Relatório
elaborado pelo CPTEC/INPE em 05 de Agosto de 1998
O fenômeno La Niña, ou episódio frio do Oceano Pacífico, é o resfriamento anômalo das águas superficiais no Oceano Pacífico Equatorial Central e Oriental. De modo geral, pode-se dizer que La Niña é o oposto do El Niño, pois as temperaturas habituais da água do mar à superfície nesta região, situam-se em torno de 25º C, ao passo que, durante o episódio La Niña, tais temperaturas diminuem para cerca de 23º a 22º C. As águas mais frias estendem-se por uma estreita faixa, com largura de cerca de 10 graus de latitude ao longo do equador, desde a costa Peruana, até aproximadamente 180 graus de longitude no Pacífico Central.
Assim
como o El Niño, La Niña também pode variar em intensidade. Um exemplo
dessa
variação é o intenso episódio de La Niña ocorrido em 1988/89, comparado ao
episódio mais fraco de 1995/96.
Outros
nomes como "El Viejo" ou "anti-El Niño" também foram usados
para se
referir
a este resfriamento, mais o termo La Niña ganhou mais popularidade. Segundo o
Centro Meteorológico Nacional dos Estados Unidos (NCEP), ocorreram outros
eventos de La Niña em 1904/05, 1908/09, 1910/11, 1916/17, 1924/25, 1928/29,
1938/39, 1950/51, 1955/56, 1964/65, 1970/71, 1973/74, 1975/76, 1988/89 e
1995/96.
No
intenso e mais recente episódio de La Niña ocorrido em 1988/89, o resfriamento
das águas superficiais foi mais lento, ou seja, demorou dois meses para que a
temperatura superficial do Pacífico diminuísse 3,5º C. Em 1998, o Pacífico
Tropical também teve uma queda similar de temperatura, mas o resfriamento
ocorreu em apenas um mês.
Durante
os episódios de La Niña, os ventos alísios são mais intensos que a média
climatológica. O Índice de Oscilação Sul (o indicador atmosférico que mede a
diferença de pressão atmosférica à superfície, entre o Pacífico Ocidental e o
Pacífico Oriental) apresenta valores positivos, os quais indicam a
intensificação da pressão no Pacífico Central e Oriental, em relação à pressão
no Pacífico Ocidental. Em geral, o episódio começa a se desenvolver em meados
de um ano, atinge sua intensidade máxima no final daquele ano e dissipa-se em
meados do ano seguinte.
De
acordo com as avaliações das características de tempo e clima, de eventos de La
Niña ocorridos no passado, observa-se que o La Niña mostra maior variabilidade,
enquanto os eventos de El Niño apresentam um padrão mais consistente. Os
principais efeitos de episódios do La Niña observados sobre o Brasil são:
passagens rápidas de frentes frias sobre a Região Sul, com tendência de diminuição
da precipitação nos meses de setembro a fevereiro, principalmente no Rio Grande
do Sul, além do centro-nordeste da Argentina e Uruguai; temperaturas próximas
da média climatológica ou ligeiramente abaixo da média sobre a Região Sudeste,
durante o inverno; chegada das frentes frias até a Região Nordeste,
principalmente no litoral da Bahia, Sergipe e Alagoas; tendência às chuvas
abundantes no norte e leste da Amazônia; possibilidade de chuvas acima da média
sobre a região semi-árida do Nordeste
do
Brasil. Essas chuvas só ocorrem, se simultaneamente ao La Niña, as condições
atmosféricas e oceânicas sobre o Oceano Atlântico mostrarem-se favoráveis, isto
é, com TSM acima da média no Atlântico Tropical Sul e abaixo da média no
Atlântico Tropical Norte.
Em
alguns lugares, como no Sul do Brasil, durante o forte evento de La Niña de
1988/89, a estação chuvosa de setembro a dezembro de 1988 teve um mês de muita
seca, mas os demais meses da estação teve chuva normal, ou ligeiramente acima
da média. Durante o episódio fraco de 1995/96, o esfriamento do Pacifico não
foi tão intenso, mas o período chuvoso de setembro a dezembro de 1995, mostrou
durante todos os meses, chuvas abaixo da normal climatológica.
Com
relação à Amazônia, as vazões dos Rios Amazonas no posto de Óbidos e as
cotas
do Rio Negro, em Manaus, mostram valores maiores que a média durante os
episódios de La Niña ocorridos em 1975/76 e 1988/89, comparados com valores
mais baixos nos anos de El Niño, ocorridos em 1982/83 e 1986/87.
Durante
o corrente ano de 1998, após a rápida desintensificação do fenômeno El Niño em
maio e junho, observou-se um súbito resfriamento das águas do Pacífico
Equatorial Central. Esse resfriamento continuou em julho, porém um novo
episódio do fenômeno La Niña ainda não está totalmente caracterizado. As
previsões indicam que todas as condições do La Niña acontecerão até o final
deste ano: águas mais frias no Pacífico Equatorial Central e Oriental ao longo
do Equador, ventos alísios mais fortes e intensificação da pressão atmosférica
na parte oriental do oceano e enfraquecimento das pressões na porção ocidental.
Nos
últimos 15 anos, foram apenas três ocasiões em que o La Niña foi sucedido pelo
El Niño. O episódio intenso de El Niño de 1982/83 foi seguido de um evento
fraco de La Niña em 1984/85, e um El Niño menos intenso, ocorrido em 1986/87,
foi seguido de um forte La Niña em 1988/89, e o El Niño longo, mais fraco de
1991/94 foi seguido de em episódio fraco de La Niña em 1995/96.
El
Niño e La Niña são oscilações normais, previsíveis das temperaturas da
superfície do mar, nas quais o homem não pode interferir. São fenômenos
naturais, variações normais do sistema climático da Terra, que existem há
milhares de anos e continuarão existindo.
O
CPTEC/INPE monitora a evolução do La Niña e dissemina previsões de seus
impactos
climáticos sobre o Brasil através do Boletim de Informações Climáticas –
fonte
cptec inpe