Educação Em

Educação em
Cinco Dimensões

Amado Bhagwan
Você pode, por favor, explicar sua visão de educação?

      A educação que prevaleceu no passado é totalmente insuficiente, incompleta, superficial. Ela somente produz pessoas capazes de ganhar a própria subsistência, mas ela não fornece qualquer "insight" no simples ato de viver. E não é somente incompleta, mas é também prejudicial porque é baseada na competição. Qualquer tipo de competição é, no fundo, violenta e cria pessoas desamorosas. Todo o esforço delas é alcançar nome, fama e todos os tipos de ambição. Obviamente elas têm que lutar e entrar em conflito para isso. Isso destrói sua alegria e sua amabilidade. Parece que todos estão lutando contra o mundo inteiro.

      A educação, até agora, esteve orientada para objetivos. O que você está aprendendo não é importante, o importante é o exame que virá depois de um ano ou depois de dois anos. Isso toma o futuro importante, mais importante que o presente. Isso sacrifica o presente pelo futuro. E isso se torna seu próprio estilo de vida; você sempre está sacrificando o momento por alguma coisa que não está no presente. Isso cria um tremendo vazio na vida.

      A comuna que eu visualizo terá uma educação com cinco dimensões. Antes de entrar nessas cinco dimensões, algumas coisas devem ser observadas. Uma: não deveria existir qualquer espécie de exame como parte da educação, e sim uma observação diária, hora a hora, por parte dos professores. Suas observações ao longo do ano decidirão se você passará adiante, ou se permanecerá um pouco mais na mesma classe. Ninguém repete, ninguém passa - apenas algumas pessoas são velozes e algumas pessoas são um pouco mais preguiçosas; porque a idéia de fracasso cria um profundo sentimento de inferioridade, e a idéia de ter sucesso também cria uma espécie diferente de doença, aquela da superioridade.

Ninguém é inferior e ninguém é superior.

Cada um é somente ele mesmo, incomparável.

      Por isso, exames não farão sentido. Isso mudará toda a perspectiva, do futuro para o presente. O que você está fazendo neste exato momento será decisivo e não cinco questões ao final de dois anos. As milhares de coisas que você enfrentará durante estes dois anos... cada uma delas será decisiva, assim a educação deixará de estar orientada para objetivos.

      O professor foi de imensa importância no passado, porque ele sabia, ele tinha passado em todos os exames; ele tinha acumulado conhecimento. Mas a situação mudou, e este é um dos problemas: situações mudam, mas nossas respostas permanecem as mesmas de antes. Atualmente a explosão de conhecimento é tão vasta, tão tremenda, tão veloz, que você não pode mais escrever um livro extenso sobre qualquer assunto científico, porque quando seu livro estiver completo, ele já estará ultrapassado; novos fatos, novas descobertas o terão tornado irrelevante. Desse modo, atualmente a ciência tem que depender de artigos, não de livros; de periódicos, não de livros.

      O professor foi educado há trinta anos. Em trinta anos tudo mudou, e ele continua repetindo o que lhe foi ensinado. Ele está ultrapassado e está tomando seus estudantes ultrapassados. Assim, em minha visão, o professor não tem mais lugar. Em lugar de professores haverá guias, e a diferença precisa ser entendida: o guia dirá a você onde, na biblioteca, achar as últimas informações sobre determinado assunto.

      E não se deveria ensinar da maneira antiga, porque a televisão pode fazer isso muito melhor, trazendo as últimas informações, sem nenhum problema. O professor tem que atrair seus ouvidos; a televisão atrai diretamente os seus olhos e o impacto é muitíssimo maior, porque os olhos absorvem oitenta por cento de suas situações de vida - eles são a parte mais viva em você. Se você pode ver uma coisa, não precisa memorizá-la; mas se você ouve uma coisa, você tem que memorizá-la.

      Quase noventa e oito por cento da educação pode ser transmitida através da televisão, e as perguntas que os estudantes fizerem podem ser respondidas por computadores. O professor deveria ser somente um guia para lhe mostrar o canal certo, para lhe mostrar como usar o computador, como achar o livro mais recente. Sua função será totalmente diferente. Ele não está transmitindo conhecimento a você, ele o está tornando ciente do conhecimento contemporâneo, do conhecimento mais recente. Ele é apenas um guia.

      Com essas considerações,, eu divido a educação em cinco dimensões. A primeira é informativa; como história, geografia, e muitos outros assuntos, que podem ser tratados pela televisão e computador, juntos.

      A segunda parte deveria ser constituída pelas ciências. Estas podem ser transmitidas pela televisão e pelo computador também, mas são mais complicadas e o guia humano será mais necessário.

      Nesta primeira dimensão, também vem a linguagem. Cada pessoa no mundo deveria conhecer, no mínimo, duas línguas; uma é a sua língua mãe e a outra é o inglês, como um veículo internacional de comunicação. Elas também podem ser ensinadas mais acuradamente através da televisão - a pronúncia, a gramática, tudo pode ser ensinado mais corretamente do que através de seres humanos.

      Nós podemos criar uma atmosfera de fraternidade no mundo: a linguagem conecta as pessoas e a linguagem também as desconecta. Atualmente não existe uma língua internacional. O inglês é a língua mais amplamente difundida, e as pessoas deveriam abandonar seus preconceitos e deveriam olhar para a realidade. Foram feitos muitos esforços para criar línguas capazes de evitar preconceitos - os espanhóis podem dizer que a sua língua deveria ser a língua internacional, porque ela é falada por mais pessoas do que qualquer outra língua. Para evitar estes preconceitos, línguas como o esperanto foram criadas. Mas nenhuma língua criada chegou a funcionar. Existem algumas coisas que crescem, que não podem ser criadas; uma língua é um crescimento de milhares de anos. O esperanto parece tão artificial, que todos aqueles esforços falharam.

