Conflito De Gerações

Conflito de Gerações
Um Desrespeito Mútuo.

Amado Bhagwan,
O que é este conflito de gerações? Eu tenho ouvido falar tanto a esse
respeito por estes dias.

      Dois velhos de oitenta anos estavam sentados em seu clube, quando um disse: "Você acha que há tanto amor, tanto divertimento acontecendo quanto costumava haver?"

      "Certamente", disse o outro, "mas há todo um novo bando fazendo isso."

      O conflito de gerações é isso.

      Uma grande multidão estava esperando silenciosamente ao pé da montanha. Moisés havia partido horas antes. De repente seu manto branco surgiu tremulando na brisa, e logo o profeta estava diante de seu rebanho: "Povo de Israel! Eu estive durante sete horas com o Senhor e tenho algumas notícias boas e algumas notícias más..."

      "Fale, Oh Moisés", clamou a multidão.
      "A boa notícia", disse Moisés, "é que consegui baixar o número de mandamentos para dez!"
      O povo aplaudiu. Então bradaram: "Moisés, qual é a má notícia?"
      Moisés respondeu tristemente: "O adultério ainda está incluído."

      Para a nova geração ele não está mais incluído. E esse é o conflito de gerações. Agora, o significado do adultério mudou inteiramente: significa simplesmente ser adulto.

      Jamais houve qualquer conflito de gerações no passado. Portanto devemos examiná-lo em profundidade porque esta é a primeira vez, em toda a história do homem, que até mesmo a expressão "conflito de gerações" passou a ser usada. E a distância entre as gerações está aumentando dia a dia. A distância parece ser intransponível.

      Certamente há muita psicologia por trás disso. No passado, a juventude não existia. Você ficará surpreso ao saber que as crianças se tomavam adultas sem passarem pela juventude. Um menino de seis, sete anos de idade começaria a trabalhar com o pai; se o pai era carpinteiro, ele aprenderia carpintaria, ou pelo menos auxiliaria o pai. Se o pai era fazendeiro, ele iria para o campo com o pai, o ajudaria com os animais, as vacas, os cavalos. Com seis ou sete anos ele já teria entrado na vida. Com a idade de vinte ele já estaria casado, já teria alguns filhos.

      No passado não havia a "geração jovem", portanto não havia qualquer distância. Uma geração seguia outra geração em uma continuidade, sem intervalos. Antes que o pai morresse, o filho já o teria substituído em todos os aspectos de sua vida. Não havia tempo para brincar e não havia tempo para estudar, não havia escolas, colégios ou universidades.

      A nova geração é um subproduto de diversas coisas. No passado, a única maneira de aprender era estando com a geração mais velha, trabalhando com ela - essa era a única maneira de aprender. E é claro que a geração mais velha sempre era respeitada, porque os mais velhos eram os professores. Eles sabiam, e os jovens eram ignorantes; o ignorante necessariamente respeita aquele que sabe. Assim, no passado era praticamente inconcebível que os jovens desrespeitassem os mais velhos, ou até mesmo que pudessem pensar em seus sonhos que sabiam mais do que os mais velhos. O conhecimento era extremamente decisivo.

      As pessoas que sabiam tinham o poder, e as pessoas que não sabiam não tinham poder algum. Deve ter sido por essa época que o provérbio "conhecimento é poder" foi criado. Esse era o único critério na vida, por isso você nunca ouviu falar de qualquer revolta dos jovens contra os velhos.

      Esta geração atingiu um estágio novo, totalmente novo. O filho nunca segue as pegadas do pai. Ele vai para a escola; o pai vai para a loja ou para o escritório ou para a fazenda. Quando termina a universidade, o filho tem vinte e cinco anos de idade. Durante estes vinte e cinco anos ele não tem qualquer conexão com a geração mais velha. Sua única conexão é financeira; eles o auxiliam financeiramente. Nestes vinte e cinco anos muitas coisas aconteceram; ele sabe muito mais do que seus pais porque seus pais freqüentaram a escola pelo menos vinte ou vinte e cinco anos atrás. E nestes vinte e cinco anos o conhecimento deu saltos quânticos, evoluiu incrivelmente...

