestibulares e o cerebelo e as fibras do tracto espino-cerebelar dorsal.

Profundamente abaixo do assoalho ventricular, dorsal ao núcleo olivar inferior, fica o núcleo ambíguo, que é um núcleo motor para a musculatura estriada de origem branquiomérica (derivada dos arcos branquiais ver embriologia). Esse núcleo emite fibras motoras para os nervos glossofaríngeo, vago e acessório e, daí, para os músculos da faringe e da laringe.

 

CORRELAÇÕES ANATOMOCLÍNICAS

 

à LESÕES DO BULBO CAUDAL

 

Em geral, comprometem a pirâmide e o nervo hipoglosso. A lesão da pirâmide causa hemiparesia do lado oposto ao lesado. Se a lesão se estender dorsalmente e atingir os demais tractos motores, o quadro é a hemiplegia. A lesão do hipoglosso causa paralisia dos músculos da metade da língua situada do lado lesado, com sinais de síndrome do neurônio motor inferior (hipotrofia dos músculos). Quando o doente faz a protusão da língua, a musculatura do lado normal desvia a língua para o lado lesado.

 

à SÍNDROME DA ARTÉRIA CEREBELAR INFERIOR POSTERIOR (SÍNDROME DE WALLEMBERG

 

Essa artéria, que é ramo da vertebral, irriga a parte dorsolateral do bulbo. Lesões desta região geralmente decorrem de trombose da artéria o que compromete várias estruturas:

  1. lesão do pedúnculo cerebelar inferior incoordenação de movimentos na metade do corpo situada do lado lesado;
  2. lesão do tracto espinhal do trigêmeo e seu núcleo perda da sensibilidade térmica e dolorosa na metade da face situada do lado da lesão;
  3. lesão do tracto espino-talâmico lateral perda da sensibilidade térmica e dolorosa da metade do corpo situada do lado oposto da lesão;
  4. lesão do núcleo ambíguo perturbações da deglutição e da fonação por paralisia dos músculos da faringe e da laringe.
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