      Mas duas línguas são absolutamente necessárias. Primeiro, a língua mãe, porque há sentimentos e nuanças que você só é capaz de dizer na sua língua mãe. Um dos meus professores, S. K. Saxena, um homem que viajou por todo o mundo, e foi professor de filosofia em muitos países, costumava dizer que numa língua estrangeira você pode fazer qualquer coisa, mas quando a questão é de briga ou de amor, você sente que não está sendo verdadeiro ou sincero com seus sentimentos. Assim, para os seus sentimentos e para a sua sinceridade, sua língua mãe... que você bebe com o leite materno, que se torna parte do seu sangue, ossos e medula. Mas isso não basta, isso cria pequenos grupos de pessoas e faz dos outros, estranhos. Uma língua internacional é absolutamente necessária como base fundamental para termos um só mundo, uma só humanidade. Assim, duas línguas deveriam ser absolutamente necessárias para todos. Isto virá na primeira dimensão.

      A segunda dimensão é a investigação de assuntos científicos, e é tremendamente importante, porque é metade da realidade, a realidade exterior.

      E a terceira dimensão será aquilo que está faltando na educação atual: a arte de viver. As pessoas simplesmente supõem que sabem o que é o amor. Elas não sabem: e quando elas realmente descobrem isso, é tarde demais. Toda criança deveria ser ajudada a transformar a sua raiva, seu ódio, seu ciúme, em amor.

      Uma parte importante da terceira dimensão também deveria ser um senso de humor. Nossa assim-chamada educação torna as pessoas tristes e sérias. E se um terço de sua vida é desperdiçado dentro de uma universidade sendo triste e sério, isto se torna arraigado, você esquece a linguagem da risada - e o homem que esqueceu a linguagem da risada, esqueceu muito da vida.

      Desse modo, amor, risada e uma familiaridade com a vida e suas maravilhas, seus mistérios... estes pássaros cantando nas árvores não deveriam ficar sem ser ouvidos. As árvores, as flores e as estrelas deveriam ter uma conecção com o seu coração. O nascer do sol e o pôr-do-sol não serão somente coisas exteriores, eles também devem ser alguma coisa interior.

      Uma reverência pela vida deveria ser a fundação da terceira dimensão. As pessoas são tão irreverentes com a vida! Elas ainda continuam matando animais para comer - elas chamam isto de esporte, e se o animal as come, elas chamam isso de calamidade. É estranho! Num esporte, a ambas as partes deveriam ser dadas iguais oportunidades, mas os animais não têm armas e você tem rifles ou flechas.

      Uma grande reverência pela vida deveria ser ensinada, porque a vida é Deus e não existe outro Deus a não ser a própria vida; e alegria, risada, um senso de humor ... em resumo, um espírito que dança.

      A quarta dimensão deveria ser a da arte e da criatividade: pintura, música, artesanato, cerâmica, alvenaria - qualquer coisa que seja criativa. Todas as áreas da criatividade deveriam ser permitidas; os estudantes podem escolher. Deveriam existir somente poucas coisas compulsórias - por exemplo, uma língua internacional, uma certa capacidade para ganhar o próprio sustento, uma certa arte criativa; todas seriam obrigatórias. Você pode escolher através de todo o arco-íris das artes criativas, porque a menos que um homem aprenda a criar, ele jamais se tornará parte da existência. que é constantemente criativa. Sendo criativa, a pessoa se toma divina; a criatividade é a única prece.

      E a quinta dimensão deveria ser a arte de morrer. Nesta quinta dimensão estarão todas as meditações, para que você possa saber que não existe morte, para que você possa se tornar consciente de uma vida eterna dentro de você. Isso deveria ser absolutamente essencial, porque todo mundo deve morrer. Ninguém pode evitar isso. E debaixo do amplo guarda-chuva da meditação, você pode ser introduzido ao zen, ao tao. à yoga, ao hassidismo, a todos os tipos e a todas as possibilidades que têm existido, mas que a educação tem ignorado. Nesta quinta dimensão você deveria também ser introduzido às artes marciais, como o aikidô, jiujitsu, judô. Sem armas, a arte da defesa pessoal - e não somente de defesa pessoal, mas simultaneamente, também uma meditação.

      A nova comuna terá uma educação completa, uma educação total. Tudo o que é essencial deveria ser compulsório, e tudo o que não é essencial deveria ser opcional. Cada um pode escolher entre os opcionais, que serão muitos. E uma vez que os básicos são preenchidos, então você deve conhecer algo que possa ser gozado, como música, dança, pintura; e você tem que saber algo que o ajude a ir para dentro, a conhecer a si mesmo. E tudo isso pode ser feito muito facilmente, sem qualquer dificuldade. Eu próprio fui professor, e me demiti da universidade através de um bilhete no qual dizia que isso não era educação, mas pura estupidez-, você não estava ensinando qualquer coisa significativa. Mas essa educação insignificante predomina em todo o mundo.

      Não importa onde, na União Soviética ou nos Estados Unidos. Ninguém tem procurado por uma educação mais completa, mais total. Neste sentido, quase todo mundo é ineducado, mesmo aqueles que têm grandes diplomas são ineducados nas áreas mais vastas da vida. Uns poucos são mais ineducados, uns outros são menos, mas achar um homem instruído é impossível. Porque a educação como um todo não existe em parte alguma.

The Golden Future 23
23 de maio de 1987

Do original: "The New Child"    -  Editora Boschini
Edição em português: "A Nova Criança"  -  Editora Gente.

Os direitos autorais são de propriedade de: Osho International Foundation

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