      E vocês vão presenciar uma distância ainda maior, uma distância que a humanidade ainda não percebeu, e estou falando nela pela primeira vez. Uma distância foi criada pela educação. Se a meditação chegar a se tornar um movimento universal, uma outra distância será criada, uma distância imensa. E então o velho e o jovem estarão tão distantes quanto os dois pólos da terra. Mesmo a comunicação, que entre eles já se tomou difícil, se tomará impossível.

      As pessoas que estão aqui, comigo, podem entender o que estou dizendo. Se você começa a penetrar no mundo da não-mente, então as pessoas velhas, que acumularam muitos conhecimentos na mente, lhe parecerão retardadas, não desenvolvidas, muito medíocres. Não há qualquer razão para que você deva respeitá-las; elas é que devem respeitá-lo - você transcendeu a mente.

      E o mundo está ficando mais e mais interessado em meditação. Não tardará o dia em que a meditação se tomará sua educação para o Supremo. A educação comum se refere ao exterior. A meditação será a educação da sua interioridade, do seu ser interior.

      O conflito de gerações é lamentável. Não sou a favor dele. Tenho minha própria estratégia que permite evitá-lo.

      Todo o sistema de educação deve ser mudado, desde as próprias raízes. Em resumo... a educação prepara as pessoas para a subsistência e não para a vida. Durante vinte e cinco anos - um terço da vida - nos preparamos para a subsistência. Jamais preparamos as pessoas para a morte e a vida dura apenas setenta anos; a morte é a porta para a eternidade. Ela exige um tremendo treinamento.

      A meu ver - e sinto com grande convicção que isto deve acontecer no futuro, caso o homem sobreviva - a educação deveria ser dividida em partes: quinze anos para a subsistência e mais uma vez, depois dos quarenta e dois anos, dez anos de preparação para a morte. A educação deveria ser dividida em duas- partes. Todos freqüentarão universidades é claro que universidades diferentes, ou a mesma universidade mas em departamentos diferentes. Um departamento visa preparar as crianças para a vida e o outro é para preparar as pessoas que já viveram a vida e agora querem conhecer algo mais, algo que transcende a vida.

      Então o conflito de gerações vai desaparecer. Então as pessoas que estão em idade mais avançada serão mais tranqüilas, mais silenciosas, mais pacíficas, mais sábias; valerá a pena ouvir seus conselhos.

      A segunda parte da educação deveria consistir de meditatividade, de consciência, de observação, de amor, de compaixão, de criatividade - e certamente não teremos mais qualquer conflito de gerações. Os mais jovens respeitarão os mais velhos, não por formalidade, mas de verdade, porque o velho merece respeito. Ele conhece alguma coisa além da mente e o jovem conhece apenas coisas restritas à mente. O jovem ainda está batalhando pelas trivialidades do mundo, os mais velhos foram além das nuvens; praticamente alcançaram as estrelas. Respeitá-los não é uma questão de etiqueta. Você necessariamente os respeita, trata-se de uma intensa compulsão de seu próprio coração e não de uma formalidade ensinada pelos outros.

      Os velhos deveriam se comportar como iluminados, e não apenas se comportar, mas deveriam ser iluminados. Deveriam se tomar uma luz para aqueles que ainda são jovens e estão sob o domínio de impulsos biológicos, sob as limitações da natureza. Eles foram além; eles podem se tornar estrelas-guias.

      Quando a educação para a morte e a educação para a subsistência estiverem separadas, quando todos forem duas vezes à universidade – na primeira vez para aprender como viver neste mundo de trivialidades e na segunda vez para aprender sobre a eternidade - a distância desaparecerá. E desaparecerá de uma maneira linda.

The Pilgrimage: From Here to Here ~
Sessão 79 de setembro de 1987

Do original: "The New Child"    -  Editora Boschini
Edição em português: "A Nova Criança"  -  Editora Gente.

Os direitos autorais são de propriedade de: Osho International Foundation

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