O El Niño no Brasil
Conseqüências
do Fenômeno El Niño sobre o
Território Brasileiro e Perspectivas para 1998
Relatório
elaborado pelo CPTEC-INPE em 15 de Janeiro de 1998
Sumário Executivo
A
evolução do episódio El Niño atual tem demonstrado sua grande intensidade,
sendo este considerado o mais forte aquecimento do Pacífico Equatorial Central
e Oriental dos últimos 150 anos (desde o início das medidas de temperaturas da
superfície do oceano). Seus efeitos vêm afetando o clima do país desde meados
de 1997, haja visto as temperaturas amenas durante o último inverno e as altas
temperaturas em dezembro e início de janeiro no Sul e Sudeste, as chuvas
excessivas no Sul em outubro e novembro últimos e a estiagem em partes da
Amazônia nos últimos 5 meses. As previsões climáticas do Centro de Previsão de
Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(CPTEC-INPE), indicam para o verão, com maior confiabilidade, chuvas não se
afastando muito da normal climatológica para os estados do Sul e chuvas abaixo
da média para o norte do Nordeste e sul da Amazônia. Já as previsões para o
outono de 1998 mostram significativo déficit de chuvas para o norte do Nordeste
durante a estação chuvosa principal do semi-árido de março a maio. Também há
previsão de continuação de chuvas abaixo da média climatológica na Amazônia e,
para a região Sul, a previsão de março a maio indica chuvas abundantes. O
rápido aquecimento observado das águas do Oceano Atlântico próximo à costa do
Brasil em 20 S pode induzir a precipitações acima da média em partes do Sudeste
e sul do Nordeste de janeiro a março, com a ressalva que a
confiabilidade desta previsão é menor. O CPTEC-INPE continuará a monitorar a
evolução deste intenso El Niño e a prever seus impactos climáticos no país e
boletins de previsão climática serão emitidos mensalmente.
O
Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (INPE), foi inaugurado em novembro de 1994 e, desde
janeiro de 1995, vem realizando, mensalmente, previsões climáticas
experimentais utilizando um modelo de circulação geral da atmosfera em
simulações numéricas da evolução do clima por seis meses. Estas previsões
climáticas experimentais têm sido amplamente disseminadas no país e na América
do Sul e muitos usuários dos mais diversos setores as têm utilizado.
Como o Brasil é um país particularmente afetado pelo fenômeno El Niño, e dado o
intenso episódio atual, um esforço considerável tem sido despendido para
prever, fazendo uso do estado-da-arte do conhecimento científico e tecnológico,
as conseqüências climáticas deste El Niño no país. A seguir, são apresentados
os principais efeitos climáticos do El Niño no país, as previsões de sua
evolução até meados de 1998 e as previsões climáticas do CPTEC-INPE para este
verão e para o outono.
O
fenômeno El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas
superficiais do Pacífico Equatorial Oriental. O aquecimento e o subseqüente
resfriamento num episódio típico de El Niño duram de 12 a 18 meses. A evolução
típica do fenômeno mostra que inicia no começo do ano, atinge sua máxima
intensidade durante dezembro daquele ano e janeiro e do próximo e se enfraquece
na metade do segundo ano.
O aumento dos fluxos de calor sensível e de vapor d’água da superfície do
Oceano Pacífico Equatorial para a atmosfera, sobre as águas quentes, provoca
mudanças na circulação atmosférica e na precipitação em escala regional e
global, que, por sua vez, provocam mudanças nas condições meteorológicas e
climáticas em várias partes do mundo.
Estudos indicam que principalmente três regiões no Brasil --- semi-árido do
Nordeste, norte e leste da Amazônia, sul do Brasil e vizinhanças ¾ são afetadas
de maneira pronunciada pelas mudanças na circulação atmosférica durante
episódios de El Niño. A Região Sul do Brasil é afetada por aumento de
precipitação, particularmente durante a primavera no primeiro ano e
posteriormente o fim do outono e início do inverno no segundo ano. O norte e o
leste da Amazônia e o Nordeste do Brasil são afetados pela diminuição da
precipitação, principalmente, no último, entre fevereiro e maio, quando se tem
a estação chuvosa do semi-árido. O Sudeste do Brasil apresenta temperaturas
mais altas, tornando o inverno mais ameno. Já para as demais regiões do país os
efeitos são menos pronunciados e variam de um episódio para o outro.
As distribuições mensais de anomalias de precipitação na Região Nordeste do
Brasil durante nove episódios de El Niño ocorridos nos últimos 50 anos são
mostradas na Fig. 2. Sobre o Nordeste, as anomalias de precipitação foram em
geral negativas nos meses da estação chuvosa do semi-árido (fevereiro a maio)
do segundo ano da duração do episódio. Os mapas compostos são baseados em nove eventos
de El Niño no período considerado, e pode-se afirmar que os resultados são
significativos. No Sul, analisando-se 10 episódios, as anomalias de
precipitação foram predominantemente positivas, principalmente na primavera do
primeiro ano e outono do segundo ano.
O Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), monitora continuamente o El Niño, sua
evolução, características e efeitos sobre diferentes partes do País. Em 1997,
os efeitos do fenômeno El Niño sobre o Brasil começaram a ser detectados a
partir de julho, com as temperaturas mais altas que o normal em toda a Região
Sul e Sudeste. Esse padrão continuou sendo observado nos meses subseqüentes.
Durante o mês de dezembro e início de janeiro as temperaturas estiveram acima
da normal climatológica na maioria do Sul, em todo Sudeste, Centro-Oeste e sul
do Nordeste.
Com relação às chuvas, em 1997 os efeitos do El Niño foram perceptíveis a
partir de agosto, quando as chuvas situaram-se acima da média sobre o sul do
País, com outubro e novembro sendo os meses mais chuvosos naquela região do
país. Em outubro observaram-se as maiores anomalias positivas de precipitação
sobre o Sul, recebendo o noroeste do Rio Grande do Sul chuvas até 300% acima da
média climatológica. Houve inundações localizadas nas bacias dos rios Uruguai e
Iguaçu. Grandes extensões da Amazônia, notadamente o centro-norte e leste, têm
recebido chuvas abaixo da média desde setembro. Esta estiagem tem tido
repercussões adversas nas geração hidrelétrica e no aumento do número de
queimadas daquela região durante a estação seca.